26 de junho de 2018

Capítulo 41


Ronan acordou em um assento de cinema.
É claro, aquilo não era realmente um cinema; era apenas a sala de projeção no porão de uma mansão suburbana. À luz do dia, ele podia ver que ela era completa. Assentos de cinema reais, máquina de pipoca, projetor no teto, prateleira cheia de filmes de ação e pornôs com títulos pouco criativos. Ele se lembrou vagamente, com menos precisão do que em um sonho, de ver um vídeo interminável de corridas de rua na Arábia Saudita, na tela grande baixada na noite passada. O que ele estava fazendo? Ronan não fazia ideia do que estava fazendo. Ele não conseguia se concentrar em nada, a não ser numa centena de Mitsubishis brancos em um campo.
— Você não vomitou — observou Kavinsky de seu poleiro, dois assentos adiante. Ele ergueu o telefone de Ronan. — A maioria das pessoas vomita depois de beber tanto.
Ronan não disse a verdade: que ele estava acostumado a beber até cair. Ele não disse nem uma palavra. Apenas encarou Kavinsky, fazendo as contas: Cem Mitsubishis brancos. Duas dúzias de carteiras de motorista falsas. Cinco pulseiras de couro. Dois de nós.
— Fala alguma coisa, Rain Man — disse Kavinsky.
— Existem outros?
Kavinsky deu de ombros.
— E eu vou saber?
— O seu pai é um?
— O seu pai é um?
Ronan se levantou. Kavinsky o observou tentar as três portas brancas insubstanciais até que ele encontrou o banheiro. Ele fechou a porta atrás de si, mijou e jogou água no rosto. Então encarou a própria imagem.
Cem Mitsubishis brancos.
Do outro lado da porta, Kavinsky disse:
— Estou ficando de saco cheio, cara. Você quer uma carreira?
Ronan não respondeu. Secou as mãos trêmulas, se recompôs e saiu do banheiro.
Então se sentou contra a parede e observou Kavinsky cheirar uma carreira em cima da máquina de pipoca. Ele balançou a cabeça quando Kavinsky ergueu uma sobrancelha, oferecendo a ele.
— Você é sempre tão falante quando bebe? — perguntou Kavinsky.
— O que você estava fazendo com o meu celular?
— Ligando para a sua mãe.
— Fale mais alguma coisa sobre a minha mãe — disse Ronan tranquilamente — e eu afundo a sua cabeça. Como você faz isso?
Ele esperava que Kavinsky fizesse mais uma piada obscena sobre a sua mãe, mas, em vez disso, ele apenas fixou o olhar em Ronan, as pupilas enormes pela cocaína.
— Tão violento. O garoto-propaganda do transtorno de estresse pós-traumático. Você sabe como se faz isso — disse Kavinsky. — Eu vi você fazer.
O coração de Ronan se contraiu convulsivamente. Ele parecia não se acostumar com seu segredo ser de fato o oposto de um segredo.
— Do que você está falando?
Kavinsky se pôs de pé de um salto.
— A sua “tentativa de suicídio”, cara. Eu vi acontecer. O portão é bem do lado da janela do Proko. Eu vi você acordar e o sangue aparecer. Eu sabia o que você era.
Isso fora meses e meses e meses atrás. Antes mesmo de as corridas de rua terem começado. Todo esse tempo. Kavinsky sabia por todo esse tempo.
— Você não sabe nada sobre mim — disse Ronan.
Kavinsky saltou para ficar de pé em um dos assentos do cinema. Quando a cadeira balançou com seu peso, ela cantou uns versos — apenas um trecho de uma música pop que havia tocado demais dois anos antes —, e Ronan percebeu que aquilo devia ser algo sonhado também.
— Fala sério, cara.
— Me conta como você faz — disse Ronan. — Não estou falando só dos sonhos. Os carros. As carteiras de motorista. As... — ele ergueu o punho para mostrar as pulseiras. A lista poderia continuar para sempre. Os fogos de artifício. As drogas.
— Você tem que ir atrás das coisas que quer — disse Kavinsky. — Você precisa saber o que quer.
Ronan não disse nada. Nesses parâmetros, seria impossível para ele. O que ele queria era saber o que ele queria.
Kavinsky sorriu abertamente.
— Vou te ensinar.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!