3 de junho de 2018

Capítulo 40

Você desvendou esse enigma
Congratulações
Você ganhou… inimigos

TUDO BEM, NESSE caso, queria dizer tudo bem se vocês gostam de lava, correntes e magia negra.
O corredor nos levou direto à câmara do oráculo. Por um lado… Viva! Por outro, ai. O salão era retangular, do tamanho de uma quadra de basquete. Nas paredes havia umas seis entradas, seis passagens simples de pedra com um pequeno patamar acima do lago de lava das minhas visões. Só então percebi que a substância borbulhante e brilhante não era lava. Era o icor divino de Hélio, mais quente do que lava, mais poderoso do que combustível de foguete, impossível de tirar se pingasse nos sapatos (eu já havia tentado). Nós tínhamos chegado ao centro do Labirinto, ao tanque do poder de Hélio.
Flutuando na superfície de icor havia ladrilhos grandes de pedra, cada um com meio metro de lado, formando colunas e linhas que não pareciam seguir qualquer lógica.
— É um jogo de palavras cruzadas — disse Grover.
É claro que era. Infelizmente, nenhuma das pontes de pedra ia até nossa sacada, e nenhuma levava ao lado oposto do salão, onde a Sibila Eritreia jazia abandonada em uma plataforma de pedra. O lugar lembrava uma solitária de cadeia, com apenas um colchão, uma mesa e uma privada. (Sim, até Sibilas imortais tinham necessidades fisiológicas. Inclusive, algumas das melhores profecias aconteceram… Deixem pra lá.) Senti um aperto no peito ao ver Herófila naquelas condições. Ela estava como nas minhas lembranças: uma jovem de cabelo castanho trançado, pele clara e corpo atlético, fruto da mãe náiade forte e do pai corpulento. Sua veste branca estava toda chamuscada. Ela observava atentamente uma entrada na parede à esquerda, então não pareceu reparar que estávamos do outro lado.
— É ela? — sussurrou Meg.
— Você está vendo algum outro oráculo aqui? — falei.
— Então fala com ela, ué.
Eu me perguntei por que eu sempre que tinha que fazer tudo, mas limpei a garganta e gritei:
— Herófila!
A Sibila se levantou em um pulo. Só então reparei nas correntes, os mesmos elos em brasa de minhas visões, presos aos pulsos e aos tornozelos dela, prendendo-a à plataforma e limitando seus movimentos a quase nada. Quanta indignidade!
— Apolo!
Pensei que o rosto dela se iluminaria de alegria quando me visse, mas, em vez disso, a profetisa pareceu chocada.
— Achei que você viria pela outra… — A voz dela sumiu. Herófila estreitou os olhos, concentrada, e disse: — Oito letras, terminando em M.
Passagem? — arriscou Grover.
As pedras no lago se moveram e mudaram de posição. Um bloco surgiu em frente à nossa pequena plataforma. Outros sete apareceram depois, formando uma ponte com oito pedras. Letras douradas surgiram, começando com o M aos nossos pés: PASSAGEM.
Herófila bateu palmas com empolgação, balançando as correntes.
— Muito bem! Andem logo!
Eu não estava muito animado para atravessar uma balsa de pedra flutuante em um lago de icor fervente, mas Meg deu um passo à frente, e Grover e eu fomos atrás.
— Sem querer ofender, dona moça — gritou Meg para a Sibila —, mas a gente já quase caiu em um negócio de lava. Você não pode só fazer logo uma ponte até aí, sem mais enigmas?
— Eu bem que queria! — disse Herófila. — Essa é minha maldição! Ou eu falo assim, ou fico completamente… — Ela engasgou. — Dez letras. A sexta é C.
Calada! — gritou Grover.
Nossa pedra ribombou e balançou. Grover se desequilibrou, e se não fosse por Meg, que o segurou, o sátiro teria caído. Ainda bem que existem pessoas baixas, porque o centro de gravidade delas também é baixo.
Calada não! — gritei. — Essa não é nossa resposta final! Até porque calada só tem seis letras. Não seríamos burros a esse ponto.
Fiz cara feia para o sátiro.
— Desculpa — murmurou ele. — Me empolguei.
Meg observou as pedras. Na armação dos óculos, as pedrinhas brilhavam em vermelho.
Contestada? — sugeriu ela. — São dez letras.
— Primeiro de tudo — falei —, estou surpreso por você conhecer essa palavra. Em segundo lugar, contexto. “Fico completamente contestada” não faz sentido. Além disso, o C estaria no lugar errado.
— Qual é a resposta certa, então, deus sabichão? — perguntou ela. — E vê se não erra dessa vez.
Que injustiça! Tentei pensar em sinônimos para calada, mas não encontrei muitos. Eu gostava de música e poesia, ora. Silêncio não era minha praia.
Silenciosa — falei, por fim. — Só pode ser isso.
As pedras nos recompensaram formando uma segunda ponte, SILENCIOSA, que cruzava a primeira ponte, no primeiro A de passagem. No entanto, como a nova ponte levava para outro lado, não chegamos mais perto da plataforma do oráculo.
— Herófila! — gritei. — Olha, entendo sua situação. Mas não teria como você manipular o tamanho das respostas? Será que a próxima pode ser uma palavra bem comprida e bem fácil que leve até a sua plataforma?
— Você sabe que não posso, Apolo. — Ela juntou as mãos. — Mas, por favor, vocês têm que correr se quiserem impedir que Calígula se torne um… — Ela engasgou. — Quatro letras, a primeira é D.
Deus — constatei, frustrado.
Uma terceira ponte se formou: quatro pedras, tocando no E de silenciosa, o que nos deixou apenas uma pedra mais perto do nosso objetivo. Meg, Grover e eu nos esprememos no D. O salão parecia ainda mais quente, como se o icor de Hélio ficasse cada vez mais furioso à medida que nos aproximávamos da Herófila. Suávamos sem parar, e minha roupa camuflada ártica estava encharcada.
Um abraço em grupo não me deixava tão desconfortável desde o show dos Rolling Stones no Madison Square Garden, em 1969. (Dica: Por mais tentador que possa parecer, não abrace Mick Jagger e Keith Richards na hora do bis. Como eles suam.) Herófila suspirou.
— Sinto muito, meus amigos. Vou tentar de novo. Às vezes eu desejo que a profecia fosse um presente que eu nunca… — Ela fez uma careta de dor. — Quatro letras. A última é I.
Grover se virou.
— Ué, como assim? O I está atrás da gente.
Tentei examinar as linhas e colunas que tínhamos até o momento, mas não foi uma tarefa muito fácil, porque o calor era tão grande que parecia que tinham espremido cebolas nos meus olhos.
— Talvez — falei — essa nova palavra seja na vertical e saia do I de silenciosa.
Os olhos de Herófila cintilaram, encorajadores.
Meg limpou o suor da testa.
— Bom, então por que a gente fez o deus? Não adiantou nada.
— Ah, não — gemeu Grover. — Nós ainda estamos formando a profecia, não é? Passagem, silenciosa, deus? O que isso quer dizer?
— Eu… não sei — admiti, meus neurônios fervendo no cérebro como macarrão em sopa de letrinhas. — Vamos descobrir mais algumas palavras. Herófila disse: às vezes desejo que a profecia fosse um presente que eu nunca… o quê?
Ganhei não cabe — murmurou Meg.
Recebi? — sugeriu Grover. — Não. Letras demais.
— Talvez seja uma metáfora — cogitei. — Um presente que eu nunca… abri?
Grover engoliu em seco.
— É nossa resposta final?
Ele e Meg olharam para o icor fervente e depois para mim, hesitantes. A fé deles nas minhas habilidades me comovia.
— Sim — decidi. — Herófila, a resposta é abri.
A Sibila suspirou de alívio quando uma nova ponte surgiu do primeiro I de silenciosa, nos levando pelo lago. Amontoados no A de ABRI, apenas um metro e meio nos separava da plataforma da Sibila.
— Será que não dá para a gente pular? — perguntou Meg.
Herófila sufocou um grito.
— Acho que um pulo não seria uma atitude muito inteligente — falei. — Temos que completar as palavras cruzadas. Herófila, uma palavrinha pequena para avançarmos?
Com muita cautela, a Sibila falou:
— Palavra de três letras, horizontal. Começa com A. Palavra pequena, vertical.
Sozinho, sem ninguém.
— Uma jogada dupla! — Olhei para os meus amigos. — Acho que as palavras são alô, na horizontal, e , na vertical. Deve ser suficiente para chegarmos à plataforma.
Grover espiou pela lateral da pedra, onde o lago de icor borbulhava.
— Não quero nadar tanto e morrer na lava. Alô é uma palavra aceitável?
— Não tenho o manual das palavras cruzadas aqui comigo, me desculpe, mas acho que sim — falei.
Fiquei feliz por não estarmos jogando Scrabble. Atena, com aquele seu vocabulário absurdo, sempre ganhava. Uma vez, ela formou a palavra abaxial, e Zeus ficou com tanta raiva que jogou um raio no topo do Monte Parnasso.
— Essa é nossa resposta, Sibila — falei. — Alô e .
Mais três pedras surgiram, ligando a ponte à plataforma de Herófila.
Corremos até ela, e Herófila bateu palmas e chorou de alegria. Ela estendeu os braços para me abraçar, mas se deu conta de que ainda estava presa às correntes.
Meg observou o caminho de respostas atrás de nós.
— Tá. Se esse é o final da profecia, o que significa? Passagem silenciosa deus abri alô só?
Herófila começou a dizer alguma coisa, mas então hesitou. Ela me encarou, esperançosa.
— Vamos pensar em palavras pequenas de novo — arrisquei. — Se juntarmos a primeira parte do labirinto, nós temos Apolo encara a morte na tumba de Tarquínio exceto… hã, a passagem… para? — Olhei para Herófila, que assentiu, me incentivando. — A passagem para o deus silencioso só abri… — Apolo estranhou a frase e tentou reorganizá-la. — A passagem para o deus silencioso só for aberta por...
— Você esqueceu o alô — disse Grover.
— Acho que a gente pode pular o alô, considerando que foi jogada dupla.
Grover puxou o cavanhaque chamuscado.
— É por isso que não gosto de palavras cruzadas. Regras demais.
— Então Apolo, quer dizer, eu encaro a morte na tumba de Tarquínio, exceto se a passagem para o deus silencioso só for aberta por… pelo quê? Meg está certa. Tem que ter mais alguma parte na profecia.
Em algum lugar à minha esquerda, uma voz familiar disse:
— Não necessariamente.
Em um peitoril na parede, estava a feiticeira Medeia, parecendo bem viva e feliz em nos ver. Atrás dela, dois guardas pandos seguravam um prisioneiro acorrentado e machucado: nosso amigo Clave.
— Oi, meus queridos. — Medeia sorriu. — Então, a profecia não precisa de final, porque vocês todos vão morrer mesmo!

6 comentários:

  1. Imagino a dificuldade dos tradutores para modificar as palavras cruzadas e ainda fazer sentido, porque eles não poderiam deixar em inglês...

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    1. Porque nem todos sabem inglês. Aí, ao invés de você se adimirar com o esforço dos tradutores, outro vai xingá-los por não terem traduzido. Ser tradutor não é fácil, é uma profissão nobre. Quem aceita tem que fazer direito

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    2. Sabe que não era uma pergunta, ela estava fazendo uma observação também, né?

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  2. MATEM ESSA INFELIZ, AGORA! Esse povo só volta para atrapalhar... afff. Sai embuste!

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  3. Laíres de Deus câmara campos9 de junho de 2018 20:39

    MEU DEUS!!! que loucura foi essa?!
    caramba, Herófila! desta vez você complicou as coisas pra mim! eu sempre fui capaz de decorar todas as profecias desde Percy Jackson e os olimpianos até o livro "A profecia das sombras" nas ISSO?!ah, da um tempo!

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  4. Nossa ta muito chato essa parte do livro............perdeu o foco....

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Boa leitura, E SEM SPOILER!