26 de junho de 2018

Capítulo 49

Adam se sentou desajeitadamente na beirada da cama de Blue. Parecia estranho que o tivessem deixado entrar tão facilmente no quarto de uma garota. Se você conhecia Blue pelo menos um pouco, o quarto não causava surpresa — nas paredes, silhuetas de árvores feitas de lona, guirlandas de folhas penduradas no ventilador de teto, um pássaro com um balão de fala em que se lia MINHOCAS PARA TODOS pintado acima de uma prateleira cheia de broches e umas nove tesouras diferentes. Na parede, Blue constrangidamente colara com uma fita o ramo caído de uma das árvores.
Não há tempo, não há tempo.
Ele apertou os olhos fechados por apenas um segundo. Ele esperou que ela parasse de ajeitar as árvores para que eles pudessem conversar. Ela continuou a remexer nas coisas. Adam sentiu o pulso fervendo dentro de si.
Blue parou de repente. Ela se apoiou na parede, a expressão atenta.
Adam pensara em começar a conversa com uma declaração persuasiva sobre por que a abordagem conservadora de Gansey em relação à busca estava errada, mas não foi isso que ele disse. Em vez disso, declarou:
— Eu quero saber por que você não quer me beijar, e não quero ouvir uma mentira dessa vez.
Houve um silêncio. Um ventilador rotativo no canto passou pelos dois. As pontas dos ramos vibraram. As folhas espiralaram.
— Foi por isso que você veio aqui?
Ela estava irada. Adam estava satisfeito com isso. Era pior ser a única pessoa com raiva.
Quando ele não respondeu, ela continuou, a voz mais irada ainda:
— Essa é a primeira conversa que você quer ter depois de voltar de Washington?
— Qual a importância disso agora?
— Porque, se eu fosse o Ronan ou o Noah, nós estaríamos falando sobre... sobre como foi a festa. Estaríamos falando sobre para onde você sumiu e o que queria com aquilo e, sei lá, coisas reais. Não sobre se você vai ou não me beijar!
Adam achou que aquela era a resposta mais irrelevante de todos os tempos, e ela ainda não havia respondido à sua pergunta.
— O Ronan e o Noah não são minha namorada.
— Namorada! — Blue repetiu, e ele sentiu uma emoção incoerente ao ouvi-la dizer a palavra. — Que tal apenas amiga?
— Achei que éramos amigos.
— Somos mesmo? Amigos conversam. Você vai andando até o Pentágono e eu descubro isso pelo Gansey! O seu pai é um imbecil e eu descubro isso pelo Gansey! O Noah sabe de tudo. O Ronan sabe de tudo.
— Eles não sabem de tudo. Eles sabem o que presenciaram. O Gansey sabe porque estava lá.
— Sim, e por que eu não estava?
— Por que você estaria?
— Porque você podia ter me convidado — disse Blue.
O mundo ficou de lado. Ele piscou e se endireitou.
— Mas não tinha razão para você estar lá.
— Tudo bem, certo. Porque não tem mulheres na política! Não tenho interesse. Votar? O quê? Esqueci meu avental. Na verdade, acho que eu devia estar na cozinha nesse instante. Meu rolo de...
— Eu não sabia que você...
— Essa é a questão! Isso nem te ocorreu?
Não tinha ocorrido.
— No entanto, você não iria a nenhum lugar sem o Gansey — disparou Blue. — Vocês dois formam um ótimo casal! Beije ele!
Adam inclinou a cabeça, desalentado.
— Bom, eu não quero ser só uma pessoa para beijar. Eu quero ser uma amiga de verdade também. Não apenas alguém que é divertido ter por perto porque... porque eu tenho seios!
Ela não falava palavrões de modo geral, mas seios parecia o mais próximo de um palavrão que Adam poderia imaginar naquele momento. A combinação de seios com a mudança no assunto o irritou.
— Muito bem, Blue. O Gansey estava certo. Você realmente pode ser uma feminista enraivecida.
Ela fechou a boca. Seus ombros tremiam ligeiramente; não como um tremor de medo, mas como os tremores antes de um terremoto.
Ele disparou:
— Você ainda não respondeu a minha pergunta. Nada do que você disse até agora tem realmente uma influência sobre nós.
Os lábios dela se curvaram, irritados.
— Você quer a verdade?
— Era o que eu queria no início de tudo isso — disse Adam, embora ele não soubesse realmente o que queria dela. Ele queria que aquela briga terminasse. Ele gostaria de não ter vindo. Gostaria de ter perguntado a ela sobre Glendower em vez disso. Gostaria de ter pensado em convidá-la para a festa. Como ele poderia ter feito isso? Sua cabeça estava cheia demais, vazia demais, torta demais. Ele tinha avançado demais, deixando para trás o terreno seguro, mas parecia não conseguir voltar.
— Certo. A verdade. — Ela cerrou os punhos e cruzou os braços. — Lá vai: durante toda a minha vida, ouvi de médiuns que, se eu beijasse meu verdadeiro amor, eu o mataria. Aí está. Feliz agora? Eu não te contei logo de cara porque não queria dizer verdadeiro amor e te assustar.
As árvores oscilaram atrás dela. Outra visão estava tentando se manifestar.
Adam tentou se desvencilhar daquilo para peneirar suas memórias, coordenar seus quase beijos com a confissão daquela profecia mortal. Aquilo não parecia real, mas nada parecia.
— E agora?
— Eu não conheço você, Adam.
Não é culpa sua, sussurrou o ar. Você é incognoscível.
— E agora?
— Agora? Agora... — Finalmente, a voz de Blue vacilou um pouco — Eu não tinha te contado até agora porque me dei conta de que isso não tinha importância. Porque não vai ser você.
Ele sentiu as palavras como um dos socos de seu pai. Um momento de dormência e então o sangue correndo até o ponto de contato. E então não era tristeza, mas o calor, a essa altura familiar. Ele o trespassou como uma explosão, detonando janelas e devorando tudo em uma rajada instantânea.
Em câmera lenta, ele podia imaginar o movimento de sua mão.
Não.
Não, ele já fizera isso com ela e não faria de novo.
Adam girou para o lado, um punho na testa. Com o outro, acertou a parede, mas sem força. Como se estivesse aterrando a si mesmo, descarregando. Ele partiu a raiva em pedaços, membro por membro. Concentrado no fogo que queimava, terrível, em seu peito, até apagá-lo.
Não vai ser você.
E, no fim, tudo que restara era isso: Eu quero partir.
Tinha de haver outro lugar onde ele não estivera ainda, um solo onde aquela emoção não vicejaria.
Quando ele se virou de volta, ela estava imóvel, observando-o. Quando Blue piscou, duas lágrimas apareceram como mágica em suas faces. As lágrimas rápidas. As que estão em seus olhos e descendo pelo queixo antes que você se dê conta de que está chorando. Adam conhecia esse tipo.
— Essa é a verdade? — ele perguntou. Tão baixo que as palavras saíram roucas, como um violino tocado muito suavemente.
Duas lágrimas mais haviam se acumulado, mas, quando ela piscou, elas continuaram em seus olhos. Laguinhos cintilantes.
Você não.
Não ele com sua ira miserável, seus longos silêncios, seu desânimo.
Você não.
Olhe para você, Adam, disse a voz de Gansey. Apenas olhe.
Você não.
— Prove — ele sussurrou.
— O quê?
Mais alto:
— Prove.
Ela começou a balançar a cabeça.
— Se não sou eu, um beijo não vai fazer diferença, não é?
Ela balançou a cabeça com mais veemência.
— Não, Adam.
Mais alto.
— Se não sou eu, Blue, isso não tem importância, não é? Foi o que você disse. Nunca serei eu.
Miseravelmente, ela disse:
— Eu não quero te machucar, Adam.
— Ou é verdade, ou não é.
Blue colocou uma mão no peito dele e o pressionou.
— Eu não quero te beijar. Não vai ser você e eu.
Você não.
Desde a última vez que o pai batera nele, o ouvido esquerdo de Adam estivera morto e sem reação. Nem um sibilar, nem uma estática. Apenas a ausência de sensação.
Era assim que seu corpo inteiro se sentia agora.
— Tudo bem — ele disse, a voz sem vida.
Blue secou os olhos com o dorso da mão.
— Sinto muito. Mesmo.
— Tudo bem.
O sentimento estava voltando, mas fora de foco e entorpecido. Bruxuleante e pouco claro. Não seria ele e ela. Não seria ele e Gansey. Não havia mais não aqui, não agora.
Era aqui. Era agora. Seria apenas ele e Cabeswater.
Eu sou incognoscível.
Adam estava descendo a escada, embora não se lembrasse de ter deixado o quarto de Blue. Ele havia dito alguma coisa? Ele só estava indo. Não sabia para onde. Vozes e imagens tremulavam à sua volta, compelindo-o tortuosamente.
Uma voz atravessou a dissonância. Era a mais baixa na casa.
— Adam — disse Persephone, pegando sua manga quando ele abriu a porta da frente —, chegou a hora de conversarmos.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!