20 de junho de 2018

Capítulo 41

Após deixar a Indústria Monmouth, Blue voltou para casa e se retirou para o canto mais distante da faia no quintal para tentar fazer o dever de casa. Mas ela se viu passando menos tempo tentando solucionar x e mais tempo tentando solucionar Noah ou Gansey ou Adam. Ela havia desistido e se recostado quando Adam apareceu. Ele adentrou a sombra verde e suave da árvore pela lateral da casa.
— A Persephone disse que você estava aqui. — Ele apenas ficou parado ali, na beira da sombra.
Blue pensou em dizer Sinto muito pelo seu pai, mas em vez disso apenas estendeu uma mão na direção dele. Adam deu um suspiro inseguro do tipo que ela poderia ver a dois metros de distância. Sem dizer uma palavra, ele se sentou ao lado dela e colocou a cabeça em seu colo, com o rosto nos braços.
Sobressaltada, Blue não reagiu imediatamente, fora olhar de relance sobre o ombro para ter certeza de que a árvore os escondia da casa. Ela se sentiu um pouco como se tivesse sido abordada por um animal selvagem, ao mesmo tempo lisonjeada por sua confiança e preocupada com o fato de que teria de espantá-lo dali. Após um momento, acariciou com cuidado alguns fios finos e empoeirados de cabelo enquanto olhava para a nuca dele. Blue sentiu o peito se aquecer ao tocá-lo e ao sentir seu cheiro de poeira e óleo.
— Seu cabelo é da cor da terra — ela disse.
— Ele sabe de onde veio.
— Engraçado — observou Blue —, porque então o meu devia ser dessa cor também.
Os ombros dele se moveram em resposta. Após um momento, ele disse:
— Às vezes tenho medo de que ele nunca me compreenda.
Blue correu um dedo ao longo da parte de trás da orelha dele. Parecia perigoso e emocionante, mas não tão perigoso e emocionante como teria sido tocá-lo enquanto ele olhava para ela.
— Só vou dizer isso uma vez, depois não toco mais no assunto — ela disse. — Mas acho que você é tremendamente corajoso.
Ele ficou em silêncio por um longo momento. Um carro zuniu pelo bairro. O vento passou pelas folhas da faia, revirando-as de um jeito que prenunciava chuva.
Sem erguer a cabeça, Adam disse:
— Eu gostaria de te beijar, Blue, nova ou não.
Os dedos dela pararam de se mover.
— Eu não quero te machucar — ela disse.
Adam se livrou dela e se sentou a poucos centímetros de distância. Sua expressão era fria, nem um pouco parecida com quando ele quisera beijá-la antes.
— Eu já estou todo machucado.
Blue não achou que a questão realmente tivesse algo a ver com beijá-la, e isso fez suas faces arderem. Não era para acontecer um beijo de forma alguma, mas, se fosse, ele definitivamente não deveria ser assim. Ela disse:
— O pior ainda está por vir.
Alguma coisa naquele comentário fez com que Adam engolisse em seco e desviasse o rosto. Suas mãos estavam largadas no colo. Se eu fosse qualquer outra pessoa no mundo, ela pensou, teria sido o meu primeiro beijo. Ela se perguntou como teria sido beijar aquele garoto ansioso e desolado.
Os olhos de Adam se moveram, seguindo a luz que se deslocava através das folhas no alto. Ele não olhou para ela quando disse:
— Eu não lembro como a sua mãe disse que eu devia resolver o meu problema. Na leitura. A escolha que eu não podia fazer.
Blue suspirou. Essa era a verdadeira questão, e ela soubera o tempo inteiro, mesmo que ele não soubesse.
— Faça uma terceira opção — disse ela. — Da próxima vez você devia trazer um caderno.
— Eu não lembro dela dizendo a parte do caderno.
— Sou eu quem está te dizendo isso. Da próxima vez que alguém ler cartas para você, tome nota. Assim você pode comparar com o que realmente acontece, e você vai saber se a médium é boa.
Adam olhou para ela, mas Blue não tinha certeza se ele estava realmente olhando para ela.
— Vou fazer isso.
— Dessa vez vou te poupar o trabalho — Blue acrescentou, inclinando a cabeça para trás enquanto ele se punha de pé. Seus dedos e sua pele desejavam o garoto com o qual ela ficara de mãos dadas dias antes, mas ele não parecia ser o garoto de pé à sua frente. — Minha mãe é uma boa médium.
Enfiando as mãos nos bolsos, ele coçou o rosto no ombro.
— Então você acha que eu devo dar atenção a ela?
— Não, você deve dar atenção a mim.
O sorriso apressadamente delineado era tão tênue que podia se romper.
— E o que você diz?
Blue ficou subitamente com medo por ele.
— Continue sendo corajoso.


Havia sangue por toda parte.
— Está feliz agora, Adam? — rosnou Ronan. Ele se ajoelhou ao lado de Gansey, que convulsionava no chão. Blue encarou Adam, e o horror no rosto dela era a pior parte. A culpa era dele. O rosto de Ronan estava transtornado pela perda. — Era isso que você queria?
Num primeiro momento, quando Adam abriu os olhos do sonho sangrento, com os membros formigando com a adrenalina, ele não tinha certeza de onde estava. Ele sentia como se levitasse; o espaço à sua volta estava todo errado, com muito pouca luz, muito espaço acima da cabeça, nenhum som de sua respiração voltando para ele das paredes.
Então ele se lembrou de onde estava, no quarto de Noah, com suas paredes fechadas e seu teto altíssimo. Uma nova onda de angústia o varreu, e ele pôde identificar sua fonte muito precisamente: saudades de casa. Por incontáveis minutos, Adam ficou deitado, acordado, debatendo consigo mesmo. Logicamente, ele sabia que não tinha nenhum motivo para sentir saudades, que ele efetivamente era vítima da síndrome de Estocolmo, identificando-se com seus raptores, considerando uma bondade quando seu pai não batia nele. Obviamente, ele sabia que sofria abuso. Ele sabia que o dano era mais profundo que qualquer machucado que já apresentara na escola um dia. Adam podia dissecar interminavelmente suas reações, duvidar de suas emoções, perguntar se ele também bateria no próprio filho.
Contudo, deitado na escuridão da noite, tudo em que conseguia pensar era: Minha mãe nunca mais vai falar comigo. Não tenho um lar.
O espectro de Glendower e a linha ley perduravam na mente de Adam. Eles pareciam mais próximos do que nunca, mas a possibilidade de um resultado bem-sucedido também parecia mais tênue do que nunca. Whelk estava solto por aí, e ele estivera procurando por isso por mais tempo ainda do que Gansey. Certamente, se o deixassem agir livremente, ele encontraria o que procurava mais cedo do que eles.
Precisamos despertar a linha ley.
A cabeça de Adam era uma confusão de pensamentos: a última vez em que o pai havia batido nele, o Pig encostando ao lado dele com Gansey dentro, o sósia de Ronan na caixa registradora naquele dia em que decidira que precisava ir para Aglionby, o primeiro golpe de Ronan no rosto do pai. Ele tinha tantos anseios, todos tão importantes, tão urgentes. Não precisar trabalhar tantas horas, entrar para uma boa faculdade, ficar bem de terno, não se sentir ainda com fome após comer o sanduíche fino que levava para o trabalho, dirigir o Audi reluzente que Gansey havia parado para olhar uma vez com ele depois da escola, ir para casa, bater ele mesmo no pai, ser dono de um apartamento com balcões de granito e uma televisão maior que a mesa de Gansey, pertencer a algum lugar, ir para casa, ir para casa, ir para casa.
Se eles despertassem a linha ley, se eles encontrassem Glendower, ele poderia ter todas essas coisas. A maioria delas.
Mas, novamente, ele viu Gansey ferido, e viu também o rosto de Gansey ferido antes, quando eles haviam brigado. Simplesmente não havia a possibilidade de Adam colocar a vida de Gansey em perigo.
Mas também não havia nenhuma possibilidade de ele deixar Whelk se intrometer e tomar o que eles tinham trabalhado tão duro para conseguir. Esperar! Gansey sempre poderia se dar ao luxo de esperar. Adam não.
Ele estava decidido, então. Andando furtivo e silencioso pelo quarto, colocou algumas coisas na mochila. Era difícil prever o que deveria levar. Adam puxou a arma que estava debaixo da cama e a olhou por um longo momento, uma forma escura e sinistra nas tábuas do chão. Mais cedo, Gansey o tinha visto tirando-a de suas coisas.
— O que é isso? — perguntara, horrorizado.
— Você sabe o que é — Adam havia respondido. Era a arma do pai dele, e, apesar de ele não ter certeza se seu pai a usaria um dia contra sua mãe, ele não correria o risco.
A ansiedade de Gansey ao ver a arma havia sido palpável. Era possível, pensou Adam, que fosse por Whelk ter enfiado uma arma na cara dele.
— Eu não quero isso aqui.
— Não posso vender — Adam havia dito. — Eu já tinha pensado nisso. Mas legalmente eu não posso. Está registrada no nome dele.
— Com certeza existe um jeito de se livrar dela. Enterre.
— E correr o risco de alguma criança encontrar?
— Eu não quero isso aqui.
— Vou encontrar uma maneira de me livrar dela — Adam havia prometido. — Mas não posso deixar a arma lá. Não agora.
Adam não queria levá-la com ele essa noite, não mesmo.
Mas ele não sabia o que precisaria sacrificar.
Ele conferiu a trava de segurança e colocou a arma na mochila. Ficou de pé, se virou na direção da porta e conseguiu abafar um som. Noah estava parado bem na sua frente, os olhos vazios alinhados com os de Adam, a face afundada alinhada com o ouvido arruinado de Adam, a boca sem respiração alinhada com a respiração entrecortada de Adam.
Sem Blue ali para torná-lo mais forte, sem Gansey ali para torná-lo humano, sem Ronan ali para fazê-lo pertencer, Noah era algo assustador.
— Não jogue fora — sussurrou Noah.
— Estou tentando não fazer isso — Adam respondeu, pegando a bolsa a tiracolo. A arma a deixava estranhamente pesada. Eu conferi a trava de segurança, não? Sim. Eu sei que sim.
Quando ele se endireitou, Noah já tinha partido. Adam caminhou através do ar escuro e frio onde ele estivera há pouco e abriu a porta. Gansey estava encolhido na cama, com tampões de ouvido e olhos fechados. Mesmo sem a audição no ouvido esquerdo, Adam podia ouvir o ruído baixinho da música — o que quer que Gansey tivesse colocado para lhe fazer companhia e induzi-lo ao sono.
Eu não estou traindo o Gansey, pensou Adam. Nós ainda estamos fazendo isso juntos. Só que, quando eu voltar, seremos iguais.
Seu amigo não se mexeu enquanto Adam passava pela porta. Quando ele partiu, o único barulho que ouviu foi o sussurro do vento noturno nas árvores de Henrietta.

Um comentário:

  1. "Ela se perguntou como teria sido beijar aquele garoto ansioso e desolado."

    Quando eu vejo essa parte e lembro dos outros livros: ( ͡° ͜ʖ ͡°)

    "Eu não estou traindo o Gansey, pensou Adam. Nós ainda estamos fazendo isso juntos. Só que, quando eu voltar, seremos iguais."

    Continua dizendo isso pra si mesmo, qrido, quem sabe um dia você mesmo acredita q pode virar realidade

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Boa leitura, E SEM SPOILER!