3 de junho de 2018

Capítulo 38

Vou cantar para mim mesmo!
Esse Apolo é mesmo
Muito, muito genial

EU ODIAVA ESTAR certo.
Quando chegamos ao fim do túnel, a palavra MORTE cintilava nos ladrilhos do chão. Entramos em uma câmara circular maior, com cinco novos túneis se abrindo diante de nós, como dedos gigantes e autômatos.
Fiquei esperando uma nova pista aparecer na parede. Não importava o que fosse, eu só torcia desesperadamente para que a resposta fosse SÓ QUE NÃO. Ou E GANHA FÁCIL!
— Por que nada acontece? — perguntou Grover.
— Escutem — disse Meg.
Eu só ouvia meu próprio coração batendo acelerado, mas depois de um tempo consegui escutar o que Meg estava indicando: um grito distante de dor, um chamado grave e gutural, mais animalesco que humano. Estava acompanhado por um som de estalar de fogo, como se… Ah, deuses. Como se alguém ou algo tivesse se queimado com o calor de um titã e estivesse morrendo bem lentamente.
— Parece um monstro — concluiu Grover. — Será que a gente ajuda?
— Como? — perguntou Meg.
A pergunta fazia sentido. O barulho ecoou, tão difuso que não dava para saber de que corredor vinha — seria difícil chegar lá, mesmo se tivéssemos a liberdade de escolher o caminho sem precisar resolver enigmas.
— Temos que seguir em frente — decidi. — Medeia deve ter colocado alguns monstros de guarda por aqui. Deve ser um deles. Duvido que ela se incomode se alguns deles caírem no fogo de vez em quando.
Grover fez careta.
— Não parece certo deixar alguém sofrendo.
— E tem mais: e se um desses monstros disparar uma chama na gente? — acrescentou Meg.
Olhei para minha jovem mestra.
— Hoje você só quer saber de fazer perguntas sombrias. Precisamos ter fé.
— Na Sibila? Ou nesses sapatos do mal?
Eu não tinha resposta para isso. Mas fui salvo pelo gongo — ou melhor, pela aparição tardia da dica seguinte: três linhas douradas em latim.
Grover pareceu animado:
— Ah, latim! Esperem, essa eu consigo decifrar. — Ele estreitou os olhos para as palavras, mas depois de um tempo soltou um suspiro, desanimado. — Não consigo, não.
— Ora, francamente. Nem grego nem latim? — perguntei. — O que vocês aprendem na escola dos sátiros?
— Coisas importantes, sabe como é. Coisas sobre plantas, por exemplo.
— Obrigada — murmurou Meg.
Traduzi a dica para meus amigos menos esclarecidos: Sobre a fuga do rei contarei. Foi do povo romano o último rei um homem injusto, mas pujante na guerra.
— Ah, acho que é uma citação de Ovídio — expliquei.
Nenhum dos meus companheiros pareceu impressionado.
— Então, qual é a resposta? — perguntou Meg. — O último imperador romano?
— Não, não era um imperador — respondi. — Nos primeiros dias de Roma, a cidade era governada por reis. Depois que o último deles, o sétimo, foi deposto, a república foi instaurada.
Tentei me lembrar do Reino de Roma. Foi um período meio confuso para mim. Naquela época, nós, os deuses, ainda ficávamos na Grécia, e Roma era só um fim de mundo distante. Mas o último rei… Ele trazia memórias ruins.
Meg interrompeu meus pensamentos.
— O que é pujante?
— Quer dizer poderoso — expliquei.
— Não parece. Se alguém me chamasse de pujante, eu ia acabar com a raça dele!
— Mas você é mesmo pujante na guerra.
Ela me bateu.
— Ai.
— Gente, e qual é o nome do último rei de Roma? — interveio Grover.
Pensei um pouco.
— Pera. É Ta.... Olha, está na ponta da língua, mas eu não consigo lembrar. Ta-alguma coisa.
— Taco? — sugeriu Grover, querendo ajudar.
— Por que um rei de Roma se chamaria Taco?
— Sei lá. — Ele passou a mão na barriga. — Estou com fome.
Ah, maldito sátiro! Depois disso eu só ia conseguir pensar em tacos. Passados alguns instantes, a resposta me ocorreu.
— Tarquínio! Ou Tarquinius, no latim original.
— Bem, e qual dos dois vamos usar? — indagou Meg.
Examinei os corredores. O túnel da extrema esquerda, o polegar da mão autômata, tinha dez espaços, o suficiente para Tarquinius. O túnel do meio tinha nove, o suficiente para Tarquínio.
— É aquele — decidi, apontando para o túnel do meio.
— Como você pode ter certeza? — perguntou Grover. — Só porque a flecha falou que as respostas estariam na nossa língua?
— Isso. E também porque esses túneis parecem os cinco dedos de uma mão. Acho que faz todo o sentido o Labirinto mostrar o dedo do meio para mim. — Ergui a voz. — Não é mesmo? A resposta é Tarquínio, o dedo do meio? Também te amo, Labirinto!
Seguimos pelo corredor do meio, e o nome TARQUÍNIO foi aparecendo em dourado no chão. O corredor nos levou até uma câmara quadrada, o maior espaço que tínhamos encontrado até o momento. As paredes e o piso eram cobertos de mosaicos romanos desbotados que pareciam originais — se bem que eu tinha quase certeza de que os romanos nunca colonizaram nenhuma parte da área metropolitana de Los Angeles.
O ar ali parecia mais seco e abafado, e o chão estava quente o bastante para que eu sentisse o calor através das solas das sandálias. Mas tinha um ponto positivo: só havia três novos túneis para escolher, em vez de cinco.
Grover farejou no ar.
— Não gostei dessa câmara. Tem cheiro de… alguma coisa monstruosa.
Meg pegou as espadas.
— E vem de que direção?
— Hã… todas?
— Olhem só! — chamei, tentando parecer animado. — Outra pista.
Fomos até a parede de mosaicos mais próxima, onde duas linhas douradas reluziam nos azulejos.

Folhas, folhas-corporais, crescendo acima de mim, acima da morte
Raízes perenes, longas folhas
— Ah, o inverno não as congelará, folhas delicadas

Talvez meu cérebro ainda estivesse preso no modo latim-grego, porque aqueles versos não significaram nada para mim — mesmo estando na nossa língua.
— Gostei — comentou Meg. — É sobre folhas.
— É, um monte de folhas — concordei. — Mas não faz o menor sentido.
Grover engasgou, chocado.
— Como assim, não faz sentido? Você não reconheceu?
— Hã... deveria?
— Você é o deus da poesia!
Senti que estava corando.
— Eu era o deus da poesia, mas isso não quer dizer que eu seja uma enciclopédia ambulante de todo e qualquer verso obscuro já escrito…
— Obscuro? — exclamou Grover, numa voz aguda e irritante que ecoou pelos corredores. — É do Walt Whitman! De Folhas de relva! Não lembro qual o poema exatamente, mas…
— Então você lê poesia? — interrompeu Meg.
Grover umedeceu os lábios.
— Ah, sabe como é… Nesse caso é poesia sobre a natureza. Para um humano, Whitman sabia dizer umas coisas lindas sobre as árvores.
— E as folhas — acrescentou Meg. — E as raízes.
— Isso aí.
Tive vontade de explicar direitinho para eles como Walt Whitman era superestimado. Ele ficava cantando sozinho, em vez de elogiar os outros — como eu, por exemplo. Acabei decidindo que a crítica podia esperar.
— Então você sabe a resposta? — perguntei a Grover. — É de preencher as lacunas? É questão de múltipla escolha? Ou de dizer se é verdadeiro ou falso?
Grover analisou os versos.
— Acho… É. Tem alguma coisa faltando no começo. Se não me engano começa com “Folhas-tumulares, folhas-corporais”.
— Folhas de tumba? — perguntou Meg. — Isso não faz sentido. Se bem que “folhas de corpo” também não faz. A não ser que ele esteja falando de uma dríade.
— São metáforas — expliquei. — Ele claramente está usando recursos poéticos para descrever um lugar que foi assolado pela morte, intocado pelos humanos, e a vegetação acabou crescendo…
— Ah, então agora você é especialista em Walt Whitman? — provocou Grover.
— Ah, sátiro, não venha me provocar. Quando eu voltar a ser deus…
— Parem com isso, vocês dois — ordenou Meg. — Apolo, diga a resposta.
— Ok. — Soltei um suspiro. — Labirinto, a resposta é tumba.
Mais uma vez, conseguimos avançar tranquilamente pelo dedo do meio — quer dizer, pelo corredor central. A palavra TUMBA brilhava nos cinco quadrados atrás de nós.
Chegamos a uma câmara circular ainda maior e mais decorada que a anterior. O teto abobadado exibia um mosaico azul e prateado com os signos do zodíaco. Bem no meio ficava um chafariz antigo, mas, infelizmente, seco. (Seria ótimo beber alguma coisa. Interpretar poesia e resolver enigmas dava uma baita sede.)
— As câmaras estão cada vez maiores e mais elaboradas — comentou Grover.
— Talvez isso seja bom — respondi. — Talvez seja um sinal de que estamos chegando.
Meg examinou as imagens do zodíaco.
— Tem certeza de que não viramos no corredor errado? Essa profecia que estamos escrevendo não está mais fazendo sentido. Apolo encara morte tumba Tarquínio.
— Acho que temos que incluir as palavras menores e colocar as palavras numa ordem que faça mais sentido — expliquei. — A mensagem deve ser Apolo encara a morte na tumba de Tarquínio. — Engoli em seco. — Na verdade, não gostei nada dessa mensagem. Talvez as palavrinhas faltando sejam Apolo NÃO encara a morte; a tumba de Tarquínio… alguma coisa. Talvez as próximas palavras sejam guarda um fabuloso prêmio.
— Aham.
Meg apontou para a borda do chafariz, onde a pista seguinte tinha aparecido.
Eram três versos:
Batizada em homenagem ao amor caído de Apolo, essa flor deve ser plantada no outono
Coloque o bulbo na terra com a ponta fina para cima. Cubra com terra
E regue bem… se estiver transplantando uma muda.
Tive que segurar um soluço.
Primeiro o labirinto me obriga a ler Walt Whitman, depois me provoca com meu passado? Ficam falando do meu falecido amor, Jacinto, reduzindo sua morte trágica a um trecho de enigma de oráculo… Não! Aquilo era demais para mim.
Eu me sentei na beirada do chafariz e enfiei o rosto nas mãos.
— O que foi? — perguntou Grover, nervoso.
Meg respondeu por mim:
— Esses versos falam sobre um antigo namorado dele, aquele com nome de planta... Narciso?
— Jacinto — corrigi.
Eu me levantei, a tristeza se transformando em raiva. Meus amigos se afastaram um pouco, talvez se perguntando se eu tinha enlouquecido de vez. Para ser bem sincero, eu estava mesmo louco de ódio.
— Herófila! — gritei, para o escuro. — Achei que fôssemos amigos!
— Hã, Apolo... — chamou Meg. — Acho que ela não está fazendo isso para provocar você. A resposta é sobre a flor jacinto, não seu ex. Tenho quase certeza de que esse trecho é do Almanaque do fazendeiro...
— Pode ser até da lista telefônica que eu não ligo! Chega! JACINTO! — gritei para os corredores. — A resposta é JACINTO! Pronto! Está feliz?
Meg gritou:
— NÃO!
Em retrospecto, ela deveria ter gritado Apolo, pare!, e eu não teria escolha além de obedecer à sua ordem. Considerando isso, tudo o que aconteceu depois é culpa de Meg.
Segui pelo corredor com sete quadrados.
Grover e Meg saíram correndo atrás de mim, mas, quando finalmente me alcançam, já era tarde demais.
Olhei para trás, esperando ver a palavra JACINTO escrita no chão. Mas só seis quadradinhos estavam iluminados, num tom vermelho de caneta de correção:
E
X
C
E
T
O
O piso do túnel desapareceu sob nossos pés, e caímos em um poço de fogo.

5 comentários:

  1. Peraí, Apolo pegou o caminho errado...?

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  2. Parabéns apressadinho. Não é ele que reclama que a Meg não fala? Quando ela fala ele ignora!

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  3. Laíres de Deus câmara campos9 de junho de 2018 20:01

    o que foi isso?!

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  4. Lester, seu grande IDIOTA!!!
    COMO OUSA FALHAR DEPOIS DO SACRIFÍCIO DO JASON?

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  5. Meg interrompeu meus
    pensamentos.
    — O que é pujante?
    — Quer dizer poderoso —
    expliquei.
    — Não parece. Se alguém
    me chamasse de pujante, eu ia
    acabar com a raça dele!
    Meg , melhor pessoa .

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