20 de junho de 2018

Capítulo 40

Barrington Whelk não estava satisfeito com Neeve. Para começo de conversa, desde que ele entrara no carro, ela não fizera nada além de comer homus e bolachas, e a combinação do cheiro de alho e da mastigação de bolachas era incrivelmente irritante. O pensamento de que ela estava enchendo o banco do carro dele com migalhas era um dos mais perturbadores que ele tivera em uma semana de pensamentos extremamente perturbadores. Também, a primeira coisa que ela havia feito após eles terem trocado cumprimentos foi usar seu taser nele. Isso foi seguido pela infâmia de ser amarrado na parte de trás de seu próprio carro.
Como se não bastasse eu ter que suportar esse carrinho de merda, pensou Whelk, agora vou morrer nele.
Ela não havia dito que sua intenção era matá-lo, mas Whelk tinha passado os últimos quarenta minutos sem conseguir ver grande coisa a não ser o assoalho atrás do banco do passageiro. Havia uma tigela larga e rasa de cerâmica com uma coleção de velas, tesouras e facas. As facas eram de um tamanho considerável e sinistro, mas não uma garantia de assassinato iminente. As luvas de borracha que Neeve usava, e o par extra dentro da tigela, eram.
Da mesma maneira, Whelk não podia ter certeza se eles se dirigiam para a linha ley, mas, pelo tempo que Neeve passara examinando o diário antes de seguir em frente pela estrada, ele suspeitava se tratar de um bom palpite. Whelk não era dado a suposições — mas ele pensou que seu destino provavelmente estava fadado a ser o mesmo de Czerny, sete anos atrás.
Uma morte ritual, então. Um sacrifício, com seu sangue penetrando a terra até alcançar a linha ley adormecida embaixo. Esfregando os punhos amarrados um contra o outro, ele virou a cabeça para Neeve, que segurava a direção com uma mão, enquanto comia as bolachas e o homus com a outra. Para agravar ainda mais a situação, ela estava ouvindo algum tipo de CD de sons da natureza em batida trance no rádio do carro. Talvez se preparando para o ritual.
Sua morte na linha ley, pensou Whelk, teria uma espécie de circularidade.
Mas ele não se importava com a circularidade. Ele se importava com seu carro perdido, com seu respeito perdido. Ele se importava com a capacidade de dormir à noite. Ele se importava com línguas mortas há tanto tempo que não mudariam em seu tempo de vida. Ele se importava com o guacamole que a antiga chef de seus pais costumava fazer.
E também com o fato de que Neeve não o havia amarrado firme o suficiente.

Um comentário:

  1. Esses capítulos curtos do Whelk fazem meu dia, muito mais rápido de pular

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Boa leitura, E SEM SPOILER!