3 de junho de 2018

Capítulo 43

Aí vai o melhor capítulo
É horrível, mas
Só tem uma morte ruim

ENTÃO ELA MORREU.
Não vou mentir, meus caros leitores. Quase toda essa narrativa foi muito difícil de escrever, mas aquela frase ali em cima me deu puro prazer. Ah, vocês tinham que ver a cara de Medeia!
Mas primeiro preciso voltar um pouco.
Querem saber como se deu esse maravilhoso acaso do destino?
Medeia ficou paralisada. Arregalou os olhos. E caiu de joelhos, soltando a faca. Então bateu de cara no chão, revelando uma recém-chegada: Piper McLean, com a armadura de couro por cima das roupas comuns, pontos novos no ferimento do lábio e o rosto ainda todo machucado, mas cheio de determinação. As pontas do cabelo estavam chamuscadas, e uma fina camada de cinzas cobria seus braços. Sua adaga, Katoptris, estava fincada nas costas de Medeia.
Atrás de Piper vinham sete donzelas guerreiras. A princípio achei que fossem as Caçadoras de Ártemis vindo me salvar uma segunda vez, mas aquelas guerreiras estavam armadas com escudos e lanças feitos de madeira cor de mel.
ventus atrás de mim parou e se desenrolou, e Meg e Grover desabaram no chão. As correntes derretidas em meus braços viraram pó de carvão, e Herófila me segurou quando ameacei desmoronar.
As mãos de Medeia estavam tremendo. Ela virou o rosto de lado e abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Piper se ajoelhou perto da feiticeira, tocando seu ombro num gesto quase carinhoso e delicado. Então, com a outra mão, puxou Katoptris, fincada nas costas de Medeia.
— Uma resposta à altura daquela sua bela facada nas costas. — Piper deu um beijo na bochecha de Medeia. — Eu lhe pediria para dar um “oi” a Jason por mim, mas ele vai para os Campos Elísios. Você… não.
Os olhos da feiticeira se fecharam, e ela parou de se mexer. Piper encarou as aliadas em suas armaduras de madeira.
— Que tal jogar essa bruxa no fogo?
— BOA IDEIA! — gritaram as sete donzelas, em uníssono.
Elas avançaram até Medeia, ergueram o corpo da feiticeira e, sem a menor cerimônia, o jogaram na poça ardente do avô.
Piper limpou o sangue da adaga na calça jeans. Com a boca inchada e cheia de pontos, seu sorriso era mais grotesco que simpático.
— Oi, pessoal.
Comecei a soluçar, um choro de partir o coração — provavelmente não era o que Piper esperava. Dei um jeito de me levantar, ignorando a dor lancinante nos tornozelos, e passei direto por ela, correndo para chegar até onde Clave estava caído, gorgolejando.
— Ah, meu bravo amigo...
Meus olhos ardiam com lágrimas. Eu não ligava para a dor excruciante que sentia, para minha pele queimada que gritava sempre que eu tentava me mexer.
O rosto peludo de Clave estava em choque. Sangue pontilhava seu pelo branco como a neve, e o abdome estava uma desgraça. Ele segurava o ukulele junto ao peito, como se fosse a única coisa que o ancorava ao mundo dos vivos.
— Você nos salvou — falei, com dificuldade. — Você… você conseguiu ganhar tempo para nós. Vou dar um jeito de curar esses ferimentos.
Ele me encarou, os olhos fixos, e conseguiu dizer:
— Música. Deus.
Ri, meio nervoso.
— Sim, meu jovem amigo. Você é um deus da música! Eu… eu vou lhe ensinar todos os acordes. Nós vamos fazer um concerto com as Nove Musas. Quando… Quando eu voltar para o Olimpo…
Minha voz falhou.
Clave não ouviu. Ele estava com os olhos vidrados, e a tensão nos músculos relaxou. Seu corpo murchou e foi se desfazendo em pó, desabando sobre si mesmo até restar apenas o ukulele, descansando em uma pilha de poeira — um pequeno monumento tristonho aos meus muitos fracassos.
Não sei quanto tempo passei ali, ajoelhado, atordoado e trêmulo. Chorar doía, mas eu chorei mesmo assim.
Depois de um tempo, Piper veio se ajoelhar ao meu lado. A garota parecia entender a minha dor, mas achei que, em algum lugar atrás daqueles lindos olhos multicoloridos, ela estava pensando: Mais uma vida perdida por sua causa, Lester. Mais uma morte que você não pôde consertar.
Mas ela não disse isso. Apenas guardou a adaga e falou:
— Depois a gente chora nossas perdas. Nosso trabalho ainda não acabou.
Nosso trabalho. Ela foi ajudar, mesmo depois de tudo, apesar de Jason… Eu não podia desmoronar naquele momento — pelo menos não mais do que já tinha desmoronado.
Peguei meu ukulele. Estava prestes a murmurar alguma promessa para os restos poeirentos de Clave, mas então me dei conta de resultado de minhas últimas promessas. Tinha prometido ensinar o jovem pandos a tocar qualquer instrumento que ele quisesse, e ele estava morto. Apesar do calor ardente daquela câmara, eu senti o olhar frio de Estige sobre mim.
Eu me apoiei em Piper, que me ajudou a chegar à plataforma onde Meg, Grover e Herófila esperavam. As sete guerreiras estavam ali perto, parecendo aguardar ordens.
Assim como os escudos, as armaduras eram peças muito bem elaboradas de madeira. As mulheres eram imponentes, todas com quase dois metros de altura, os rostos tão lustrosos e belamente esculpidos quanto as armaduras. Os cabelos de vários tons de branco, louro, dourado e castanho-claro caíam pelas costas em cascatas de tranças. Seus olhos eram de um tom verde-clorofila, assim como as veias aparentes dos membros musculosos.
Eram dríades, mas diferentes de qualquer outra dríade que eu conhecesse. Nunca vi nada igual.
— Vocês são as Melíades — constatei.
As mulheres me olharam com um interesse perturbador, como se quisessem tanto dançar comigo quanto lutar contra mim e me jogar no fogo.
A da extrema esquerda falou:
— Nós somos as Melíades. Você é A Meg?
Pisquei, confuso. Elas pareciam esperar por um sim, mas, mesmo naquele meu estado deplorável, eu tinha certeza de que não era Meg.
— Ei, pessoal, a Meg McCaffrey é esta aqui — interveio Piper, apontando para a pessoa certa.
As Melíades saíram marchando, erguendo os joelhos mais alto do que era de fato necessário, e se agruparam em um semicírculo ao redor de Meg, como se estivessem fazendo uma manobra marcial. Então pararam, bateram as lanças nos escudos uma vez e baixaram a cabeça respeitosamente.
— VIVA A MEG MCCAFFREY! — gritaram. — FILHA DE QUEM NOS CRIOU!
Grover e Herófila chegaram para o canto, quase como se quisessem se esconder atrás da privada da Sibila.
Meg examinou as sete dríades. Minha jovem mestra estava com o cabelo desgrenhado pelo ventus. A fita isolante tinha se soltado dos óculos, e ela parecia estar usando dois monóculos encrustados de pedrinhas. As roupas tinham voltado a ser um conjunto de trapos queimados e rasgados — uma aparência que, na minha opinião, era exatamente a que A Meg McCaffrey deveria ter.
Ela usou de sua eloquência habitual:
— Oi.
Piper curvou os lábios num quase sorriso.
— Encontrei essas mulheres na entrada do Labirinto. Elas vieram atrás de você. Disseram que ouviram sua música.
— Minha música? — perguntou Meg.
— A música! — gritou Grover. — Funcionou?
— Nós atendemos ao chamado da natureza! — exclamou a dríade líder.
Isso tinha um significado diferente para os mortais, mas decidi não entrar nesse mérito.
— Ouvimos a flauta de um Senhor da Natureza! — prosseguiu outra dríade. — Deve ser você, sátiro. Saúdem o sátiro!
— VIVA O SÁTIRO! — ecoaram as outras.
— Hã, ok... — respondeu Grover, meio sem forças. — Saudações para vocês também.
— Mas, acima de tudo — explicou uma terceira dríade —, ouvimos o chamado de Meg, filha de quem nos criou. Viva!
— VIVA! — ecoaram as outras.
Aquilo já era “viva” demais para a minha vida.
Meg estreitou os olhos.
— Esse quem nos criou aí... Vocês estão falando do meu pai, o botânico, ou da minha mãe, Deméter?
As dríades se juntaram para cochichar.
Depois de um tempo, a líder se pronunciou:
— Excelente questão. Estávamos falando de McCaffrey, o grande criador de dríades. Só que agora percebemos que você também é filha de Deméter. Você é duplamente abençoada, filha de dois criadores! Estamos ao seu serviço!
Meg cutucou o nariz.
— Estão ao meu serviço, é? — Ela olhou para mim, como quem pergunta: por que você não pode ser um servo incrível como elas? — E como nos encontraram?
— Nós temos muitos poderes! — gritou uma. — Nós nascemos do sangue da Mãe Terra!
— A força primordial da vida corre em nós! — explicou outra.
— Nós amamentamos Zeus quando bebê! — acrescentou uma terceira. — Geramos uma raça inteira de homens, os guerreiros do Bronze!
— Nós somos as Melíades! — exclamou uma quarta.
— Somos os poderosos freixos! — gritou uma quinta.
Com isso, não restou muito para as duas últimas explicarem. Elas apenas murmuraram:
— Freixos. É, somos freixos.
Piper interveio, explicando o lado dela:
— O treinador Hedge recebeu a mensagem de Grover pela ninfa das nuvens, e eu vim atrás de vocês. Só que eu não sabia onde era a entrada secreta, então voltei lá no centro de Los Angeles.
— Sozinha? — perguntou Grover.
Os olhos de Piper assumiram um tom sombrio, e eu compreendi que, por mais que ela de fato quisesse nos ajudar, tinha ido até lá mais para se vingar de Medeia do que qualquer coisa. Sair viva… não era uma prioridade.
— Encontrei essas mulheres na cidade, e meio que forjamos uma aliança.
Grover engoliu em seco.
— Mas Clave disse que a entrada principal era uma armadilha mortal! Que o lugar era mantido sob extrema vigilância!
— É, era mesmo. Só que... — Piper apontou para as dríades. — Não é mais.
As Melíades pareciam satisfeitas.
— O freixo é poderoso — explicou uma.
As outras murmuraram, concordando.
Herófila saiu de seu esconderijo atrás da privada.
— Mas o fogo! Como vocês…?
— Ah! É necessário mais do que fogo de um titã do Sol para nos destruir! — gritou uma dríade, erguendo o escudo. Um dos cantos estava preto, mas a fuligem já estava sumindo, revelando madeira nova e intacta por baixo.
A julgar pelo tanto que Meg franziu a testa, sua mente devia estar disparada, o que me deixava meio aflito.
— Então… vocês agora servem a mim?
As dríades bateram outra vez nos escudos, todas ao mesmo tempo.
— Vamos obedecer às ordens de Meg McCaffrey! — exclamou a líder.
— Tipo, se eu pedisse para vocês buscarem umas enchiladas…?
— Nós apenas perguntaríamos quantas! — gritou outra dríade. — E se é para pedir com ou sem molho de pimenta!
Meg assentiu.
— Ótimo. Mas, primeiro, será que vocês podem nos tirar deste Labirinto em segurança?
— Assim será feito! — exclamou a líder.
— Esperem! — interveio Piper. — E aquilo?
Ela apontou para as pedras no chão, onde minhas palavras douradas e sem sentido ainda brilhavam. Enfim pude apreciar o arranjo das frases, o que não pude fazer quando estava ajoelhado e acorrentado.
— O que isso quer dizer? — perguntou Grover, olhando para mim como se esperasse que eu entendesse alguma coisa daquilo.
Minha mente estava em frangalhos, latejando de exaustão e tristeza.
Enquanto Clave distraía Medeia, ganhando tempo para Piper chegar e salvar a vida dos meus amigos, comecei a falar aquelas coisas sem sentido. Coisas que agora estavam arranjadas em duas colunas de texto separadas por uma linha vertical de fogo. Muito mal diagramado, e não era nem em uma fonte decente.
— Quer dizer que Apolo conseguiu! — anunciou Sibila, orgulhosa. — Ele concluiu a profecia!
Balancei a cabeça.
— Não concluí, não. Apolo encara a morte na tumba de Tarquínio exceto se a passagem para o deus silencioso só for aberta por
Piper examinou o texto.
— É muita coisa. Não é melhor anotar?
O sorriso da Sibila fraquejou.
— Espera… vocês não veem? Está tão óbvio!
Grover estreitou os olhos, examinando as palavras douradas.
— Vendo o quê?
— Ah! — Meg assentiu. — Ah, agora sim.
As sete dríades se inclinaram para a frente, fascinadas.
— O que devemos ver, ó grande filha do criador? — perguntou a líder.
— É um acróstico. Só tem que ler a primeira letra de cada frase — explicou Meg. Ela correu até o canto superior esquerdo do salão e foi andando junto da primeira letra de cada linha. Então subiu, pulou a linha de fogo do meio e desceu junto das primeiras letras das linhas da outra coluna, recitando cada letra em voz alta: — A-N-A-S-C-I-D-A-D-E-B-E-L-O-N-A.
— Uau. — Piper balançou a cabeça, impressionada. — Ainda não sei bem o que quer dizer esse negócio de Tarquínio, deus silencioso e tudo o mais, mas parece que você precisa da ajuda da filha de Belona. É a pretora sênior do Acampamento Júpiter, Reyna Avila Ramírez-Arellano.

4 comentários:

  1. REYNA. AVILA. RAMIREZ-ARELLANO. RAINHA. DIVA. YEYYYYYYYY. Quero o próximo livro agora... um ano. Tudo bem. Eu aguardo. Tô me sentindo a menina de 10 anos de novo, ansiosa pelo próximo.

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  2. Motherfucking Princess14 de junho de 2018 12:09

    R A R A

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  3. R.A.R.A
    REYNA AVILA RAMIREZ-ARELLANO

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Boa leitura, E SEM SPOILER!