3 de junho de 2018

Capítulo 41

A Meg está cantando
É o fim dos tempos
Estamos muito ferrados

MEG ATACOU PRIMEIRO.
Com movimentos rápidos e precisos, ela quebrou as correntes que aprisionavam a Sibila e fuzilou Medeia com seu olhar obstinado, como quem diz: A-rá! Eu tenho um oráculo, você não teeeem!
As algemas se soltaram dos pulsos e tornozelos de Herófila, revelando queimaduras profundas. Herófila cambaleou para trás, levando as mãos ao peito. Parecia mais horrorizada do que agradecida.
— Meg McCaffrey, não! Você não devia…
Se a próxima pista seria horizontal ou vertical, grande ou pequena, fácil ou difícil, não importava mais. As correntes partidas se refizeram. Em seguida, como cobras, deram o bote… em mim, não em Herófila.
Elas prenderam meus pulsos e tornozelos. A dor foi tão intensa que no começo a sensação foi fresca e agradável.
De repente, eu gritei.
Meg bateu nas correntes novamente, mas elas passaram a repelir as lâminas. A cada golpe, as correntes ficavam mais apertadas, me puxando para baixo até que eu enfim me agachasse. Com minha força insignificante, lutei para me livrar, mas logo percebi que era má ideia. Era como pressionar os pulsos em grelhas fervilhantes. Quase desmaiei de dor, e o cheiro… Ah, deuses, eu não gostei do cheiro de Lester frito. Só quando me resignei, permitindo que as algemas me levassem aonde quisessem, consegui que a dor se mantivesse só excruciante, e não insuportável.
Medeia gargalhou, apreciando meus contorcionismos.
— Muito bem, Meg McCaffrey! Eu mesma ia acorrentar Apolo, mas você me poupou um feitiço.
Eu caí de joelhos.
— Meg, Grover… tirem a Sibila daqui. Vão!
Reparem: mais um gesto corajoso de autossacrifício. Espero que vocês estejam anotando.
Mas não adiantou nada. Medeia estalou os dedos, e todas as pedras deslizaram pela superfície de icor, se afastando da plataforma de Sibila e nos isolando de tudo. Não havia como escapar dali.
Atrás da feiticeira, os dois guardas jogaram Clave no chão. Ele se arrastou e se recostou na parede, as mãos algemadas se recusando a largar meu ukulele de combate. Seu olho esquerdo estava roxo, os lábios, cortados; dois dedos da mão direita estavam virados em um ângulo estranho. O pandos me encarou, o rosto tomado pela vergonha, e eu queria dizer que ele não tinha culpa de nada, que fomos nós que erramos ao deixá-lo sozinho montando guarda, que ele ainda conseguiria tocar ukulele maravilhosamente bem, mesmo com dois dedos quebrados! Só que eu mal conseguia raciocinar, muito menos consolar meu jovem aluno.
Os dois guardas abriram as orelhas gigantescas e flutuaram pela câmara, deixando a brisa quente os carregar até duas pedras, uma em cada extremidade da plataforma. Os capangas puxaram suas khandas e esperaram, preparados para nos deter caso fôssemos idiotas o bastante para tentar pular.
— Você matou o Timbre — rosnou um.
— Você matou o Agudo — rosnou outro.
No peitoril, Medeia riu.
— Está vendo, Apolo? Escolhi voluntários muito motivados! Os outros estavam implorando para me acompanhar até aqui, mas…
— Tem mais lá fora? — perguntou Meg.
Não consegui entender se ela achava a ideia animadora (Eba, menos para matar agora!) ou desoladora (Droga, mais para matar depois!).
— É claro, minha querida — respondeu Medeia. — Mesmo que você tomasse a decisão erradíssima de fugir daqui, não importaria. Mas Arranjo e Decibel não vão deixar isso acontecer, vão?
— Eu sou o Arranjo — disse Arranjo.
— Eu sou o Decibel — disse Decibel. — Podemos matar eles agora?
— Ainda não — disse Medeia. — Apolo está exatamente onde preciso que esteja, pronto para ser dissolvido. Quanto aos outros, relaxem. Se fizerem qualquer coisa para me deter, mando Arranjo e Decibel matarem vocês na mesma hora, ok? Isso nem vai ser muito legal, porque aí o sangue de vocês pode espirrar no icor e estragar a pureza da mistura. — Ela abriu as mãos. — Então estamos combinados. Nada de sangue contaminando o icor. Só vou precisar da essência de Apolo para essa receita.
Não gostei da forma como ela se referiu a mim, como se eu já estivesse morto e fosse só mais um ingrediente qualquer, como olhos de sapo ou açafrão.
— Eu não vou ser dissolvido — rosnei.
— Ah, Lester — disse ela. — Vai, sim.
As correntes me apertaram ainda mais, me forçando a ficar de quatro. Como Herófila suportava tamanha dor há tanto tempo? Se bem que ela era imortal, e eu, não.
— Que comece o ritual! — gritou Medeia, e começou a cantarolar.
O branco puro do icor fervilhante alterou a cor da câmara. Cacos de vidro afiados pareciam se mover debaixo da minha pele, arrancando minha forma mortal, me transformando em palavras cruzadas em que nenhuma das respostas era Apolo. Eu gritei. Eu balbuciei. Talvez tenha implorado pela minha vida. Para a sorte da pouquíssima dignidade que ainda me restava, mal consegui formar frases inteiras.
Nas profundezas atordoadas da minha agonia, tive um vislumbre de meus amigos, que recuavam, apavorados diante do vapor e do fogo que jorravam das rachaduras em meu corpo.
O medo deles era compreensível. Quem poderia julgá-los? No momento, era mais provável que eu explodisse do que os pacotes tamanho família das granadas de Macro, e minha embalagem não era tão resistente.
— Meg — chamou Grover, tentando pegar a flauta —, vou fazer uma música da natureza para ver se consigo atrapalhar essa cantoria, ou talvez pedir ajuda.
Meg segurou as espadas.
— Nesse calor? Aqui embaixo?
— A natureza é nossa única chance de sair daqui! — disse ele. — Me dê cobertura!
Ele começou a tocar a flauta. Meg montou guarda, com as espadas erguidas.
Até Herófila ajudou, fechando os punhos e fazendo cara de má, disposta a mostrar aos pandai como as Sibilas lidavam com rufiões na Eritreia.
Os mercenários pareceram meio desorientados, sem saber como reagir. A música os incomodava, e eles cobriram a cabeça com as grandes orelhas como se fossem turbantes, mas não atacaram. Medeia não tinha dado a ordem ainda, e por mais irritante que a música de Grover fosse, eles não sabiam ao certo se aquilo constituía ou não um ato de agressão.
Enquanto isso, eu lutava para não ser esfolado. Cada pedacinho da minha força de vontade estava dedicada a me manter inteiro. Eu era Apolo, não era? Eu… eu era lindo e as pessoas me amavam. O mundo precisava de mim!
O canto de Medeia minou minha confiança. A letra em cólquida antigo perfurou minha mente. Quem precisava desses deuses antigos, afinal? Quem ligava para Apolo? Calígula era muito mais interessante! Era mais adequado ao mundo moderno. Ele fazia sentido. Eu, não. Por que eu não deixava logo essa coisa de divindade pra lá? Assim eu poderia ficar em paz para sempre.
A dor é uma coisa interessante. Você acha que chegou ao seu limite e que não há como sofrer mais, mas então descobre que há outro nível de agonia. E depois mais outro. Os cacos de vidro debaixo da minha pele cortavam e se moviam e rasgavam e queimavam, como se erupções solares dominassem meu corpo mortal patético, atravessando a camuflagem ártica barata da loja de Macro. Eu perdi a noção de quem eu era, de por que estava lutando para ficar vivo. Meu único desejo era desistir, para dar fim ao sofrimento.
Mas então Grover encontrou seu ritmo. As notas ficaram mais confiantes e animadas, a cadência, mais regular. Ele se dedicou a uma melodia vigorosa e aflita, do tipo que os sátiros tocavam durante a primavera nas campinas da Grécia antiga, torcendo para que as belas músicas encorajassem as dríades a se aproximarem e dançarem com eles no meio das flores.
Aquele calabouço de palavras cruzadas em chamas era o pior contexto possível para uma música como aquela; nenhum espírito da natureza a ouviria. Nenhuma dríade dançaria conosco. Ainda assim, a melodia aliviava minha dor. Diminuía a intensidade do calor, como um pano frio e úmido na minha testa febril.
O canto de Medeia hesitou. Ela olhou para Grover com ódio.
— É sério, sátiro? Você vai parar de vez com essa bobagem ou vou ter que obrigá-lo?
Grover tocou ainda mais freneticamente, um pedido de socorro que ecoava pela câmara, fazendo os corredores reverberarem como os tubos de um órgão de igreja.
Meg se juntou a ele, entoando palavras sem sentido em um tom terrível.
— E aí, natureza? Nós amamos as plantas. Venham, lindas dríades, e, hã, cresçam e… matem essa feiticeira e tal.
Herófila, cuja voz já fora tão linda, que nascera cantando profecias, olhou para Meg bastante consternada. Aquela mulher era uma santa mesmo, porque qualquer outra naquela posição já teria dado um soco na garota.
Medeia suspirou.
— Tudo bem, já chega. Meg, sinto muito, mas você vai morrer. Tenho certeza de que Nero vai me perdoar por isso quando eu contar para ele como você cantou mal. Arranjo, Decibel: silenciem os dois.
Clave gorgolejou, nervoso, e tentou tocar o ukulele, apesar das mãos amarradas e dos dois dedos quebrados.
Enquanto isso, Arranjo e Decibel sorriram de prazer.
— É chegada a hora da vingança. MORRAM! MORRAM!
Eles desenrolaram as orelhas, levantaram as espadas e pularam na plataforma.
Meg poderia ter dizimado os dois com suas queridas espadas?
Não sei. Mas ela fez uma coisa quase tão surpreendente quanto sua vontade repentina de cantar. Talvez, ao olhar para o coitado do Clave, ela tenha decidido que sangue de pandos suficiente tinha sido derramado. Talvez ela ainda estivesse pensando na raiva mal direcionada e a quem deveria realmente dedicar todo aquele ódio. Fosse qual fosse o caso, as espadas voltaram ao formato de anéis. Ela pegou um pacote no cinto e o abriu, espalhando sementes no caminho dos pandai.
Arranjo e Decibel deram um grito quando as plantas surgiram, cobrindo-os de uma camada verde de erva-de-santiago. Arranjo cambaleou até a parede mais próxima e começou a espirrar sem parar, a planta o prendendo à pedra como uma mosca em uma teia de aranha. Decibel caiu na plataforma bem aos pés de Meg, tão coberto de plantas que ele mais parecia um arbusto com uma crise de espirros.
Medeia revirou os olhos.
— Que inferno… Eu falei para Calígula que guerreiros de dentes de dragão eram guardas muito melhores, mas nããããão, ele insistiu em contratar pandai. — Ela balançou a cabeça, impaciente. — Desculpem, rapazes. Vocês tiveram sua chance.
Ela estalou os dedos de novo. Um ventus ganhou vida, gerando um ciclone de cinzas. O espírito avançou em Arranjo, arrancou o pandos da parede e o despejou no lago de icor fervilhante. Simples assim. Em seguida, atravessou a plataforma, roçando nos pés dos meus amigos, e empurrou Decibel, que chorava e espirrava, em direção ao mesmo destino do companheiro.
— Agora — disse Medeia —, se eu puder dar um conselho a vocês, seria: FIQUEM QUIETOS.
ventus atacou, envolvendo Meg e Grover e erguendo-os da plataforma.
Eu gritei, me debatendo nas correntes, certo de que Medeia jogaria meus amigos no fogo, mas eles só ficaram suspensos no ar. Grover ainda tocava a flauta, embora nenhum som atravessasse a barreira de vento. Meg estava furiosa e aos berros, provavelmente vociferando algo como: ISSO DE NOVO? VOCÊ ESTÁ DE BRINCADEIRA COM A MINHA CARA?
Herófila não foi capturada pelo ventus. Medeia não devia considerá-la uma ameaça. A profetisa parou ao meu lado, os punhos ainda fechados. Fiquei agradecido por aquilo, achei fofo e tal, mas não via o que uma Sibila boxeadora poderia fazer para deter Medeia.
— Tudo bem! — disse a feiticeira, com um brilho vitorioso nos olhos. — Vou começar de novo. Entoar esse canto ao mesmo tempo em que controlo um ventus não é muito fácil, então se comportem. Senão posso me desconcentrar e largar Meg e Grover no icor. E já temos impurezas demais lá dentro, com os pandai e as plantas. Agora, onde estávamos? Ah, sim! Esfolando sua forma mortal!

2 comentários:

  1. Meg e uma péssima cantora, e aposto que a Sibila tem uma carta na manga.
    AGORA MATEM ELA PESSOAL.

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  2. apolo tenha uma estrategia , por favor,

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Boa leitura, E SEM SPOILER!