20 de junho de 2018

Capítulo 48

Era um dia bonito e ensolarado, bem no começo de junho, quando eles enterraram os ossos de Noah. Havia levado várias semanas para que o departamento de polícia terminasse o trabalho de investigação, e assim era o final do ano acadêmico antes do funeral. Muita coisa havia se passado entre a morte de Whelk e o funeral de Noah. Gansey havia recuperado seu diário e abandonado a equipe de remo. Ronan havia passado raspando nos exames finais, para a satisfação de Aglionby, e sem tanto sucesso assim arrumara a fechadura da porta do apartamento. Adam, com a provável ajuda de Ronan, se mudara da Indústria Monmouth para um quarto pertencente à Igreja de Santa Inês, uma distância sutil que afetava ambos os garotos de maneiras diferentes. Blue triunfantemente dera boas-vindas para o fim do ano acadêmico e para o início de um período de mais liberdade para explorar a linha ley. Quedas de energia elétrica atingiram a cidade de Henrietta por nove vezes, e o sistema telefônico deixou de funcionar umas quatro. Maura, Persephone e Calla deram uma geral no sótão e desmontaram as coisas de Neeve. Elas disseram a Blue que ainda não estavam muito certas do que havia acontecido quando elas rearranjaram os espelhos naquela noite.
— Nós queríamos que ela fosse neutralizada — reconheceu Persephone. — Mas, pelo visto, fizemos a Neeve desaparecer. É possível que ela reapareça em algum momento.
E, lentamente, suas vidas encontraram equilíbrio, embora não parecesse que retornariam ao normal um dia. A linha ley estava desperta e Noah havia praticamente desaparecido. A magia era real, Glendower era real e algo estava começando.
— Jane, não quero ser grosso, mas isso aqui é um funeral — disse Gansey para Blue, enquanto ela atravessava o campo na direção deles. Ronan e ele, de terno preto impecável, pareciam os padrinhos do noivo.
Blue, na falta de uma roupa preta no guarda-roupa, havia costurado alguns metros de renda preta barata sobre uma camiseta verde que ela havia transformado num vestido meses atrás. Ela sibilou furiosamente:
— Foi o melhor que eu pude fazer!
— Como se o Noah se importasse — disse Ronan.
— Você trouxe algo para depois? — perguntou Gansey.
— Não sou idiota. Onde está o Adam?
— Trabalhando. Ele vem mais tarde — disse Gansey.
Os ossos de Noah estavam sendo enterrados no jazigo da família Czerny, em um cemitério remoto no vale. A cova ficava perto do muro do terreno extenso e em declive, na encosta de uma colina pedregosa. Uma lona cobria o monte fresco de terra diante dos olhos entristecidos. A família de Noah estava parada bem próxima do buraco. O homem e as duas meninas choravam, mas a mulher olhava fixamente ao longe para as árvores, sem uma lágrima nos olhos. No entanto, Blue não precisava ser médium para ver como ela estava triste. Triste e orgulhosa.
A voz de Noah, fria e quase ausente, sussurrou em seu ouvido:
— Por favor, diga algo para eles.
Blue não respondeu, mas virou a cabeça na direção da voz. Ela quase podia senti-lo, parado logo atrás do seu ombro, com a respiração em sua nuca e a mão pressionada ansiosamente em seu braço.
— Você sabe que eu não posso — ela respondeu em voz baixa.
— Você tem que fazer isso.
— Eu ia parecer uma maluca. Que bem isso poderia trazer? O que eu iria dizer?
A voz de Noah era fraca, mas desesperada. Sua angústia zuniu através de Blue.
— Por favor.
Blue fechou os olhos.
— Diga a ela que peço desculpas por ter bebido o licor de aniversário dela — sussurrou Noah.
Por Deus, Noah!
— O que você está fazendo? — Gansey se esticou e pegou o braço de Blue enquanto ela caminhava na direção da cova.
— Me humilhando! — ela respondeu, livrando-se dele. Enquanto Blue se aproximava da família de Noah, ensaiou maneiras de soar menos insana, mas não gostou de nenhuma delas. Blue estivera com sua mãe o suficiente para suspeitar como aquilo se desenrolaria. Noah, só por você... Ela olhou para a mulher triste e orgulhosa. De perto, sua maquiagem era impecável, e seu cabelo, cuidadosamente ondulado nas pontas. Tudo estava ajeitado e pintado meticulosamente. Toda aquela tristeza estava enfiada tão fundo dentro dela que seus olhos não estavam nem vermelhos. Blue não se deixou enganar.
— Sra. Czerny?
Os pais de Noah se viraram para ela. Blue passou a mão por uma das nesgas de renda, constrangida.
— Eu me chamo Blue Sargent. Eu, hum, queria dizer que sinto muito por sua perda. Além disso, minha mãe é médium. Eu tenho... — as expressões deles já haviam se transformado desagradavelmente — uma mensagem do seu filho.
O rosto da sra. Czerny se escureceu imediatamente. Ela balançou a cabeça e disse, de maneira bastante calma:
— Não, você não tem.
— Por favor, não faça isso — disse o sr. Czerny. Ele estava fazendo o maior esforço possível para ser cortês, o que era mais do que Blue poderia esperar. Ela se sentiu mal por ter interrompido aquele momento de privacidade. — Por favor, vá embora.
— Diga a ela — sussurrou Noah.
Blue tomou fôlego.
— Sra. Czerny, ele pede desculpas por ter bebido o licor do seu aniversário.
Por um momento houve silêncio. O sr. Czerny e as irmãs de Noah olharam de Blue para a sra. Czerny. O pai de Noah abriu a boca, e então sua esposa começou a chorar.
Nenhum deles notou quando Blue se afastou da cova.


Mais tarde, eles o desenterraram. Na entrada da estrada de acesso, Ronan se recostou ao lado do BMW com o capô aberto, atuando ao mesmo tempo como bloqueio da estrada e vigia. Adam operou a escavadeira que Gansey havia alugado. E Gansey transferiu os ossos de Noah para um saco de lona enquanto Blue focava uma lanterna sobre eles para ter certeza de que estavam todos ali. Adam enterrou novamente o caixão vazio e deixou tudo como estava antes.
Quando eles correram de volta ao BMW, atordoados e esbaforidos com o crime, Ronan disse a Gansey:
— Isso vai voltar com tudo para incomodar você um dia... Quando você estiver concorrendo ao Congresso.
— Cale a boca e dirija, Lynch.
Eles enterraram novamente os ossos de Noah nas ruínas da velha igreja, ideia de Blue.
— Ninguém vai incomodar o Noah aqui — disse ela. — E sabemos que é na linha ley. E é solo sagrado.
— Bom — disse Ronan —, espero que ele goste. Distendi um músculo.
Gansey zombou:
— Fazendo o quê? Você estava de vigia.
— Abrindo meu capô.
Após terminarem de cobrir o último dos ossos, eles pararam em silêncio entre as paredes em ruínas. Blue olhou para Gansey, que tinha as mãos nos bolsos e a cabeça inclinada para baixo, na direção de onde eles haviam enterrado Noah.
Parecia que não havia passado tempo nenhum e todo o tempo do mundo desde que ela vira o espírito dele naquele mesmo caminho.
Gansey. É só isso.
Blue prometeu que não seria ela quem o mataria.
— Podemos ir embora? Esse lugar me dá arrepios.
Eufóricos, todos se viraram. Noah, amarfanhado e familiar, estava parado sob o vão em arco da porta da igreja, mais inteiro do que Blue se lembrava de tê-lo visto um dia. Inteiro em sua forma. Ele espiou as paredes desmoronadas à sua volta com uma expressão receosa.
— Noah! — exclamou Gansey alegremente.
Blue lançou os braços em torno do pescoço dele. Ele pareceu assustado e então satisfeito, e em seguida acariciou os tufos dos cabelos dela.
— Czerny — disse Ronan, experimentando a palavra.
— Não — protestou Noah, abraçado a Blue. — Estou falando sério. Esse lugar me dá arrepios mesmo. Podemos ir?
O rosto de Gansey se abriu em um largo sorriso aliviado.
— Sim, vamos para casa.
— Eu não vou comer pizza — disse Noah, deixando a igreja com Blue.
Ronan, ainda nas ruínas, olhou sobre o ombro para eles. Sob a luz fraca das lanternas, o gancho tatuado que aparecia acima do seu colarinho lembrava uma garra, um dedo ou parte de uma flor-de-lis. Era quase tão cortante quanto seu sorriso.
— Acho que agora seria um bom momento pra contar pra vocês — ele disse. — Eu tirei a Motosserra dos meus sonhos.

4 comentários:

  1. "— Acho que agora seria um bom momento pra contar pra vocês — ele disse. — Eu tirei a Motosserra dos meus sonhos."
    ééééé... que?
    entendi esse final não.

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    1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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    2. Isso não é spoiler, Karina?

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  2. Só em Ladrão de Sonhos Pra entender ;)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!