26 de junho de 2018

Capítulo 39

Algo estranho e químico estava acontecendo com o Homem Cinzento. Uma vez ele fora atacado com uma chave de fenda — Philips, cabo azul-claro —, e se apaixonar por Maura Sargent era exatamente a mesma coisa. Ele não sentira nada quando a chave de fenda perfurara a lateral de seu corpo. Não fora insuportável quando ele levara pontos enquanto via O último cavaleiro na televisão (deitado na cama da Taverna e Hospedaria Arbor Palace, cor local!). Não, só ficara terrível quando o ferimento começou a fechar. Quando começou a refazer a pele onde esta havia sido arrancada.
Agora o buraco rasgado em seu coração estava se recuperando a partir do tecido cicatrizado, e ele não conseguia deixar de senti-lo.
Ele o sentiu enquanto instalava uma nova série de medidores no Massacre Champanhe. Eles sorriam e piscavam e chilreavam para ele. O Homem Cinzento o sentiu enquanto rasgava as solas do seu segundo par de sapatos e retirava o dinheiro para os gastos de dentro deles. As notas farfalhavam afetuosamente em sua mão.
Ele o sentiu enquanto experimentava a maçaneta da mansão de vinil de Kavinsky. A porta da frente se escancarou sem resistência. Ele encontrou uma casa cheia de maravilhas, nenhuma delas o Greywaren. A sra. Kavinsky levantou o rosto lentamente da privada, os cílios vibraram remelosos, as narinas ranhosas.
— Sou uma fantasia da sua imaginação — ele lhe disse.
Ela anuiu.
Ele o sentiu quando se inclinara sobre o BMW de Ronan Lynch no estacionamento da Indústria Monmouth e conferia o número de identificação do veículo. Números de identificação comuns tinham dezessete dígitos de comprimento e indicavam que tipo de carro era e onde havia sido feito. Aquele número de identificação tinha apenas oito números de comprimento e correspondia à data de nascimento de Niall Lynch. O Homem Cinzento se sentiu insensatamente encantado com isso.
Ele o sentiu quando Greenmantle ligou e ralhou, irada e ansiosamente, a respeito do tempo decorrido.
— Você está me ouvindo? — demandou Greenmantle. — Preciso ir aí pessoalmente?
O Homem Cinzento respondeu:
— Henrietta é uma bela cidadezinha.
Ele o sentiu quando arrombou a reitoria da Santa Inês e perguntou ao padre que estava lá se os irmãos Lynch já haviam confessado alguma coisa que valesse a pena. O padre fez uma série de ruídos chocados enquanto o Homem Cinzento o arrastava sobre o pequeno balcão laminado da quitinete e a mesa redonda de café da manhã, passando pelo alimentador automático colocado ali para o uso dos dois gatos da reitoria, Joan e Dymphna.
— Você é um homem muito doente — o padre disse para o Homem Cinzento. — Posso conseguir ajuda para você.
— Eu acho — disse o Homem Cinzento, baixando o padre sobre uma caixa de missais novos — que já a encontrei.
Ele o sentiu quando todas as máquinas no Flagelo Champanhe se iluminaram como uma árvore de Natal, piscando, lamentando e oscilando bruscamente com tudo o que tinham direito. Quando isso começara pela primeira vez, seu primeiro pensamento fora: Sim. Sim, é exatamente assim que deve ser.
E então ele lembrou por que estava ali.
As luzes se acenderam, os medidores oscilaram bruscamente, os alertas berraram.
Aquilo não era um teste.
Lenta e inexoravelmente, as leituras o levaram para fora da cidade, recompensando-o com resultados cada vez mais fortes. O Homem Cinzento o sentiu até aquele momento, na inevitabilidade daquela caça ao tesouro. De vez em quando, as máquinas cediam, as leituras bruxuleando. E então, bem quando ele começava a suspeitar que a anormalidade havia desaparecido para sempre, deixando-o à deriva, os medidores explodiam em luzes e som novamente, mais fortes ainda do que antes.
Aquilo não era um teste.
Ele encontraria o Greywaren naquele dia.
Ele podia sentir.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!