20 de junho de 2018

Capítulo 44

Existem árvores, e existem árvores à noite. Árvores depois de escurecer se tornam coisas móveis, sem cor e sem tamanho definido. Quando Adam chegou a Cabeswater, o local parecia um ser vivo. O vento entre as folhas era como a brisa de uma expiração, e o sibilar da chuva nas copas, como um suspiro contido. O ar cheirava a terra molhada.
Adam lançou um facho da lanterna para a entrada da mata. A luz mal penetrou as árvores, engolida pela chuva de primavera intermitente que começava a encharcar seu cabelo.
Pena que não pude fazer isso durante o dia, ele pensou.
Ele não tinha fobia do escuro. Uma fobia significava um medo irracional, e Adam achava que tinha motivos suficientes para estar com medo em Cabeswater após o pôr do sol. Pelo menos, ponderou, se o Whelk estiver aqui com uma lanterna, eu o verei.
Não chegava a ser um grande consolo, mas Adam tinha vindo de muito longe para voltar. Lançou mais um olhar à sua volta — você sempre se sentia observado naquele lugar — e então avançou na direção do gorgolejar invisível do pequeno regato, mata adentro.
Estava claro.
Baixando subitamente o queixo e com os olhos quase fechados, Adam protegeu o rosto com sua lanterna. As pálpebras queimavam vermelhas com a diferença da escuridão para a luz. Lentamente, ele as abriu de novo. Em toda parte ao seu redor, a floresta brilhava com a luz da tarde. Hastes de ouro em pó penetravam a copa das árvores e cobriam de manchas o regato diáfano à sua esquerda. Sob a luz oblíqua, as folhas se tornavam amarelas, marrons, cor-de-rosa. O líquen peludo nas árvores era laranja-escuro.
Sua mão se tornara rosa e bronzeada. O ar se movia lento em torno de seu corpo, de certa maneira tangível, folheado a ouro, como se cada grão de poeira fosse uma lanterna.
Não havia sinal da noite, e não havia sinal de ninguém mais nas árvores.
Lá no alto, um pássaro cantou, o primeiro que Adam se lembrava de ouvir na mata. Foi um canto longo e agudo, somente quatro ou cinco notas. Era como o som que as cornetas de caça faziam no outono. Longe, longe, longe. O canto deixou Adam maravilhado e entristecido ao mesmo tempo, a marca de Cabeswater de beleza agridoce.
Este lugar não deveria existir, pensou Adam, e imediatamente pensou o contrário. Cabeswater ficara claro assim que Adam desejara que ele não estivesse escuro, como havia mudado a cor dos peixes no laguinho tão logo Gansey pensou que seria melhor se eles fossem vermelhos. Cabeswater era tão literal quanto Ronan. Ele não sabia se poderia pensá-lo até que se esvanecesse, e não queria descobrir.
Adam precisava cuidar de seus pensamentos.
Ele desligou a lanterna, guardou-a na mochila e avançou ao longo do pequeno regato que eles haviam seguido da primeira vez. O riozinho estava cheio pela água da chuva, o que tornava mais fácil acompanhar a direção da nascente, seguindo um caminho de relva recentemente pisada montanha abaixo.
Adiante, Adam viu reflexos se movendo com lentidão nos troncos das árvores, a forte luz oblíqua da tarde se espelhando na superfície do laguinho misterioso que eles haviam encontrado no primeiro dia.
Ele estava quase lá.
Tropeçou. Seu pé havia virado sobre algo duro e inesperado.
O que é isso?
A seus pés, havia uma tigela larga e vazia, de um roxo feio e brilhante, estranho e artificial para estar naquele lugar.
Confusos, os olhos de Adam deslizaram da tigela seca para outra, a aproximadamente dez metros dali, igualmente proeminente em meio às folhas cor-de-rosa e amarelas no chão. A segunda tigela era idêntica à que estava a seus pés, à diferença de que essa última estava cheia até a borda com um líquido escuro.
Adam se espantou mais uma vez pelo fato de aquele objeto tão artificial estar ali, em meio às árvores. Então se sentiu confuso novamente quando percebeu que a superfície da tigela estava inalterada e perfeita; nenhuma folha, lodo, galhos ou insetos desfiguravam o líquido escuro. O que significava que a tigela havia sido cheia recentemente.
O que significava...
A adrenalina atingiu seu sistema um segundo antes de ele ouvir uma voz.


Amarrado no banco de trás do carro, Whelk estava tendo dificuldade em decidir quando tomaria a iniciativa para se libertar. A questão era que Neeve claramente tinha um plano, o que era muito mais do que Whelk poderia dizer de si mesmo. E parecia extremamente improvável que ela tentasse matá-lo até que tivesse arrumado todos os detalhes do ritual. Então Whelk deixou que ela o levasse em seu próprio carro, agora com um ranço de alho e cheio de migalhas, até a entrada da mata. Como Neeve não era corajosa o suficiente para tirar o carro da estrada — fato pelo qual ele era muito grato —, ela o estacionou em uma pequena rotatória de cascalho, e eles fizeram o restante do trajeto a pé. Ainda não estava escuro, mas mesmo assim Whelk tropeçou sobre montículos de relva no caminho.
— Desculpe — disse Neeve. — Eu procurei no Google Maps um lugar mais próximo para estacionar.
Whelk, incomodado por absolutamente tudo a respeito de Neeve, das mãos delicadas e fofas à saia longa e rodada e o cabelo ondulado, respondeu sem grande civilidade:
— Por que você se dá ao trabalho de pedir desculpas? Não está planejando me matar?
Neeve fez uma careta.
— Eu gostaria que você não falasse assim. Você está destinado a ser um sacrifício. Ser um sacrifício é algo admirável, uma adorável tradição. Além disso, você merece isso. É justo.
Whelk disse:
— Se você me matar, quer dizer que alguém deve matá-la por uma questão de justiça? No futuro?
Ele tropeçou em mais um feixe de relva, e dessa vez Neeve não se desculpou nem respondeu a suas perguntas. Em vez disso, fiou nele um olhar de uma duração interminável. Era tão profundamente penetrante quanto exaustivamente comprido.
— Por um breve momento, Barrington, admito que senti um ligeiro arrependimento por ter te escolhido. Você parecia muito agradável até eu lhe aplicar o taser.
É difícil manter uma conversa civilizada após a lembrança de que alguém usou um taser no outro. Então, os dois terminaram a caminhada em silêncio. Era um sentimento estranho para Whelk estar de volta à mata onde ele vira Czerny vivo pela última vez. Ele havia pensado que uma mata era somente isso e que ele não seria afetado ao voltar, especialmente em uma hora diferente do dia. Mas algo a respeito da atmosfera imediatamente o levou de volta para aquele momento, com o skate na mão, a pergunta triste presa na respiração agonizante de Czerny.
Os sussurros sibilavam e pipocavam em sua cabeça, como um fogo prestes a ser aceso, mas Whelk os ignorava.
Ele sentia falta da sua vida. Ele sentia falta de tudo a respeito dela: a despreocupação, os Natais extravagantes em família, o pedal do acelerador embaixo do pé, o tempo livre que parecia uma bênção em vez de uma maldição vazia. Sentia falta de matar aulas e de participar delas, de pichar a placa de Henrietta na I-64 depois de ficar extraordinariamente bêbado no seu aniversário. Ele sentia falta de Czerny.
Ele não se permitira pensar nisso nem uma vez nos últimos sete anos. Ao contrário, Whelk havia tentado se convencer da inutilidade de Czerny e da praticidade da morte.
No entanto, ele se lembrou do som que Czerny fez na primeira vez em que ele o acertou.
Neeve não precisou dizer para Whelk se sentar calmamente enquanto ela arranjava o ritual. Enquanto ela arrumava os cinco pontos do pentagrama, com uma vela apagada, uma vela acesa, uma tigela vazia, uma tigela cheia e três pequenos ossos dispostos em forma de triângulo, ele se sentou com os joelhos dobrados perto do queixo e as mãos ainda amarradas nas costas, desejando encontrar forças para chorar. Algo para aliviar aquele peso terrível dentro dele.
Neeve o olhou de relance e imaginou que Whelk estava chateado com sua morte próxima.
— Ah — ela disse suavemente —, não fique assim. Não vai doer muito. — Depois reconsiderou o que havia dito e corrigiu: — Pelo menos não por muito tempo.
— Como você vai me matar? Como funciona esse ritual?
Neeve franziu o cenho.
— Não é uma pergunta fácil. É como perguntar a um pintor por que ele escolheu aquelas cores. Às vezes não é um processo, mas um sentimento.
— Muito bem, então — disse Whelk. — O que você está sentindo?
Neeve pressionou no lábio uma unha malva perfeitamente cuidada enquanto examinava seu trabalho.
— Eu fiz um pentagrama. É uma forma forte para qualquer tipo de feitiço, e eu trabalho bem com ele. Alguns o consideram desafiador ou muito limitante, mas ele me satisfaz. Tenho a vela acesa para dar energia e a vela apagada para chamar energia. A tigela de leitura para ver o outro mundo e a tigela vazia para o outro mundo enchê-la. Cruzei os ossos das pernas de três corvos que matei para mostrar ao caminho dos mortos a natureza do feitiço que quero fazer. E então acho que vou sangrar você no centro do pentagrama enquanto invoco a linha para despertar.
Ela olhou duro para Whelk ao dizer isso, e então acrescentou:
— Talvez eu mude um pouco o ritual ao longo da execução. Essas coisas precisam ser flexíveis. As pessoas raramente demonstram interesse na mecânica do meu trabalho, Barrington.
— Eu estou muito interessado — disse ele. — Às vezes o processo é a partemais interessante.
Quando ela deu as costas para pegar as facas, ele escorregou as mãos do laço. Então escolheu um galho caído e acertou a cabeça de Neeve com toda a força que conseguiu reunir. Whelk não achou que seria suficiente para matá-la, pois o galho ainda era verde e macio, mas certamente a deixou de joelhos.
Neeve gemeu e balançou a cabeça lentamente, e Whelk lhe acertou mais um golpe para não ter dúvidas. Ele a amarrou com o laço do qual tinha conseguido se desvencilhar — fez um nó bem apertado, tendo aprendido com os erros dela — e a arrastou meio desmaiada até o centro do pentagrama.
Quando ele ergueu o olhar, viu Adam Parrish.


Era a primeira vez que Blue sentia como se fosse verdadeiramente perigoso para ela estar em Cabeswater — perigoso porque ela tornava as coisas mais intensas. Mais poderosas. Ao chegarem à mata, a noite já parecia carregada. A chuva havia dado lugar a um chuvisqueiro intermitente. A combinação do sentimento carregado e da chuva fez Blue olhar com bastante ansiedade para Gansey quando ele saiu do carro, mas seus ombros mal estavam úmidos e ele não estava usando o uniforme da Aglionby. Ele definitivamente estava usando o blusão com o corvo quando ela o viu na vigília da igreja, e seus ombros estavam definitivamente mais molhados. Certamente ela não havia conseguido mudar o futuro dele o suficiente para tornar aquela noite a ocasião em que ele morreria, não é? Certamente ela estivera fadada o tempo inteiro a encontrá-lo, tendo em vista que deveria matá-lo ou se apaixonar por ele. E certamente Persephone não os teria deixado ir se sentisse que aquela era a noite em que Gansey morreria.
Eles abriram caminho com o facho das lanternas e encontraram o Pig estacionado próximo de onde haviam encontrado o Mustang de Noah. Vários caminhos pisoteados levavam do carro para a mata, como se Adam tivesse sido incapaz de decidir por qual vereda entrar.
Ao ver o Camaro, o rosto de Gansey, que já era sério, ficou realmente duro como uma pedra. Nenhum deles falou enquanto eles passavam pela linha das árvores.
Na beira da mata, o sentimento de carga, de possibilidade, imediatamente ficou mais pronunciado. Lado a lado, eles entraram em meio às árvores e, entre um piscar e outro de olhos, se viram cercados por uma luz sonhadora e vespertina.
Mesmo tendo se preparado para a magia, Blue estava atônita com o que via.
— O que está se passando na cabeça do Adam? — murmurou Gansey, mas para ninguém em particular. — Como ele pode brincar com... — e perdeu o interesse em responder à própria pergunta.
Diante deles estava o Mustang de Noah, na luz dourada de outro mundo, parecendo ainda mais surreal que da primeira vez em que eles o tinham encontrado. Raios de sol pálidos atravessavam a copa das árvores, formando listras sobre o teto coberto de pólen.
Parada na frente do carro, Blue chamou a atenção dos garotos. Eles se juntaram a ela, olhando fixamente para o para-brisa. Desde que eles haviam estado pela última vez na clareira, alguém havia escrito uma palavra no vidro empoeirado. Em letras arredondadas e escritas à mão, lia-se: ASSASSINADO.
— Noah? — perguntou Blue para o ar vazio, embora ele não parecesse tão vazio. — Noah, você está aqui com a gente? Foi você quem escreveu isso?
Gansey disse:
— Ah.
Foi um ruído abafado e, em vez de pedir que ele esclarecesse, Blue e Ronan seguiram seu olhar para a janela do lado do motorista. Um dedo invisível estava no processo de desenhar outra letra no vidro. Embora Blue achasse que só podia ser Noah quem escrevera a primeira palavra, em sua cabeça ela ainda o imaginava tendo um corpo enquanto escrevia. Observar as letras aparecerem espontaneamente era muito mais difícil. Fazia com que ela pensasse em Noah com os buracos escuros no lugar dos olhos, a face esmagada, a forma quase desumana. Mesmo na tarde quente da mata, ela sentiu frio.
É o Noah, ela pensou. Drenando energia de mim. É isso que eu sinto.
No vidro, a palavra tomou forma.
ASSASSINADO.
Mais uma palavra começou a ser desenhada. Não havia espaço suficiente entre o O e a próxima palavra, então esta obliterou parcialmente a primeira.
ASSASSINADO.
E de novo, de novo, de novo, uma sobre a outra:
ASSASSINADO.
ASSASSINADO.
ASSASSINADO.
A escrita continuou até que o vidro do lado do motorista ficou limpo, inteiramente varrido por um dedo invisível, até que havia tantas palavras que nenhuma delas podia ser lida. Então era apenas uma janela em um carro vazio com a memória de um hambúrguer sobre o banco do passageiro.
— Noah — disse Gansey. — Eu sinto muito.
Blue secou uma lágrima.
— Eu também.
Ronan deu um passo à frente, se inclinou sobre o capô do carro, pressionou o dedo contra o para-brisa e, enquanto eles observavam, escreveu:
LEMBRADO.
A voz de Calla falou na cabeça de Blue, tão claramente que ela se perguntou se alguém mais podia ouvi-la: Um segredo matou o seu pai e você sabe qual era.
Sem nenhum comentário, Ronan colocou as mãos nos bolsos e se embrenhou mata adentro.
A voz de Noah sibilou no ouvido de Blue, fria e urgente, mas ela não conseguia compreender o que ele estava tentando dizer. Ela pediu que ele repetisse, mas não adiantou. Esperou em vão por mais alguns segundos, mas ainda assim — nada.
Adam estava certo: Noah estava ficando cada vez menos presente.
Agora que Ronan tinha tomado a dianteira, Gansey parecia ansioso em seguir em frente. Blue compreendeu totalmente. Parecia importante manter todos dentro do campo de visão uns dos outros. Cabeswater parecia um lugar onde as coisas se perderiam a qualquer momento.
— Excelsior — disse Gansey sombriamente.
Blue perguntou:
— Isso quer dizer alguma coisa?
Gansey olhou para ela por cima do ombro. Ele estava, mais uma vez, um pouco mais parecido com o garoto que ela vira no adro da igreja.
— Adiante e acima.

2 comentários:

  1. Agora o Noah me deu um certo arrepio..

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  2. — Eu estou muito interessado — disse ele. — Às vezes o processo é a partemais(isso tá errado?) interessante.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!