26 de junho de 2018

Capítulo 40

Às onze da manhã do outro dia, Gansey recebeu uma série de mensagens de Ronan. A primeira era meramente uma fotografia. Um close de uma parte da anatomia de Ronan que ele não tinha visto antes. Uma bandeira irlandesa estava amarrada a ela. Não era a exibição de nacionalismo mais grotesca que Gansey já vira, mas estava perto disso.
Gansey recebeu a mensagem enquanto participava do chá de sua mãe.
Sonolento pela noite mal-dormida no sofá, dormente pela socialização recatada acontecendo por toda sua volta e assombrado pela briga com Adam, ele não processou imediatamente as possíveis implicações de uma fotografia como aquela. A compreensão começava apenas a alfinetá-lo quando uma segunda mensagem chegou.

antes que você saiba por outra pessoa, eu bati o Pig

Gansey ficou subitamente muito desperto.

mas não se preocupe cara está tudo sob controle diga oi a sua mãe por mim

Na maior parte, o momento foi propício. Porque Gansey havia herdado de sua mãe uma aversão extrema por demonstrar as emoções mais desagradáveis em público (“O rosto de todas as pessoas é um espelho, Dick — se esforce para fazê-las refletir um sorriso”), e receber a notícia cercado por um público de porcelanas refinadas e damas sorridentes com seus cinquenta anos deu a ele tempo suficiente para ponderar sobre como reagir.
— Está tudo bem? — perguntou a mulher à frente dele.
Gansey piscou para ela.
— Ah, sim, obrigado.
Não havia circunstâncias em que Gansey teria respondido a essa pergunta de qualquer outra maneira. Possivelmente se ele tivesse ficado sabendo que um membro da família tivesse morrido. Possivelmente se um dos seus membros tivesse sido separado do seu corpo.
Possivelmente.
Enquanto ele aceitava uma travessa de sanduíches de pepino da mulher à sua direita para passar para a mulher à sua esquerda, ele se perguntou se Adam já tinha acordado.
Gansey suspeitava que ele não desceria, mesmo se estivesse desperto.
Sua mente repassou a imagem de Adam jogando as estatuetas no chão.
— Esses sanduíches estão deliciosos — disse a mulher à sua direita para a mulher à sua esquerda. Ou possivelmente para ele.
— São do Clarissa’s — disse Gansey automaticamente. — Os pepinos são locais.
O Ronan pegou o meu carro.
Naquele momento, a lembrança que Gansey teve de Ronan e de seu sorriso sujo não parecia muito diferente do sorriso aberto e asqueroso de Joseph Kavinsky.
Gansey teve de lembrar a si mesmo que eles tinham diferenças muito importantes. Ronan estava quebrado; Ronan tinha conserto; Ronan tinha alma.
— Estou tão satisfeita com o movimento para estimular a produção de alimentos locais — disse a mulher à sua direita, possivelmente para a mulher à sua esquerda. Ou talvez para ele.
Ronan tinha charme. Ele só estava enterrado lá no fundo.
Muito fundo.
— O gosto é mais fresco — disse a mulher à sua esquerda.
A questão era que Gansey sabia o que acontecia nas noites de sexta--feira, quando o BMW de Ronan voltava cheirando a freio queimado e com a embreagem desgastada. E ele levara as chaves do Camaro consigo, quando partira, por uma razão. Então aquilo não era surpresa.
— Realmente, as vantagens estão nos baixos custos de combustível e transporte — disse Gansey —, que são repassados para o consumidor. E para o meio ambiente.
Mas o que ele queria dizer com bati?
A mente de Gansey estava sobrecarregada. Ele podia sentir as sinapses se matando.
— É de se perguntar o que vai acontecer com os empregos no segmento do transporte, no entanto — disse a mulher à direita. — Você me passaria o açúcar, por favor?
Diga oi a sua mãe?
— Acredito que a infraestrutura local necessária para processar e vender esses produtos vai resultar em perda de empregos de soma zero — disse Gansey. — O maior desafio vai ser ajustar as expectativas das pessoas à sazonalidade dos produtos que elas passaram a esperar o ano inteiro.
Bati.
— Talvez você esteja certo — disse a mulher à sua esquerda. — Embora eu adore comer pêssegos no inverno. Vou querer o açúcar também, por favor.
Ele passou uma tigela com torrões de açúcar marrons da mulher à sua direita para a mulher à sua esquerda. Do outro lado da mesa, Helen gesticulava animadamente para uma cremeira com o formato de uma lâmpada do gênio. Ela parecia bem-disposta como uma apresentadora de televisão.
Erguendo a cabeça, ela cruzou com o olhar de Gansey e então limpou os cantos da boca delicadamente com seu guardanapo, disse algo para sua colega de conversa e se levantou. Ela apontou para Gansey e gesticulou na direção da porta da cozinha.
Gansey pediu licença e se juntou a ela na cozinha. Era a única parte da casa que não havia sido reformada nas últimas duas décadas, e estava sempre escura e cheirando vagamente a cebolas. Gansey parou ao lado da máquina de expresso.
Ele teve uma lembrança imediata, distante, de sua mãe glamourosa colocando o termômetro do espumador de leite debaixo de sua língua para conferir a febre. O tempo parecia irrelevante.
A porta bateu atrás de Helen.
— O que foi? — ele perguntou em voz baixa.
— Parecia que você estava gastando sua última nota de alegria.
— Eu não sei nem do que você está falando — ele sibilou.
— Sei lá. Eu estava apenas tateando no escuro.
— Bem, isso não funciona. Não faz sentido. E, de qualquer maneira, não me faltam notas de alegria. Tenho um monte delas.
— O que estava acontecendo ali, no seu telefone?
— Um débito de alegria muito pequeno.
O sorriso de sua irmã mais velha reluziu brilhantemente.
— Está vendo? Funciona sim. Agora, você precisava ou não sair daquela sala?
Gansey inclinou a cabeça num ligeiro reconhecimento. Os irmãos Gansey se conheciam bem.
— Não tem de quê, viu? — disse Helen. — Me avise se precisar que eu faça um cheque de alegria.
— Eu realmente não acredito que isso funcione.
— Ah, acho que tem futuro — ela respondeu. — Agora, se você me dá licença, preciso voltar para a srta. Capelli. Estamos falando sobre a síndrome de adaptação espacial e o efeito Coriolis. Eu só queria que você soubesse o que está perdendo.
— Perdendo é um termo forte.
— É. É mesmo.
Helen passou para a sala empurrando a porta vai e vem. Gansey ficou imóvel na cozinha escura cheirando a vegetais de raiz até a porta parar. Então ligou para Ronan.
— Dick — disse Kavinsky. — Gansey.
Afastando o telefone da cabeça, Gansey confirmou que realmente havia ligado para o número correto. A tela exibia RONAN LYNCH. Ele não conseguia entender como o telefone de Ronan havia parado nas mãos de Kavinsky, mas coisas mais estranhas já haviam acontecido. Pelo menos agora as mensagens faziam sentido.
— Dick Três — disse Kavinsky. — Você está aí?
— Joseph — disse Gansey afavelmente.
— Engraçado ouvir a sua voz. Vi o seu carro andando pela cidade ontem à noite. Ele só tem metade da cara agora. Pobre diabo.
Gansey fechou os olhos e deixou escapar um suspiro.
— Desculpe, não ouvi — disse Kavinsky. — Como? Eu sei, eu sei... Isso é o que o Lynch diz.
Gansey cerrou os dentes em uma linha absolutamente reta. O pai de Gansey, Richard Campbell Gansey II, também fora para um internato, a agora extinta Rochester Hall. Seu pai, colecionador de coisas, colecionador de palavras, colecionador de dinheiro, tinha histórias hipnotizantes para contar. Nelas, Gansey vislumbrava cenas de uma comunidade utópica de pares com vontade de aprender, entusiasmados em sua busca por sabedoria.
Era uma escola que não ensinava apenas história — não, ela usava o passado como um casaco confortável, amado apesar das bordas puídas. Era C. S. Lewis e os Inklings, Yeats e o Teatro Abbey, Tolkien e seu Kolbítar, Glendower e seu poeta Iolo Goch, Artur e seus cavaleiros. Era uma comunidade de acadêmicos recém-saídos da adolescência, uma espécie de história em quadrinhos da Marvel, em que cada herói representava um braço diferente das ciências humanas.
Não tinha nada de árvores cheias de papel higiênico e subornos sussurrados, embaixadinhas com bolas no jardim e casos entre professores, vodca dada e carros roubados.
Não tinha nada da Academia Aglionby.
Às vezes, a diferença entre a utopia e a realidade exauria Gansey.
— Tudo bem, então — disse Gansey. — Isso foi ótimo. Você vai devolver o telefone para o Ronan algum dia?
Houve um silêncio. O tipo de silêncio pouco sincero, que faria as pessoas virarem a cabeça para observar, como uma risada em voz alta.
Gansey não dava a menor importância para isso.
— Ele vai ter que tentar com mais vontade — disse Kavinsky.
— Como?
— Isso é o que o Lynch está dizendo, também.
Gansey podia ouvir o sorriso desonesto na voz de Kavinsky. Ele perguntou:
— Você não acha que o seu humor nivela por baixo demais?
— Cara, não me venha com esse papo professoral aí. Olha só: o Ronan que você conhece não existe mais. Ele está passando por um momento de autodescoberta. Um... um... Bildungsroman. Olha só pra mim! Que tal essa, professor Dick-dick-dick.
— Kavinsky — disse Gansey sem alterar a voz. — Cadê o Ronan?
— Bem aqui. Acorda, seu merda, é a sua namorada! — disse Kavinsky. — Desculpe. Ele está completamente bêbado. Quer deixar recado?
Gansey levou um minuto muito longo para se recompor. E descobriu, do outro lado do minuto, que ainda estava bravo demais para falar.
— Dickie. Você ainda está aí?
— Estou. O que você quer?
— O que eu sempre quis. Me divertir.
O telefone ficou mudo.
Ali parado, Gansey subitamente se lembrou de uma história sobre Glendower, uma que sempre o incomodara. Glendower era uma lenda, de muitas maneiras. Ele se rebelara contra os ingleses quando todos os homens medievais de sua idade já encaravam a velhice e a morte. Ele unira os povos, superara obstáculos impossíveis e dominara o País de Gales com os rumores de seus poderes mágicos. Advogado, soldado, pai. Um gigante místico que deixara uma marca permanente.
Mas essa história... Alguns galeses não estavam convencidos de que cutucar seus vizinhos ingleses melhoraria a situação difícil do País de Gales. Em particular, um dos primos de Glendower, um homem chamado Hymel, achava que Glendower havia perdido sua cabeça jurídica. Como ocorre na maioria das famílias, ele expressou sua diferença de opinião juntando um pequeno exército. Isso poderia desanimar a maioria dos príncipes, mas não Glendower. Ele era um advogado e — assim como Gansey — um crente no poder das palavras. Ele combinou de se encontrar sozinho com Hymel em um campo de caça de veados, para se entenderem.
Gansey não se incomodara com a história até esse ponto. Esse era o Glendower que ele seguiria para qualquer parte.
Então, os dois homens viram um veado. Hymel ergueu o arco. Mas, em vez de atirar no animal, ele atirou em Glendower... o qual, inteligentemente, vestira uma malha de metal por baixo da túnica.
Gansey preferiria que a história terminasse aí.
Mas não terminou. Em vez disso, sem ter sido ferido pela flecha e irado pela traição, Glendower perseguiu Hymel, o esfaqueou e finalmente enfiou o corpo de Hymel dentro de um carvalho.
Toda essa parte da punhalada, do corpo enfiado e da absoluta perda de autocontrole parecia bastante ignóbil. Gansey preferiria jamais ter encontrado essa história. Não havia como voltar atrás em sua leitura. Mas agora, após ouvir a risada lenta de Kavinsky do outro lado da linha, imaginando Ronan bêbado em sua ausência, vendo o Camaro num estado totalmente diferente de como ele o deixara, Gansey entendeu o que se passara com Glendower.
Ele estava ao mesmo tempo mais próximo e mais distante de Glendower do que jamais estivera.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!