26 de junho de 2018

Capítulo 44

Agora parecia simples.
Pílula. Cerveja. Sonho.
Um Camaro estava parado em meio às árvores da floresta de sonhos: tão fácil de imaginar quanto qualquer objeto de sonho que Ronan buscara. Apenas maior.
Dentro.
Fora.
Silenciosamente, ele colocou a mão na maçaneta da porta. As folhas das árvores tremeram; um pássaro cantou tristemente ao longe.
A Garota Órfã o observava do outro lado do carro. Ela balançou a cabeça. Ele levou o dedo aos lábios.
Desperto.
Ele abriu os olhos no céu matutino, e lá estava ele. Um Camaro vermelho-magnífico.
Não era perfeito, mas perfeitamente imperfeito, manchado e arranhado como o Pig. Até o arranhão na porta onde Gansey tinha dado ré em um arbusto de azaleias.
A primeira sensação não foi de alegria, mas de alívio. Ele não tinha arruinado as coisas — ele tinha o Pig de volta, podia voltar para a Monmouth sem precisar se arrastar no chão. E então bateu a alegria. Era pior do que as pílulas verdes de Kavinsky. Ele foi lançado na emoção. Ela o golpeava e o excitava. Ronan sentira tanto orgulho da caixa quebra-cabeça, dos óculos escuros, das chaves. Como ele fora tolo então, como um garoto apaixonado por seus desenhos de giz de cera.
Era um carro. Um carro inteiro. Ele não estivera ali, mas agora estava.
Um mundo inteiro.
Agora ele não teria mais problemas. Tudo ficaria bem.
Na frente do carro, Kavinsky não parecia impressionado. Ele levantou o capô.
— Achei que você disse que conhecia esse maldito carro, cara.
Depois que Ronan voltou a sentir os membros, ele se juntou a Kavinsky ao lado do capô aberto. O defeito ficou claro na hora. Não havia motor. Ronan podia ver o caminho desimpedido até a grama alta. Ele provavelmente funcionaria, é claro. Se funcionava no sonho, funcionava na vida real. Mas isso não servia de consolo.
— Eu não pensei nele — ele disse. — No motor.
A alegria estava se dissipando tão rapidamente quanto havia surgido. Como Ronan poderia esperar guardar todos os pontos fracos do Pig na cabeça? Gansey não ia querer um Pig perfeito, um Pig que funcionasse sem motor. Ele ia querer o seu Pig. Ele adorava o Camaro porque ele quebrava, não apesar disso. O desespero tomou conta dos pensamentos de Ronan. Era complicado demais.
Kavinsky socou abruptamente a lateral da cabeça de Ronan.
— Pensar? Não tem o que pensar, idiota! Nós não somos professores. Mate o seu cérebro. — Ele avaliou o compartimento vazio do motor de novo. — Acho que o Dick pode usar isso como um canteiro. Para plantar petúnias e o cacete aqui.
Irritado, Ronan fechou o capô violentamente. Ele subiu nele — não fazia sentido poupar a pintura dos arranhões — e tamborilou os dedos contra o joelho enquanto tentava fazer sua mente voltar a funcionar direito. Não tem o que pensar. Ronan não conhecia um caminho melhor para tirar o carro dos seus sonhos. Ele não entendia como manter o conceito enquanto mergulhava no sono. Ele estava cansado dos seus sonhos.
Eles pareciam tão esfarrapados quanto as asas dos horrores noturnos.
— Ei, cara, tenho certeza que ele vai gostar desse — disse Kavinsky. — E, se não gostar, que se foda.
Ronan simplesmente o encarou com seu olhar mais pesado. Kavinsky não era Gansey, então talvez não compreendesse o significado daquilo. Não haveria foda-se para Gansey.
Ronan não tivera a intenção de bater o Camaro quando o pegara pela primeira vez, mas havia batido. E não ia piorar as coisas trazendo de volta aquela falsificação. Aquele carro era uma belíssima mentira.
— Isso — disse Ronan, pressionando as mãos abertas contra o metal quente do carro — é um peixinho dourado muito cagado.
— Culpa de quem?
— Sua.
Kavinsky dissera que o ensinaria. Ele não havia sido ensinado.
— Sua. Eu pratiquei, cara! — Kavinsky gesticulou amplamente para o campo de Mitsubishis. — Você está vendo todos esses perdedores? Levei meses para fazer direito. Olha aquele sacana!
Ele apontou para um Mitsubishi com um único eixo, bem no meio. O carro repousava sonolentamente sobre o para-choque dianteiro.
— Se eu faço errado, tento de novo, espero o meu lugar dos sonhos se recuperar, faço de novo, faço errado, faço de novo.
— O que você quer dizer com se recuperar? — repetiu Ronan.
— O lugar dos sonhos se esgota — disse Kavinsky. — O Walmart não consegue produzir TVs a noite inteira! Ele está se cansando agora. Você não percebe?
Era isso que ele sentira? O desgaste nas extremidades? No momento, ele só conseguia sentir ansiedade, entorpecida até a lentidão de raciocínio pela cerveja.
— Não tenho tempo para praticar. Eu preciso dele agora ou não vou poder voltar.
— Você não precisa voltar — disse Kavinsky.
Essa era a coisa mais sem sentido que ele havia dito desde que toda aquela experiência começara. Ronan nem deu ouvidos.
— Vou fazer de novo. Vou fazer certo dessa vez.
— Ãhã, com certeza.
Kavinsky pegou mais álcool — talvez ele tivesse sonhado aquilo também — e se sentou com Ronan sobre o capô do Camaro defeituoso. Eles beberam em silêncio por vários minutos. Kavinsky derramou um punhado de pílulas verdes na palma da mão de Ronan; ele as embolsou. Ele desejou fervorosamente algo além de Twizzlers. Ele estava exausto dos sonhos.
Se Gansey o visse agora... O pensamento se retorceu e enegreceu dentro dele, encolhido como papel queimado.
— Rodada bônus — disse Kavinsky. Então: — Abra.
Ele colocou uma pílula impossivelmente vermelha na língua de Ronan. Este sentiu apenas por um instante gosto de suor, borracha e gasolina na ponta dos dedos. Então a pílula atingiu seu estômago.
— O que essa faz? — perguntou Ronan.
— A morte é um efeito colateral chato.
Levou apenas um momento.
Ronan pensou: Espera, mudei de ideia.
Mas não havia como voltar atrás.
Ronan era um estranho em seu próprio corpo. O pôr do sol atingiu sua visão, enviesado e insistente. Enquanto seus músculos se contraíam, ele se encolheu contra o peito e então pousou o rosto contra o capô, o calor do metal não chegava a ser doloroso o suficiente para ser insuportável. Ronan fechou os olhos. Aquela não era a pílula lançar-se-ao-sono de antes. Era uma fatalidade líquida. Ele podia sentir seu cérebro se desligando.
Após um momento, ouviu o capô ranger enquanto Kavinsky se inclinava sobre ele.
Então sentiu um dedo como um calo áspero passar lentamente sobre a pele de suas costas. Um arco lento entre as omoplatas, desenhando o padrão de sua tatuagem. Então deslizando espinha abaixo, retesando cada músculo pelo qual ele passava.
O detonador dentro dele estava queimando por nada, nada mesmo.
Ronan não se mexeu. Se ele se mexesse, o toque sobre sua espinha o perfuraria — um ferimento como aquela pílula. Não haveria volta.
Mas, quando seus olhos se semicerraram, lutando contra o sono, Kavinsky estava simplesmente cheirando outra carreira de cocaína no capô, o corpo estendido sobre o para-brisa.
Talvez ele tenha imaginado isso. O que era real?
Novamente o Camaro estava estacionado nas árvores de sonho. Novamente a Garota Órfã estava agachada do outro lado dele, com os olhos tristes. As folhas tremulavam e desapareciam.
Ele sentiu o poder daquele lugar desaparecendo.
E se arrastou até o carro.
Dentro.
Fora.
— Ronan — sussurrou a Garota Órfã. — Quid furantur a nos?
(Por que você rouba de nós?)
Ela parecia descorada como Noah, manchada como os mortos.
Ronan sussurrou:
— Só mais um. Por favor. — Ela o encarou. — Unum. Amabo te. Não é para mim.
Dentro.
Fora.
Mas Ronan não se escondeu dessa vez. Ele não era um ladrão. Em vez disso, ficou de pé e saiu de seu esconderijo. Subitamente consciente de sua presença, o sonho estremeceu em volta dele. Oscilou. As árvores se inclinaram para trás.
Ele não roubara Motosserra, a coisa mais verdadeira que já tirara de um sonho. E não roubaria um carro. Não dessa vez.
— Por favor — disse Ronan de novo. — Me deixe levar.
Ele correu a mão sobre a linha elegante do teto. Quando levantou a palma da mão, ela estava coberta de verde. Seu coração palpitou enquanto ele esfregava as pontas dos dedos cobertas de pólen umas nas outras. O ar estava subitamente quente, o suor grudento na dobra dos cotovelos, a gasolina pinicando as narinas. Aquilo era uma lembrança, não um sonho.
Ele abriu a porta. Quando entrou, o assento queimou sua pele nua. Ronan estava consciente de tudo à sua volta, até o vinil desgastado abaixo das manivelas da janela inapropriadamente restauradas.
Ele estava perdido no tempo. Estava dormindo?
— Chame o carro pelo nome — disse a Garota Órfã.
— Camaro — disse Ronan. — Pig. Do Gansey. Cabeswater, por favor.
Ele virou a chave. O motor girou, girou, girou, melindroso como sempre.
Quando pegou, Ronan acordou.
Kavinsky abriu um largo sorriso no para-brisa para ele. Ronan estava sentado no banco do motorista do Pig.
O ar saiu crepitando das ventilações de ar-condicionado, cheirando a gasolina e a fumaça de descarga. Ronan não precisava olhar debaixo do capô para saber que o tremor que ele sentia nos pés vinha de um motor de verdade.
Sim-sim-sim.
Além disso, Ronan pensou que sabia por que Cabeswater havia desaparecido. O que significava que ele talvez soubesse como trazê-la de volta. O que significava que talvez pudesse trazer sua mãe de volta. O que significava que talvez pudesse fazer Matthew sorrir um pouco mais. O que significava que tinha algo além de um carro restaurado para trazer de volta para Gansey.
Ele baixou a janela.
— Estou indo.
Por um momento, o rosto de Kavinsky ficou absolutamente desconcertado, e então Kavinsky voltou a si. Ele disse:
— Você está de sacanagem comigo.
— Vou mandar flores.
Ronan pisou no acelerador. Fumaça e pó redemoinhavam como uma tempestade atrás do Camaro. Ele tossia a duas mil e oitocentas rotações por minuto.
Igualzinho ao Pig.
Tudo voltara a ser como antes.
— Correndo de volta para o mestre?
— Foi divertido — disse Ronan. — Mas chegou a hora de brincar de gente grande.
— Você é uma peça no jogo dele, Lynch.
A diferença entre a gente e o Kavinsky, sussurrou Gansey ao ouvido de Ronan, é que a gente importa.
— Você não precisa dele, cacete — disse Kavinsky.
Ronan soltou o freio de mão.
Kavinsky ergueu uma mão como se fosse bater em algo, mas não havia nada a não ser ar.
— Você está de sacanagem comigo.
— Eu nunca minto — disse Ronan. Ele franziu o cenho sem conseguir acreditar.
O cenário era mais bizarro que qualquer coisa que tivesse acontecido até aquele momento.
— Espera. Você pensou... Jamais seriamos eu e você. Foi isso que você pensou?
Kavinsky parecia magoado.
— Só existe comigo ou contra mim.
O que era risível. Sempre fora Ronan contra Kavinsky. Com nunca fora uma possibilidade.
— Jamais seriamos eu e você.
— Vou acabar com você — Kavinsky disse.
O sorriso de Ronan era afiado como uma faca. Já haviam acabado com ele.
— Vai sonhando.
Kavinsky fez uma arma com o polegar e o indicador e colocou na têmpora de Ronan.
— Bang — disse baixinho, retirando a arma falsa. — A gente se vê nas ruas.

4 comentários:

  1. DESCOBRIRAM????? O segredo?
    Até deu dó do Kavinsky, kkkk ele pensou que os dois iam dar certo, kkkkkk

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  2. Gente,Nao me julguem, mas eu shippava kkk

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    Respostas
    1. Eu também!! Os dois poderiam ficar melhor juntos, se consertarem.

      j.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!