9 de junho de 2018

Capítulo 39

NA NOITE ANTERIOR ao casamento, enquanto meus bolos esfriam na bancada da cozinha e todo mundo está arrumando cadeiras no quintal, eu vou até a casa de Chris me despedir.
Assim que abre a porta para mim, ela diz:
— Não vou deixar você entrar se você for chorar.
— Não consigo controlar. Sinto que é a última vez que eu vou ver você. — Uma lágrima escorre pela minha bochecha. Uma sensação de fim paira no ar. Eu sei, apenas sei. Chris está pulando para o que vem depois. Se nós nos virmos de novo, não vai ser assim. Ela é um espírito livre. Eu tenho sorte de ter tido a companhia dela por todo esse tempo.
— Você provavelmente vai me ver na semana que vem, quando eu voltar correndo para casa — brinca ela, e há uma leve hesitação em sua voz. Chris, sempre cheia de coragem e bravura, está nervosa.
— Não mesmo. Você está só começando. É agora, Chris. — Eu dou um pulo e a abraço. Estou tentando não chorar. — Está acontecendo agora.
— O quê?
— A vida!
— Você é tão brega — diz ela, mas eu poderia jurar que vi lágrimas em seus olhos.
— Eu trouxe uma coisa para você — digo.
Tiro o presente da bolsa e dou a ela.
Ela rasga o papel e abre a caixa. É uma foto de nós duas em um porta-retratos pequeno de coração, do tamanho de um enfeite de árvore de Natal. Nós estamos na praia, com maiôs iguais; temos doze ou treze anos.
— Pendure isso na parede aonde quer que vá, para as pessoas saberem que tem uma pessoa esperando você em casa.
Os olhos dela ficam cheios de lágrimas, e ela os seca com as costas da mão.
— Ah, meu Deus, você é terrível — diz Chris.
Já ouvi gente dizendo que você conhece seus melhores amigos na faculdade, e que são esses que ficam ao seu lado a vida toda, mas tenho certeza de que eu e Chris permaneceremos próximas a vida toda também. Sou uma pessoa que guarda coisas. Vou estar com ela para sempre.

* * *

Quando volto para casa, Trina está no SoulCycle. Papai ainda está lá fora, arrumando as cadeiras, Margot está passando nossos vestidos de madrinha e Kitty está cortando bandeirinhas de papel para os enfeites da mesa de sobremesas. Vou fazer a cobertura do bolo de casamento, um bolo simples com cobertura de glacê, como prometi a Trina. O bolo do papai já está pronto, com Thin Mints e tudo. É minha segunda tentativa com o bolo da cerimônia; descartei o primeiro porque não aparei direito as camadas de cima e, quando empilhei, o bolo ficou horrivelmente torto. O segundo ainda está um pouco irregular, mas uma camada grossa de cobertura vai cobrir todas as falhas, ou pelo menos é o que eu fico repetindo.
— Você está botando tanta cobertura nesse bolo que vamos acabar ficando diabéticos — comenta Kitty.
Eu mordo a língua e continuo girando o bolo e colocando cobertura em cima para ficar liso.
— Está bonito, não está, Margot?
— Parece profissional — garante ela, passando o ferro na barra do vestido dela.
Quando passo por Kitty, não consigo resistir a dizer:
— Só para você saber: as últimas três bandeiras que você cortou estão tortas.
Kitty me ignora e cantarola:
— Choque de açúcar, minha nossa, esse bolo é um choque de açúcar. — Ela usa a melodia daquela música antiga, “Sugar Shack”. Acho que é culpa minha por sempre ouvi-la quando faço doces.
— É a última vez que vamos ser só nós três — digo, e Margot olha para mim e sorri.
— Estou feliz que não vamos ser mais só nós três — diz Kitty.
— Eu também — concorda Margot, e tenho certeza de que está falando de coração.
Famílias encolhem e se expandem. Só podemos mesmo ficar felizes, satisfeitos uns pelos outros, pelo tempo que temos juntos.

* * *

Não consigo dormir, então desço para fazer uma xícara de chá e, quando estou botando água na chaleira, olho pela janela e vejo a brasa vermelha de um cigarro brilhando na escuridão. Trina está lá fora fumando!
Fico em dúvida se devo abrir mão do meu ritual do chá e ir para cama antes que ela me veja, mas quando estou esvaziando a chaleira, ela volta para dentro de casa com uma lata de Fresca na mão.
— Ah! — exclama ela, assustada.
— Eu não estava conseguindo dormir — digo, na mesma hora que ela diz:
— Não conte para Kitty!
Nós duas rimos.
— Juro que foi um cigarro de despedida. Eu não fumo há meses!
— Não vou contar para Kitty.
— Te devo uma — diz Trina, suspirando de alívio.
— Quer uma xícara de chá? — pergunto. — Minha mãe fazia para nós. É calmante. Vai deixar você se sentindo tranquila e relaxada e pronta para ir para cama.
— Parece o paraíso.
Encho a chaleira e a coloco no fogão.
— Você está nervosa com o casamento?
— Não, não nervosa… É só agitação, eu acho. Quero que tudo corra… sem tropeços. — Uma risadinha escapa da garganta dela. — A piadinha foi proposital. Nossa, eu adoro uma piadinha. — Ela fica séria e diz: — Me conte o que está acontecendo entre você e Peter.
Eu me ocupo colocando mel nas canecas.
— Ah, nada. — A última coisa de que Trina precisa na noite anterior ao casamento é ouvir sobre os meus problemas.
Ela me olha.
— Vamos lá, garota. Me conta.
— Sei lá. Acho que a gente terminou.
Eu dou de ombros intensamente para não chorar.
— Ah, querida. Traga o chá para cá e venha se sentar comigo no sofá.
Eu termino de fazer o chá, levo as canecas até o sofá e me sento ao lado de Trina, que cruza as pernas e coloca um cobertor sobre nós duas.
— Agora, me conte tudo — diz ela.
— Acho que as coisas começaram a dar errado quando eu entrei na UNC. Nosso plano era eu ir para a William and Mary e pedir transferência para a UVA, então só passaríamos o primeiro ano separados. Mas a UNC é bem mais longe, e, quando fui lá conhecer, eu soube que queria estudar lá. Não queria estar com um pé dentro e um pé fora, entende? — Eu mexo a colher. — Eu quero mesmo dar uma chance à faculdade.
— Acho que essa atitude é mais do que certa. — Trina aquece as mãos na caneca de chá. — E foi por isso que você terminou com ele?
— Não, não exatamente. A mãe dele me contou que ele estava falando sobre pedir transferência para a UNC ano que vem. Ela queria que eu terminasse com ele antes de ele fazer uma besteira por mim.
— Putz! A mãe do Peter é uma vaca!
— Ela não usou essas palavras exatas, mas foi basicamente isso. — Eu tomo um gole de chá. — Eu também não queria que ele pedisse transferência por minha causa… Minha mãe dizia para não ir para a faculdade namorando, porque assim você vai perder a verdadeira experiência de caloura.
— Bom, a verdade é que sua mãe não conheceu Peter Kavinsky. Ela não tinha todos os fatos. Se tivesse conhecido… — Trina solta um assobio baixo. — Ela talvez mudasse de ideia.
Meus olhos se enchem de lágrimas.
— Para ser sincera, estou arrependida de ter terminado com ele e queria poder voltar atrás!
Ela pega em meu queixo.
— Então por que você não faz isso?
— Acho que Peter nunca vai me perdoar por magoá-lo assim. Ele não deixa as pessoas se aproximarem com facilidade. Acho que devo estar morta para ele.
Trina tenta esconder um sorriso.
— Duvido. Fale com ele no casamento amanhã. Quando Peter vir você com aquele vestido, tudo vai estar perdoado.
Eu fungo.
— Tenho certeza de que Peter não vem.
— Tenho certeza de que ele vem. Não se planeja a despedida de solteiro de um homem e depois não aparece no casamento. Sem mencionar o fato de que ele é louco por você.
— Mas e se eu magoá-lo de novo?
Trina coloca as mãos em volta da caneca de chá e toma um gole.
— Você não pode protegê-lo de se magoar, querida, não importa o que faça. Ser vulnerável, deixar pessoas se aproximarem, se magoar… tudo isso é parte de estar apaixonado.
Eu penso nisso.
— Trina, quando você se deu conta de que seu relacionamento com meu pai era pra valer?
— Não sei… Acho que eu só… escolhi.
— Escolheu o quê?
— Escolhi seu pai. Escolhi nós dois. — Ela sorri para mim. — Escolhi tudo isso.
É tão louco pensar que, um ano atrás, ela era só a nossa vizinha, a sra. Rothschild. Kitty e eu ficávamos sentadas no degrau da varanda olhando-a correr para o carro de manhã e derramar café quente na roupa. Agora, ela vai se casar com nosso pai. Vai ser nossa madrasta, e estou feliz por isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!