26 de junho de 2018

Capítulo 47

Gansey teve poucos segundos de aviso antes de o Camaro o atingir. Ele estava parado em um semáforo próximo da Indústria Monmouth quando ouviu o som familiar e anêmico da buzina do Pig. Talvez ele a tivesse imaginado. Quando Gansey olhou de relance pelas janelas e para o espelho retrovisor, o Suburban balançou ligeiramente.
Algo o havia empurrado por trás.
A buzina do Pig grasnou novamente. Gansey baixou a janela e esticou a cabeça para fora para olhar atrás do Suburban.
Ele ouviu o riso histérico de Ronan antes de vislumbrar o Pig. E então o motor subiu a rotação e Ronan pressionou o Camaro contra o para-choque traseiro do Suburban de novo.
Era o tipo de recepção que ele deveria esperar após o fim de semana desastroso.
— EI, VELHÃO!
— Ronan! — gritou Gansey. Ele não tinha outras palavras. Bati. A parte do painel que ele podia ver parecia bem; ele não queria ver o resto. Ele queria preservar a ideia do Camaro, intacto e inteiro, por mais alguns momentos.
— Encosta aí! — Ronan berrou de volta. Havia ainda muito de risada em sua voz. — Menonitas! Agora!
— Eu não quero ver! — Gansey gritou de volta. A luz ficou verde acima dele, mas ele não se mexeu.
— Ah, quer sim!
Ele realmente não queria, mas mesmo assim fez o que Ronan havia pedido, passando o semáforo e dobrando o acesso seguinte à direita, até a Henrietta Casa e Jardim (e Fazenda), um complexo de lojas em grande parte servido por funcionários menonitas. Era um destino interessante para comprar vegetais, antiguidades, casinhas de cachorro, roupas country, sobras militares, balas da Guerra Civil, cachorros-quentes e lustres personalizados. Gansey percebeu os olhares que o acompanhavam das barracas de vegetais na rua enquanto ele estacionava o Suburban o mais distante possível dos prédios. Quando ele desceu do carro, o Pig ribombou na vaga ao lado.
E não havia nada de errado com o Pig.
Gansey pressionou um dedo na têmpora, lutando para conciliar as mensagens de texto anteriores com o que ele estava vendo agora. Era possível que Kavinsky estivesse apenas zoando com a cara dele.
Mas, mesmo assim, ali estava Ronan saindo do banco do motorista, o que era impossível. As chaves continuavam na sacola de Gansey.
Ronan saltou do carro.
E isso, também, era espantoso. Porque ele estava sorrindo abertamente.
Eufórico.
Não que Gansey não visse Ronan feliz desde que Niall Lynch morrera. Só que sempre havia algo de cruel e condicional nisso.
Mas não esse Ronan.
Ele pegou o braço de Gansey.
— Olha pra isso, cara! Olha pra isso!
Gansey estava olhando. Estava olhando fixamente, primeiro para o Camaro e então para Ronan. E então de volta. Ele seguiu repetindo o ciclo e nada fez mais sentido. Ele caminhou lentamente em torno do carro, procurando o amassado de um martelo ou um arranhão.
— O que está acontecendo? Achei que ele estava batido...
— E estava — disse Ronan. — Totalmente. — Ele soltou o braço de Gansey, mas apenas para socá-lo. — Desculpa, cara. Foi uma merda o que eu fiz.
Os olhos de Gansey estavam arregalados. Ele não achava que viveria tempo suficiente para ouvir Ronan se desculpar por qualquer coisa. Então percebeu, com surpresa, que Ronan ainda estava falando.
— O quê? O que você disse?
— Eu disse... — Ronan respondeu, e agora agarrou os ombros de Gansey, os dois, e os sacudiu teatralmente — eu disse que eu sonhei esse carro. Eu fiz esse carro! Isso aí saiu da minha cabeça. É exatamente igual, cara. Eu fiz esse carro. Eu sei como o meu pai conseguia tudo que queria, e sei como controlar os meus sonhos, e sei o que está errado com Cabeswater.
Gansey cobriu os olhos com as mãos. Ele achou que seu cérebro ia derreter.
Ronan, no entanto, não estava a fim de introspecção, a sua ou a de qualquer outra pessoa. Ele tirou as mãos de Gansey de seu rosto.
— Senta nele! Me diz se tem alguma diferença!
Ele empurrou Gansey para o banco do motorista e colocou os braços sem vida do amigo sobre a direção. Ronan considerou a imagem diante de si como se estivesse analisando uma peça de museu. Então esticou o braço sobre a direção e pegou um par de óculos escuros que estavam largados no painel.
Brancos, de plástico, lentes escuríssimas. De Joseph Kavinsky — ou talvez uma cópia.
Quem poderia dizer o que era real?
Ronan colocou os óculos escuros brancos no rosto de Gansey e o analisou mais uma vez. Seu rosto assumiu uma expressão sombria por meio segundo, e então se dissolveu em uma risada absolutamente maravilhosa e destemida. O velho riso de Ronan Lynch.
Não, era melhor que aquele, pois esse novo riso tinha apenas um indício de escuridão por trás. Esse Ronan sabia que havia problemas no mundo, mas estava rindo de qualquer maneira.
Gansey não conseguiu deixar de rir junto, um tanto sem fôlego. De alguma maneira, ele tinha ido de um lugar muito terrível para outro muito cheio de alegria. Ele não tinha certeza se o sentimento seria tão profundo se não tivesse preparado cada osso de seu corpo para uma discussão com Ronan.
— Tudo bem — ele disse. — Tudo bem, me conta.
Ronan lhe contou.
— O Kavinsky?
Ronan explicou.
Gansey descansou o rosto na direção quente. Isso, também, era reconfortante. Ele jamais deveria ter ido sem esse carro. Ele jamais sairia dele de novo.
Joseph Kavinsky. Inacreditável.
— E o que tem de errado com Cabeswater?
Ronan protegeu os olhos.
— Eu. Bom, o Kavinsky, na verdade. Nós pegamos toda a energia da linha quando sonhamos.
— Solução?
— Parar o Kavinsky.
Eles se encararam.
— Não acredito — disse Gansey lentamente — que podemos pedir isso a ele com gentileza.
— Ei, o Churchill tentou negociar com Hitler.
Gansey franziu o cenho.
— Tentou?
— Provavelmente.
Soltando um longo suspiro, Gansey fechou os olhos e deixou a direção cozinhar seu rosto. Esta era a sua casa: Henrietta, o Pig, Ronan. Praticamente. Seus pensamentos dispararam na direção de Adam, de Blue, e sumiram tão rápido quanto chegaram.
— Como foi a festa, cara? — perguntou Ronan, chutando o joelho de Gansey através da porta aberta. — Como o Parrish se saiu?
Gansey abriu os olhos.
— Ah, ele arrebentou.

Um comentário:

  1. O Ronan parece uma criança no natal <3
    QUE AMOR! ele é meu bbzinho, vou protegê-lo de todo o mau <3 <3

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Boa leitura, E SEM SPOILER!