3 de junho de 2018

Capítulo 46

Mas que bela viagem
Bon Jovi no rádio
Eu não mereço isso

A MANSÃO MCCAFFREY tinha renascido.
Ou melhor, tinha florescido.
Ao longo da noite, as tábuas madeira de lei tinham crescido e se espalhado em uma velocidade incrível, formando as vigas e o piso de uma casa de vários andares muito parecida com a antiga. Enormes trepadeiras, muito densas, surgiram das ruínas de pedra, trançadas até criar paredes e tetos, deixando espaço para janelas e claraboias protegidas por toldos de glicínias.
A maior diferença da nova casa para a antiga era que o salão envolvia a Cisterna como uma ferradura, deixando o bosque de freixos a céu aberto.
— Espero que vocês gostem — comentou Aloe Vera, nos levando para visitar o lugar. — Nós nos reunimos e decidimos que era o mínimo que poderíamos fazer.
O interior era fresco e confortável, com chafarizes e água corrente em todos os aposentos, o encanamento todo feito de raízes vivas que puxavam a água de lagos subterrâneos. Cactos em flor e árvores de Josué decoravam o ambiente, e galhos enormes tinham assumido a forma de móveis. Até a antiga escrivaninha do dr. McCaffrey fora recriada.
Meg fungou e piscou várias vezes.
— Ah, querida! — exclamou Aloe Vera. — Será que você é alérgica à casa?!
— Não, não é isso. Este lugar é incrível!
Meg se jogou nos braços de Aloe, ignorando os muitos espinhos afiados da dríade.
— Uau...! — comentei. (Parece que a capacidade poética de Meg estava me contaminando.) — Quantos espíritos da natureza trabalharam para fazer isso?
Aloe deu de ombros, modesta.
— Todas as dríades do deserto do Mojave quiseram ajudar. Vocês nos salvaram! E, além de tudo, você recuperou as Melíades. — Ela deu um beijo na bochecha de Meg. — Seu pai ficaria tão orgulhoso! Você completou o trabalho dele.
Meg piscou para conter as lágrimas.
— Eu só queria que…
Ela não precisou terminar. Todos sabíamos quantas vidas não tinham sido salvas.
— Você vai ficar? — perguntou Aloe. — Aeithales é a sua casa.
Meg admirou a vista do deserto. Eu estava morrendo de medo de ela dizer que sim. Sua ordem final seria que eu continuasse a missão sozinho, e daquela vez ela estaria falando sério. Bem, e por que não? Ela havia encontrado seu lar, e tinha amigos ali. Tinha inclusive sete dríades muito poderosas que lhe dariam vivas e lhe serviriam enchiladas todas as manhãs. Ela poderia virar a protetora do sul da Califórnia, longe do alcance de Nero. Poderia ter paz.
Poucas semanas atrás, a ideia de ficar livre de Meg me deixaria eufórico, mas naquele momento só cogitar a possibilidade já me desesperava. Sim, eu queria que ela fosse feliz, mas sabia que Meg ainda tinha muitas coisas a fazer — e a primeira delas era enfrentar Nero outra vez, para fechar aquele capítulo horrível com um confronto e uma vitória sobre o Besta.
Ah, e eu também precisava da ajuda dela. Podem me chamar de egoísta, mas eu não conseguia me imaginar seguindo adiante sem minha amiga.
Meg apertou a mão de Aloe.
— Talvez um dia. Espero voltar logo. Mas agora… nós temos que ir a alguns lugares.

* * *

Grover fora muito generoso em deixar o Mercedes que tinha pegado emprestado em… algum lugar.
Depois de nos despedirmos de Herófila e das dríades, que discutiam planos para criar um gigantesco tabuleiro de palavras cruzadas no chão de um dos quartos de hóspedes de Aeithales, fomos até Santa Mônica atrás do endereço que Piper me dera. Eu não parava de olhar pelo retrovisor, me perguntando se a polícia nos pararia pelo roubo do carro. Seria uma conclusão ótima para aquele fim de semana.
Levamos um tempo para encontrar o lugar, um aeroporto particular perto da costa de Santa Mônica. Um segurança nos deixou passar pelo portão sem fazer perguntas, como se já estivesse esperando dois adolescentes em um Mercedes vermelho possivelmente roubado. Avançamos pela pista principal. Um Cessna branco reluzente estava parado perto do galpão de embarque, junto do Chevette amarelo do treinador Hedge. Cheguei a tremer, achando que estávamos presos em um episódio de Show do Oráculo. Primeiro prêmio: o Cessna. Segundo prêmio… Não, eu não suportava nem pensar.
O treinador Hedge estava trocando a fralda do bebê Chuck no capô do Chevette, distraindo o filho e deixando que ele mastigasse uma granada. (Devia ser só uma embalagem vazia. Provavelmente. Espero.)
Mellie estava ao lado dele, monitorando tudo. Quando nos viu, a dríade acenou e abriu um sorriso triste. Ela apontou para o avião, onde Piper estava parada na base da escada, falando com o piloto.
Ela segurava uma caixa grande e levava uns livros debaixo do braço. O compartimento de bagagem estava aberto, na parte direita da aeronave, perto da cauda, e funcionários prendiam lá dentro uma caixa grande de madeira com detalhes de metal, tomando muito cuidado. Era um caixão.
Quando Meg e eu nos aproximamos, o capitão apertou a mão de Piper, solidário à dor da menina.
— Está tudo em ordem, srta. McLean. Ficarei a bordo fazendo as verificações pré-voo até os passageiros estarem prontos.
Ele acenou e entrou no avião.
Piper usava uma calça jeans surrada e uma regata verde camuflada. Tinha cortado o cabelo mais curto e repicado — provavelmente porque boa parte tinha sido queimada —, o que a deixava bizarramente parecida com Thalia Grace. Seus olhos bicolores refletiam o asfalto cinza, e ela poderia se passar facilmente por uma filha de Atena.
O pacote que ela estava segurando era, claro, a maquete que Jason fez da Colina dos Templos, no Acampamento Júpiter. E debaixo do braço estavam os dois cadernos com os desenhos dos novos templos.
Senti um nó na garganta.
— Ah.
— É — respondeu a garota. — A escola me deixou pegar as coisas dele.
Peguei a maquete como quem seguraria a bandeira no funeral de um soldado. Meg guardou os cadernos na mochila.
— Você está indo para Oklahoma? — perguntei, apontando para o avião com o queixo.
Piper riu.
— Bom, sim. Mas vamos de carro, meu pai alugou um. Eu e os Hedge vamos encontrar com ele no Dunkin’ Donuts. — Ela abriu um sorriso triste. — Foi o primeiro lugar aonde ele me levou para tomar café da manhã quando nos mudamos para cá.
— De carro? — perguntou Meg. — Mas…
— O avião é para vocês — explicou a menina. — E para... Jason. Meu pai tinha muitas milhas e crédito de combustível suficientes para uma última viagem. Falei com ele que queria mandar Jason para casa... Quer dizer, para a casa onde ele ficou mais tempo, na Baía, e que vocês dois poderiam levá-lo até lá… Papai concordou que seria um excelente uso do avião. Estamos felizes em ir de carro.
Olhei para a maquete da Colina dos Templos, com todas as casinhas do Banco Imobiliário marcadas com a letra de Jason. Li a etiqueta: APOLO. Me lembrei da voz dele dizendo meu nome, pedindo um favor: Aconteça o que acontecer, quando você voltar ao Olimpo, quando for deus de novo, lembre-se. Lembre-se de como é ser humano.
Aquilo era ser humano: ficar parado numa pista de pouso e decolagem, vendo mortais colocarem o corpo de um amigo e herói no compartimento de carga, sabendo que ele nunca mais voltaria. Dizer adeus a uma jovem que estava sofrendo e que tinha feito de tudo para nos ajudar, sabendo que nunca poderia retribuir, nunca poderia compensá-la por tudo que ela perdeu.
— Piper, eu… — Minha voz engasgou, como a da Sibila.
— Tudo bem — interrompeu ela. — Só chegue bem ao Acampamento Júpiter. Peça que deem a Jason o enterro romano que ele merece. E acabe com a raça de Calígula.
Ela não falou de um jeito amargo, como eu esperava. Suas palavras eram áridas e secas como o ar de Palm Springs. Sem nenhum julgamento, só com um calor natural.
Meg olhou para o caixão no compartimento de carga e pareceu incomodada de voar com um companheiro morto. Eu não conseguia culpá-la: havia um motivo para eu nunca ter convidado Hades para dar um passeio pelo Sol. Dava azar misturar o Mundo Inferior e o Superior.
Ainda assim, Meg murmurou:
— Obrigada.
Piper puxou a garota para um abraço e beijou sua testa.
— Não foi nada. E, se algum dia você for a Tahlequah, vá me visitar, está bem?
Pensei nos milhões de jovens que oravam para mim todos os anos, na esperança de deixar suas cidadezinhas espalhadas pelo mundo e ir para Los Angeles, para fazerem seus enormes sonhos se tornarem realidade. Piper McLean estava seguindo o caminho contrário, deixando o glamour e brilho da antiga vida do pai, voltando para a pequena Tahlequah, em Oklahoma. Ela parecia tranquila com a ideia, como se soubesse que sua própria Aeithales estava lhe esperando.
Mellie e o treinador Hedge se aproximaram. O bebê Chuck ainda mastigava alegremente a granada, nos braços do pai.
— Ei, Piper, está pronta? — perguntou o treinador. — Temos um longo caminho pela frente.
O sátiro parecia sério e determinado. Ele encarou o caixão no compartimento de carga e desviou os olhos depressa para o chão.
— Quase lá. Tem certeza de que o Chevette vai aguentar uma viagem tão longa?
— Claro! Só... hã... fiquem por perto, para o caso de o carro alugado quebrar e vocês precisarem de ajuda.
Mellie revirou os olhos.
— Chuck e eu vamos com vocês.
O treinador pigarreou.
— Tudo bem. Vou ter bastante tempo para ouvir minhas músicas. Tenho toda a discografia do Bon Jovi em fita cassete!
Tentei abrir um sorriso encorajador, mas, se visse Hades de novo, daria uma nova sugestão de tortura para os Campos da Punição: Chevette. Viagem de carro. Discografia do Bon Jovi em fita cassete.
Meg deu um leve peteleco na ponta do nariz do bebê Chuck, o que fez com que ele risse e cuspisse raspas de granada.
— O que vocês vão fazer em Oklahoma? — perguntou ela.
— Treinar, claro! — respondeu o treinador. — Tem times jovens muito bons por lá. E fiquei sabendo que a natureza é bem forte. É um bom lugar para criar um filho.
— E sempre tem trabalho para ninfas de nuvens — completou Mellie. — Todo mundo precisa de nuvens.
Meg olhou para o céu, talvez se perguntando quantas daquelas nuvens eram ninfas ganhando apenas o salário mínimo. Então, do nada, ficou boquiaberta.
— Hã... gente?
Ela apontou para o norte.
Uma enorme silhueta brilhante surgiu em meio às nuvens brancas. Por um instante, achei que fosse um avião pequeno. Mas então a silhueta bateu as asas.
Os funcionários do aeroporto particular já estavam trabalhando quando Festus, o dragão de bronze, se aproximou para pousar. Ele trazia Leo Valdez consigo. Os funcionários balançaram os cones de luz laranja, guiando Festus para um espaço ao lado do Cessna. Nenhum dos mortais pareceu achar aquilo incomum.
Um deles gritou para Leo, perguntando se ele precisava de combustível.
O semideus sorriu.
— Não, valeu. Mas se puderem lavar e encerar meu garoto... Talvez um pouco de molho de pimenta. Seria ótimo.
Festus rugiu em aprovação.
Leo Valdez desceu e correu na nossa direção. Fossem quais fossem as aventuras vividas no Acampamento Júpiter, ele parecia ter saído com o cabelo preto cacheado, o sorriso malicioso e o corpinho élfico intactos. Leo usava uma camiseta roxa com palavras douradas escritas em latim: MINHA GALERA FOI PARA NOVA ROMA E TUDO QUE EU GANHEI FOI ESSA CAMISETA RIDÍCULA.
— Agora a festa pode começar! — anunciou ele. — Aí estão os meus amigos!
Eu não sabia o que dizer. Ficamos parados, atordoados, enquanto Leo nos abraçava.
— Cara, o que está rolando? — perguntou ele. — Alguém jogou uma granada em vocês? Tenho boas e más notícias de Nova Roma, mas primeiro… — Ele nos encarou, notando a expressão em nossos rostos. E começou a ficar mais sério. — Cadê o Jason?

7 comentários:

  1. Tio Rick para de torturar meu coração assim

    ResponderExcluir
  2. Damon Herondale, filho de Zeus7 de junho de 2018 12:07

    Como ser tão cruel em 1 livro?

    ResponderExcluir
  3. AHHH. ADEUS SORRISINHO. Droga. O JASON nem pode bater nele...

    ResponderExcluir
  4. Velho e serio chorando aqui😭😭😭😢😢😢😢😢

    ResponderExcluir
  5. Motherfucking Princess Sad14 de junho de 2018 12:37

    😢

    ResponderExcluir
  6. to cholando di+ bbuuuuuuuuuuuuuaaaaaaaaaa

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!