26 de junho de 2018

Capítulo 46

Quando Maura abriu a porta da Rua Fox, 300, encontrou o Homem Cinzento parado pensativamente do outro lado. Ele havia trazido duas coisas para ela: uma coroa de margaridas, que colocou melancolicamente sobre a cabeça dela, e um canivete de mola rosa, que passou para Maura. Ambas haviam exigido algum esforço para conseguir. A primeira porque o Homem Cinzento havia esquecido como encadear eficientemente margaridas, e a segunda porque canivetes de mola eram ilegais na Virgínia, mesmo se fossem rosa.
— Estive procurando algo — disse o Homem Cinzento.
— Eu sei.
— Achei que fosse uma caixa.
— Eu sei.
— Não é, certo?
Maura balançou a cabeça e deu um passo para trás para deixá-lo entrar.
— Um drinque?
O Homem Cinzento não entrou imediatamente.
— É uma pessoa?
Ela fixou o olhar nele e repetiu:
— Um drinque?
Com um suspiro, ele a seguiu casa adentro. Maura o levou pelo corredor principal até a cozinha, onde ela preparou (mal) um drinque, e então o conduziu até o pátio dos fundos. Calla e Persephone já estavam posicionadas nas cadeiras arranjadas, onde o gramado desgrenhado dava lugar a poças novas e a tijolos velhos. Elas pareciam etéreas e satisfeitas na luz solar da tarde dourada e longa que havia emergido após a tempestade. O cabelo de Persephone era uma nuvem branca. O de Calla trazia três tons diferentes de roxo.
— Sr. Cinzento — disse Calla, expansiva e mordaz. Ela matou um mosquito na panturrilha e então olhou para o copo na mão de Maura. — Dá para dizer daqui que esse drinque está uma merda.
Maura olhou para o copo tristemente.
— Como você sabe?
— Porque foi você que preparou.
Endireitando a coroa de margaridas na cabeça, Maura deu um tapinha na cadeira restante e se sentou nos tijolos ao lado dela. O Homem Cinzento se jogou no assento.
— Ah, querido — disse Persephone, observando a moleza dele. — Então você descobriu, foi isso?
Como resposta, ele bebeu o copo inteiro. As leituras o haviam levado a uma clareira com cem Mitsubishis Evolution brancos e dois garotos bêbados manifestando sonhos. Ele os observara durante horas. Cada minuto, cada sonho impossível, cada fragmento de conversa ouvido havia sacramentado a verdade.
— O que vai acontecer agora? — perguntou Maura.
O Homem Cinzento disse:
— Sou um assassino de aluguel, não um sequestrador.
Ela franziu o cenho.
— Mas você acha que o seu patrão talvez seja.
O Homem Cinzento não tinha certeza do que achava que Greenmantle pudesse ser. Ele sabia que o homem não gostava de perder, e que estava obcecado pelo Greywaren havia pelo menos cinco anos. O Homem Cinzento também sabia que ele mesmo havia espancado o último Greywaren até a morte com uma chave de roda. Embora o Homem Cinzento tivesse matado um número relativamente grande de pessoas, nunca havia destruído nenhum artefato que havia sido incumbido de buscar.
Tudo aquilo era mais complicado do que ele esperava.
— Certamente são aqueles dois garotos, não é.
Não era uma pergunta, no entanto. O Homem Cinzento tentou imaginar trazer um deles de volta para Greenmantle. Ele não estava acostumado a transportar vítimas vivas por qualquer distância. Pareceu-lhe algo estranhamente de mau gosto, um animal diferente de um assassinato sem rodeios.
— Dois? — ecoou Calla. Ela e Persephone se entreolharam.
— Bem — disse Persephone em sua voz pequena. Ela usou o guarda-chuvinha de papel para tirar um mosquito de seu drinque. — Isso faz mais sentido.
— Não é uma coisa — disse Maura. — Isso é que é importante. Não é uma coisa mais do que... uma conjuntivite é uma coisa.
Esfregando o olho, Persephone murmurou:
— Que metáfora estranhamente desagradável, Maura.
— Não é algo que você possa levar — esclareceu Maura. E acrescentou severamente: — E nós conhecemos pelo menos um dos garotos. Ficaríamos muito bravas se você o levasse. Eu ficaria muito brava com você.
— Ele não é um homem muito gentil — disse o Homem Cinzento. Isso não havia interferido na relação dos dois antes; até então, qualquer gentileza feita ao Homem Cinzento havia sido um desperdício.
— Então você não pode explicar que eles são bons rapazes? — perguntou Persephone.
Calla resmungou:
— Eles não são bons rapazes. Bem, pelo menos um deles não é.
O Homem Cinzento disse:
— Não acredito que faria alguma diferença para ele, de qualquer forma.
Com um suspiro profundo, ele recostou a cabeça e fechou os olhos, tão indefeso quanto já estivera um dia. O sol da tarde iluminou seu rosto, o pescoço e os bíceps musculosos, e também iluminou Maura olhando para eles.
Todos deram um gole no drinque, exceto o Homem Cinzento, que já havia terminado o seu. Ele não queria raptar o garoto, não queria provocar a ira de Maura, ele queria... ele apenas queria. Cigarras cantavam enlouquecidamente das árvores. Era tão exageradamente verão.
Ele queria ficar.
— Bem — disse Calla, conferindo o relógio e pondo-se de pé. — Não invejo você.
Tenho aula de boxe, preciso correr. Tchau, tchau. Maura, não seja assassinada.
Maura acenou o canivete de mola.
Persephone, se levantando também, disse:
— Eu daria isso para a Blue, se fosse você. Vou trabalhar no meu lance. Minhas coisas. Meu doutorado. Você sabe.
O Homem Cinzento abriu os olhos, então Persephone parou diante dele com as mãos envolvendo o copo vazio. Ela parecia muito pequena e delicada, e não realmente ali em comparação com a presença nodosa dele. Ela tirou uma mão do copo para dar um tapinha no joelho dele.
— Eu sei que você vai fazer a coisa certa, sr. Cinzento.
Ela e Calla deslizaram a porta até fechá-la atrás de si. Maura escorregou o traseiro alguns centímetros mais para perto e se escorou contra a perna dele.
Pareceu ao Homem Cinzento um gesto que demonstrava muita confiança, dar as costas para um assassino de aluguel. Seu coração anteriormente sem vida se agitou esperançoso. Ele arrumou com cuidado a coroa de margaridas no cabelo dela, então pegou seu celular.
Greenmantle atendeu imediatamente.
— Me dê uma boa notícia.
— Não está aqui.
Houve uma longa pausa.
— Desculpe, a ligação está ruim. Pode repetir?
O Homem Cinzento não gostava de se repetir desnecessariamente. Ele disse:
— Todas as leituras acontecem por causa de uma antiga falha sísmica que corre ao longo dessas montanhas. Elas estão apontando para um lugar, não para um objeto.
Outra pausa, mais feia que a primeira. Greenmantle disse:
— Então, quem ganhou você? Um dos caras do Laumonier? Quanto ele disse que ia lhe pagar? Quer saber... Merda, hoje não é dia de sacanear comigo. Justo hoje.
O Homem Cinzento disse:
— Não estou querendo mais dinheiro.
— Então você pretende ficar com ele? Acho que isso devia fazer eu me sentir melhor, mas não faz.
Normalmente, Greenmantle levava alguns minutos para ter um acesso de raiva, mas parecia evidente que o Homem Cinzento havia interrompido um acesso já em andamento.
— Todos esses anos eu confiei em você, seu canalha doente desgraçado, e agora...
— Não está comigo — interrompeu o Homem Cinzento. — Não estou te enganando.
Ao lado dele, Maura baixou a cabeça e a balançou um pouco. Mesmo sem conhecer Greenmantle, ela já adivinhara o que o Homem Cinzento sabia: aquilo não ia funcionar.
— Eu já menti para você? — demandou Greenmantle. — Não! Eu nunca menti para ninguém, e no entanto, hoje, todo mundo insiste em... Sabe de uma coisa, por que você simplesmente não esperou quatro meses e me disse que não conseguia encontrá-lo? Por que você não contou uma mentira melhor?
O Homem Cinzento disse:
— Eu prefiro a verdade. As anomalias de energia seguem o curso da falha sísmica e escapam através do leito de rocha firme em determinadas áreas. Fotografei algumas anormalidades no crescimento das plantas que esses vazamentos de energia causaram. A companhia de energia elétrica tem lutado contra picos de energia ligados aos vazamentos já faz um tempo. E a atividade só se intensificou por causa de um terremoto que aconteceu alguns meses atrás. Você pode conferir isso nos jornais online. Eles cobriram esse assunto extensivamente. Eu posso te mostrar quando devolver os equipamentos eletrônicos.
Ele parou. E esperou.
Houve um breve momento em que pensou: Ele vai acreditar em mim.
Greenmantle desligou o telefone.
O Homem Cinzento e Maura ficaram em silêncio e olharam para a faia grande que se esparramava, ocupando quase todo o jardim. Um pombo selvagem piou da árvore, persistente e doloroso. A mão do Homem Cinzento pendia, e Maura a acariciou.
— Esse é o dez de espadas — ele adivinhou.
Maura beijou o dorso de sua mão.
— Você vai ter que ser corajoso.
— Eu sempre sou corajoso.
— Mais corajoso que isso — ela disse.

Um comentário:

  1. É o livro com uns sobrenomes bem estranhos, né? "Greenmantle" "Kavinsky", parece que ta testando minha capacidade de lembrar nomes (q n é lá essas coisas)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!