26 de junho de 2018

Capítulo 3

— O problema é a exposição — disse Gansey ao telefone, meio aos gritos para ser ouvido por sobre o ruído do motor. — Se Glendower realmente pudesse ser encontrado apenas caminhando sobre a linha ley, não sei como ele não foi encontrado nos últimos séculos.
Eles estavam voltando para Henrietta no Pig, o Camaro antigo furiosamente laranja-avermelhado de Gansey. Ele o dirigia, pois, quando se tratava do Camaro, ele sempre dirigia. E a conversa era sobre Glendower, porque, quando você estava com Gansey, a conversa quase sempre era sobre Glendower.
No banco traseiro, a cabeça de Adam estava inclinada para trás de uma maneira que dava igual atenção à conversa ao telefone e à sua fadiga. No meio, Blue se inclinava para frente para ouvir melhor a conversa, enquanto tirava as sementes de grama da legging de crochê. Noah estava do seu outro lado, embora você nunca pudesse dizer se ele permaneceria corpóreo quanto mais eles se afastassem da linha ley. O carro estava apertado, mais apertado ainda naquele calor, com o ar-condicionado no máximo, o ar frio escapando por todas as rachaduras, no veículo cheio de rachaduras. O ar-condicionado do Camaro tinha apenas duas posições: ligado e quebrado.
Ao telefone, Gansey disse:
— Essa é a única coisa.
Ronan se recostou no vinil preto trincado do lado da porta do passageiro e mastigou as faixas de couro no pulso. Tinham gosto de gasolina, um sabor que lhe parecia sexy e o fazia lembrar do verão.
Para ele, Glendower só interessava às vezes. Gansey precisava encontrar Glendower porque queria uma prova do impossível. Ronan já sabia que o impossível existia. Seu pai havia sido impossível. Ele era impossível. Na maior parte do tempo, Ronan queria encontrar Glendower porque Gansey queria encontrar Glendower. Só às vezes ele pensava sobre o que aconteceria se realmente o descobrisse. Ele achou que poderia parecer muito com morrer.
Quando Ronan era menor e mais tolerante em relação a milagres, ele considerara o momento da morte com um prazer rapsódico. Sua mãe lhe havia dito que, no momento em que você mirasse nos olhos de Deus e para os portões perolados, todas as perguntas que você tivera um dia na vida seriam respondidas. Ronan tinha um monte de perguntas.
Despertar Glendower poderia ser assim. Um número menor de anjos presentes, e talvez um sotaque galês mais pronunciado. Um pouco menos de julgamento.
— Não, eu compreendo. — Gansey estava usando sua voz profissional de sr. Gansey, a que transmitia certeza e comandava ratos e crianças: Vamos, vamos, sigam-me! Havia funcionado com Ronan, de qualquer forma. — Mas, se levarmos em conta que Glendower foi despertado entre 1412 e 1420 e que sua tumba foi abandonada, o acúmulo de solo natural o teria escondido. Starkman acha que as camadas medievais de ocupação podem estar sob um acúmulo de sedimento de um metro e meio a cinco metros... Bem, eu sei que não estou em uma planície aluvial. Mas Starkman estava trabalhando com a hipótese de que... Certo, sim. O que você acha do GPR?
Blue olhou para Adam. Ele não levantou a cabeça enquanto traduzia em voz baixa.
— Radar de penetração no solo.
A pessoa do outro lado da linha era Roger Malory, um professor britânico formidavelmente velho com quem Gansey havia trabalhado quando esteve no País de Gales. Assim como Gansey, ele havia estudado as linhas ley durante anos.
Diferentemente de Gansey, ele não as estava usando como um meio para encontrar um rei antigo. Em vez disso, ele parecia estudá-las como uma diversão de fim de semana, quando não havia desfiles para ver. Ronan não o conhecia pessoalmente e não fazia questão disso. O idoso o deixava ansioso.
— Gradiometria de fluxo? — sugeriu Gansey. — Nós já fizemos o avião decolar algumas vezes. Simplesmente não sei se veremos muito mais até o inverno, quando as folhas tiverem caído.
Ronan se mexeu ansiosamente. A demonstração bem-sucedida do avião o havia deixado hiperalerta. Ele tinha vontade de incendiar alguma coisa. Ele pressionou a mão diretamente sobre a ventilação do ar-condicionado para não morrer de calor.
— Você está dirigindo como uma velha.
Gansey gesticulou com uma mão, o símbolo universal para Cala a boca. Ao lado da autoestrada, quatro vacas pretas levantaram a cabeça para observar o Camaro passar.
Se eu estivesse dirigindo... Ronan pensou naquele molho de chaves do Camaro que ele tinha sonhado em realidade e enfiado em uma gaveta no seu quarto. Então deixou as possibilidades se desenrolarem lentamente em sua cabeça. Ele conferiu o telefone. Catorze chamadas perdidas. Ele o largou de volta na bolsa da porta.
— E um magnetômetro de prótons? — perguntou Gansey a Malory. Então acrescentou irritadamente: — Eu sei que isso é para detecção debaixo d’água. Eu iria usar para detecção debaixo d’água.
Fora água que encerrara os trabalhos hoje. Gansey decidira que o próximo passo em sua busca seria estabelecer os limites de Cabeswater. Eles só haviam entrado na floresta pelo lado leste e nunca haviam chegado às outras margens. Dessa vez, eles haviam adentrado a floresta bem ao norte de seus pontos de entrada anteriores, dispositivos voltados para o solo para alertá-los quando encontrassem o limite eletromagnético ao norte da floresta. Após uma caminhada de várias horas, o grupo havia chegado a um lago.
Gansey havia parado subitamente, surpreso. A questão não era a impossibilidade de atravessar o lago: ele cobria apenas alguns acres e o caminho em torno não apresentava perigo algum. E não era que o lago os tivesse impactado com sua beleza. Na realidade, em se tratando de um lago, ele era bastante sem graça: um reservatório artificialmente quadrado e afundado sobre um campo alagado.
Gado ou ovelhas haviam criado um caminho enlameado ao longo de uma borda.
O que fez Gansey não dar nem mais um passo era o fato óbvio de que o lago fora feito pelo homem. A possibilidade de que partes da linha ley pudessem estar alagadas deveria ter ocorrido a ele antes. Mas não tinha. E, por alguma razão, embora não fosse impossível acreditar que Glendower ainda estivesse de alguma forma vivo após centenas de anos, era impossível acreditar que ele tivesse realizado esse feito debaixo de toneladas de água.
Gansey havia declarado:
— Precisamos encontrar uma maneira de olhar debaixo dele.
Adam havia respondido:
— Ah, Gansey, fala sério. As chances...
— Vamos olhar debaixo dele.
O avião de Ronan havia caído na água e flutuado, fora do alcance deles. Eles tinham caminhado o longo trajeto de volta até o carro. Gansey havia ligado para Malory.
Como se um velho enferrujado a cinco mil quilômetros daqui fosse ter alguma ideia brilhante, pensou Ronan.
Gansey desligou o telefone.
— E então? — perguntou Adam.
Gansey cruzou com o olhar de Adam no espelho retrovisor. Adam suspirou. Ronan achou que eles provavelmente poderiam apenas dar a volta no lago. Mas isso significaria mergulhar de cabeça em Cabeswater. E, embora a floresta ancestral desse a impressão de ser o local mais provável para Glendower, a volatilidade vibrante da recém-desperta linha ley a tornara um pouco imprevisível. Mesmo Ronan, que pouco se importava se Glendower se livraria ou não de seu invólucro mortal, tinha de admitir que a perspectiva de ser pisoteado por feras ou acidentalmente sugado por um loop temporal de quarenta anos era intimidante.
Tudo isso era culpa de Adam — fora ele que despertara a linha ley, embora Gansey preferisse fingir que fora uma decisão do grupo. Qualquer que tenha sido o pacto feito por Adam para consegui-lo, o evento parecia tê-lo tornado um pouco imprevisível também. Ronan, ele mesmo um pecador, não estava tão impressionado com a transgressão quanto com a insistência de Gansey de que eles continuassem a fingir que Adam era um santo.
Gansey não era um mentiroso. A inverdade não caía bem nele.
O telefone de Gansey deu um trinado. Ele leu a mensagem antes de deixá-lo cair ao lado do câmbio, com uma exclamação abafada. Abruptamente melancólico, reclinou a cabeça tristemente contra o assento. Adam gesticulou para Ronan pegar o telefone, mas Ronan desprezava telefones mais do que quase todos os outros objetos no mundo.
Então ele ficou ali com as sobrancelhas erguidas, esperando.
Por fim, Blue se esticou para frente para pegá-lo. Ela leu a mensagem em voz alta:
— “Você poderia ser realmente útil esse fim de semana, se não for incômodo demais. A Helen pode te buscar. Desconsidere se tiver compromissos.”
— Isso tem a ver com o Congresso? — perguntou Adam.
O som da palavra Congresso fez com que Gansey suspirasse pesadamente e instou Blue a sussurrar com uma ironia mortífera:
— Congresso!
Não fazia muito que a mãe de Gansey havia anunciado que estava concorrendo a deputada. Naqueles primeiros dias, a campanha ainda não havia influenciado Gansey diretamente, mas era inevitável que ele fosse chamado. Todos sabiam que o belo e íntegro Gansey, intrépido explorador adolescente e ótimo aluno, era uma carta que nenhum político promissor podia deixar de jogar.
— Ela não pode me forçar — disse Gansey.
— Ela não precisa — desdenhou Ronan. — Filhinho da mamãe.
— Sonhe uma solução para mim.
— Não é preciso. A natureza já te deu colhões. Sabe o que eu penso disso? Foda-se Washington.
— É por isso que você nunca precisa ir a esse tipo de evento — respondeu Gansey.
Na outra pista, um carro encostou ao lado do Camaro. Ronan, um conhecedor das batalhas de rua, notou-o primeiro. Um lampejo de tinta branca. Então uma mão estendida para fora da janela do motorista, um dedo médio exposto sobre o teto. O carro disparou e então se deixou alcançar, para depois disparar de novo.
— Jesus — exclamou Gansey. — É o Kavinsky?
É claro que era Joseph Kavinsky, colega da Academia Aglionby e o falsário amador mais conhecido de Henrietta. O infame Mitsubishi Evo de Kavinsky tinha uma beleza pueril. Branco como a lua, sua grade frontal era uma boca negra e voraz. Os dois lados do carro traziam a estampa imensa e extravagante de uma faca. O Mitsubishi tinha sido recém-liberado de uma temporada de um mês inteiro no pátio da polícia. O juiz havia lhe dito que, se ele fosse pego correndo nas ruas de novo, eles esmagariam o carro e o fariam ver isso, como faziam com os corredores de rua punks ricos lá na Califórnia. Dizem que Kavinsky achou graça e disse ao juiz que nunca mais seria pego.
E provavelmente não seria. O que se dizia pela cidade é que o pai de Kavinsky havia comprado o chefe de polícia de Henrietta.
Para celebrar a liberação do Mitsubishi do pátio, Kavinsky havia aplicado três camadas de tinta antilaser sobre os faróis e comprado um novo detector de radares.
Era o que se dizia pela cidade.
— Eu odeio esse imbecil — disse Adam.
Ronan sabia que deveria odiá-lo também.
A janela baixou para revelar Joseph Kavinsky no banco do motorista, os olhos escondidos atrás de óculos escuros com aro branco, que refletiam somente o céu. Os elos dourados da corrente em torno do pescoço reluziam um largo sorriso. Ele tinha o rosto de um refugiado, inocente e com olhos fundos. Exibia um sorriso preguiçoso, e disse algo para Gansey que terminava com “uto”.
Não havia nada a respeito de Kavinsky que não fosse desprezível.
O coração de Ronan disparou. Memória do músculo.
— Vai — ele instigou. A autoestrada, cinzenta e tostada pelo calor, estendia-se à frente deles. O sol inflamou o laranja-avermelhado do capô do Camaro, e, abaixo dele, o motor maciçamente envenenado e tragicamente subutilizado trovejava preguiçoso. Tudo a respeito da situação demandava o pé de alguém atolando um acelerador.
— Sei que você não está se referindo a um racha — disse Gansey sobriamente.
Noah deu uma risada rouca.
Gansey não cruzou o olhar com Kavinsky ou com o passageiro de Kavinsky, o onipresente Prokopenko. Este sempre fora próximo de Kavinsky, como um elétron de um núcleo, mas ultimamente parecia ter adquirido o status de cúmplice oficial.
— Vamos lá, cara — disse Ronan.
Com um tom sonolento e de menosprezo na voz, Adam disse:
— Não sei por que você acha que isso daria certo. O Pig está com uma carga de cinco pessoas...
— O Noah não conta — respondeu Ronan.
Noah disse:
— Ei!
— Você está morto. Você não pesa nada!
Adam continuou:
—... nós estamos com o ar-condicionado ligado, e ele provavelmente está com o Evo, certo? Zero a cem em quatro segundos. O que esse aqui faz, zero a cem em cinco? Seis? É só fazer as contas.
— Eu já ganhei dele — disse Ronan. Havia algo de pavoroso a respeito de ver um racha se dissolver à sua frente. Ela estava bem ali, a adrenalina, esperando para acontecer. E logo Kavinsky. Cada centímetro da pele de Ronan formigava com uma expectativa inútil.
— Não naquele carro. Não no seu BMW.
— Naquele carro — contrapôs Ronan. — No meu BMW. Ele não dirige nada.
— Isso é irrelevante. Não vai acontecer. O Kavinsky é um bosta.
Na outra pista, Kavinsky perdeu a paciência, acelerou lentamente e foi embora.
Blue viu o carro de passagem e exclamou:
— Ele! Ele não é um bosta. Ele é um babaca.
Por um momento, todos os garotos no Camaro ficaram em silêncio, contemplando como Blue poderia ter ficado sabendo que Joseph Kavinsky era um babaca. Não que ela estivesse errada, é claro.
— Está vendo? — disse Gansey. — A Jane concorda.
Ronan viu o rosto de Kavinsky de relance, olhando para trás, para eles, através dos óculos escuros. Julgando-os covardes. Ronan sentiu as mãos impacientes.
Então o Mitsubishi branco de Kavinsky acelerou forte com uma nuvem indistinta de fumaça.
Quando o Camaro chegou à saída para Henrietta, não havia sinal dele. O calor ondulava da autoestrada, fazendo uma miragem da memória de Kavinsky. Como se ele nunca tivesse existido.
Ronan afundou no banco, toda a luta sugada de seu corpo.
— Você nunca quer se divertir, seu velho.
— Isso não é diversão — disse Gansey, acionando a seta. — É confusão.

Um comentário:

  1. "— O Noah não conta — respondeu Ronan.
    Noah disse:
    — Ei!
    — Você está morto. Você não pesa nada!"

    Uma das melhores coisas desse livro: piadas sobre o Noah estar morto
    Na vdd, eu só releio por causa disso e do Ronan

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Boa leitura, E SEM SPOILER!