20 de junho de 2018

Capítulo 46

Blue foi jogada sobre Ronan, que já estava agachado, levantando-se de onde Whelk o havia acertado. Na frente dela, as lajes enormes de pedra entre as árvores ondulavam como se fossem água, e o pequeno lago transbordou e se derramou para fora das margens. Havia um ruído enorme ao redor, como um trem caindo sobre eles, e tudo que Blue conseguia pensar era: Nada de realmente ruim jamais aconteceu comigo.
As árvores se inclinavam na direção umas das outras, como se fossem se soltar do solo. Folhas e galhos cobriam o chão, grossos e furiosos.
— É um terremoto! — gritou Gansey para eles. Ele tinha um braço erguido sobre a cabeça e o outro agarrado em torno de uma árvore. Seu cabelo estava coberto de poeira.
— Olha o que você fez, seu filho da mãe maluco! — Ronan gritou para Adam, que estava imóvel no pentagrama. Seu olhar era atento e cortante.
Será que vai parar?, Blue se perguntou.
Um terremoto era algo tão chocante, tão errado, que não parecia impossível acreditar que o mundo havia se partido para nunca mais voltar a se endireitar novamente.
Enquanto o chão se deslocava e rosnava em volta deles, Whelk se pôs de pé aos tropeços, com a arma na mão. Tudo ficou mais escuro e mais feio do que antes, um mundo em que a morte era injusta e instantânea.
Whelk conseguiu manter o equilíbrio. O sacolejar das rochas estava começando a diminuir, embora tudo ainda pendesse para lá e para cá como um brinquedo de parque de diversões.
— O que você saberia fazer com o poder? — ele disparou para Adam. — Que desperdício. Que maldito desperdício.
Whelk apontou a arma para Adam e, sem qualquer cerimônia, puxou o gatilho.
Em volta deles, o mundo parou. As folhas tremiam e a água se derramava lentamente sobre as margens do pequeno lago, mas, fora isso, o chão havia parado.
Blue gritou.
Todos os olhos estavam em Adam, que permanecia estático no meio do pentagrama. Sua expressão era perplexa. Então ele olhou para o peito e para os braços. Não havia uma marca sequer.
Whelk não havia errado o tiro, mas Adam também não havia sido atingido, e os dois fatos eram de alguma maneira a mesma coisa.
Havia uma tristeza esmagadora no rosto de Gansey quando ele olhou para Adam. Essa foi a primeira pista que Blue teve de que algo estava inerentemente diferente, irrevogavelmente alterado. Se não no mundo, então em Cabeswater. E, se não em Cabeswater, então em Adam.
— Por quê? — Gansey perguntou a Adam. — Eu fui tão terrível assim?
— Isso nunca teve a ver com você — disse Adam.
— Mas, Adam — Blue exclamou —, o que você fez?
— O que precisava ser feito — ele respondeu.
A alguns metros dali, Whelk emitiu um ruído sufocado. Quando a bala não feriu Adam, ele largou a arma, derrotado como uma criança em um jogo de faz de conta.
— Acho que você devia me devolver isso — disse Adam para Whelk, tremendo um pouco. — Não acho que Cabeswater queira que você fique com ela. Acho que, se você não me devolver essa arma, a linha pode tomar de você.
Subitamente, as árvores começaram a sibilar, como se uma brisa estivesse passando por elas, embora nenhum vento tocasse a pele de Blue. O rosto de Adam e de Ronan exibia a mesma expressão de choque, e, um momento mais tarde, Blue percebeu que não era um sibilar: eram vozes. As árvores estavam falando, e agora ela podia ouvi-las também.
— Protejam-se! — gritou Ronan.
Houve outro ruído como um farfalhar, só que ele se transformou muito rapidamente em um som mais concreto, de algo enorme se deslocando através das árvores, quebrando galhos e pisoteando a mata rasteira.
Blue berrou:
— Alguma coisa está vindo!
Ela agarrou o braço de Ronan e de Gansey, puxando suas mangas. Alguns metros atrás deles, estava a boca disforme da árvore oca divinatória, e foi para lá que ela os levou. Por um momento, antes que a magia da árvore os envolvesse, eles tiveram tempo de ver o que caía sobre eles — um bando de feras com chifres brancos despencando como uma onda enorme, pelos reluzindo como neve enregelada, rosnados e guinchos que sufocavam o ar. Elas vinham lado a lado, febris e imprudentes. Quando jogaram a cabeça para trás, Blue viu que elas eram de certo modo parecidas com o corvo entalhado na encosta do morro, como aquela escultura de um cão que ela segurara, estranha e sinuosa. O estrondo que faziam, com seus corpos comprimidos, retumbou no chão como outro terremoto. O bando, resfolegando, começou a se dividir em torno do círculo marcado pelo pentagrama.
Ao lado dela, Ronan suspirou um palavrão baixo, e Gansey, pressionado contra a parede quente da árvore, desviou o rosto como se não suportasse ver aqueles animais.
A árvore os jogou em uma visão.
Nela, a noite untava de reflexos brilhantes o chão molhado que exalava vapor, as luzes de um semáforo trocando do verde para o vermelho. O Camaro estava estacionado junto ao meio-fio, e Blue, no banco do motorista. Tudo cheirava a gasolina. Ela viu de relance uma camisa no banco do passageiro; era Gansey. Ele se inclinou sobre o câmbio na direção dela, pressionando os dedos no lugar em que sua clavícula estava exposta. A respiração dele era quente na nuca de Blue.
— Gansey — ela avisou, sentindo-se instável e perigosa.
— Eu só quero fazer de conta — disse Gansey, as palavras vaporizando na pele dela. — Quero fazer de conta que eu posso.
Na visão, Blue fechou os olhos.
— Talvez não tivesse problema se eu beijasse você — ele disse. — Talvez seja apenas se você me beijar...
Na árvore, Blue foi empurrada pelas costas, o que a sacudiu da visão. Ela só teve tempo de ver Gansey — o Gansey de verdade — com os olhos arregalados, passando por ela e saindo da árvore.

4 comentários:

  1. Que árvore divinatória mais oportuna, não é mesmo?

    E não posso esquecer: Adam, você é um panaca

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    1. Concordo duplamente com você. Árvore mais sagaz que essa nao existe.

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  2. Ta na cara que eles vão se apaixonar

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  3. Ela agarrou o braço de Ronan e de Gansey, puxando suas mangas.
    Menina esperta kkk sabe aproveitar uma oportunidade kkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!