3 de junho de 2018

Capítulo 39

Vou protegê-lo das chamas
Nobre sacrifício
Uau, como eu sou legal!

EM OUTRAS CIRCUNSTÂNCIAS, eu teria ficado muito satisfeito ao ver a palavra EXCETOApolo encara a morte na tumba de Tarquínio, exceto…
Ah, que preposição maravilhosa! Indicava que havia uma forma de evitar aquela morte em potencial, e eu era completamente a favor de evitar qualquer morte em potencial.
Só que, para minha infelicidade, cair em um poço de fogo sufocou minha esperança recém-adquirida.
Parei no meio da queda, antes mesmo de conseguir entender o que estava acontecendo. A tira da aljava apertava meu peito, e o pé esquerdo parecia prestes a se soltar do tornozelo.
Estava pendurado junto à parede e, uns seis metros abaixo, havia um rio de fogo. Meg estava agarrada ao meu pé, desesperada, e, logo acima, Grover me segurava pela aljava com uma das mãos enquanto se apoiava em uma pequena protuberância na pedra com a outra. Ele tirou os sapatos e tentou usar os cascos para se apoiar na parede.
— Muito bem, ó, bravo sátiro! — gritei. — Agora nos puxe pra cima!
Grover arregalou os olhos, com o rosto molhado de suor, e soltou um gemido meio mal-humorado, que parecia indicar que ele não tinha forças para puxar os três para fora do poço. Se eu sobrevivesse e voltasse a ser deus, teria uma conversa muito séria com o Conselho dos Anciãos de Casco Fendido sobre as aulas de educação física na escola de sátiros.
Cravei as unhas na parede, torcendo para encontrar uma fresta ou um botão que liberasse a saída de emergência. Não achei nada.
Logo abaixo de mim, Meg gritou:
— É SÉRIO ISSO, Apolo? É para regar bem os jacintos, EXCETO se estiver transplantando uma muda!
— Como eu ia saber? — protestei.
— Você CRIOU os jacintos!
Argh, aquela lógica mortal. Criar uma coisa não significa compreendê-la. Se fosse o caso, Prometeu saberia tudo sobre os humanos — e eu garanto que não é o caso. Só porque eu criei os jacintos significa que tenho a obrigação de saber como plantá-los e regá-los?
— Me ajudem! — gritou Grover.
Seus cascos deslizaram pelas pequenas protuberâncias da parede. Seus dedos tremiam, assim como os braços, como se estivessem sustentando o peso de duas pessoas — o que não deixava de ser verdade.
O calor que vinha lá de baixo era tão intenso que estava difícil raciocinar. Quem já ficou muito perto de uma churrasqueira ou teve que abrir um forno bem quente para ver se a comida estava no ponto pode imaginar a sensação — só que multiplicada por cem. Meus olhos e minha boca se ressecaram. Se respirasse aquele ar escaldante mais um pouco, eu talvez desmaiasse.
O rio de fogo abaixo parecia serpentear por uma superfície de pedra. A queda em si não seria fatal, bastava dar um jeito de apagar aquele fogo…
Foi quando tive uma ideia — uma bem ruim; a culpa era do meu cérebro, já em ebulição. Aquelas chamas eram controladas pela essência de Hélio, então, se uma pequena parte da consciência dele ainda existisse… Bem, na teoria, eu poderia me comunicar com o titã. Talvez, se tocasse no fogo, eu poderia convencê-lo de que não éramos inimigos e de que ele deveria nos deixar viver.
Provavelmente eu só teria três nanossegundos para isso, antes de morrer em agonia. Além do mais, se eu caísse, meus amigos talvez tivessem a chance de sair.
Afinal, eu era o mais pesado do grupo, graças à crueldade de Zeus e à sua maldição dos pneuzinhos.
É. Péssima, péssima ideia. Eu nunca teria nem coragem de tentar se não fosse a memória de Jason Grace e do que ele tinha feito para me salvar.
— Meg, você consegue se segurar na parede? — perguntei.
— E eu lá tenho cara de Homem-Aranha?
Pouquíssimas pessoas ficam tão bem de roupa de lycra quanto o Homem-Aranha, e Meg não era uma delas.
— Use suas espadas! — gritei.
Meg usou apenas uma das mãos para se segurar ao meu tornozelo e conjurou uma espada com a outra, golpeando a parede uma, duas vezes. A lâmina curva não facilitava o trabalho. No terceiro golpe, a ponta afundou na pedra, e Meg se agarrou ao cabo, soltando meu tornozelo e se sustentando acima das chamas só com uma das espadas.
— Pronto! E agora?
— Fique aí!
— Ah, isso eu consigo!
— Grover! Pode me largar agora, mas não se preocupe. Eu tenho um…
Grover me largou.
Olha, francamente, que tipo de protetor joga uma pessoa no fogo só porque a pessoa disse que tudo bem ser jogada no fogo? Eu tinha imaginado que teríamos uma longa discussão, em que eu precisaria garantir que tinha mesmo um plano para sair ileso e salvar a todos nós. Esperava que, no mínimo, Grover e Meg fossem protestar (bem, talvez não Meg), pedindo para que eu não me sacrificasse por eles, alegando que eu não tinha como sobreviver às chamas, esse tipo de coisa.
Mas não, nada disso: o sátiro me largou sem a menor cerimônia.
Pelo menos não tive tempo de reconsiderar minha decisão.
Eu não podia me dar ao luxo de sofrer com dúvidas tipo E se não der certo? E se eu não conseguir sobreviver ao fogo solar, que já foi tão natural para mim? E se essa profecia tão fofa, que ainda estamos desvendando, sobre eu morrer na tumba de Tarquínio, NÃO for um indicativo de que não vou morrer antes, agora mesmo, neste Labirinto de Fogo horrível?
Eu não me lembro do momento em que cheguei ao chão.
Minha alma pareceu sair do corpo, e eu me vi milhares de anos no passado, na primeira manhã em que me tornei deus do Sol. Hélio tinha sumido da noite para o dia. Eu não sabia dizer qual das orações feitas a mim finalmente alterara o equilíbrio das divindades, banindo o velho titã para o esquecimento enquanto me promovia ao posto dele, mas ali estava eu, no Palácio do Sol.
Ansioso e apavorado, eu abri as portas da sala do trono. O ar queimava. As luzes me cegaram. O enorme trono dourado de Hélio estava vazio, a capa dele ainda dobrada no apoio de braço. O elmo, o chicote e os sapatos dourados estavam na plataforma, prontos para serem usados. Mas o titã tinha simplesmente desaparecido.
Eu sou um deus, disse a mim mesmo. Vou dar conta.
Andei até o trono, me forçando a não entrar em combustão. Nunca iam me deixar em paz se eu saísse do palácio correndo e gritando com a toga em chamas logo no primeiro dia de trabalho. O fogo à minha frente foi recuando aos poucos. Com pura força de vontade, eu aumentei de tamanho até conseguir vestir o elmo e a capa de meu predecessor.
Mas não quis me sentar no trono, não naquele primeiro momento. Eu ainda tinha um importante trabalho a fazer, e pouquíssimo tempo para resolver tudo.
Olhei para o chicote. Alguns treinadores dizem que não se pode ser amistoso com um novo grupo de cavalos, que os bichos acabam achando que você é fraco. Mesmo assim, decidi deixar o açoite de lado: não queria ganhar a fama de rigoroso. Entrei no estábulo, e a beleza da carruagem do Sol me deixou com lágrimas nos olhos. Os quatro cavalos do Sol já estavam preparados, os cascos dourados polidos, as crinas de fogo ondulando, os olhos como lingotes derretidos.
Os cavalos me encararam, receosos. Quem é você?
— Eu sou Apolo — anunciei, tentando soar confiante. — E nós vamos ter um dia ótimo!
Pulei para a carruagem, e partimos.
Preciso admitir que o começo foi complicado — era muita coisa para aprender, mais do que eu conseguia absorver num dia só. Eu talvez tenha, sem querer, dado algumas piruetas pelo céu. Talvez tenha derretido algumas geleiras e criado novos desertos até descobrir a altitude ideal para o trajeto. Mas, já no fim do dia, eu me sentia completamente confortável naquela carruagem. Os cavalos tinham se submetido à minha vontade, à minha personalidade. E eu era Apolo, o deus do Sol.
Então, caindo, tentei me agarrar àquela confiança, ao júbilo do meu primeiro dia.
Voltei a mim no fundo do poço, agachado entre as chamas.
— Hélio. Sou eu.
As chamas giraram ao meu redor, tentando incinerar minha pele e dissolver minha alma. Eu sentia a presença amarga, difusa e furiosa do titã, que parecia querer me chicotear mil vezes por segundo.
— Eu não vou ser queimado. Eu sou Apolo, sou seu herdeiro por direito.
O fogo ficou mais quente. Hélio se ressentia de mim. Mas, espere... não era só isso. Ele também odiava estar ali. Odiava o Labirinto, aquela prisão que o mantinha em uma semivida.
— Vou libertar você — prometi.
O fogo estalou e sibilou em meus ouvidos. Talvez fosse só o barulho da minha cabeça pegando fogo, mas achei ter ouvido uma voz nas chamas. MATE. ELA.
Ela…
Medeia.
As emoções de Hélio queimaram e arderam, abrindo caminho pela minha mente. Senti o ódio dele pela neta feiticeira. O que Medeia dissera sobre conter a fúria de Hélio… Bem, talvez fosse verdade, mas o principal é que ela estava tentando conter a fúria de Hélio para que ele não a matasse. Medeia tinha acorrentado o avô, subjugado sua vontade à dela. E, para sobreviver, ela se cobrira de proteções poderosas contra o fogo divino do titã. Hélio não gostava de mim, não mesmo. Mas ele odiava a magia presunçosa de Medeia. E, para Hélio se ver livre daquele tormento, Medeia precisava morrer.
Fiquei me perguntando, não pela primeira vez, por que as divindades gregas nunca criaram o deus da terapia familiar. Teria sido muito útil. Bem, talvez houvesse alguém responsável por isso antes de eu nascer e o funcionário tenha pedido demissão. Ou quem sabe tenha sido engolido por Cronos. Fosse qual fosse o caso, eu me virei para as chamas e repeti:
— Vou fazer isso. Vou libertar você. Mas antes você precisa deixar a gente passar.
O fogo se afastou imediatamente, abrindo caminho como um rasgo se alastrando pelo universo. Respirei fundo, ofegante. Minha pele ardia, e minha roupa de camuflagem ártica estava com um tom de cinza meio tostado. Mas eu estava vivo. O lugar esfriou depressa, e logo percebi que as chamas tinham recuado por um túnel que saía da câmara.
— Meg! Grover! Podem descer…
Meg caiu em cima de mim, me esmagando um pouco.
— Ai! Não precisa ser assim!
Grover foi mais cortês, escalando tranquilamente até o fundo e pulando para o chão com uma destreza digna de suas patas de bode. Ele cheirava a cobertor de lã chamuscado, e seu rosto estava bem vermelho, como se queimado de sol. O gorro tinha caído no fogo, e os chifres despontavam dos cabelos, fumegantes, parecendo minivulcões prestes a entrar em erupção. Não sei como, mas Meg parecia ótima — até tinha conseguido soltar a espada da parede antes de cair. Ela pegou o cantil do cinto, bebeu quase toda a água e deu o restante para Grover.
— Nossa, obrigado — resmunguei.
— Você conseguiu derrotar o calor — comentou ela. — Bom trabalho. Finalmente usou um pouco de poder divino?
— Há… Acho que foi mais graças a Hélio, que decidiu nos deixar passar. Ele quer sair deste Labirinto tanto quanto nós queremos que ele saia. E quer que a gente mate Medeia.
Grover engoliu em seco.
— Então… quer dizer que ela está aqui embaixo? Ela não morreu naquele iate?
— Vai saber. — Meg estreitou os olhos para o corredor fumacento. — Então Hélio prometeu que não vai nos queimar se você errar mais alguma resposta?
— Eu… Não foi culpa minha!
— Foi, sim — acusou Meg.
— Meio que foi mesmo — concordou Grover.
Ora, francamente. Eu caio em um poço ardente, negocio uma trégua com um titã e afasto uma tempestade de fogo para salvar meus amigos, e eles só sabem falar de como eu não decorei as instruções do Almanaque do Fazendeiro.
— Olha, acho que não dá para afirmar que Hélio nunca vai nos queimar — expliquei. — Assim como não podemos esperar que Herófila pare de mandar mensagens em forma de palavras cruzadas. Isso é da natureza deles. Acho que ganhamos um passe livre, mas com prazo de validade.
Grover apagou as brasas nas pontas dos chifres.
— Bom, então não vamos desperdiçar a oportunidade.
— Certo. — Ajeitei a calça camuflada meio tostada e tentei recobrar a confiança que usei naquele primeiro encontro com meus cavalos do Sol. — Vamos, venham comigo. Tenho certeza de que vai ficar tudo bem!

2 comentários:

  1. Fofo... usando os milênios de vida para algo útil. Parabéns, Apolo, você está crescendo!

    ResponderExcluir
  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!