9 de junho de 2018

Capítulo 40

O AR ESTÁ com cheiro de madressilva e dias de verão que não acabam nunca. É o dia perfeito para um casamento. Acho que não existe lugar mais bonito do que a Virgínia no verão. Tudo está florescendo, tudo está verde, ensolarado e cheio de esperança. Quando eu me casar, acho que vou gostar que seja em casa também.
Nós acordamos cedo, e parecia que haveria muito tempo, mas é claro que estamos correndo como barata tonta. Trina voa de um lado para outro no andar de cima com o roupão de seda que Kristen comprou para ela. Kristen comprou o mesmo roupão, só que cor-de-rosa, para as madrinhas, com nossos nomes bordados em dourado no bolso da frente. No de Trina está escrito Noiva. Tenho que tirar o chapéu para Kristen. Ela é irritante, mas tem visão. Sabe fazer coisas legais.
A amiga fotógrafa de Trina tira uma foto de todas nós de roupão, com Trina sentada no meio como um cisne bronzeado. Chega a hora de nos vestirmos. Nós negociamos o smoking de Kitty; ela vai usar uma camisa de botão de mangas curtas, uma gravata-borboleta xadrez multicolorida e uma calça até os tornozelos. O cabelo está preso em tranças em volta da cabeça. Ela está tão bonita. Está tão… Kitty. Eu cedi e coloquei flores mosquitinho no cabelo, mas não uma coroa de flores. Também cedi na minha visão das camisolas de fada para Margot e para mim. Estamos usando vestidos florais vintage dos anos 1950 que encontrei na Etsy. O de Margot é creme com margaridas amarelas, e o meu tem flores cor-de-rosa e alças amarradas nos ombros. O meu deve ter pertencido a uma menina baixinha, porque nem preciso ajustar, ele para logo acima dos joelhos, bem onde deveria.
Trina está linda de noiva. Os dentes e o vestido estão muito brancos em sua pele bronzeada.
— Eu não estou ridícula, estou? — Ela olha com nervosismo na minha direção. — Velha demais para usar branco? Afinal, eu sou divorciada.
Margot responde antes de mim.
— Você está perfeita. Simplesmente perfeita.
Minha irmã mais velha tem um jeito de parecer estar certa. O corpo todo de Trina relaxa, como uma grande expiração.
— Obrigada, Margot. — A voz dela fica trêmula. — Eu estou tão… feliz.
— Não chore! — grita Kitty.
— Shh — digo para ela. — Não grite. Trina precisa de serenidade.
Kitty está uma pilha de nervos o dia todo; parece que é aniversário dela, noite de Natal e primeiro dia de aula, tudo junto.
Trina abana as axilas.
— Estou suando. Acho que preciso de mais desodorante. Kitty, estou fedendo?
Kitty se inclina mais para perto.
— Você está bem.
Nós já tiramos umas cem fotos hoje, e vamos tirar centenas mais, mas sei que essa vai ser minha favorita. As três garotas Song em volta de Trina, Margot secando os olhos dela com um lenço, Kitty em cima de um banquinho ajeitando o cabelo de Trina e o braço dela em volta de mim. Estamos sorrindo tanto. As coisas estão terminando, mas também estão começando.
Quanto a Peter, não há sinal dele. Cada vez que um carro passa na nossa rua, eu vou até a janela para ver se é ele, mas nunca é. Ele não vem, e eu não o culpo. Mas ainda tenho esperança, porque não tenho como evitar.

* * *

O quintal está cheio de luzes de Natal e lanternas brancas de papel. Tudo bem que não tem parede de rosas, mas está lindo mesmo assim. Todas as cadeiras estão posicionadas; o tapete foi esticado no meio para Trina. Cumprimento os convidados conforme eles chegam; o grupo é pequeno, menos de cinquenta pessoas. O tamanho perfeito para um casamento no quintal. Margot está sentada com as nossas duas avós e com o pai e a irmã de Trina na primeira fileira, fazendo companhia para eles enquanto ando e cumprimento os Shah, que são nossos vizinhos, a tia Carrie e o tio Victor, minha prima Haven, que elogia meu vestido. Durante todo o tempo, meu olhar está vidrado na entrada, esperando um Audi preto que não chega.
Quando “Lullaby”, das Dixie Chicks, começa a tocar, Kitty, Margot e eu assumimos nossas posições. Papai chega e fica em sua posição de noivo, e nós todos olhamos para a casa, de onde Trina sai e se aproxima de nós. Ela está resplandecente.
Nós choramos durante os votos, até Margot, que nunca derrama uma lágrima. Eles escolhem a linha tradicional, e quando o reverendo Choi, pastor da igreja da vovó, diz “Pode beijar a noiva”, papai fica vermelho, mas beija Trina com um floreio. Todo mundo bate palmas; Kitty dá gritinhos. Jamie Fox-Pickle late.

* * *

A dança de pai e filha foi ideia de Trina. Ela disse que já tinha passado por aquilo e não sentia necessidade de passar de novo, e que teria um significado bem maior se nós, as irmãs Song, fizéssemos a dança. Nós treinamos no começo da semana na pista de dança que papai alugou.
Planejamos que a dança de pai e filha fosse com Margot primeiro, depois eu os interromperia para dançar e depois Kitty. A música que papai escolheu foi “Isn’t She Lovely”, uma que Stevie Wonder compôs para a filha quando ela nasceu.
Kitty e eu ficamos por perto, batendo palmas no ritmo. Sei que ela já está curtindo o momento de me interromper.
Antes de soltar Margot, papai a puxa para perto e sussurra alguma coisa no ouvido dela, e ela fica com os olhos marejados. Não vou perguntar o que ele disse. É um momento só deles.
Papai e eu treinamos alguns passos. As pessoas adoram quando andamos dançando lado a lado e balançamos os ombros juntos.
— Estou tão orgulhoso de você — diz ele. — Minha filha do meio.
É minha vez de ficar com lágrimas nos olhos. Dou um beijo na bochecha dele e o entrego a Kitty. Papai dança com ela na hora que a gaita começa.
Estou saindo da pista de dança quando o vejo. Peter de terno, afastado, ao lado do corniso.
Ele está tão lindo que mal consigo suportar. Atravesso o quintal, e ele fica me olhando o tempo todo. Meu coração está disparado. Ele está aqui por minha causa? Ou veio só porque prometeu ao meu pai?
Quando paro na frente dele, eu digo:
— Você veio.
Peter afasta o olhar.
— Claro que vim.
— Eu queria poder voltar atrás nas coisas que falei na outra noite — digo, baixinho. — Nem me lembro de tudo.
Peter olha para baixo.
— Mas você falou sério, não foi? Então que bom que você disse, porque alguém tinha que falar, e você estava certa.
— Sobre que parte? — sussurro.
— Sobre a UNC. Sobre eu não pedir transferência para lá. — Ele levanta a cabeça, os olhos tristes. — Mas você devia ter me dito que minha mãe conversou com você.
Eu suspiro, trêmula.
— Você devia ter me dito que estava pensando em pedir transferência! Devia ter me contado o que estava sentindo. Você se fechou depois da formatura. Não deixou eu me aproximar. Ficava dizendo que ia ficar tudo bem.
— Porque eu estava com medo pra cacete, tá!
Peter olha ao redor para ver se alguém ouviu o grito, mas a música está alta e todo mundo está dançando. Ninguém olha para nós, parece que estamos sozinhos no quintal.
— Do que você estava com tanto medo? — sussurro.
Ele fecha as mãos nas laterais do corpo. Quando fala, a voz sai rouca, como se ele não a usasse havia um tempo.
— Eu estava com medo de que você fosse para a UNC e descobrisse que eu não valia a pena e simplesmente fosse embora.
Dou um passo para mais perto. Coloco a mão em seu braço. Ele não se afasta de mim.
— Além da minha família, você é a pessoa mais especial do mundo para mim. E falei sério sobre algumas das coisas que disse na outra noite, mas não a parte em que disse que queria perder minha virgindade com você só para fechar nosso capítulo. Eu queria que fosse você porque te amo.
Peter passa um dos braços pela minha cintura, me puxa para perto e olha para mim.
— Nenhum de nós quer terminar — diz com intensidade. — Por que a gente deveria? Por causa de uma merda que a minha mãe disse? Porque sua irmã fez isso? Você não é igual à Margot, Lara Jean. Nós não somos iguais a Margot e Sanderson nem a ninguém. Nós somos você e eu. E vai ser difícil, sim. Mas, Lara Jean, eu nunca vou sentir por outra garota o que eu sinto por você. — Ele fala com toda a certeza que só um garoto adolescente pode ter, e eu nunca o amei mais do que neste momento.

* * *

“Lovin’ in My Baby’s Eyes” está tocando, e Peter pega minha mão e me leva para o gramado.
Nós nunca dançamos esse tipo de música. É do tipo em que se oscila no ritmo e faz muito contato visual e sorri. A sensação é diferente, como se já fôssemos versões mais velhas de Peter e Lara Jean.
Do outro lado da pista, Trina, Kitty e Margot dançam em círculo, com a vovó coreana no meio. Haven está dançando com meu pai. Ela olha para mim e diz com movimentos labiais: Ele é tão lindo. Peter, não meu pai. Ele é muito, muito lindo.
Eu nunca vou esquecer essa noite enquanto viver. Um dia, se eu tiver sorte, vou contar para alguma garota jovem todas as minhas histórias, como Stormy me contou as dela. E vou poder vivê-las de novo.
Quando eu for velha e grisalha, vou pensar nesta noite e vou lembrar dela exatamente como foi.
É.
Nós ainda estamos aqui. O futuro ainda não chegou.

* * *

Naquela noite, depois que todos os convidados foram embora, após as cadeiras terem sido empilhadas, e as sobras, guardadas na geladeira, eu vou para o quarto tirar o vestido. Na cama encontro meu anuário. Olho a contracapa e ali está a mensagem de Peter para mim.
Só que não é uma mensagem, é um contrato.

Contrato retificado de Lara Jean e Peter
Peter vai escrever uma carta para Lara Jean uma vez por semana. Uma carta de verdade, manuscrita, não um e-mail.
Lara Jean vai ligar para Peter uma vez por dia. De preferência, a última ligação da noite, antes de ela ir dormir.
Lara Jean vai pendurar uma foto de Peter, à escolha dela, na parede.
Peter vai deixar o scrapbook em cima da mesa, para que qualquer pessoa interessada veja que ele está comprometido.
Peter e Lara Jean vão sempre contar a verdade um para o outro, mesmo que seja difícil.
Peter vai amar Lara Jean com todo o coração, para sempre.

5 comentários:

  1. ALINE MICHELLE GOMES CABRAL ALMEIDA10 de junho de 2018 10:41

    Lindo, amei.

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  2. Mano eu chorei mto nesse capítulo

    Ps: eh tão esquisito ser a primeira a comentar

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  3. Que capítulo perfeitoo❤

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Boa leitura, E SEM SPOILER!