20 de junho de 2018

Capítulo 39

Quando Blue chegou à Indústria Monmouth aquela tarde, pensou que o armazém estava vazio. Sem nenhum carro no estacionamento, a quadra inteira tinha um ar abandonado e triste. Ela tentou se imaginar como Gansey, vendo o armazém pela primeira vez, decidindo que ali seria um grande lugar para viver, mas não conseguiu. Assim como não conseguia imaginar olhar para o Pig e achar que ele era um grande carro para dirigir, ou ver Ronan e pensar que ele era um bom amigo para se ter. Mas, de certa maneira, a coisa funcionara, pois ela adorava o apartamento, e Ronan estava começando a crescer a seus olhos, e o carro... Bem, o carro ela ainda poderia viver sem.
Blue bateu na porta.
— Noah! Você está aí?
— Estou aqui.
Blue não se surpreendeu quando sua voz surgiu atrás dela em vez de ecoar do outro lado da porta. Quando ela se virou, pareceu ver primeiro as pernas dele, e então, lentamente, todo o resto. Ela ainda não tinha certeza se ele estava realmente lá ou se estivera lá o tempo inteiro — era difícil tomar uma decisão sobre a existência de Noah ultimamente.
Ela deixou que ele acariciasse seu cabelo com os dedos gelados.
— Não está tão espetado como sempre — ele disse tristemente.
— Eu não dormi o suficiente. Preciso dormir para ficar com o cabelo bem espetado. Que legal ver você.
Noah cruzou os braços, então os descruzou, então colocou as mãos nos bolsos, então as tirou.
— Eu só me sinto normal quando você está por perto. Quer dizer, normal como eu era antes de encontrarem o meu corpo. Mesmo assim, eu ainda não era o que eu era quando estava...
— Não acho que você era tão diferente quando estava vivo — disse Blue. Mas a verdade é que ela ainda não conseguia ligar Noah àquele Mustang vermelho abandonado.
— Eu acho — disse Noah cuidadosamente, se lembrando — que eu era pior na época.
Como aquela discussão parecia prestes a fazê-lo desaparecer, Blue perguntou rapidamente:
— Onde estão os outros?
— O Gansey e o Adam foram pegar as coisas do Adam para que ele possa se mudar pra cá — disse Noah. — O Ronan foi para a biblioteca.
— Se mudar pra cá! Achei que ele tinha dito... Espera... Aonde o Ronan foi?
Após uma série de pausas e suspiros mirando as árvores na rua, Noah descreveu os eventos da noite anterior e concluiu:
— Se o Ronan tivesse sido preso por socar o pai do Adam, ele estaria fora da Aglionby, não importa o que tenha acontecido. De maneira alguma eles deixariam uma acusação de agressão passar batido. Mas o Adam deu queixa para que o Ronan não fosse preso. É claro que isso quer dizer que o Adam tem que se mudar, porque o pai dele o odeia agora.
— Mas isso é terrível — disse Blue. — Noah, isso é terrível. Eu não sabia sobre o pai do Adam.
— É assim que ele queria que fosse.
Um lugar feito para ser deixado. Ela se lembrou de como Adam se referira à sua casa. E agora, é claro, ela se lembrou de seus machucados horrorosos e de um monte de comentários entre os garotos que haviam parecido inexplicáveis à época, todas referências veladas à sua vida em família. Seu primeiro pensamento foi estranhamente desagradável — que ela não havia sido uma amiga boa o suficiente para que Adam pudesse compartilhar aquilo com ela. Mas a ideia foi fugaz, substituída quase imediatamente pela percepção horrível de que Adam não tinha família. Quem ela seria sem a sua?
Então ela perguntou:
— Ok, mas por que o Ronan está na biblioteca?
— Está enfiado nos livros — disse Noah. — Para um exame na segunda-feira.
Era a coisa mais bacana que Blue já tinha visto Ronan fazer.
O telefone tocou alto no andar de cima.
— Você devia atender! — disse Noah abruptamente. — Rápido!
Blue tinha vivido tempo demais com as mulheres da Rua Fox, 300, para questionar a intuição de Noah. Correndo em um trote rápido para acompanhá-lo, ela o seguiu até a porta do andar superior. Estava trancada. Noah fez uma série de gestos incompreensíveis, mais agitado que de costume.
Ele irrompeu:
— Eu conseguiria se...
Se ele tivesse mais energia, pensou Blue. Ela tocou o ombro dele na mesma hora. Imediatamente fortalecido pela energia dela, Noah se inclinou na direção do trinco, soltou a tranca e liberou a porta. Blue se atirou ao telefone.
— Alô? — ela arfou. O telefone sobre a mesa era preto e antigo, daqueles de disco, combinando completamente com o amor de Gansey pelo bizarro e pelo quase não funcional. Conhecendo-o, era possível que ele tivesse uma linha fixa só para justificar ter aquele telefone em particular sobre a mesa.
— Ah, olá, querida — disse uma voz estranha do outro lado da linha. Blue percebeu um forte sotaque. — Richard Gansey está?
— Não — respondeu Blue. — Mas posso anotar o seu recado.
Esse, ela sentia, havia sido seu papel na vida até aquele momento.
Noah a cutucou com um dedo frio.
— Diga a ele quem é você.
— Eu estou trabalhando com o Gansey — acrescentou Blue. — Na linha ley.
— Ah! — disse a voz. — Bem, que ótimo conhecê-la. Como é mesmo o seu nome? Eu me chamo Roger Malory.
Ele estava fazendo algo extremamente complicado com seus Rs que dificultavam compreendê-lo.
— Blue. Meu nome é Blue Sargent.
— Blair?
— Blue.
— Blaize?
Ela suspirou.
— Jane.
— Ah, Jane! Achei que você estava dizendo Blue por alguma razão. Prazer em conhecê-la, Jane. Acho que tenho más notícias para o Gansey. Diga a ele que eu tentei aquele ritual com um colega... aquele camarada de Surrey que eu mencionei antes, um sujeito cativante, mas com um hálito terrível... e o ritual simplesmente não deu muito certo. Meu colega vai ficar bem, os médicos dizem que vai levar algumas semanas para a pele dele sarar. Os enxertos estão funcionando esplendidamente, eles disseram.
— Espere — disse Blue, pegando o pedaço de papel mais próximo que havia na mesa de Gansey, no qual parecia ter um cálculo ou algo do gênero. Ele já havia rabiscado ali um gato atacando um homem, então Blue pensou que não haveria problemas em usá-lo. — Estou anotando tudo isso. Esse é o ritual para despertar a linha ley, certo? O que exatamente deu errado?
— É muito difícil dizer, Jane. Basta afirmar que as linhas ley são ainda mais poderosas do que o Gansey e eu havíamos imaginado. Elas podem ser magia, podem ser ciência, mas são inegavelmente energia. Meu colega saiu de sua pele com bastante facilidade. Eu estava certo de que o havia perdido; eu não achava que um homem pudesse sangrar tanto sem sucumbir. Ah, quando você contar tudo isso para o Gansey, não conte essa parte. O garoto tem uma questão e tanto com a morte, e não quero angustiá-lo.
Blue não notara que Gansey tinha uma “questão” com a morte, mas concordou em não contar para ele.
— Mas o senhor ainda não me falou o que o senhor tentou — destacou Blue.
— Ah, não falei?
— Não. O que significa que podemos fazer a coisa acidentalmente, se a gente não souber o que é.
Malory deu uma risadinha. Aquilo soava muito com tomar somente o chantili do chocolate quente.
— De fato, você está certa. Era bastante lógico, realmente, e foi baseado em uma das antigas ideias do Gansey, para lhe dizer a verdade. Nós montamos um novo círculo de pedras usando algumas que descobrimos terem excelentes leituras de energia... São termos de radiestesia, é claro, Jane, não sei quanto você conhece a respeito de todas essas coisas, mas é bacana ver uma garota envolvida com tudo isso. Linhas ley tendem a ser uma coisa de homens, e é bacana ouvir uma senhorita como você...
— Sim — concordou Blue. — É fantástico. Estou me divertindo. Então, o senhor montou um círculo de pedras?
— Ah, sim, certo. Nós colocamos sete pedras em um círculo sobre o que eu esperava ser o centro da linha ley e mexemos em suas posições até termos uma leitura de energia bastante alta no meio. Mais ou menos como posicionar um prisma, creio eu, para focar a luz.
— E foi então que a pele do seu parceiro se desprendeu?
— Mais ou menos isso. Ele estava fazendo uma leitura no meio e... É triste, mas não sei descrever exatamente o que ele falou, porque fiquei tão entretido pelo que veio depois... Mas enfim, ele fez uma observação ou piada ou sei lá o quê... Você sabe como são os jovens, o próprio Gansey pode ser bastante dado a leviandades...
Blue não estava certa se Gansey era bastante dado a leviandades, mas fez uma anotação mental para reparar nisso no futuro.
— ... e ele disse algo sobre perder a pele ou deixar cair a pele ou algo do gênero. E aparentemente essas coisas são bastante literais. Não estou certo de como as palavras dele provocaram algum tipo de reação, e acho que não despertamos a linha, pelo menos não do modo correto, mas enfim. Decepcionante, realmente.
— Exceto que o seu parceiro viveu para contar a história — disse Blue.
Malory respondeu:
— Bem, sou eu quem está tendo de contá-la.
Blue achou que aquilo era uma piada. De qualquer maneira, ela riu e não se sentiu mal por causa disso. Então agradeceu a Malory, trocou gentilezas com ele e desligou.
— Noah? — ela perguntou ao aposento vazio, pois ele havia desaparecido. Não houve resposta, mas, na rua, ela ouviu portas de carro batendo e vozes.
Blue repetiu a frase em sua cabeça: Meu colega saiu de sua pele com bastante facilidade. Blue não tinha uma “questão” com a morte, mas até ela achou que a cena pintava uma imagem um tanto horrível e vívida.
Um momento depois, ela ouviu a porta bater quando se fechou no primeiro andar e passos na escada.
Gansey foi o primeiro a entrar no aposento. Certamente ele não esperava encontrar ninguém ali, pois seus traços não haviam se composto nem um pouco para disfarçar seu sofrimento. Quando viu Blue, ele imediatamente conseguiu tirar um sorriso cordial de algum lugar.
E ele era tão convincente. Ela vira sua expressão apenas um segundo antes, mas, mesmo a tendo visto, era difícil lembrar que aquele sorriso era falso. O motivo pelo qual um garoto com uma vida tão despreocupada como a de Gansey precisou aprender a fazer uma expressão falsa de felicidade de um modo tão rápido e convincente estava além de sua compreensão.
— Jane — ele disse, e Blue achou que ouviu um pouco da infelicidade dele na voz radiante, mesmo se seu rosto não a traísse mais. — Desculpe por não estar aqui para te receber.
A voz de Noah, e nada mais, se manifestou no ouvido de Blue, um sussurro gelado: Eles brigaram.
Adam e Ronan entraram. Ronan estava curvado com uma sacola de lona e uma mochila nas costas, e Adam carregava uma caixa de cereal amassada, dentro da qual um Transformer espiava para fora.
— Belo Transformer — disse Blue. — É o do carro de polícia?
Adam olhou para Blue sem sorrir, como se não a tivesse visto realmente. Então, um segundo tarde demais, respondeu:
— É.
Ronan, ainda curvado sob o peso da bagagem, atravessou o aposento na direção do quarto de Noah, rindo de maneira sincronizada com seus passos. Era o tipo de risada que denunciava que uma única pessoa ria.
— Esse cara ligou — disse Blue, segurando o pedaço de papel em que havia anotado o nome. O lugar onde ela o havia escrito fazia parecer como se o gato ali desenhado estivesse chamando alguém.
— Malory — disse Gansey, não tão entusiasmado como de costume.
Enquanto Adam carregava a caixa atrás de Ronan, Gansey observou suas costas com olhos estreitos. Somente após a porta de Noah ter se fechado atrás dele, Gansey desviou o olhar e encarou Blue. O apartamento parecia vazio sem os outros, como se eles tivessem ido para outro mundo em vez de para outro quarto.
Gansey perguntou:
— O que ele queria?
— Ele tentou o ritual na linha ley e disse que deu errado. E que uma outra pessoa... seu, humm, colega?... se machucou.
— Se machucou como?
— Apenas se machucou. Feio. Por causa da energia — disse Blue.
Gansey chutou com força os sapatos para longe. Um voou sobre sua Henrietta em miniatura e o outro percorreu todo o caminho até cair do lado da mesa, batendo com força na madeira velha e escorregando até o chão. Com um murmúrio, ele disse:
— Uhuu.
Blue observou:
— Você parece chateado.
— Pareço? — ele perguntou.
— Por que você e o Adam brigaram?
Gansey lançou um olhar para a porta fechada de Noah.
— Como você sabe? — perguntou desconfiado, jogando-se na cama desfeita.
— Por favor — disse Blue, porque, mesmo que Noah não tivesse contado, ela teria sabido.
Ele murmurou algo para os lençóis e gesticulou com uma mão no ar. Blue se agachou ao lado da cama e apoiou os braços na beirada.
— O quê? Você pode falar sem o travesseiro na boca dessa vez?
Gansey não virou a cabeça, de maneira que sua voz continuou abafada.
— Minhas palavras são ferramentas certeiras de destruição, e não consigo fazer nada para mudar isso. Você acredita que eu só estou vivo porque o Noah morreu? Que belo sacrifício foi esse, que bela contribuição para o mundo eu sou.
Ele fez outro pequeno volteio com a mão sem tirar o rosto do travesseiro. A intenção provavelmente era fazer parecer que ele só estava brincando. Ele seguiu em frente:
— Ah, eu sei que estou com pena de mim mesmo. Não ligue. Então o Malory acha que é uma má ideia despertar a linha ley? É claro que ele acha. Eu adoro becos sem saída.
— Você está com pena de si mesmo. — Mas Blue gostava disso de certa maneira. Ela nunca tinha visto Gansey ser tão verdadeiro por tanto tempo de uma só vez. Só era uma pena que ele tivesse de estar por baixo para que isso acontecesse.
— Já estou terminando. Você não vai precisar aguentar muito mais.
— Eu prefiro você assim.
Por alguma razão, admitir aquilo fez seu rosto ficar rubro; Blue ficou bastante satisfeita que ele ainda tivesse o rosto pressionado no travesseiro e os outros garotos ainda estivessem no quarto de Noah.
— Destruído e quebrado — disse Gansey. — Bem do jeito que as mulheres gostam. Ele disse que o cara se machucou muito?
— Sim.
— Bom, então está cancelado. — Ele rolou de costas e olhou para Blue de cabeça para baixo, onde ela se inclinara sobre a cama. — Não vale o risco.
— Achei que você tinha dito que precisava encontrar o Glendower.
— Eu preciso — disse Gansey. — Eles não.
— Então você vai fazer isso sozinho?
— Não, vou encontrar outra maneira. Eu adoraria ter o poder da linha ley apontando setas gigantes para onde ele está, mas vou apenas seguir me arrastando ao longo do velho caminho. Que tipo de ferimento esse cara teve?
Blue fez um ruído evasivo, lembrando-se do aviso de Malory de lhe poupar os detalhes.
— Blue. Que tipo? — Seu olhar era resoluto, como se encará-la fosse mais fácil com seus rostos de cabeça para baixo um em relação ao outro.
— Ele disse algo sobre perder a pele e aí parece que a pele dele caiu. O Malory não queria que eu te contasse isso.
Gansey apertou os lábios.
— Ele ainda se lembra de quando eu... Esqueça. A pele dele caiu? Isso é terrível.
— O que é terrível? — perguntou Adam, atravessando o aposento.
Notando a postura de Blue e Gansey, Ronan observou:
— Se você der uma cuspida, Blue, vai acertar bem no olho dele.
Gansey passou para o lado contrário da cama com uma agilidade surpreendente, olhando de relance para Adam e desviando o olhar tão rapidamente quanto.
— A Blue disse que o Malory tentou despertar a linha e o homem que estava com ele ficou muito ferido. Então nós não vamos fazer nada. Não agora.
Adam disse:
— Não me importo com o risco.
Ronan palitou os dentes.
— Eu também não.
— Você não tem nada a perder — disse Gansey, apontando para Adam. Em seguida, olhou para Ronan. — E você não se importa se vai viver ou morrer. Isso incapacita vocês como juízes.
— Você não tem nada a ganhar — salientou Blue. — Isso torna você um juiz igualmente ruim. Mas acho que eu concordo. Quer dizer, veja o que aconteceu com o seu amigo inglês.
— Obrigado, Jane, por ser a voz da razão — disse Gansey. — Não me olhe desse jeito, Ronan. Desde quando nós decidimos que despertar a linha ley é a única maneira de encontrar Glendower?
— Nós não temos tempo para encontrar outro caminho — insistiu Adam. — Se o Whelk despertar a linha, ele vai ter uma vantagem. Além disso, ele fala latim. E se as árvores souberem? Se encontrar o Glendower, ele recebe o favor e se livra da morte do Noah. Fim do jogo, o bandido ganha.
Qualquer traço de vulnerabilidade havia desaparecido do semblante de Gansey enquanto ele passava as pernas sobre o lado da cama.
— É uma má ideia, Adam. Arrume um jeito de fazer o ritual sem machucar ninguém e estou junto nessa. Até lá... vamos esperar.
— Nós não temos tempo — disse Adam. — A Persephone disse que alguém vai despertar a linha ley nos próximos dias.
Gansey ficou de pé.
— Adam, o que está acontecendo agora é que alguém do outro lado do mundo não tem pele porque brincou com a linha ley. Nós vimos Cabeswater. Isso não é um jogo. É muito real e muito poderoso e não vamos mexer com isso.
Ele manteve o olhar de Adam por um longo momento. Havia algo pouco familiar na expressão de Adam, algo que fazia Blue pensar que ela não o conhecia de verdade.
Em sua mente, Blue o imaginou passando a carta de tarô para sua mãe e, enquanto se lembrava de como Maura havia interpretado o dois de espadas, ela pensou, tristemente: Minha mãe é muito boa no que faz.
— Às vezes — disse Adam — eu não sei como você consegue viver consigo mesmo.

Um comentário:

  1. "— Você não tem nada a perder — disse Gansey, apontando para Adam. Em seguida, olhou para Ronan. — E você não se importa se vai viver ou morrer. Isso incapacita vocês como juízes."

    Palavras mais verdadeiras nunca antes foram ditas.

    "— Às vezes — disse Adam — eu não sei como você consegue viver consigo mesmo."

    Nem tu consegue viver consigo mesmo qrido, isso te incapacita como juíz

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Boa leitura, E SEM SPOILER!