20 de junho de 2018

Capítulo 45

— Pelo amor de Deus — disse Whelk quando viu Adam parado ao lado da tigela que ele tinha chutado havia pouco. Whelk brandia uma faca enorme de aparência bastante eficiente. Estava sujo e com a barba por fazer. Parecia um garoto da Aglionby depois de um fim de semana ruim. — Por quê?
Sua voz tinha um tom genuíno de agravo.
Adam não via o professor de latim desde que havia descoberto que ele matara Noah, e ficou surpreso com a torrente de emoções que a visão de Whelk lhe provocou. Especialmente quando ele percebeu que aquele era mais um ritual, com mais um sacrifício. Naquele contexto, levou um momento para reconhecer o rosto de Neeve — aquela noite na Rua Fox, 300. Neeve olhou para ele do centro, feito a partir dos pontos em um pentagrama. Adam achou que ela não parecia tão apavorada quanto se poderia esperar de uma pessoa amarrada no meio de um símbolo diabólico.
Adam pensou em dizer várias coisas, mas, quando abriu a boca, não foi nenhuma dessas coisas que saiu.
— Por que o Noah? — ele perguntou. — Por que não alguém horrível?
Whelk fechou os olhos por um mero segundo.
— Não vou discutir isso. Por que você está aqui?
Era óbvio que ele não tinha certeza sobre o que fazer com o fato de Adam estar ali — o que era justo, porque Adam não tinha ideia do que fazer com o fato de Whelk estar ali. A única coisa que ele tinha de fazer era evitar que Whelk despertasse a linha ley. Tudo o mais (colocá-lo fora de combate, salvar Neeve, vingar Noah) era negociável. Ele lembrou, de uma hora para outra, que tinha a arma do pai na mochila. Era possível que conseguisse apontá-la para Whelk e convencê-lo a fazer algo, mas o quê? Nos filmes, isso parecia simples: quem quer que tivesse a arma vencia. Mas, na vida real, ele não podia apontar a arma para Whelk e amarrá-lo ao mesmo tempo, ainda que tivesse algo para amarrá-lo. Whelk poderia dominá-lo. Talvez Adam pudesse usar o laço de Neeve para...
Adam sacou a arma. Parecia pesada e malévola em sua mão.
— Estou aqui para evitar que isso aconteça de novo. Desamarre ela.
Whelk repetiu:
— Pelo amor de Deus.
Então deu dois passos até Neeve e colocou a faca em um lado do rosto dela. Neeve apertou a boca apenas um pouquinho. Ele disse:
— Ponha a arma no chão, senão eu retalho o rosto dela. Ou melhor, jogue a arma para cá. E verifique se acionou a trava de segurança antes de jogar, ou você pode acabar atirando nela.
Adam desconfiava secretamente de que, se fosse Gansey, ele teria sido capaz de sair daquela situação com seu poder de convencimento. Ele endireitaria os ombros, pareceria impressionante e Whelk faria o que ele lhe dissesse. Mas Adam não era Gansey, então tudo que conseguiu pensar em dizer foi:
— Eu não vim aqui para que alguém morresse. Vou jogar a arma longe, mas não na sua direção.
— Então eu vou retalhar o rosto dela.
O rosto de Neeve estava bastante tranquilo.
— Você vai estragar o ritual se fizer isso. Você não estava me ouvindo? Achei que estivesse interessado no processo — ela disse.
Adam tinha a sensação curiosa e desconcertante de ver algo extraordinário quando a olhava nos olhos. Era como se ele visse um breve flash de Maura, Persephone e Calla neles.
Whelk disse:
— Muito bem. Jogue a arma pra lá, mas não se aproxime. — Para Neeve, ele perguntou: — O que você quer dizer com estragar o ritual? Você está blefando?
— Pode jogar a arma — Neeve disse para Adam. — Não me importo.
Adam jogou a arma no matagal. Ele se sentiu péssimo quando fez isso, mas mesmo assim era melhor do que segurá-la.
Então Neeve declarou:
— Barrington, o ritual não vai funcionar porque precisa de um sacrifício.
— Você estava planejando me matar — disse Whelk. — Você espera que eu acredite que o ritual não vai funcionar de modo contrário?
— Sim — respondeu Neeve, sem desviar o olhar de Adam. Mais uma vez, ele teve a impressão de ver um flash de algo quando olhou para o rosto dela: uma máscara negra, dois espelhos, o rosto de Persephone. — Tem de ser um sacrifício pessoal. Não vai adiantar me matar. Eu não sou nada para você.
— E eu não sou nada para você — disse Whelk.
— Mas matar é — ela respondeu. — Eu nunca matei ninguém. Eu abro mão da minha inocência se fizer isso. É um sacrifício incrível.
Quando Adam falou, ficou surpreso com quão claramente o desprezo que sentia veio à tona.
— E você já matou uma pessoa, então não tem isso para abrir mão.
Whelk começou a praguejar muito suavemente, como se ninguém mais estivesse ali. Folhas da cor e do formato de moedas esvoaçavam em volta deles. Neeve ainda estava encarando Adam. A sensação de ver algum outro lugar em seus olhos agora era inegável. Era um lago espelhado e negro, era uma voz profunda como a terra, eram dois olhos vítreos, era outro mundo.
— Sr. Whelk!
Gansey!
A voz de Gansey vinha logo de trás da árvore oca divinatória, e então o resto dele a seguiu, enquanto ele entrava no campo de visão. Atrás dele estavam Ronan e Blue. O coração de Adam era um pássaro e uma pedra; seu alívio era palpável, assim como sua vergonha.
— Sr. Whelk — disse Gansey. Mesmo de óculos e com os cabelos de quem acabou de acordar, ele aparentava o esplendor absoluto de Richard Gansey III, reluzente e poderoso. Ele não olhou para Adam. — A polícia está a caminho. É melhor se afastar da mulher para não piorar as coisas.
Whelk fez menção de responder, mas não respondeu. Em vez disso, todos olharam para a faca que ele tinha na mão e para o chão logo abaixo dela. Neeve havia sumido.
Imediatamente, todos olharam em torno do pentagrama, para a árvore oca, para o pequeno lago — mas era ridículo. Neeve não poderia ter deslizado para longe sem que ninguém a visse, não em dez segundos. Ela não havia se movido.
Ela havia desaparecido.
Por um momento, nada aconteceu. Todos estavam congelados em um diorama de incerteza.
Whelk mergulhou para fora do pentagrama. Adam precisou de apenas um segundo para perceber que ele estava arremetendo na direção da arma.
Ronan se jogou na frente de Whelk no mesmo instante em que este se levantou com o revólver. Whelk deu uma coronhada no queixo de Ronan, o que fez a cabeça dele dar um estalo para trás.
Então Whelk apontou a pistola para Gansey.
Blue gritou:
— Pare!
Não havia tempo.
Adam se atirou no meio do pentagrama.
Curiosamente, não havia nenhum ruído ali, não que se pudesse ouvir de maneira razoável. O fim do grito de Blue foi abafado, como se tivesse sido mergulhado em água. O ar estava parado à sua volta. Era como se o tempo tivesse se tornado um ente letárgico, mal existindo. A única sensação verdadeira que Adam sentia era a da eletricidade — o ligeiro formigar de uma tempestade elétrica.
Neeve havia dito que a questão não era a morte, mas o sacrifício. Era óbvio que isso havia travado Whelk completamente.
Mas Adam sabia o que significava sacrifício, mais do que Whelk ou Neeve já haviam precisado saber na vida, ele acreditava. Ele sabia que sacrifício não tinha a ver com matar alguém ou desenhar uma forma feita de ossos de pássaros.
Em última análise, Adam vinha fazendo sacrifícios havia muito tempo, e ele sabia qual era o mais difícil.
Em seus termos ou de maneira alguma.
Ele não sentia medo.
Ser Adam Parrish era algo complicado, um prodígio de músculos e órgãos, sinapses e nervos. Ele era um milagre em vida, um estudo sobre a sobrevivência. A coisa mais importante para Adam Parrish, no entanto, sempre fora o livre-arbítrio, a capacidade de ser seu próprio mestre.
Era isso que importava.
A questão mais importante sempre fora essa.
Era isso que significava ser Adam.
Ajoelhando-se no meio do pentagrama e enfiando os dedos no relvado suave e musgoso, ele disse:
— Eu me sacrifico.
O grito de Gansey saiu aflito:
— Adam, não! Não.
Em seus termos ou de maneira alguma.
Serei suas mãos, pensou Adam. Serei seus olhos.
Houve um barulho como o de uma enorme onda se quebrando. Um estalo. Debaixo deles, o chão começou a tremer.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!