26 de junho de 2018

Capítulo 42

Adam desaparecera.
Às duas da tarde, Gansey achou que já esperara tempo suficiente por Adam. Criando coragem, bateu à porta do quarto. Então a abriu e encontrou o quarto vazio e estéril. O sol da tarde lavava as silhuetas inacabadas de velhos modelos em miniatura. Ele se inclinou na direção do banheiro e chamou o nome de Adam, mas era evidente que não havia ninguém em nenhum dos aposentos.
O primeiro pensamento de Gansey foi de apenas uma ligeira irritação; ele não culpava Adam por evitar tudo que tivesse a ver com o chá, tampouco estava surpreso pelo fato de o amigo se recolher após a discussão da noite passada. Mas agora Gansey precisava dele. Se não contasse para alguém sobre Ronan arrancando partes de seu carro, ele ia se matar.
Mas Adam não estava ali. A questão era que Adam não estava em lugar nenhum. Ele não estava na cozinha cheirando a cebola, nem na biblioteca com chão de pedra, nem no vestíbulo pequeno e bolorento. Tampouco deitado nos sofás duros da sala de estar formal, ou nos divãs de canto volumosos da sala informal da família. Não estava entocado no bar do porão nem perambulando pelo jardim úmido lá fora.
Gansey repassou a discussão da noite anterior. Ela pareceu pior dessa vez.
— Não consigo encontrar o Adam — ele disse para Helen. Ela estava cochilando em uma poltrona no gabinete do segundo andar, mas, quando viu o rosto do irmão, se endireitou sem reclamar.
— Ele não tem celular? — perguntou Helen.
Gansey balançou a cabeça e disse, com uma voz mais fina:
— A gente brigou.
Ele não queria ter de dar mais explicações.
Helen anuiu. Ele não disse mais nada.
Ela o ajudou a procurar nos lugares mais difíceis: nos carros da garagem, no espaço baixo do sótão, no pátio da cobertura na ala leste. Não havia lugar algum aonde ele pudesse ter ido. Aquele não era um bairro em que as pessoas se deslocavam a pé; o café mais próximo, o centro comercial ou a congregação de mulheres em calças de ioga ficavam a cinco quilômetros dali, acessados por avenidas movimentadas da região norte da Virgínia, de quatro e seis faixas. Eles estavam a duas horas de Henrietta de carro.
Ele tinha de estar ali, mas não estava.
O dia inteiro pareceu imaginário: a notícia do Camaro de manhã, Adam perdido à tarde. Aquilo não estava acontecendo.
— Dick — disse Helen —, você tem alguma ideia?
— Ele não desaparece simplesmente — respondeu Gansey.
— Não entre em pânico.
— Não estou em pânico.
Helen olhou para o irmão.
— Está sim.
Ele ligou para Ronan (Atenda, atenda, uma vez na vida atenda) e para a Rua Fox, 300 (A Blue está? Não? O Adam — camiseta da Coca-Cola — ligou?).
Depois disso, não era mais apenas Gansey e Helen. Era Gansey e Helen, o sr. Gansey e a sra. Gansey, Margo, a empregada, e Delano, o vigia do bairro. Era uma ligação discreta para um amigo de Richard Gansey II no departamento de polícia. Eram planos para a noite silenciosamente colocados de lado. Era uma pequena frota de veículos particulares examinando as ruas sombreadas próximas e as zonas comerciais cheias de gente.
Seu pai dirigia um Tatra 59, um espécime tcheco que se dizia ter pertencido a Fidel Castro, enquanto Gansey embalava seu telefone no banco do passageiro. Apesar do ar-condicionado, suas mãos suavam. O verdadeiro Gansey se encolheu fundo dentro do corpo para que ele pudesse manter o rosto composto.
Ele partiu. Ele partiu. Ele partiu.
Às sete da noite, quando as nuvens de um temporal começaram a se adensar sobre os subúrbios e Richard Gansey II circulava mais uma vez as belas e verdes ruas de Georgetown, o telefone tocou — um número do norte da Virgínia que ele não conhecia.
Ele atendeu imediatamente.
— Alô?
— Gansey?
E, com isso, o alívio se derreteu por seu corpo, liquefazendo suas articulações.
— Por Deus, Adam.
O pai de Gansey estava olhando para ele, então ele anuiu uma vez.
Imediatamente, seu pai começou a procurar um lugar para estacionar.
— Eu não conseguia lembrar do seu número — disse Adam miseravelmente. Ele estava se esforçando tanto para fazer sua voz soar normal que ela soava terrível. Ele não suprimiu, ou não quis suprimir, o sotaque de Henrietta.
Vai ficar tudo bem.
— Onde você está?
— Não sei. — Então mais baixo, para outra pessoa: — Onde eu estou?
O fone foi passado para a outra pessoa; Gansey ouviu o ruído de carros rodando ao fundo. A voz de uma mulher perguntou:
— Alô? Você é amigo desse garoto?
— Sou.
A mulher do outro lado da linha explicou que ela e o marido haviam parado no acostamento da autoestrada.
— Parecia um corpo. Ninguém mais estava parando. Você está aqui perto? Pode vir buscá-lo? Nós estamos perto da saída 7, na 395 sul.
A mente de Gansey se alterou abruptamente para ajustar sua imagem das cercanias de Adam. Eles não estavam nem um pouco próximos. Não havia lhe ocorrido procurar tão longe.
Richard Gansey II ouvira o que ela dissera.
— Isso fica ao sul do Pentágono! Deve ser a uns vinte e cinco quilômetros daqui.
Gansey apontou para a estrada, mas seu pai já estava conferindo o tráfego para fazer o retorno. Quando ele virou, o sol da tarde pegou de cheio o para-brisa, cegando os dois momentaneamente. Ao mesmo tempo, eles ergueram a mão para bloquear a luz.
— Estamos indo — disse Gansey ao telefone.
Vai ficar tudo bem.
— Talvez ele precise de um médico.
— Ele está machucado?
A mulher fez uma pausa.
— Eu não sei.


Mas não estava tudo bem. Adam não disse absolutamente nada para Gansey. Nem enquanto se encolhia no banco de trás do carro. Nem enquanto estava sentado à mesa da cozinha e Margo lhe trazia um café. Nem após parar junto ao sofá com o telefone apertado no ouvido, falando com um médico, um velho amigo da família de Gansey.
Nada.
Ele sempre fora capaz de lutar por muito mais tempo que qualquer pessoa. Por fim, ele parou na frente dos pais de Gansey, o queixo erguido, mas os olhos distantes, e disse:
— Sinto muito por todo o incômodo.
Mais tarde, ele dormiu sentado na ponta do mesmo sofá. Sem nenhuma discussão particular, a família Gansey inteira levou a conversa para o gabinete do segundo andar, longe dos ouvidos de Adam. Embora vários compromissos tivessem sido cancelados e Helen tivesse perdido um voo para o Colorado à noite, ninguém mencionara a inconveniência. E eles jamais o fariam. Era o jeito Gansey de ser.
— Como o médico chamou isso? — perguntou a sra. Gansey, sentada na poltrona na qual Helen havia dormido antes. Na luz verde que passava pelo abajur verdejante a seu lado, ela se parecia com Helen, o que queria dizer que se parecia com Gansey, o que também queria dizer que se parecia um pouco com o marido. Todos os Gansey de certa maneira se pareciam uns com os outros, como um cachorro que começa a se parecer com o dono, ou vice-versa.
— Amnésia global transitória — respondeu Helen. Ela ouvira a conversa ao telefone e acompanhara a discussão com grande interesse. Helen gostava bastante de descer até a vida das outras pessoas e se enlamear por lá com um balde e uma pá e possivelmente com um daqueles maiôs antigos listrados que cobriam as pernas e os braços. — Episódios de duas a seis horas. Não conseguem se lembrar de nada até o último minuto. Mas as vítimas... essa foi a palavra usada por Foz, não por mim... aparentemente sabem que estão perdendo a noção de tempo enquanto isso acontece.
— Que coisa horrível — disse a sra. Gansey. — Pode piorar?
Helen fez desenhos aleatórios no risque-rabisque com um toco de lápis.
— Parece que não. Algumas pessoas têm apenas um episódio. Outras têm o tempo inteiro, como enxaquecas.
— E isso está relacionado ao estresse? — intercedeu Richard Gansey II. Embora ele não conhecesse Adam bem, sua preocupação era profunda e genuína. Adam era amigo de seu filho e, assim, tinha um valor inerente. — Dick, você sabe o que poderia estar estressando-o?
Estava claro que aquele era um problema que todos os Gansey tinham a intenção de solucionar antes que o filho voltasse para Henrietta com Adam.
— Ele se mudou há pouco da casa dos pais — disse Gansey. Ele havia começado a dizer trailer, mas não quis pensar no que seus pais fariam com aquela imagem. Ele pensou por um momento e então acrescentou: — O pai batia nele.
— Meu Deus — observou seu pai. E então: — Por que deixam essas pessoas terem filhos?
Gansey apenas olhou para o pai. Por um longo momento, nada foi dito.
— Richard — sua mãe ralhou.
— Onde ele está morando agora? — seu pai perguntou. — Com você?
Ele não sabia dizer quanto ou por que aquela pergunta feria. Gansey balançou a cabeça.
— Eu tentei. Ele está morando em um quarto que pertence à Igreja Santa Inês, uma igreja local.
— Isso é legal? Ele tem carro?
— Ele vai fazer dezoito anos daqui a alguns meses. E não.
— Seria melhor ele ficar com você — observou Richard Gansey II.
— Ele não quer. Simplesmente não quer. O Adam gosta de fazer tudo do jeito dele. Ele não aceita nada que pareça esmola. Está pagando a escola sozinho. Ele tem três empregos.
Os outros rostos Gansey olharam em sinal de aprovação. A família inteira apreciava o charme e a garra, e aquela ideia de Adam Parrish, alguém que venceu pelo próprio esforço, lhes agradava imensamente.
— Mas ele precisa de um carro — disse a sra. Gansey. — Isso certamente ajudaria. Não podemos ajudá-lo de alguma forma a conseguir um?
— Ele não aceitaria.
— Ah, certamente se dissermos...
— Ele não aceitaria. Vão por mim, ele não aceitaria.
Eles pensaram por um longo momento, durante o qual Helen desenhou seu nome em letras grandes, e seu pai folheou a Breve enciclopédia de cerâmica mundial, e sua mãe pesquisou discretamente amnésia global transitória em seu celular, e Gansey contemplou apenas jogar tudo o que tinha no Suburban e se mandar o mais rápido possível. Uma voz pequenina, muito egoísta dentro de Gansey, sussurrou: E se você o deixasse aqui, e se o fizesse encontrar o próprio caminho de volta; e se ele tivesse de ligar para você e pedir desculpa uma vez que fosse?
Por fim, Helen disse:
— E se eu desse para ele o meu velho carro da faculdade? O detonado, aquele que vou doar para aquela instituição de caridade de carros usados se ele não quiser. Ele me pouparia o incômodo de ter que arranjar um guincho!
Gansey franziu o cenho.
— Qual carro detonado?
— Obviamente, eu ia arrumar um — respondeu Helen, desenhando um iate de cinquenta e oito pés no risque-rabisque. — E dizer que era meu.
Os Gansey mais velhos adoraram a ideia. A sra. Gansey já estava ao telefone. O humor coletivo havia melhorado com aquele plano. Gansey achou que seria preciso mais do que um carro para aliviar o estresse de Adam, mas a verdade era que ele precisava de um veículo. E se Adam realmente caísse na história de Helen, não faria mal algum.
Gansey não conseguia se livrar da imagem de Adam ao lado da estrada, caminhando, caminhando, caminhando. Sabendo que estava esquecendo o que estava fazendo, mas incapaz de parar. Incapaz de lembrar o número de Gansey, mesmo quando as pessoas pararam para ajudar.
Eu não preciso da sua sabedoria, Gansey.
Então não havia nada que ele pudesse fazer a respeito.

5 comentários:

  1. "Uma voz pequenina, muito egoísta dentro de Gansey, sussurrou: E se você o deixasse aqui, e se o fizesse encontrar o próprio caminho de volta; e se ele tivesse de ligar para você e pedir desculpa uma vez que fosse?"

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  2. O Adam sofre de "Amnésia global transitória" que basicamente está relacionada ao estresse e ele ganha um carro!. Acho que não entendi muito bem.

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  3. Tirando a parte de acreditar em meritocracia, a familia Gansey é firmeza tambem, querendo ajudar o Adam mesmo sem saber como

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  4. Coitado do Adam, ele se cobra muito.

    j.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!