3 de junho de 2018

Capítulo 42

Quem quer uma profecia?
Então se preparem
Para todo o blá-blá-blá

— RESISTA! — HERÓFILA SE ajoelhou ao meu lado. — Apolo, você tem que resistir!
Eu sentia muita dor para conseguir falar qualquer coisa, mas do contrário teria dito: Resistir. Nossa, obrigado por essa pérola de sabedoria! Você deve ser um oráculo ou algo do tipo!
Pelo menos ela não me fez participar de um jogo de palavras cruzadas inútil e andar sobre pedras com as letras de RESISTIR.
Suor escorria pelo meu rosto, e meu corpo fervia, e não do jeito bom de quando eu era deus.
A feiticeira prosseguiu com a cantiga. Ela devia estar reunindo todas as forças que tinha, mas daquela vez não vi como tirar vantagem da situação. Eu estava acorrentado, então não daria para repetir o truque da flecha no peito, e, mesmo que repetisse, Medeia provavelmente já estava quase no fim no ritual, então minha vida não valeria de nada. A minha essência escorreria para o lago de icor.
Eu não podia tocar flauta, como Grover. Não podia contar com as plantas, como Meg. Não era poderoso como Jason Grace, para romper a jaula de ventus e salvar meus amigos. Resistir… Fazendo o quê?
Minha mente começou a cambalear. Tentei me agarrar ao dia do meu nascimento (sim, eu conseguia me lembrar de uma ocasião tão antiga), quando pulei do útero da minha mãe e comecei a cantar e dançar, espalhando pelo mundo minha voz gloriosa. Eu me lembrava da minha primeira ida ao abismo de Delfos, lutando contra minha arqui-inimiga Píton, sentindo-a se enrolar ao meu corpo imortal. Outras lembranças eram mais traiçoeiras. Eu me recordava de cruzar o céu na carruagem do Sol... Mas eu não era eu… Era Hélio, titã do Sol, estalando meu chicote flamejante no lombo dos corcéis. Eu me vi pintado de dourado, com uma coroa de raios na cabeça, passando por uma multidão de adoradores mortais… mas eu era o imperador Calígula, o Novo Sol.
Quem eu era, afinal?
Tentei visualizar o rosto de minha mãe, Leto. Não consegui. Meu pai, Zeus, com sua carranca feia e apavorante, era só uma vaga lembrança. Minha irmã… Claro, eu jamais esqueceria minha irmã gêmea! Mas até as feições dela se desfaziam em minha mente. Ela tinha olhos prateados. E cheiro de madressilva. O que mais? Entrei em pânico. Não conseguia mais lembrar meu próprio nome.
Apoiei as mãos na pedra e abri os dedos — eles soltaram fumaça e estalaram, como galhos ao vento. Parecia que meu corpo estava se transformando em pixels, como aconteceu com os pandai quando eles se desintegraram.
Herófila sussurrou no meu ouvido:
— Aguente mais um pouco! A ajuda vai chegar!
Mesmo sendo um oráculo, não tinha como ela ter certeza disso. Quem apareceria para me salvar? Quem poderia me salvar?
— Você assumiu o meu lugar — disse ela. — Use isso!
Eu gemi de fúria e frustração. Por que ela estava falando coisas sem sentido? Por que não podia voltar a falar em enigmas? Como eu podia usar o fato de estar no lugar dela, acorrentado? Eu não era um oráculo. Não era nem mais um deus. Eu era… Lester? Ah, ótimo. Esse nome eu lembrava.
Olhei para as colunas de blocos de pedra, agora todos vazios, como se esperassem um novo desafio. A profecia não estava completa. Talvez, se eu conseguisse encontrar uma forma de terminá-la… Faria diferença?
Eu tinha que fazer aquilo. Jason deu a vida para podermos chegar até ali. Meus amigos arriscaram tudo. Eu não podia simplesmente desistir. Para libertar o oráculo, para libertar Hélio do Labirinto de Fogo… eu precisava terminar o que tínhamos começado.
O cântico de Medeia prosseguia, se alinhando a meus batimentos cardíacos, tomando o controle da minha mente. Eu precisava ignorá-lo, interrompê-lo, como Grover tinha feito quando começou a tocar sua flauta.
Você assumiu o meu lugar, dissera Herófila.
Eu era Apolo, o deus da profecia. Era hora de ser meu próprio oráculo.
Tentei me concentrar nos blocos de pedra. Veias saltaram na minha testa, tamanha era a força que eu fazia.
— A-Amálgama bronze ouro — balbuciei.
As pedras se deslocaram, formando uma fileira de três pedras no canto superior esquerdo, uma palavra por quadrado: AMÁLGAMA BRONZE OURO.
— Isso! — disse a Sibila. — Isso mesmo! Continue!
Eu não aguentaria muito tempo. As correntes me queimavam e me puxavam para baixo. Eu gemia de dor.
— Nascente encontra poente.
Uma segunda fileira de três pedras se formou embaixo da primeira, exibindo as três palavras que eu tinha acabado de falar.
Mais versos saíram de mim:
Alforriadas as legiões.
Sobre profundezas, luz;
Contra muitos, um,
Isento de derrotas.
Ditas palavras antigas,
Abalando velhas fundações!
O que tudo aquilo significava? Eu não tinha a menor ideia.
A câmara ribombou quando mais blocos se deslocaram, novas pedras surgindo do lago para acomodar as palavras. O lado esquerdo inteiro do lago estava agora coberto pelas oito fileiras de três palavras, cobrindo parte do lago de icor. O calor diminuiu. Minhas algemas esfriaram. O cântico de Medeia hesitou, afrouxando o controle dela sobre minha consciência.
— Que palhaçada é essa? — sibilou a feiticeira. — Estamos quase acabando! Não vou parar por nada! Vou matar seus amigos se você não…
Atrás dela, Clave dedilhou um fá suspenso no ukulele. Medeia, que aparentemente tinha se esquecido dele, deu um pulo de susto e quase caiu na lava.
— Você também? — gritou ela. — ME DEIXE TRABALHAR!
Herófila sussurrou no meu ouvido:
— Vai logo!
Eu entendi o que estava acontecendo. Clave estava tentando ganhar tempo para mim distraindo Medeia. Ele não se intimidou e continuou tocando seu (meu) ukulele, uma série dos acordes mais irritantes que eu havia ensinado a ele e alguns que ele devia estar inventando na hora. Enquanto isso, Meg e Grover giravam na jaula de ventus, tentando escapar, sem sucesso. Um movimento dos dedos de Medeia, e eles teriam o mesmo destino que Arranjo e Decibel.
Tentar continuar a profecia foi ainda mais difícil do que desatolar a carruagem do Sol da lama. (Não queiram nem saber. É uma longa história envolvendo belas náiades do pântano.) De alguma forma, grunhi mais um verso.
— Destruir o tirano.
Mais três pedras se alinharam, daquela vez do lado superior direito do salão.
— Encorajar o alado — continuei.
Meus deuses, pensei, eu estou falando coisas sem sentido! Mas as pedras continuaram obedecendo à minha voz, bem melhor do que Sirialexaastrophona, diga-se de passagem.
Beirando colinas douradas
Está o potro.
As pedras continuaram se rearranjando, formando uma segunda coluna de linhas de três pedras que só deixavam uma faixa estreita de lago ardente no meio do salão.
Medeia tentou ignorar o pandos. Voltou a cantarolar, mas Clave na mesma hora atrapalhou mais uma vez a concentração dela com um lá bemol menor.
— Chega disso, pandos! — berrou a feiticeira.
Ela puxou uma adaga das dobras do vestido.
— Apolo, não pare — avisou Herófila. — Você não deve…
Medeia enfiou com força a adaga na barriga de Clave, interrompendo a serenata desafinada. Eu chorei de pavor, mas me forcei a entoar mais versos:
— Liras e trompetes — gemi, quase sem voz. — Outra maré vermelha
— Pare com isso! — gritou Medeia. — Ventus, jogue os prisioneiros…
Clave dedilhou um acorde ainda mais horrível.
— AHHH!
A feiticeira se virou e deu outra punhalada em Clave.
— Ninho do estranho — solucei.
Outro fá suspenso do pandos, outro golpe da adaga de Medeia.
— A glória recuperar! — gritei.
As últimas pedras se acomodaram, completando a segunda coluna de linhas do outro lado da sala até a beirada da nossa plataforma.
Eu senti que a profecia tinha se completado, e era como se enfim eu conseguisse respirar depois de quase me afogar. As chamas de Hélio, que agora eram apenas uma fina linha no centro do salão, esfriaram e assumiram o tom vermelho do bom e velho fogo ao qual estamos acostumados.
— Isso! — disse Herófila.
Medeia se virou, rosnando. Suas mãos brilhavam com o sangue do pandos. Atrás dela, Clave caiu de lado, gemendo e apertando o ukulele na barriga ferida.
— Ah, muito bem, Apolo — disse Medeia, com desprezo. — Você fez esse pandos morrer por você, e por nada. Minha magia já está quase completa. Só me resta esfolar você do jeito tradicional. — Ela puxou a faca. — Quanto aos seus amigos… — Ela estalou os dedos sujos de sangue. — Ventus, mate-os.

17 comentários:

  1. — Amálgama bronze ouro
    — Nascente encontra poente
    — Alforriadas as legiões
    — Sobre profundezas, luz
    — Contra muitos, um
    — Isento de derrotas
    — Ditas palavras antigas
    — Abalando velhas fundações
    — Destruir o tirano.
    — Encorajar o alado
    — Beirando colinas douradas
    — Está o potro
    — Liras e trompetes
    — Outra maré vermelha
    — Ninho do estranho
    — A glória recuperar

    Cada profecia estranha
    Acho que é falta de criatividade

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    1. Olhe ask primeiras lerras e teras uma pista

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    2. No próximo capítulo descobrimos que é outra forma poesia, como o limerique e o soneto.

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    3. Laíres de Deus câmara campos16 de junho de 2018 11:31

      bom... Realmente... isso é algo chamado de poesia contemporânea. é quando as palavras se ligam de um modo a deixar uma mensagem diferente a cada um que lê.

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    4. Anônimo se for assim tá escrito anas cidade belona

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    5. ou "A NASCIDA DE BELONA" Tiago ;-; faz mais sentido

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  2. Algum metal feito a partir de bronze celestial e ouro imperial — Amálgama bronze ouro
    Pode ser tanto a nascente de um rio, e o por do sol — Nascente encontra poente
    Exércitos serão livros de seus serviços, pode ser tanto o exercito do triunvirato quanto o fim da legião romana — Alforriadas as legiões
    Pode ser o tartaro, mundo inferior o abismo no fundo do mar — Sobre profundezas, luz
    Alguém lutando contra vários — Contra muitos, um
    Algum personagem na mitologia greco/romana ou riordiana que não sofreu nenhuma derrota até o momento — Isento de derrotas
    — Ditas palavras antigas
    O fim de antigas leis, provavelmente as leis romanas ou até as dos deuses — Abalando velhas fundações
    Provavelmente morte de um dos três imperadores (nero talvez) — Destruir o tirano.
    Alguma criatura alada da mitologia (algum pegasus talvez) — Encorajar o alado
    Pode ser o monte olimpo — Beirando colinas douradas
    Cavalos da mitologia (pode ser qualquer um) — Está o potro
    Isso ta interligado com o Apolo devido as liras, já os trompetes deve ser relacionado a recepção de algo grandioso — Liras e trompetes
    Pode ser relacionado a rio de sangue — Outra maré vermelha
    Não sei — Ninho do estranho
    Talvez, Apolo/Lester voltando a ser Deus ou ser elevado a semi-deus — A glória recuperar

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    1. "Ditas palavras antigas"
      Pode ser Ella, com uma nova profecia

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  3. LEIAM AS PRIMEIRAS LETRAS !!!!
    ESTA ESCRITO
    A NAS CIDADE BELONA
    BELONA , A MAE DE REYNA

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  4. Tá escrito " a nascida de belona", ou seja, Reyna. E ela provavelmente vai tá putassa com a morte do Jason, prevejo a cabeça de Calígola voando longe.

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  5. Fui só que notei, ou mais alguém também notou que se ler só as letras iniciais de cada parte da profecia do Apolo forma 'A Nascida de Belona',e no caso quem é filha de Belona é a Reyna. Serase isso tem alguma coisa a ver com o proximo livro?

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  6. Não esqueçam da Hyla apesar de ser improvável que se refira a ela

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  7. Será que a Reyna vai fazer parte do próximo livro ?
    Lembram que a Afrodite disse que nenhum semideus irá curar seu coração ? E se ela fazer parte da próxima missão e gostar do Lester /Apolo ?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!