20 de junho de 2018

Capítulo 43

A apenas um quilômetro e meio dali, na Rua Fox, 300, Blue levantou o olhar quando ouviu uma batida leve na porta rachada de seu quarto.
— Você está dormindo? — perguntou Maura.
— Sim — respondeu Blue.
Maura entrou no quarto.
— A sua luz estava acesa — ela observou e, com um suspiro, se sentou na beirada da cama de Blue, tão suave quanto um poema na luz fraca. Por longos minutos, ela não disse absolutamente nada, repassando as escolhas de leitura de Blue empilhadas na mesa de cartas enfiada na extremidade do colchão. Não havia nada de estranho naquele silêncio entre elas; desde quando Blue podia se lembrar, sua mãe entrava em seu quarto à noite, e juntas elas liam livros, cada uma num canto da cama. Seu velho colchão duplo parecia ter mais espaço quando Blue era pequena, mas, agora que ela tinha o tamanho de uma adulta, era impossível que elas se sentassem sem que joelhos ou cotovelos se tocassem.
Após alguns momentos de impaciência com os livros de Blue, Maura pousou as mãos no colo e olhou ao redor, para o pequeno quarto da filha. Ele estava iluminado por uma luz verde fraca da lâmpada na mesa de cabeceira. Na parede do outro lado da cama, Blue havia disposto árvores de lona, decoradas com uma colagem de folhas naturais e papel reciclado, e havia colado flores secas sobre toda a porta do armário embutido. A maioria delas ainda parecia bastante bem, mas algumas estavam um pouco passadas. O ventilador de teto estava enfeitado com penas coloridas e rendas. Blue vivera ali todos os dezesseis anos de sua vida, e o quarto não deixava dúvidas quanto a isso.
— Acho que eu devia me desculpar — disse Maura finalmente.
Blue, que estivera lendo e relendo sem grande sucesso um dever sobre literatura americana, largou o livro.
— Por quê?
— Por não ter sido franca, eu acho. Sabe, é muito difícil ser mãe. Eu culpo o Papai Noel. Você passa tanto tempo trabalhando duro para que seu filho não perceba que ele não existe que não sabe quando parar.
— Mãe, eu vi você e a Calla embrulhando meus presentes quando eu tinha, sei lá, seis anos.
— Foi uma metáfora, Blue.
Blue tamborilou no livro de literatura.
— Uma metáfora deve esclarecer algo com um exemplo. Isso não esclareceu nada.
— Você sabe o que eu estou querendo dizer ou não?
— O que você está querendo dizer é que lamenta por não ter me contado sobre o Chuchu.
Maura olhou furiosa para a porta, como se Calla estivesse parada atrás dela.
— Eu gostaria que você não o chamasse assim.
— Se tivesse sido você quem tivesse me contado sobre ele, eu não estaria usando o nome que a Calla me contou.
— Muito bem.
— Então, qual era o nome dele?
Sua mãe se recostou na cama. Ela estava de atravessado, de maneira que teve de recolher os joelhos para segurar os pés na beirada do colchão, e Blue teve de tirar as próprias pernas para evitar que fossem esmagadas.
— Artemus.
— Não é à toa que você preferiu Chuchu — disse Blue. Mas, antes que sua mãe tivesse tempo de dizer algo, ela acrescentou: — Espere... Artemus não é um nome romano? Latino?
— É. E eu não acho um nome feio. Eu não eduquei você para julgar os outros.
— Claro que educou — disse Blue. Ela estava se perguntando se era coincidência ter tanto latim em sua vida no momento. Gansey estava começando a contagiá-la, pois coincidências não pareciam mais tão coincidentes.
— Provavelmente — concordou Maura após um momento. — Escute. Isso é o que eu sei. Acho que o seu pai tem algo a ver com Cabeswater ou com a linha ley. Lá atrás, antes de você nascer, Calla, Persephone e eu estávamos envolvidas com coisas que provavelmente não deveríamos estar...
— Drogas?
— Rituais. Você está envolvida com drogas?
— Não. Talvez rituais.
— Drogas talvez sejam melhores.
— Não estou interessada nelas. Seus efeitos são comprovados. Onde está a graça disso? Conta mais.
Maura tamborilou um ritmo na barriga enquanto olhava para cima. Blue havia copiado um poema no teto, e era possível que ela estivesse tentando lê-lo.
— Bom, ele apareceu após um ritual. Acho que ele estava preso em Cabeswater e nós o soltamos.
— Você não perguntou?
— A gente não tinha... esse tipo de relação.
— Eu nem quero saber de que tipo era, se ela não envolvia conversar.
— A gente conversava. Ele era uma pessoa muito decente — disse Maura. — Era muito generoso. As pessoas o incomodavam. Ele achava que nós devíamos estar mais preocupadas com o mundo à nossa volta e como as nossas ações afetariam as coisas no futuro. Eu gostava dessa parte dele. Ele não era dado a sermões, era assim mesmo.
— Por que você está me contando isso? — perguntou Blue, porque ela estava um pouco incomodada ao ver a pressão inconstante dos lábios de Maura um contra o outro.
— Você disse que queria saber sobre ele. Eu estava te contando porque você lembra muito o Artemus. Ele teria gostado de ver o seu quarto, com todas essas merdas que você colocou nas paredes.
— Nossa, valeu — disse Blue. — Então, por que ele foi embora?
Logo após ter feito a pergunta, Blue percebeu que talvez tivesse sido direta demais.
— Ele não foi embora — disse Maura. — Ele desapareceu. Bem quando você nasceu.
— Isso se chama ir embora.
— Não acho que ele fez de propósito. Bom, num primeiro momento eu achei. Mas agora, pensando melhor e aprendendo mais sobre Henrietta, eu acho... Você é uma garota estranha. Eu nunca encontrei ninguém que fizesse médiuns ouvirem as coisas melhor. Eu não tenho certeza se não fizemos acidentalmente outro ritual quando você nasceu. Quer dizer, um ritual em que a parte final era você ter nascido. Isso pode ter prendido ele lá de novo.
Blue disse:
— Você acha que a culpa é minha!
— Não seja ridícula — disse Maura, endireitando-se. Seu cabelo estava todo amassado de se deitar sobre ele. — Você era apenas um bebê, como alguma coisa poderia ser sua culpa? Eu só pensei que talvez tenha sido isso que aconteceu. Foi por isso que eu liguei para a Neeve para ela procurá-lo. Eu gostaria que você entendesse por que eu liguei para ela.
— Você conhece a Neeve de verdade?
Maura balançou a cabeça.
— Pff. Nós não crescemos juntas, mas nos reunimos algumas vezes ao longo dos anos, apenas um dia ou dois, aqui ou ali. Nunca fomos amigas, muito menos irmãs de verdade. Mas a reputação dela... Nunca achei que a situação ficaria esquisita como ficou.
Elas ouviram passos avançando suavemente no corredor, então Persephone parou no vão da porta.
— Eu não queria interromper, mas em três ou sete minutos — disse Persephone — os garotos corvos vão encostar o carro na rua e esperar na frente da casa enquanto tentam encontrar uma maneira de convencer a Blue a escapulir com eles.
Maura coçou a pele entre as sobrancelhas.
— Eu sei.
O coração de Blue disparou.
— Isso parece terrivelmente específico.
Persephone e sua mãe trocaram um rápido olhar.
— Isso é outra coisa sobre a qual eu não fui muito sincera — disse Maura. — Às vezes Persephone, Calla e eu somos muito boas com questões específicas.
— Só às vezes — ecoou Persephone. Então, um pouco tristemente: — Cada vez mais, pelo visto.
— As coisas estão mudando — disse Maura.
Outra silhueta apareceu no vão da porta, e Calla disse:
— A Neeve ainda não voltou também. E ela mexeu no carro. Ele não liga.
Do lado de fora da janela, todas ouviram o som de um carro estacionando na frente da casa. Blue olhou suplicante para a mãe.
Em vez de responder, a mãe olhou para Calla e para Persephone.
— Diga que estamos erradas.
Persephone disse do seu jeito suave:
— Você sabe que eu não posso dizer isso, Maura.
Maura se pôs de pé.
— Vá com eles. Nós cuidaremos da Neeve. Espero que você entenda como isso é sério, Blue.
— Eu faço uma ideia — a garota respondeu.

Um comentário:

  1. Nossa, como eu amo esse livro <3 do fundo do coração mesmo <3

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Boa leitura, E SEM SPOILER!