26 de junho de 2018

Capítulo 45

Então agora Adam tinha um carro.
O veículo era apenas um de três objetos que Adam havia conseguido naquela manhã.
Cada Gansey que saía pela porta lhe concedia um presente, como excêntricas fadas madrinhas. Richard Gansey II conferiu sua gravata em um espelho no corredor e passou para Adam um colete xadrez.
— Não sou mais tão magro como costumava ser — ele disse para o garoto. — Eu ia dar para o Dick, mas vai servir melhor em você, eu acho. Aqui, experimente.
Não era nem um presente, era uma ordem.
Em seguida foi a sra. Gansey, espiando pela janela para verificar se seu motorista já chegara antes de dizer:
— Dick, consegui outro vaso de hortelã para você levar. Não esqueça. Adam, peguei para você um vaso de árvore-da-borracha. Vocês, garotos, nunca pensam no feng shui.
Ele sabia que isso estava acontecendo porque eles o haviam resgatado pateticamente do acostamento de uma rodovia, mas ele sentia que não podia recusar. Era uma planta.
E ele havia arruinado o sábado deles.
Passou, Adam pensou. Ele havia arruinado o sábado deles, mas havia perdido inteiramente o próprio sábado. O que quer que o tornava Adam havia simplesmente desaparecido enquanto seu corpo seguia em frente, trôpego.
Se ele se permitisse pensar a respeito, o terror simplesmente...
Não aconteceria novamente. Não podia acontecer.
Os garotos saíram pela porta, Gansey segurando seu vaso minúsculo de hortelã e Adam pelejando com um vaso de vinte litros de árvore-da-borracha, quando Helen desceu puxando uma maleta preta de rodinhas.
— Dick — ela disse —, os caras do guincho disseram que não podem vir hoje de manhã. Você me faria o favor de cuidar disso antes de ir? Eu vou perder o voo.
Gansey, que já estava com cara de poucos amigos, aumentou a irritação no rosto para oficialmente incomodado.
— Ele anda? A gente não pode simplesmente deixar lá?
— Ele anda. Eu acho. Mas é em Herndon o local da entrega.
— Herndon!
— Eu sei. É por isso que vou rebocar. Está me custando mais levar o carro até lá do que estou recebendo para doá-lo. Ei, você não precisa dele? Adam, quer uma lata-velha? Me pouparia o guincho.
A oferta pareceu imaginária. Sua consciência estava passando em uma tela de cinema.
Três Gansey, três presentes e três horas de viagem de volta a Henrietta.
Não permita que eu perca o controle a caminho de casa, pensou Adam. Apenas me leve de volta, é só o que eu peço.
Seu novo carro era de marca e modelo incertos. Era uma coisa de duas portas e cheirava a fluidos corporais automotivos. O capô, a porta do lado do passageiro e o para-lama traseiro direito eram claramente de três carros diferentes. O câmbio era manual.
Adam vivia a situação peculiar de saber melhor como consertar uma embreagem do que como operá-la. Mas ele ia melhorar com a prática. Não era nada, mas era o nada de Adam Parrish.
Este dia... este lugar... esta vida...
Parecia que ele sempre estivera ali na capital, nascido na placa de Petri de asfalto escaldante que é a cidade. Ele havia sonhado Henrietta e a Aglionby. E fazia um esforço enorme para lembrar que havia um futuro além daquele momento imediato.
Apenas volte, ele pensou. Volte para que você possa descobrir...
— Cara, pisque os faróis se algo der errado — disse Gansey, parado diante da porta aberta de seu Suburban preto. Ele costumava mantê-lo ali, mas ninguém confiava realmente que o veículo novo de Adam conseguisse atravessar o estado.
Gansey balançou um pouco a porta do motorista. Adam podia dizer que o que ele queria mesmo era perguntar: Você está bem? ou Do que você precisa, Adam? O vaso de hortelã, colocado sobre o painel, espiava ansiosamente ao redor do ombro de Gansey.
— Para — avisou Adam.
Um cenho franzido, mais bravo que anteontem.
— Você nem sabe o que eu ia dizer.
— É possível que eu saiba.
Gansey balançou a porta mais uma vez. O Suburban era enorme atrás dele. O carro novo de Adam e o Pig caberiam dentro dele, com espaço para uma bicicleta ou duas.
Adam se lembrou de como a existência daquele carro o espantara quando ele ficara sabendo a seu respeito. Rico o suficiente para dois carros?
— O que eu ia dizer, então?
As linhas de força tremeram acima de Adam. Algo murmurava e vibrava dentro dele.
Ele precisava voltar. Logo. Isso era tudo que ele sabia.
— Não acho que a gente deva fazer isso agora — ele disse.
— Nós estamos fazendo alguma coisa agora? Achei que o que estava acontecendo era que você estava sendo... — Com um esforço visível, Gansey se segurou. — Você vai voltar para a Monmouth ou...
Sem tempo. Sem tempo para isso. Ele precisava parar de esperar e começar a agir.
Ele não era melhor do que Gansey esperando que outra pessoa despertasse a linha ley.
Ele precisava se mexer.
— Vou até a Rua Fox pedir um conselho — respondeu Adam.
Gansey abriu a boca. Havia cem coisas que ele poderia dizer, e noventa e nove delas apenas deixariam Adam bravo. Gansey pareceu intuir isso, porque pensou antes de dizer:
— Vou ver como o Ronan está, então.
Adam afundou no banco desgastado e empoeirado de seu novo carro velho. Sussurros escapavam das ventilações de ar. Está bem, estou indo, estou indo.
Gansey ainda estava olhando fixamente para Adam, mas o que ele queria que Adam dissesse? Ele estava fazendo todo o esforço possível para se lembrar de quem era.
— Apenas pisque os faróis — disse Gansey por fim — se algo der errado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!