26 de junho de 2018

Capítulo 43

— Muito bem, princesa — disse Kavinsky, passando um pacote com seis latas de cerveja para Ronan. — Me mostre o que você pode fazer.
Eles estavam de volta à clareira próxima da feira. Estava brumoso, bruxuleante, ofuscante no calor. Aquele era um lugar apropriado para mais matemática de sonhos.
Cem Mitsubishis brancos. Duas dúzias de carteiras de motorista falsas. Os dois. Um dia. Dois? Três?
O tempo não fazia sentido. Os dias eram irrelevantes. Eles marcavam o tempo com sonhos.
O primeiro havia sido apenas uma caneta. Ronan acordou no ar-condicionado gelado do assento do passageiro, os dedos imóveis sobre a caneta plástica fina equilibrada sobre o seu peito. Como sempre, ele pairava acima de si mesmo, um não participante paralisado na própria vida. O alto-falante despejou algo que soava espirituoso, ofensivo e búlgaro. Moscas vorazes se aferravam esperançosamente ao exterior do para-brisa.
Kavinsky usava seus óculos brancos porque ele estava desperto.
— Uau, cara, isso é... uma caneta.
Tomando a caneta por debaixo dos dedos dóceis de Ronan, Kavinsky a testou sobre o painel. Havia algo de fascinante a respeito de sua total desconsideração por sua propriedade.
— O que é essa merda, cara? Parece a Declaração da Independência.
Assim como no sonho, a caneta escrevia tudo em uma caligrafia refinada, não importava quem a estivesse segurando. Kavinsky rapidamente se cansou de sua magia ingênua. Ele batucou com a caneta nos dentes de Ronan acompanhando a batida búlgara até a sensação voltar às mãos de Ronan e ele ser capaz de afastar a caneta.
Ronan achou que não era nada mau para um objeto de sonho produzido a seu comando. Mas Kavinsky olhou para a caneta desdenhosamente.
— Observe isso. — Pegando uma pílula verde, ele a jogou na boca e a engoliu com cerveja. Tirando os óculos escuros, pressionou os nós dos dedos em um dos olhos, fazendo careta. E então ele estava dormindo.
Ronan o observou dormir, a cabeça jogada para o lado, o pulso batendo visivelmente através da pele do pescoço.
O pulso de Kavinsky parou.
E então, com um sobressalto violento, ele despertou bruscamente, uma das mãos fechada em punho. A boca se abriu em um largo sorriso que surpreendeu Ronan. Com um giro teatral da mão, ele apresentou o seu objeto de sonho. Uma tampa de caneta. Ele contraiu os dedos até Ronan lhe passar a caneta de sonho.
A tampa, é claro, se encaixava perfeitamente. Tamanho certo, cor certa, brilho certo para o plástico. E por que ela não seria perfeita? Kavinsky era conhecido por suas falsificações.
— Amador — disse Kavinsky. — É assim que você vai sonhar as bolas do Gansey para devolver para ele.
— Você vai complicar, é? — demandou Ronan. Ele estava irado, mas não tanto quanto estaria antes de começar a beber. Ele colocou os dedos sobre a maçaneta da porta, pronto para sair. — Tipo, você quer se divertir com isso? Porque não estou tão ansioso assim para aprender com você. Posso descobrir sozinho.
— Claro que pode — disse Kavinsky. E ergueu um dedo para ele. — Dê essa caneta pra ele. Escreva um pequeno bilhete com ela. Com a letra do maldito George Washington: “Caro Dick, dirija isso, bjs. Ronan Lynch”.
Ronan não tinha certeza se fora Kavinsky usando seu nome de verdade ou a memória refrescada do Pig arruinado que o convenceu, mas ele largou a mão da porta.
— Deixe o Gansey fora disso.
Kavinsky fez um uuuh com a boca.
— Com todo prazer, Lynch. Olha só: você pega suas coisas do mesmo lugar todas as vezes, certo?
A floresta.
— Na maior parte das vezes.
— Volte lá então. Não vá a nenhum outro lugar. Por que você iria a outro lugar? Você quer ir onde estão suas coisas. É lá que você tem que ir. Você pensa no que quer antes de ir dormir, certo? Você sabe que a coisa vai estar lá, naquele lugar. Não deixe ela saber que você está lá. Ela vai mudar o cenário se você deixar. Você tem que entrar e sair, Lynch.
— Entrar e sair — repetiu Ronan. Não soava como um sonho que ele já tivera. — Como um ladrão filho da puta.
Kavinsky revelou outras duas pílulas verdes na mão. Uma ele pegou para si. A outra, ofereceu a Ronan.
— Nos encontramos do outro lado?
Cair no sono. Sim, você cai no sono. Você está desperto e então fecha os olhos e os pensamentos vêm com tudo e a lucidez o invade, mas então, no fim, você balança à beira do cochilo e cai.
Ronan não caiu no sono. Ele engoliu a pílula verde e foi jogado no sono. Lançado nele. Derrubado, batido, destruído. Ele rolou para aquela margem, uma versão esmigalhada de si mesmo, as pernas sumidas debaixo dele. As árvores se inclinaram sobre ele. O ar ria abertamente. Ladrão? Ele havia sido roubado. Dentro. Fora.
Lá estava o objeto que ele planejara levar. Era mesmo? Ele não conseguia dizer se era. As árvores abraçaram seus ramos em torno dele. A Garota Órfã o puxava e o puxava.
Dentro.
Fora.
A voz de Kavinsky, muito clara:
— A morte é um efeito colateral chato.
Ronan agarrou com esforço o metal da coisa. Dentro dele, um ventrículo se contraía incansavelmente. Sangue era despejado no átrio vazio de seu coração.
— SAI DAQUI! — gritou a Garota Órfã.
As pálpebras de Ronan se abriram subitamente.
— Bem-vindo de volta à terra dos vivos, marinheiro. — Kavinsky se inclinou sobre ele. — Lembre-se: você toma a pílula ou ela te toma.
Ronan não conseguia se mexer. Kavinsky bateu em seu peito com o punho para ajudá-lo.
— Você está bem — ele disse amigavelmente. E derramou um pouco de cerveja nos lábios dóceis de Ronan, depois a terminou sozinho. O sol parecia estranho do lado de fora do para-brisa, como se o tempo tivesse passado, ou o carro tivesse se movido. — Mas que diabos você tem por lá?
Os braços de Ronan recuperaram a sensação. Ele segurava uma gaiola de metal com um Camaro pequenino de vidro dentro dela, que não lembrava em nada a caixa de som que ele havia planejado trazer consigo. Era apenas ligeiramente parecido com o Camaro de verdade. Dentro do carro de vidro havia um motorista anônimo, a expressão facial vagamente chocada.
— Caro Dick — disse Kavinsky. — Dirija isso!
Dessa vez, Ronan riu. Kavinsky mostrou a ele seu próprio prêmio: uma arma de prata com as palavras “ASSASSINO DE SONHOS” gravadas no cano.
— Você não entrou furtivamente, não é? — ele disse de maneira acusadora. — Entre sem chamar atenção, saia sem chamar atenção. Pegue o lance, caia fora. Antes que o lugar perceba.
— Maldita pílula — disse Ronan.
— É uma droga maravilhosa. Minha mãe adora essas bolinhas, cara. Quando ela começa a quebrar as coisas em casa, eu esmago uma dessas para ela. Coloco na vitamina de frutas dela. Pode fazer piada agora, fera. É fácil, vá em frente. Deixei no ponto.
— Qual é o seu lugar?
Kavinsky deixou mais duas pílulas verdes sobre o painel; elas dançaram e tremeram na batida dos alto-falantes. A canção contou dissimuladamente a Ronan. Kavinsky lhe passou uma cerveja.
— Meu lugar secreto? Você quer ir no meu lugar secreto? — Kavinsky gargalhou abertamente. — Eu sabia.
— Tá bom, não me conte. Você coloca pílulas na bebida da sua mãe?
— Só quando ela rouba minhas coisas. Ela era muito sacana lá em Jersey.
Ronan não sabia muito a respeito da vida familiar de Kavinsky, fora a lenda que todos conheciam: seu pai, rico, poderoso e búlgaro, morava em Jersey, onde era possivelmente um mafioso. Sua mãe, bronzeada, em forma e feita de peças sob medida, morava com Kavinsky numa mansão no subúrbio. Essa era a história que Kavinsky contava. Essa era a lenda. O rumor era que o septo nasal de sua mãe tinha sido comido pela cocaína e que o instinto paternal de seu pai havia morrido quando Kavinsky tentara matá-lo.
Com Kavinsky, sempre fora difícil dizer o que era real. Agora, olhando para ele segurando uma arma de fogo de cromo fraudulentamente perfeita, ficava mais difícil ainda.
— É verdade que você tentou matar o seu pai? — perguntou Ronan. Ele encarou Kavinsky quando disse isso. Seu olhar irredutível era sua segunda melhor arma, após o silêncio.
Kavinsky não desviou o olhar.
— Eu nunca tento fazer nada, cara. Eu faço o que tenho a intenção de fazer.
— Dizem que é por isso que você está aqui e não em Jersey.
— Ele tentou me matar — respondeu Kavinsky. Seus olhos brilhavam. Ele não tinha íris. Apenas preto e branco. A linha do seu sorriso era feia e lasciva. — E ele nem sempre faz o que tem intenção de fazer. E, de qualquer maneira, sou mais difícil de matar do que isso. Você matou o seu velho?
— Não — disse Ronan. — Isso matou ele.
— Tal pai, tal filho — observou Kavinsky. — Pronto para ir de novo?
Ronan estava.
Pílulas na língua. Seguidas de cerveja.
Dessa vez, ele viu o chão vindo. Como ser cuspido do ar. Ele não teve tempo de segurar o pensamento, prender a respiração, curvar o corpo. Rolou sonho adentro.
Rápido. Jogado de um veículo em movimento.
Sem fazer ruído algum, Ronan rolou na direção das árvores.
Elas observaram umas às outras. Um pássaro estranho guinchou. A Garota Órfã não estava em parte alguma.
Ronan se agachou. Ele estava sereno como a chuva embaixo de uma raiz. Então pensou:
Bomba.
E lá estava, um coquetel molotov, não muito diferente daquele que havia jogado no Mitsubishi. Três pedras se projetavam para fora do solo úmido da floresta, apenas as pontas visíveis, os dentes erodidos, as gengivas musgosas. A garrafa estava virada entre elas.
Ronan rastejou para frente e fechou os dedos em torno do gargalo coberto de orvalho.
Te vidimus, Greywaren, sussurrou uma das árvores.
(Estamos vendo você, Greywaren.)
Ele cerrou a mão em torno da bomba e sentiu o sonho se movendo, se movendo...
Ronan despertou com a explosão.
Kavinsky já estava de volta, cheirando uma carreira de cocaína no painel. A luz na rua estava sombria e sem brilho, passado o crepúsculo. O pescoço e o queixo estavam iluminados como uma atração de jardim pelas luzes do painel abaixo. Ele limpou o nariz.
Sua expressão já interessada se aguçou quando ele viu o objeto de sonho de Ronan.
Ronan estava paralisado como sempre, mas podia ver perfeitamente bem o que havia acabado de produzir: um coquetel molotov idêntico àqueles da festa de embalo — uma camiseta enrolada e enfiada em uma garrafa de cerveja cheia de gasolina. Era idêntico ao do sonho.
Só que agora estava queimando.
A chama, bela e voraz, consumiu a camiseta e estava quase atingindo a garrafa. A gasolina havia derramado dos lados da garrafa, ávida por demolição.
Com um riso selvagem, Kavinsky apertou o botão da janela com o cotovelo e tomou a bomba. Ele a lançou, anoitecer adentro. A garrafa voou apenas dois metros antes de explodir, estilhaçando cacos de vidro contra a lateral do Mitsubishi e através da janela aberta. O cheiro era tremendo, uma batalha aérea, e o som tragou toda a audição dos ouvidos de Ronan.
Pendurando o braço para fora da janela e parecendo profundamente despreocupado, Kavinsky sacudiu cacos de vidro da pele para a grama. Dois segundos mais tarde e ele não teria braço para se preocupar. Ronan não teria rosto.
— Ei — disse Ronan. — Não toque nas minhas coisas.
Kavinsky virou os olhos pesados para Ronan, as sobrancelhas erguidas.
— Olha só.
Ele levantou seu objeto de sonho: um diploma emoldurado. Joseph Kavinsky, graduado com louvor pela Academia Aglionby. Ronan não tinha visto um para saber se o papel creme estava correto, ou se as palavras usadas eram precisas.
Mas reconheceu a assinatura espalhada da correspondência da Aglionby. O garrancho artístico do presidente Bell era inconfundível.
Era algo realmente contra o código de Ronan se deixar impressionar, muito menos demonstrar, mas a precisão e os detalhes eram impressionantes.
— Você é emotivo demais, Lynch — disse Kavinsky. — Está bem, eu entendo. Se você tivesse bolas, seria diferente. — Ele bateu com o dedo indicador na própria têmpora. — Isso aqui é o Walmart. Vá para a seção dos eletrônicos, pegue algumas TVs, caia fora. Não fique se demorando por lá. Isso ajudaria.
Ele gesticulou para o pó que ainda sujava o painel. Mal visível. Uma memória fina do pó. Ronan balançou a cabeça. Ele podia sentir os olhos de Gansey sobre ele.
— Você que sabe. — Kavinsky pegou outra caixa com seis latas de cerveja do banco de trás. — Pronto para ir?
E eles sonharam. Eles sonharam e sonharam, e as estrelas rodaram acima da cabeça deles e para longe, e a lua se escondeu nas árvores, e o sol se moveu em torno do carro.
O carro se encheu de aparelhos impossíveis e plantas urticantes, pedras cantantes e sutiãs rendados. À medida que a tarde esquentou, eles saíram do carro, tiraram a camisa suada e suaram no calor. Coisas grandes demais para caber no carro.
Repetidas vezes, Ronan partia para dentro da floresta em seus sonhos desordenados, se enfiava sorrateiramente entre as árvores e roubava algo. Ele estava começando a compreender o que Kavinsky queria dizer. O sonho era um subproduto de tudo aquilo; o sono era irrelevante. As árvores eram apenas obstáculos, uma espécie de sistema de alarme falho.
Assim que Ronan provocava um curto-circuito nele, conseguia tirar coisas da sua mente sem se preocupar que o próprio sonho as corrompesse.
A luz se estendia longa e fina, quase a ponto de se romper, e então havia a noite com seus reflexos tantalizantes de centenas de carros brancos. Ronan não sabia dizer se haviam se passado dias ou se era a mesma noite ainda. Há quanto tempo ele havia batido o Pig? Quando fora seu último pesadelo?
Então era de manhã. Ele não sabia se eles já tinham feito uma manhã, ou se aquela era uma nova em folha. A grama estava molhada, e o capô dos Mitsubishis suava gotas d’água, mas era difícil dizer se havia chovido ou se era só orvalho.
Ronan se sentou no para-lama traseiro de um dos Mitsubishis, a superfície lisa contra as costas nuas, e devorou um pacote de Twizzlers. Eles pareciam flutuar em álcool dentro dele. Kavinsky estava inspecionando a última obra de Ronan — uma motosserra. Após verificar que ela mutilava alguns pneus de outros Mitsubishis, ele voltou para onde Ronan estava e aceitou um único Twizzler. Ele estava chapado demais para dar a um alimento interesse maior do que um conceito.
— E então? — perguntou Ronan.
A brincadeira com a motosserra havia feito voar pequenas partículas de borracha pelo rosto e pelo peito desnudo de Kavinsky.
— Agora você sonha o Camaro.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!