3 de junho de 2018

Capítulo 44

Ei, vocês são dríades?
Isso é bem sério
Adeus, cavalinho

— VIVA A MEG MCCAFFREY! — gritou a dríade líder. — Viva a solucionadora do enigma!
— VIVA! — concordaram as outras, erguendo bem os joelhos ao marchar, batendo as lanças nos escudos e se prontificando a buscar enchiladas.
Será que Meg merecia mesmo todos aqueles vivas? Fica aí o questionamento. Eu poderia tranquilamente ter resolvido o enigma, se não tivesse acabado de ser magicamente meio esfolado e preso a correntes ardentes. Também tinha certeza de que Meg só sabia que era um acróstico porque eu já tinha explicado o que era.
Mas tínhamos problemas maiores. Naquela hora, a câmara começou a tremer. Poeira caía do teto, e algumas pedras se soltaram e desabaram na poça ardente de icor.
— Temos que ir embora — anunciou Herófila. — A profecia está completa, e eu estou livre. Este salão não vai durar muito tempo.
— Gostei dessa ideia de ir embora! — concordou Grover.
Eu também tinha gostado, mas ainda tinha uma promessa — uma que eu pretendia cumprir, mesmo que Estige já me odiasse no momento.
Eu me ajoelhei na beirada da plataforma e olhei para o icor borbulhante.
— Hã, Apolo? — chamou Meg.
— Devemos puxá-lo? — perguntou uma dríade.
— Devemos empurrá-lo? — sugeriu outra.
Meg não respondeu. Talvez estivesse avaliando qual era a melhor opção.
Tentei me concentrar no fogo abaixo, e murmurei:
— Hélio, sua prisão acabou. Medeia está morta.
O icor se agitou e brilhou. Senti a raiva daquela meia consciência do titã.
Agora que estava livre, será que Hélio considerava atravessar os túneis com seu poder, transformando toda aquela área num deserto? Ele também não devia estar muito feliz de ter dois pandai, algumas plantas e sua neta maligna despejados em sua essência boa e efervescente.
— Olha, você tem todo o direito de estar irritado — argumentei. — Mas, sabe, eu me lembro de como você era. Do seu brilho, do seu calor. Eu me lembro de como você era amigo dos deuses e dos mortais da Terra. Nunca vou conseguir fazer um trabalho tão magnífico quanto o seu, nunca vou ser um deus do Sol tão bom, mas sempre tento honrar sua memória, lembrar suas melhores qualidades.
O icor borbulhou ainda mais intensamente.
Estou só conversando com um velho amigo, disse a mim mesmo. Não é nem um pouco como convencer um míssil intercontinental a não disparar por conta própria.
— Eu vou resistir. Vou recuperar a carruagem do Sol. E, enquanto eu for o condutor dela, você será lembrado. Manterei seus antigos caminhos pelo céu. Mas você sabe, mais do que ninguém, que o fogo do Sol não pertence à Terra, nem foi feito para destruir a Terra, apenas para aquecer a superfície! Calígula e Medeia transformaram você em uma arma, mas não permita que eles vençam! Você só precisa descansar. Volte para o éter do Caos, meu velho amigo. Fique em paz.
O icor ficou branco e incandescente. Meu rosto estava prestes a receber um peeling completo. De repente, a essência ardente tremeluziu e cintilou, como um lago de asas de mariposa. Então o icor sumiu. O calor se dissipou, as pedras nas plataformas flutuantes se desintegraram até virar pó e caíram no vão que aquele lago de lava tinha deixado. As terríveis queimaduras em meus braços sumiram, a pele rachada cicatrizou. A dor diminuiu para um nível tolerável de agonia, uma coisa só “fui torturado por seis horas”, e eu desabei no chão de pedra, tremendo e com frio.
— Você conseguiu! — gritou Grover, rindo, olhando para Meg e para as dríades, impressionado. — Estão sentindo? A onda de calor, a seca, os incêndios… acabaram!
— De fato — concordou a líder das dríades. — O servo fracote da Meg McCaffrey salvou a natureza! Viva a Meg McCaffrey!
— VIVA! — gritaram as outras dríades.
Eu não tinha forças para protestar.
A câmara ribombou, num tremor ainda mais violento. Uma enorme rachadura em ziguezague se abriu no meio do teto.
— Vamos sair daqui. — Meg se virou para as dríades. — Ajudem Apolo.
— A Meg McCaffrey mandou! — urrou a dríade líder.
Duas dríades me botaram de pé e me carregaram. Tentei me apoiar nos pés só para manter algum resquício de dignidade, mas era como tentar deslizar em patins com rodinhas de biscoitos molhados.
— Vocês sabem onde é a saída? — perguntou Grover.
— Agora sabemos — explicou uma das dríades. — É o caminho mais rápido até a natureza, coisa que sempre sabemos encontrar.
Em uma escala de zero a dez, em que dez é Socorro, vou morrer!, sair do labirinto era definitivamente um dez. Mas, como tudo que tinha acontecido naquela semana era um quinze, pareceu moleza. Os tetos dos túneis desabavam, o chão se abria. Monstros atacaram, mas foram prontamente assassinados por sete dríades ansiosas que não paravam de gritar “VIVA!”.
Enfim chegamos a um vão estreito, uma ladeira bem íngreme que subia na direção de um quadradinho de luz.
— Não foi por aqui que entramos — comentou Grover, aflito.
— Mas é bem perto — retrucou a dríade líder. — Nós vamos em frente.
Ninguém se opôs. As sete dríades ergueram os escudos e subiram em fila única. Piper e Herófila foram atrás, seguidos por Meg e Grover. Eu fui o último, já bem o suficiente para engatinhar sozinho sem chorar nem gemer demais.
Quando finalmente saí e fiquei de pé, a batalha já estava prestes a começar. Estávamos de volta à jaula do urso (como aquele poço conseguiu nos levar para lá, eu não sei). As Melíades tinham formado uma barreira protetora em volta da entrada do túnel, e meus amigos estavam logo atrás, empunhando suas armas. Logo acima, contornando a beirada do poço de cimento, doze pandai esperavam, as flechas já montadas nos arcos. Entre eles estava o grande corcel, Incitatus.
Quando me viu, o cavalo jogou a linda crina para o lado.
— Ah, então aí está Apolo. Parece que Medeia não conseguiu selar o trato, não foi?
— Medeia está morta — anunciei. — E você vai ser o próximo, se não fugir agora.
Incitatus relinchou.
— Nunca gostei daquela feiticeira. Você realmente espera que eu me renda? Lester, já se olhou no espelho? Você não está em condições de fazer nenhuma ameaça. Apesar de tudo, ainda estamos em vantagem aqui. Sem falar que você já viu a habilidade dos pandai com as flechas. Não sei quem são essas suas belas aliadas de armaduras de madeira, mas não importa. Aceite a derrota e se renda logo, sem reclamar. Cezão foi para o norte, para lidar com seus amigos lá na Baía de São Francisco, mas não vai ser difícil alcançar a frota. Meu garoto tem várias coisinhas especiais planejadas só para você.
Piper rosnou. Parecia que a mão de Herófila em seu ombro era a única coisa que a impedia de atacar nosso inimigo sozinha.
As espadas de Meg reluziram ao sol da tarde, e ela se virou para as dríades:
— Ei, moças dos freixos! Quão rápido vocês conseguem chegar lá em cima?
A líder deu uma olhada antes de responder:
— Bem rápido, ó Meg McCaffrey.
— Legal. — Então Meg se virou para o cavalo e os pandai: — Última chance de vocês se renderem!
Incitatus soltou um suspiro.
— Ai, tá bom.
— “Ai, tá bom”, você se rende? — indagou a menina.
— Não. Ai, tá bom, vamos matar vocês logo. Pandai
— Dríades, ATAQUEM!
— Dríades? — perguntou Incitatus, incrédulo.
Foi a última coisa que ele disse.
As Melíades avançaram, como se aqueles paredões de pedra só tivessem um degrau de altura. Os doze arqueiros pandai, os mais rápidos do Oeste, não conseguiram disparar uma única flecha antes de serem atravessados pelas lanças de freixo e virarem pó.
Incitatus relinchou, em pânico. Quando as Melíades o cercaram, ele empinou e coiceou com suas ferraduras de ouro, mas nem sua força lendária era páreo para aqueles espíritos das árvores, aquelas assassinas primordiais. O corcel hesitou e caiu, atravessado por várias lanças.
As dríades se viraram para Meg.
— A tarefa foi cumprida! — anunciou a líder. — A Meg McCaffrey vai querer as enchiladas agora?
Piper, ao meu lado, pareceu meio enjoada, como se, depois daquela carnificina, a vingança parecesse menos atraente.
— E eu achando que a minha voz era poderosa.
Grover concordou, perplexo:
— Eu nunca tive pesadelos com árvores, mas acho que, depois de hoje, isso vai mudar.
Até Meg parecia incomodada, como se só então compreendesse o poder que tinha recebido. Fiquei aliviado ao notar aquele incômodo; era sinal de que Meg continuava sendo uma boa pessoa. O poder deixa as pessoas boas incomodadas, em vez de satisfeitas e orgulhosas. É por isso que é raro ver pessoas boas no poder.
— Vamos sair daqui — decidiu ela.
— Para onde devemos ir, ó Meg McCaffrey? — perguntou a dríade líder.
— Para casa. Vamos para Palm Springs.
Não havia amargura em sua voz quando ela associou casa Palm Springs. Assim como as dríades, ela precisava voltar às suas raízes.

4 comentários:

  1. Damon Herondale, filho de Zeus7 de junho de 2018 02:48

    Me pergunto quem é melhor: as Melíades(dríades primordiais, que nasceram do sangue de Urano), os Curetes(que ensinaram Zeus a lutar, tbm nasceram do sangue de Urano) ou as Mênades(fãs loucas de Dionísio)

    Uma disputa interessante

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  2. Uau!Eu estou assustada é satisfeita! Tipo, eu já não aguentava mais aquele cavalo, mas o fato da batalha ter durado tipo dois parágrafos me deixou boquiaberta! Eu amei as moças àrvore hshshs sinceramente depois de tudo o que a gente passou merecíamos uma luta rápida e indolor!

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  3. poxa senti nesse capítulo uma leve pontada de pena de Hélio Hiperonio, o Sol, ele, que já foi uma das divindades mais importantes, lembrando no mesmo patamar que Zeus e Gaia, incluindo uma das maravilhas do mundo antigo sua, agora dissolvido no tártaro,.Parece incoerente que ele e Pã desapareceram enquanto os menores como Cimoleia e Potina continuaram, ainda que ele tenha pedido pra sair depois que Faetonte foi morto por Zeus, ficou desempregado enquanto o Apolo como vários talentos no currículo ficou no lugar dele. Porque todos os deuses solares tem que passar por esses crepusculos: ra, Hélio, Apolo, astris

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Boa leitura, E SEM SPOILER!