3 de junho de 2018

Capítulo 4

Bem-vindos à minha base
É uma beleza:
Tem pedras, areia e ruínas

AO QUE TUDO indica, cheguei à superfície.
Eu não lembro.
Meg estava com parte do corpo paralisado, e Grover já tinha me carregado por metade da rampa, então pareceu muito errado ter sido eu a desmaiar... mas o que posso fazer? Aquele fá menor com sétima de “Strawberry Fields Forever” deve ter me cansado mais do que eu imaginava.
O que eu lembro são os sonhos febris.
Uma bela mulher de pele morena estava à minha frente, o cabelo castanho comprido preso em um coque trançado no topo da cabeça, o vestido sem mangas de um tecido leve e cinzento, como asas de mariposa. Parecia ter uns vinte anos, mas seus olhos eram pérolas negras com o lustro profundo dos séculos, uma camada protetora que escondia incontáveis sofrimentos e decepções. Os olhos de uma imortal que já viu a queda de grandes civilizações.
Estávamos parados numa plataforma de pedra, perto do que parecia uma piscina de lava. O calor emanava do chão, ondulando no ar, e meus olhos ardiam com as cinzas espalhadas pelo ambiente.
A mulher ergueu os braços em súplica. Os pulsos estavam presos por algemas de ferro ardente, o metal já vermelho e incandescente, e as correntes derretidas estavam fincadas na plataforma. Ainda assim, o metal quente não parecia queimá-la.
— Sinto muito — disse a mulher, mas eu sabia que ela não estava falando comigo.
Eu via a cena pelos olhos de outra pessoa. A mulher tinha acabado de dar más notícias para esse outro alguém — notícias horríveis, mas eu não tinha ideia do quê.
— Eu a pouparia disso, se pudesse — continuou ela. — Eu pouparia a garota. Mas não posso. Diga a Apolo que ele precisa vir, ele é o único que pode me libertar. Mesmo sendo uma… — Ela engasgou, como se tivesse um caco de vidro preso na garganta. — Seis letras — gemeu. — Começa com C.
Cilada, pensei. É uma cilada!
Fiquei um pouco empolgado, como se estivesse assistindo a um game show e soubesse a resposta antes do competidor, naquelas horas em que a gente pensa: Se eu estivesse láganharia todos os prêmios!
Mas logo percebi que não gostava daquele game show. Ainda mais porque a resposta era cilada. Ainda mais porque essa cilada era o grande prêmio.
A imagem da mulher se dissolveu nas chamas.
Eu estava em um lugar diferente, um terraço coberto com vista para uma baía enluarada. Ao longe, coberto de névoa, dava para ver a silhueta familiar do Monte Vesúvio — mas era o Vesúvio antes da erupção de 79, que explodiu o cume em pedacinhos, destruiu Pompeia e exterminou milhares de romanos. (Isso foi culpa do Vulcano. Ele estava tendo uma semana péssima.) O céu noturno estava roxo como um hematoma, e a paisagem era iluminada somente pelas tochas, a lua e as estrelas. O piso de mosaico do terraço cintilava num padrão de azulejos dourados e prateados, o tipo de trabalho artístico que poucos romanos tinham como pagar. Cortinas de seda que deviam ter custado centenas de milhares de denários emolduravam afrescos multicoloridos. Eu achava que sabia onde estava: numa vila imperial, um dos muitos palácios de prazer ao longo do golfo de Nápoles, logo no começo do império. As luzes desses lugares em geral ardiam a noite toda, como demonstração de poder e opulência, mas as tochas daquele terraço estavam apagadas, envoltas em tecido preto.
Um rapaz magro estava parado à sombra de uma coluna, olhando o mar. Sua postura era de pura impaciência. Ele ajeitou a toga branca, cruzou os braços e bateu o pé, a sola da sandália estalando no chão.
Um segundo homem veio, marchando pelo terraço. A armadura tilintava, e sua respiração era pesada como a de um lutador corpulento. Um elmo de guarda pretoriano escondia seu rosto. Ele se ajoelhou diante do rapaz.
— Está feito, princeps.
Princeps. Era latim para primeiro na linhagem, ou primeiro cidadão — o adorável eufemismo que os imperadores romanos usavam para tentar disfarçar o quanto seu poder era absoluto.
— Tem certeza de que já está na hora? — perguntou uma voz jovem e aguda. — Não quero mais surpresas.
O pretor grunhiu.
— Certeza absoluta, princeps.
O guarda estendeu os antebraços enormes e peludos. O luar iluminou a pele, e o sangue reluziu em diversos arranhões, como se unhas desesperadas tivessem cortado a carne.
— O que você usou?
O rapaz parecia fascinado.
— O travesseiro dele. Achei mais simples.
O rapaz riu.
— Aquele porco velho merecia. Passei anos esperando a morte dele e, quando finalmente anunciamos que ele bateu as sandálias, ele tem a coragem de acordar de volta? Ah, não, não mesmo! Amanhã vai ser um novo dia para Roma, um dia melhor.
O princeps foi para uma área mais iluminada, e o luar revelou seu rosto. Um rosto que eu esperava nunca mais ver.
Ele era bonito, com traços magros e angulosos, embora as orelhas fossem um pouco grandes demais. Tinha um sorrisinho torto, e os olhos tão calorosos quanto os de uma barracuda. Mesmo que vocês não reconheçam as feições dele, queridos leitores, tenho certeza de que já o conheceram. Ele é aquele valentão da escola que é encantador demais para ser punido pelos adultos; o sujeito que pensa nas pegadinhas mais cruéis e manda os outros fazerem seu trabalho sujo — e ainda por cima consegue manter a reputação em alta com os professores. É o garoto que arranca pernas de insetos e tortura animais de rua, mas ri com tanto prazer que quase consegue convencer a todos de que aquilo é apenas uma diversão inofensiva. É o garoto que rouba dinheiro dos pratos de coleta dos templos, sempre aprontando pelas costas das velhinhas, que o elogiam por ser tão bom rapaz. Ele é esse tipo de pessoa, esse tipo de mal.
E, naquela noite, ele assumiu um novo nome — um que não era presságio de dias melhores para Roma.
O guarda pretoriano baixou a cabeça.
— Ave, César!

* * *

Acordei trêmulo.
— Bem a tempo — comentou Grover.
Eu me sentei. Sentia a cabeça latejando, a boca com gosto de pó de estrige. Estava deitado sob uma tenda improvisada, um pedaço de plástico azul preso à lateral de uma colina com vista para o deserto. O Sol já estava baixo no céu.
Meg estava dormindo ali ao lado, encolhida, a mão apoiada em meu pulso. Eu teria achado um gesto fofo se não soubesse onde aqueles dedos tinham estado. (Dica: dentro do nariz.) Grover estava sentado numa protuberância na pedra ali perto, bebendo água do cantil. A julgar pela expressão de cansaço, devia ter ficado de guarda enquanto dormíamos.
— Eu desmaiei?
Ele jogou o cantil para mim.
— Achei que eu tivesse o sono pesado. Você está apagado há horas.
Tomei um gole e esfreguei os olhos, eliminando os últimos resquícios de sono. Queria poder eliminar aqueles sonhos da cabeça com a mesma facilidade. Uma mulher acorrentada numa sala de fogo, uma cilada para Apolo, um novo César com o sorriso agradável de um belo sociopata.
Não pense nisso, disse a mim mesmo. Sonhos não são necessariamente reais.
Não, respondi a mim mesmo. Só os ruins. Como esses.
Voltei a atenção para Meg, que roncava à sombra da tenda. Tinha uma atadura nova na perna, e usava uma camiseta limpa por cima do vestido arruinado. Tentei me soltar, mas ela apertou meu pulso com mais força.
— Ela está bem — garantiu Grover. — Pelo menos fisicamente. Dormiu assim que deixamos vocês aí. — Ele franziu a testa. — Mas não pareceu muito feliz de estar aqui. Disse que não aguentava este lugar, que queria ir embora. Até achei que fosse pular de volta para o Labirinto, mas consegui convencê-la de que precisava descansar primeiro. Toquei um pouco de música para ela relaxar.
Olhei em volta, me perguntando por que Meg tinha ficado tão incomodada.
A paisagem que se estendia mais abaixo só era mais hospitaleira que Marte. (O planeta, não o deus. Se bem que nenhum dos dois é bom anfitrião.) Montanhas ocre banhadas de sol circundavam um vale sarapintado de campos de golfe de um verde nada natural, planícies vazias e poeirentas e enormes subúrbios com casas de fachadas brancas, telhado vermelho e piscinas azuis. Fileiras de palmeiras imóveis costuravam as ruas em intervalos irregulares, e o vapor quente subia do asfalto dos estacionamentos. Uma névoa marrom pairava no ar, se espalhando pelo lugar como molho aguado.
— Ah, Palm Springs... — comentei.
Conheci bem a cidade na década de 1950. Tinha quase certeza de que podia ver a rua onde dei uma festa com Frank Sinatra — logo ao lado de um dos campos de golfe. Mas aquilo parecia ter acontecido em outra vida. Provavelmente porque tinha sido mesmo.
O lugar parecia bem menos acolhedor, quente demais para um fim de tarde de primavera, o ar pesado e fedorento demais. Tinha alguma coisa errada, algo que eu não conseguia definir. Examinei os arredores. Estávamos no topo de uma colina, com as matas de San Jacinto para trás e Palm Springs à frente. Uma rua de cascalho contornava a base da colina, serpenteando até o bairro mais próximo, cerca de oitocentos metros abaixo. O topo daquela colina já tinha abrigado uma estrutura grande.
Seis cilindros ocos de concreto estavam enterrados na inclinação rochosa, cada um com nove metros de diâmetro. Pareciam as estruturas em ruínas de antigos moinhos de açúcar, todas de tamanhos diferentes e em vários estágios de degradação, mas os topos estavam todos alinhados, então imaginei que fossem enormes colunas de sustentação de alguma casa. A julgar pelos detritos que cobriam a encosta (estilhaços de vidro, tábuas queimadas, pedaços enegrecidos de tijolos), a casa tinha pegado fogo muitos anos antes.
Então me dei conta de que a saída do Labirinto devia ficar em um daqueles cilindros.
Eu me virei para Grover.
— E as estriges?
Ele balançou a cabeça.
— Mesmo se alguma tiver sobrevivido e conseguir passar pelos morangos, não arriscaria sair na luz do dia. — Ele apontou para o cilindro de concreto mais distante, de onde devíamos ter saído. — Ninguém mais vai passar por ali.
— Mas… — Indiquei as ruínas. — Essa não pode ser a base.
Achei que ele fosse me corrigir, dizer ah, não, a base é aquela linda casa lá embaixo. Aquela com piscina olímpica, ao lado do décimo quinto buraco!
Mas ele teve a coragem de parecer satisfeito.
— É, sim. Este lugar tem energia natural poderosa, é um santuário perfeito. Você não sente a força vital?
Peguei um tijolo queimado.
— Força vital?
— Você vai ver. — Grover tirou o gorro e coçou entre os chifres. — Do jeito que as coisas andam, as dríades precisam ficar ocultas e inativas até o pôr do sol. Só assim conseguem sobreviver. Mas elas logo vão acordar.
Do jeito que as coisas andam.
Olhei para oeste. O Sol tinha acabado de descer atrás das montanhas, e as nuvens no céu pareciam marmorizadas, com camadas intensas de vermelho e preto — uma cena mais apropriada para Mordor do que para o sul da Califórnia.
— O que está acontecendo? — perguntei, sem saber se queria mesmo a resposta.
Grover fitou o horizonte, tristonho.
— Não viu as notícias? Os maiores incêndios florestais da história do estado. Isso sem falar na seca, nas ondas de calor e nos terremotos. — Ele estremeceu. — Milhares de dríades morreram, e outras milhares entraram em hibernação. Já seria bem ruim se fossem desastres naturais normais, mas…
Meg levou um susto, ainda dormindo. Ela se sentou de repente, piscando, confusa. Pelo pânico em seus olhos, concluí que os sonhos dela tinham sido piores que os meus.
— E-estamos mesmo aqui? Eu não sonhei?
— Está tudo bem — afirmei. — Você está segura.
Ela balançou a cabeça, o queixo tremendo.
— Não. Não estou, não.
Desnorteada, ela tirou os óculos, como se pudesse suportar aquilo melhor se não conseguisse ver direito os arredores.
— Não posso estar aqui. De novo, não.
— De novo?
De repente me lembrei de um verso da profecia de Indiana: A filha de Deméter encontra raízes antigas.
— Quer dizer que você morava aqui?
Meg examinou as ruínas, então deu de ombros, desolada. Só não ficou claro se isso queria dizer Sei lá ou Não quero tocar no assunto.
O deserto parecia um lar improvável para Meg, uma garota de rua de Manhattan criada na casa real de Nero.
Grover cofiou os pelos do cavanhaque, pensativo.
— Uma filha de Deméter… — disse ele. — Na verdade, faz muito sentido.
Olhei para ele.
— Aqui? Um filho de Vulcano, talvez. Ou de Ferônia, a deusa da mata. Ou até de Méfitis, a deusa dos gases venenosos. Mas de Deméter? O que uma filha de Deméter teria para cultivar aqui? Pedras?
Grover pareceu ofendido.
— Você não entende. Quando conhecer o pessoal…
Meg saiu de debaixo da tenda e ficou de pé, sem conseguir se apoiar direito na perna machucada.
— Tenho que ir.
— Espere! — implorou Grover. — Precisamos da sua ajuda. Pelo menos fale com os outros!
Meg hesitou.
— Outros?
Grover apontou para o norte. Só consegui ver o que ele queria mostrar quando me levantei: seis estruturas meio escondidas atrás das ruínas, todas brancas e quadradas como… galpões de depósito? Não. Estufas. A mais próxima das ruínas tinha derretido havia muito tempo, sem dúvida vítima do incêndio que arrasara o lugar; e o telhado e as paredes de policarbonato corrugado da segunda estufa tinham desabado como um castelo de cartas; mas as outras quatro pareciam intactas, com vasos de cerâmica do lado de fora e as portas abertas. Lá dentro, plantas tomavam o espaço, as folhas de palmeira empurrando as paredes transparentes, como mãos gigantescas querendo sair.
Não entendi como alguma coisa conseguia sobreviver naquela aridez escaldante, ainda mais dentro de uma estufa feita para deixar o ambiente mais quente. E também não queria chegar nem um pouco mais perto daquelas caixas quentes e claustrofóbicas.
Grover abriu um sorriso encorajador.
— Com certeza todo mundo já está acordado. Venham, vou apresentar vocês para a galera!

6 comentários:

  1. Apolo desmaia mais do que Hearthstone e Jason Grace somados.

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    1. MINHA NOSSA, EU PENSEI A MESMA COISA!

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    2. lara chaves essa.é.como eu lê magnus chase e heróis do Olimpo. Só falta agr as crónicas de kane

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  2. Damon Herondale, filho de Zeus5 de junho de 2018 19:35

    13 anos
    E o Riordan ainda faz suspense

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  3. Por quê de repente o Apolo encarnou com deuses romanos?

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  4. Gente, que galera é essa? Suspense é o segundo sobrenome do Tio Rick.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!