20 de junho de 2018

Capítulo 47

Gansey se permitiu apenas um momento confuso de uma visão — seus dedos, de alguma maneira, tocando o rosto de Blue — e então se jogou para fora da árvore, empurrando a Blue de verdade para longe de seu caminho. Ele precisava ver o que havia acontecido com Adam, embora em seu coração ele sentisse uma premonição terrível, como se já soubesse o que veria.
De fato, Adam ainda estava parado no círculo, incólume, com os braços largados ao longo do corpo e a arma pendurada em uma das mãos. A apenas alguns metros de distância, fora do círculo, Whelk estava no chão, arruinado. Seu corpo estava coberto de folhas mortas, como se estivesse ali havia anos, e não minutos. Não havia muito sangue, como seria de esperar de um corpo pisoteado, mas mesmo assim havia algo destruído em sua aparência. Uma espécie de aparência amarrotada.
Adam apenas o encarava. Seu cabelo desalinhado estava sujo na parte de trás, e essa era a única pista de que ele tinha se mexido desde que Gansey o vira da última vez.
— Adam — chamou Gansey, com a voz entrecortada. — Como você conseguiu a arma?
— As árvores — disse Adam, com aquele distanciamento frio na voz que significava que o garoto que Gansey conhecia estava oprimido bem no fundo dele.
— As árvores? Meu Deus! Você atirou nele?
— É claro que não — disse Adam, colocando a arma no chão cuidadosamente. — Eu usei a arma apenas para evitar que ele viesse até aqui.
O horror crescia dentro de Gansey.
— Você o deixou ser pisoteado?
— Ele matou o Noah — disse Adam. — É o que ele merecia.
— Não. — Gansey pressionou as mãos no rosto. Havia um corpo ali, um corpo, e ele estava vivo alguns minutos atrás. Eles não tinham autoridade nem para escolher uma bebida alcoólica, que dirá decidir quem merecia viver ou morrer.
— Você realmente queria que eu deixasse um assassino ficar aqui? — demandou Adam.
Gansey não conseguia nem começar a explicar o tamanho do horror. Ele só sabia que aquilo irrompia dentro dele, de novo e de novo, toda vez que o considerava.
— Ele estava vivo agora há pouco — disse desamparadamente. — Ele nos ensinou quatro verbos irregulares na semana passada. E você o matou.
— Pare de dizer isso. Eu não o salvei. Pare de me dizer o que eu devo considerar certo ou errado! — gritou Adam, mas seu rosto parecia tão miserável quanto Gansey se sentia. — Agora a linha ley está desperta e podemos encontrar o Glendower e tudo será como deveria ser.
— Nós precisamos chamar a polícia. Nós precisamos...
— Nós não precisamos fazer nada. Vamos deixar o Whelk apodrecendo aqui, exatamente como ele deixou o Noah.
Gansey virou o rosto, enjoado.
— E a justiça?
— Isso é justiça, Gansey. Isso é justiça de verdade. Este lugar tem a ver com ser real. Com ser justo.
Tudo aquilo parecia inerentemente errado para Gansey. Era como a verdade, mas virada do avesso. Ele seguia olhando e olhando, e ainda havia ali um jovem morto que parecia demais com o esqueleto estropiado de Noah. E então havia Adam, com a aparência inalterada, mas mesmo assim — havia algo em seus olhos. Na linha de sua boca.
Gansey teve um sentimento de perda.
Blue e Ronan haviam saído da árvore, e a mão de Blue cobria a boca com a visão de Whelk. Ronan tinha um hematoma feio crescendo na testa.
Gansey disse simplesmente:
— Ele morreu.
— Acho que a gente devia cair fora daqui — disse Blue. — Terremotos e animais e... Eu não sei quanto efeito eu estou tendo nisso, mas as coisas estão...
— Sim — disse Gansey. — Precisamos ir embora. Podemos decidir o que fazer com o Whelk lá fora.
Esperem.
Todos eles ouviram a voz dessa vez. Em inglês. Nenhum deles se mexeu, inconscientemente fazendo o que a voz pedira.
Garoto. Scimus quid quaeritis.
(Garoto. Nós sabemos o que você está procurando.)
Mesmo sendo possível que as árvores estivessem se referindo a qualquer um dos garotos, Gansey sentiu que as palavras eram dirigidas particularmente a ele.
Em voz alta, ele perguntou:
— O que eu estou procurando?
Em resposta, houve um balbuciar em latim, as palavras tropeçando umas sobre as outras. Gansey cruzou os braços sobre o peito, com as mãos fechadas. Todos olharam para Ronan em busca de tradução.
— Elas disseram que sempre houve rumores de um rei enterrado em algum lugar ao longo desse caminho espiritual — disse Ronan, olhando-o nos olhos. — Elas acham que ele pode ser seu.

5 comentários:

  1. Eu não entendi a ideia de sacrificar o livre arbítrio e meio que agir dessa forma de Adam... ficou bugado.

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  2. O Adam esta um saco ¬ ¬

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  3. Gente, será que só eu vejo um cenário estilo Stranger things nesse livro?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!