3 de junho de 2018

Capítulo 45

Flores do deserto nascem
Ar açucarado
Quer criar um game show!

PIPER NÃO FOI com a gente.
Ela disse que precisava voltar para Malibu, já que não queria preocupar o pai nem os Hedge. Iriam todos para Oklahoma juntos na noite seguinte, e ela tinha muitas providências a tomar. O tom sombrio com que ela disse aquilo deu a entender que essas providências tinham a ver com o funeral de Jason.
— Me encontre amanhã à tarde. — Ela me entregou uma folha amarela dobrada, um aviso de despejo da N. H. Financeira. Atrás estava anotado um endereço em Santa Mônica. — Vamos lhe indicar o caminho certo.
Eu não sabia bem o que ela queria dizer com aquilo, mas fiquei sem explicação. Piper seguiu para o estacionamento do campo de golfe mais próximo, sem dúvida para pegar emprestado algum veículo de qualidade.
Nós, que ficamos, voltamos para Palm Springs no Mercedes vermelho.
Herófila foi dirigindo (Quem poderia imaginar que os antigos Oráculos sabiam dirigir?), Meg se sentou na frente, ao lado dela, e Grover e eu ficamos no banco de trás. Foi impossível não pensar em Clave, que estivera ali, naquele mesmo lugar, poucas horas antes, ansioso para aprender os acordes e se tornar um deus da música.
Talvez eu tenha chorado um pouquinho.
As sete Melíades marchavam ao lado do carro, parecendo agentes do serviço secreto escoltando algum oficial. Elas nos acompanharam sem dificuldade, mesmo quando pegamos a estrada, deixando o trânsito para trás.
Apesar da vitória, o humor do grupo estava bem soturno. Ninguém começou nenhuma conversa animada. Teve até um momento em que Herófila tentou quebrar o gelo, sugerindo um jogo:
— Adivinhem só o que estou vendo…
— Não — respondemos todos, em uníssono.
Depois disso, seguimos em silêncio.
A temperatura lá fora tinha caído pelo menos uns dez graus. Uma neblina marítima havia se instalado na orla de Los Angeles, uma camada úmida que encharcava o calor seco e a fumaça. Quando chegamos a San Bernardino, nuvens negras cobriam as colinas, volta e meia soltando jatos de chuva nos montes secos e chamuscados.
Quando Palm Springs se revelou à nossa frente, Grover começou a chorar de alegria. O deserto exibia um tapete de flores silvestres: calêndulas, papoulas, dentes-de-leão e prímulas, todas cintilando com gotículas da chuva que acabara de passar, deixando o ar fresco e doce. Dezenas de dríades nos esperavam na colina da Cisterna. Aloe Vera tratou nossos ferimentos, e Figo-da-índia fez cara feia, perguntando como tínhamos conseguido estragar as roupas mais uma vez. Reba ficou tão feliz que tentou dançar tango comigo, mas aquelas sandálias de Calígula não tinham sido feitas para passos complexos. Todos se reuniram em volta das Melíades, perplexos. Josué abraçou Meg com tanta força que ela soltou um gemidinho de dor.
— Você conseguiu! Os incêndios acabaram! — exclamou o dríade.
— Pois é, a gente percebeu... — resmungou ela.
— E essas… — Ele olhou para as Melíades. — Eu… Eu vi quando elas saíram das mudinhas, mais cedo. Elas disseram que ouviram uma música, um som que precisavam seguir. Foi você?
— Foi. — Meg não pareceu gostar do jeito como Josué encarava as dríades dos freixos, boquiaberto. — Elas são minhas novas minions.
— Nós somos as Melíades! — afirmou a líder, parecendo concordar. Ela se ajoelhou na frente de Meg. — Pedimos orientação, ó Meg McCaffrey! Onde devemos plantar nossas raízes?
— Plantar? Mas achei que…
— Podemos ficar na encosta onde você nos plantou, ó Grande Meg — explicou a líder. — Mas, se quiser que plantemos nossas raízes em outro lugar, precisa decidir rápido! Não demorará para crescermos, e ficaremos grandes e fortes demais para sermos transplantadas!
De repente visualizei como seria se comprássemos uma picape e enchêssemos a caçamba de terra, para ir até São Francisco levando sete freixos assassinos.
Gostei da ideia, mas, infelizmente, sabia que não daria certo. Árvores não gostam muito de viagens de carro.
Meg coçou a cabeça.
— Mas se vocês ficarem aqui… vão ficar bem? Quer dizer, no deserto e tudo o mais?
— Nós vamos ficar ótimas — respondeu a líder.
— Se bem que um pouco mais de sombra e água fresca seria melhor — argumentou um segundo freixo.
Josué pigarreou, então ajeitou o cabelo desgrenhado, meio constrangido.
— Nós... Hum... Nós ficaríamos honrados de ter vocês conosco! A natureza já é bem forte aqui, mas, com as Melíades ao nosso lado…
— É — concordou Fig. — Ninguém nunca mais nos incomodaria. Aí poderíamos crescer em paz!
Aloe Vera encarou as Melíades de cima a baixo, em dúvida. Parecia que ela não confiava em formas de vida que precisavam tão pouco de cura.
— Mas até onde vai o alcance de vocês? — perguntou Aloe. — Quanto conseguem proteger?
Uma terceira Melíade riu.
— Marchamos hoje até Los Angeles! E não tivemos nenhum problema. Se nossas raízes ficarem aqui, podemos proteger tudo num raio de cem léguas!
Reba mexeu no cabelo escuro.
— Isso é longe o bastante para chegar à Argentina?
— Não — respondeu Grover. — Mas cobriria quase todo o sul da Califórnia. O que você acha, Meg?
Minha mestra semideusa estava tão cansada que se balançava como uma mudinha. Fiquei esperando que ela fosse murmurar um sei lá digno de Meg e desmaiar, mas logo depois ela falou para as Melíades:
— Venham comigo.
Fomos todos atrás dela, até a beira da Cisterna. Meg apontou para o poço sombreado, com o lago azul no meio.
— Que tal em volta do lago? Tem sombra, água. Acho… acho que meu pai teria gostado disso.
— A filha do criador mandou! — gritou uma Melíade.
— Filha de dois criadores! — completou outra.
— Duplamente abençoada!
— Sábia solucionadora de enigmas!
— A Meg McCaffrey!
Isso deixou pouca coisa para as duas últimas, que apenas murmuraram:
— É. A Meg McCaffrey. Isso aí.
As outras dríades assentiram, murmurando em concordância. Os freixos ocupariam o lugar onde comíamos nossas enchiladas, mas ninguém reclamou.
— Um bosque sagrado de freixos — comentei. — Eu tinha um desses na Antiguidade. Ah, Meg, é perfeito.
Olhei para a Sibila, um pouco afastada da aglomeração, em silêncio. Devia estar atordoada por ver tanta gente junta, depois daquele longo cativeiro.
— Herófila, este bosque vai ser bem protegido. Ninguém, nem mesmo Calígula, seria uma ameaça. Não quero lhe dizer o que fazer, a escolha é sua. Mas o que acha de este ser seu novo lar?
Herófila suspirou, hesitante. O cabelo castanho era da mesma cor das colinas do deserto à luz da tarde. Será que ela estava pensando em como aquele lugar era diferente da colina onde nasceu, bem longe, na Eritreia, onde ficava sua caverna?
— Eu poderia ser feliz aqui — decidiu a profetisa. — Eu inicialmente tinha pensado em... Olha, é só uma ideia, mas é que fiquei sabendo que muitos game shows são gravados em Pasadena. Tenho várias ideias para alguns.
Figo-da-índia estremeceu.
— Por que não deixa para pensar nisso mais tarde, querida? Fique um pouco aqui com a gente!
Era um bom conselho, vindo de um cacto.
Aloe Vera assentiu.
— Ficaríamos honrados em ter um oráculo aqui conosco! Você pode me avisar sempre que alguém for ficar resfriado!
— Sim, receberíamos você de braços abertos — concordou Josué. — Quer dizer, menos os que têm espinhos. Acho que esses só dariam um tchauzinho.
Herófila abriu um sorriso.
— Muito bem. Seria uma…
Ela engasgou, como se fosse começar uma nova profecia que teríamos que quebrar a cabeça para resolver.
— Que beleza! — interrompi. — Não precisa agradecer! Está decidido!
Foi assim que Palm Springs ganhou um oráculo e o resto do mundo foi poupado de vários novos game shows questionáveis, como Sibila da Fortuna ou Show do Oráculo. Uma vitória para todos.
Passamos o restante da noite construindo um novo acampamento na encosta, jantando (optei por enchiladas de frango, obrigado por perguntar) e garantindo a Aloe Vera que nossas camadas de gosma medicinal estavam grossas o bastante.
As Melíades removeram as mudinhas da encosta e as replantaram na Cisterna, o que acho que seria uma versão dríade de dizer que elas foram cuidar da própria vida.
No pôr do sol, a líder foi até Meg e fez uma reverência.
— Vamos dormir agora, ó Meg McCaffrey. Mas responderemos sempre que você chamar, se estivermos ao alcance! Vamos proteger esta terra em nome de Meg McCaffrey!
— Valeu — respondeu a garota, poética como sempre.
As Melíades sumiram dentro de seus sete freixos, que agora circundavam o lago, os galhos cintilando com uma luz suave e opaca. As outras dríades ficaram andando pela encosta, apreciando o ar fresco e as estrelas do céu noturno límpido enquanto mostravam a nova casa para a Sibila.
— E aqui tem mais algumas pedras — iam dizendo. — E, ali, mais pedras.
Grover se sentou junto de mim e de Meg, soltando um suspiro satisfeito. O sátiro tinha mudado de roupa; agora usava gorro verde, camisa tie-dye, calça jeans limpa e um novo par de tênis adaptados para seus cascos. Senti um aperto no peito quando o vi com uma mochila no ombro e todo preparado para partir. Apenas perguntei:
— Vai a algum lugar?
Ele sorriu.
— Vou voltar para o Acampamento Meio-Sangue.
— Agora? — indagou Meg.
Ele abriu os braços, num gesto de e por que não?.
— Estou aqui há anos. Graças a vocês, meu trabalho aqui finalmente acabou! Sei que vocês ainda têm um longo caminho pela frente, que precisam libertar os Oráculos e tudo o mais, mas…
Ele era educado demais para concluir o pensamento: mas, por favor, não me peçam para ir junto.
— Você merece voltar para casa — respondi, melancólico, desejando poder fazer o mesmo. — Mas não vai descansar nem esta noite?
O olhar de Grover se perdeu no horizonte.
— Preciso voltar. Sátiros não são dríades, mas também temos raízes. O Acampamento Meio-Sangue é a minha casa, e estou longe há tempo demais. Espero que Juníper não tenha arrumado um bode novo…
Lembrei de como a dríade Juníper estava preocupada com o namorado quando visitei o acampamento.
— Duvido que ela conseguiria achar substituto para um sátiro tão maravilhoso — respondi. — Obrigado, Grover Underwood. Não teríamos conseguido sem você e Walt Whitman.
Ele riu, mas logo ficou sério.
— Só não queria que tivéssemos perdido Jason e…
Ele olhou para o ukulele que descansava em meu colo. Eu não o perdia de vista desde que voltamos, mas também não tinha conseguido juntar coragem para sequer afinar as cordas, quem dirá tocar alguma coisa.
— Sim — concordei. — E Jade. E todos os outros que pereceram na busca pelo Labirinto de Fogo. E também nos incêndios, nas secas…
Uau. Grover era mesmo muito bom em cortar o clima: antes de ele chegar, eu até estava me sentindo bem. Pelo menos por um segundo.
O cavanhaque dele tremeu.
— Sei que vocês vão conseguir chegar ao Acampamento Júpiter. Nunca fui lá e não conheço Reyna, mas soube que ela é gente boa. Meu amigo Ciclope, Tyson, também está lá. Diga que mandei um oi.
Fiquei pensando no que nos esperava no norte. Não tínhamos a menor ideia do que estava acontecendo no Acampamento Júpiter, não sabíamos se Leo Valdez ainda estava lá ou se já tinha voltado para Indianápolis. Nossas únicas informações eram o que descobrimos a bordo do iate de Calígula: o ataque durante a lua nova não tinha ido bem, e o imperador, agora sem seu cavalo e sua feiticeira, estava indo para lá resolver o problema pessoalmente. Precisávamos chegar primeiro.
— Nós vamos ficar bem — afirmei, tentando me convencer. — Já tiramos três Oráculos do Triunvirato. Fora o próprio Delfos, só resta uma fonte de profecia: os livros sibilinos… ou melhor, o que a harpia Ella está tentando reconstruir a partir do que se lembra deles.
Grover franziu a testa.
— É. Ella, a namorada de Tyson.
Ele parecia meio confuso, como se não fizesse sentido que um Ciclope namorasse uma harpia. Ainda mais uma harpia com memória fotográfica — memória essa que, aliás, era tudo que tínhamos para consultar os livros de profecias, queimados séculos antes.
Bem pouco do que estávamos vivendo fazia sentido, mas eu já tinha sido um olimpiano, estava acostumado com essas incoerências.
— Obrigado, Grover. — Meg abraçou o sátiro e deu um beijo na bochecha dele, um gesto de gratidão que ela nunca nem cogitou repetir comigo.
— Sem problema. E obrigado a você, Meg. Você… — Ele engoliu em seco. — Você é uma ótima amiga. Adoro nossas conversas sobre plantas.
— Sabe, eu também estava lá — comentei.
Grover abriu um sorriso tímido e se levantou, prendendo as tiras da mochila no peito.
— Durmam bem. E boa sorte. Tenho a sensação de que ainda vamos nos encontrar antes de… É.
Antes de eu voltar ao Olimpo e recuperar meu trono imortal?
Antes de todos encontrarmos uma morte trágica nas mãos do Triunvirato?
Eu não sabia.
Depois que Grover foi embora, fiquei com um vazio no peito, como se o buraco que fiz com a Flecha de Dodona estivesse ficando mais fundo e mais largo. Desatei as sandálias de Calígula e as joguei longe. Dormi mal e tive um pesadelo horrível.
Estava deitado no fundo de um rio frio e escuro. Acima de mim flutuava uma mulher com roupa preta e sedosa. Era a deusa Estige, encarnação viva das águas do inferno.
— Mais promessas quebradas — sibilou ela.
Senti um soluço subir pela garganta. Eu não precisava ser relembrado disso.
— Jason Grace morreu — continuou ela. — Assim como o jovem pandos.
Ele tinha nome!, quis gritar. Ele se chamava Clave!
— Já começou a se arrepender da idiotice que foi aquela promessa precipitada que fez pelas minhas águas? — perguntou Estige. — Haverá mais mortes. Minha fúria não vai poupar ninguém próximo de você até que tudo esteja consertado. Aproveite seu tempo como mortal, Apolo!
A água foi enchendo meus pulmões, como se meu corpo só então tivesse lembrado que precisava de oxigênio.
Acordei ofegante.
Já estava amanhecendo no deserto. Eu abraçava o ukulele com tanta força que fiquei com marcas nos antebraços, e até meu peito ficou um pouco machucado. O saco de dormir de Meg estava vazio, mas nem precisei procurá-la: ela veio descendo a colina na minha direção, com um brilho estranho e muito animado nos olhos.
— Apolo, acorda. Você precisa ver isso!

9 comentários:

  1. Oxe... da pra ver que mais gente vai rodar ainda

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  2. Respostas
    1. Damon Herondale, filho de Zeus27 de junho de 2018 23:53

      Estige
      E não acho possível matar a filha mais poderosa do titã Oceano. A mãe da Vitória, do Poder, da Força e da Grandeza, literalmente.

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  3. "— Sei que vocês vão conseguir chegar ao Acampamento Júpiter. Nunca fui lá e não conheço Reyna, mas soube que ela é gente boa. Meu amigo Ciclope, Tyson, também está lá. Diga que mandei um oi."
    Me corrijam se estiver errado, mas o Grover não encontrou a Reyna e o Octaviano quando foi com a Rachel no Empire States practice conversar ou algo do tipo?

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    1. Sim, mas acho q foi no sentido de não ser proximo dela, tipo não conheço a personalidade e carater dela muito bem

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  4. Alguém seca esse rio filha da p***, ou faz ele morar nos personagens certos na hora de matar na moral.

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  5. Se a Reyna morrer no próximo livro eu desisto do Tio Rick!

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    1. Tirou as palavras da minha boca!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!