26 de junho de 2018

Capítulo 48

Mais ou menos no mesmo instante em que Gansey experimentava um par de óculos escuros brancos, Blue pedalava a dois bairros de distância da casa dela.
Ela carregava a roda do Camaro, o ornamento do escudo e um pequeno canivete de mola rosa.
Ela se sentia decididamente desconfortável com o canivete de mola. Embora gostasse bastante do conceito — Blue Sargent, marginal; Blue Sargent, superheroína; Blue Sargent, durona —, ela suspeitava que a única coisa que cortaria da primeira vez em que o abrisse seria ela mesma. Mas Maura havia insistido.
— Canivetes de mola são ilegais — protestou Blue.
— Crimes também são — Maura respondeu.
Crime era tudo o que os jornais — sim, jornais, porque, contra todo bom senso, Henrietta tinha dois — noticiavam. Por toda a cidade, cidadãos cada vez mais temerosos relatavam arrombamentos. Os relatos eram conflitantes, no entanto — alguns diziam que tinham visto um único homem, outros, dois homens, e outros ainda falavam em gangues de cinco ou seis.
— Isso significa que nenhum deles é verdadeiro — disse Blue contundentemente. Ela era cética em relação à grande mídia.
— Ou todos eles são — respondeu Maura.
— O seu namorado assassino te contou isso?
— Ele não é meu namorado.
Quando Blue estacionou a bicicleta do lado de fora do galpão onde Calla tinha aulas de boxe, estava se sentindo grudenta e pouco apresentável. O gramado sombreado não exerceu efeito algum enquanto ela o atravessava até a porta e tocava a campainha com o cotovelo.
— Olá, senhorita — disse Mike, o homem enorme que dava aulas para Calla. Ele era tão largo quanto a altura de Blue, o que, justiça seja feita, não era tanto assim. — Isso aí é de um Corvette?
Blue reajustou a roda corroída debaixo do braço.
— Camaro.
— Que ano?
— Hum, 1973.
— Ahh. Bloco grande? 350?
— Claro...
— Ótimo, senhorita! Cadê o resto dele?
— Na rua se divertindo pra valer sem mim. A Calla ainda está aí?
Mike abriu mais a porta para deixar Blue entrar.
— Ela está descansando no porão.
Blue encontrou Calla deitada no tapete cinza gasto no porão, uma generosa e ofegante montanha mediúnica. Havia um número impressionante de sacos de pancada pendurados e amontoados. Blue largou a roda do Camaro sobre o estômago arfante de Calla.
— Faça o seu truque de mágica — ordenou.
— Que grosseria!
Mas Calla estendeu as mãos e as cruzou sobre o metal corroído. Seus olhos estavam fechados, de maneira que ela não sabia o que era, mas disse:
— Ele não está sozinho quando deixa o carro para trás.
Havia algo de assustador nessa frase. Deixa para trás. Poderia significar apenas “estaciona o carro”. Mas não soou dessa maneira quando Calla o disse. Soou mais como um sinônimo de abandono. E parecia que seria preciso algo bastante grave para fazer Gansey abandonar o Pig.
— Quando isso acontece?
— Já aconteceu — respondeu Calla, os olhos se abrindo e se fixando em Blue. — E ainda não. O tempo é circular, menina. Nós usamos as mesmas partes dele repetidas vezes. Alguns de nós mais que os outros.
— A gente não lembraria disso?
— Eu disse que o tempo era circular — respondeu Calla. — Não que as memórias eram.
— Você está sendo assustadora — disse Blue. — Talvez seja a sua intenção, mas, caso você esteja sendo acidentalmente assustadora, achei melhor avisar.
— Você é que está lidando com coisas assustadoras. Andando com gente que usa o tempo mais de uma vez.
Blue pensou em como Gansey havia enganado a morte na linha ley e como ele parecia ser velho e jovem ao mesmo tempo.
— Gansey?
— Glendower! Passa essa outra coisa que você tem aí.
Blue trocou a roda pelo ornamento do escudo. Calla o segurou por um longo tempo.
Então ela se sentou e estendeu o braço para segurar a mão de Blue. Ela começou a cantarolar um pouco enquanto corria os dedos sobre os corvos no ornamento. Era uma canção arcaica, um tanto assombrada, e fez com que Blue se abraçasse com o braço livre.
— Eles o estavam arrastando nesse ponto — disse Calla. — Os cavalos tinham morrido. Os homens estavam muito fracos. Não parava de chover. Eles queriam enterrar isso com ele, mas era pesado demais. Então deixaram isso para trás.
Deixaram para trás.
O eco parecia deliberado. Gansey não abandonaria o Camaro, a não ser que fosse coagido a fazê-lo; os homens de Glendower não abandonariam o escudo se não fosse por um tormento semelhante.
— Mas é do Glendower? Ele está perto? — Blue sentiu um ligeiro palpitar no coração.
— Perto e longe são como já aconteceu e não aconteceu ainda — respondeu Calla.
Blue cansou da conversa mediúnica enigmática e insistiu:
— Mas eles não tinham cavalos. Então seria só até onde eles conseguissem chegar a pé.
— As pessoas — disse Calla — podem caminhar longas distâncias se for preciso.
Ela se levantou e devolveu o ornamento do escudo para Blue. Seu cheiro era como se tivesse lutado boxe há pouco. Calla suspirou alto.
— Calla? — perguntou Blue subitamente. — Você é uma dessas pessoas que reutilizam o tempo? Você, a minha mãe e a Persephone?
Calla respondeu:
— Você já sentiu como se tivesse algo diferente a seu respeito? Como se tivesse algo mais?
O coração de Blue deu um salto de novo.
— Sim!
Calla tirou as chaves do carro do bolso.
— Que bom. Todo mundo devia se sentir desse jeito. Aqui, pegue. Você vai voltar dirigindo para casa. Você precisa praticar.
Blue não conseguiria tirar mais nada dela. Elas se despediram de Mike (Não vá dirigir essa roda rápido demais, hein!), colocaram a bicicleta de Blue no porta-malas e voltaram lentamente para casa. Enquanto Blue tentava estacionar na frente da casa sem acertar um carro pequeno de três cores parado junto ao meio-fio, Calla cacarejou:
— Bem. Hoje é mesmo o dia.
Isso porque Adam Parrish as esperava na entrada da casa.

6 comentários:

  1. "— As pessoas — disse Calla — podem caminhar longas distâncias se for preciso."

    Tipo o Adam.

    Mas algo me incomoda, não lembro deles abandonando o carro em nenhum dos livros. Ou a minha memória que está ruim ou a Maggie ainda vai abordar isso em alguma série futura (pq vai ter uma, focando o Ronan)

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    1. O Ronan abandonou o verdadeiro pig e foi embora com o kavinsky, será que é isso?

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  2. Morando do Nordeste25 de julho de 2018 10:59

    Essa coisa de tempo tá me deixando com dor de cabeça. Tempo circular, tempo blá blá blá. Esperando o momento de começar a entender melhor esse livro

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  3. Esse bagulho de tempo tá me lembrando a série Dark mano

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  4. será que ela não está falando do pig original que o Ronan abandonou e não estava sozinho quando o fez?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!