26 de junho de 2018

Capítulo 37

O sonho era este: sentado no assento do passageiro do Mitsubishi de Joseph Kavinsky, o cheiro da batida se prendendo às roupas de Ronan, as luzes brancas do painel entalhando um rosto selvagem e emaciado em Kavinsky, as músicas obscenamente sedutoras cuspidas dos alto-falantes, os picos cobertos de veias dos nós dos dedos de Kavinsky sobre o câmbio entre eles. O cheiro no carro era doce e estranho, tóxico e agradável, de uma maneira que Ronan sempre achara que a maconha seria antes de entrar para a Aglionby. Mesmo a sensação dos assentos de corrida era estranha; eles seguravam os ombros de Ronan e sugavam suas pernas para as profundezas do carro, como uma armadilha. Cada buraco na estrada se transferia diretamente para os ossos de Ronan, abrupto e imediato. Um toque da direção e eles se lançavam em uma direção ou outra. Era como um carro construído tanto para alimentar quanto para gerar ansiedade.
Ronan não sabia se o adorava ou o odiava.
Eles não falaram nada. Ronan não sabia o que diria de qualquer forma. Parecia que qualquer coisa podia acontecer. Todos os seus segredos pareciam perigosamente próximos da superfície.
Kavinsky deixou Henrietta, passando por Deering para lugar nenhum. A estrada passou de quatro pistas para duas, e árvores de um negro puro pressionavam o negro céu opaco do céu lá em cima. As palmas das mãos de Ronan suavam. Ele observava Kavinsky trocar as marchas enquanto ele serpenteava ao longo de estradas vicinais. Toda vez que ele trocava para a quarta marcha, perdia o tempo certo. Será que ele não sentia o carro perder impulso quando fazia isso?
— Meus olhos estão aqui em cima, querido — disse Kavinsky.
Com um ruído de desdém, Ronan recostou a cabeça no assento e olhou para fora, para a noite. Ele sabia dizer onde eles estavam agora; estavam próximos da feira onde a festa de embalo havia acontecido. Hoje os holofotes potentes estavam apagados; a única prova da existência da feira era quando os faróis passavam pelas bandeirolas, e então não havia nada a não ser macegas enquanto Kavinsky entrava com o carro em uma vereda de cascalho coberta pela relva de frente para a feira.
Alguns metros adiante, Kavinsky parou. Ele olhou para Ronan.
— Eu sei o que você é.
Foi como depois da batida. Após despertar de um sonho. Ronan estava congelado no mar, encarando-o de volta.
O Mitsubishi arrancou forte, e o caminho cedeu lugar a uma clareira interminável. Nos faróis, Ronan viu outro carro branco estacionado à frente. Quando eles se aproximaram, as luzes iluminaram um aerofólio enorme no porta-malas, e então revelaram uma porção da estampa de uma faca na lateral. Era outro Mitsubishi. Por um instante, Ronan achou que poderia ser o velho, os estragos miraculosamente escondidos de alguma maneira pela iluminação ruim. Mas então os faróis viraram para outro carro estacionado ao lado dele. Esse segundo carro também era branco com um aerofólio grande. A estampa de uma faca espiava para fora da lateral sombreada.
Kavinsky avançou mais uns metros. Um terceiro carro foi trazido para o foco. Um Mitsubishi branco. Eles continuaram avançando lentamente, a relva farfalhando contra o para-choque baixo. Outro Mitsubishi. Mais um. Outro.
— Peixinho dourado — disse Kavinsky.
Não seria a mesma coisa.
Mas eram a mesma coisa. Dúzias e mais dúzias — agora Ronan viu que havia ao menos duas fileiras de Mitsubishis estacionados — de carros idênticos. Só que eles não eram bem idênticos. Quanto mais Ronan olhava, mais diferenças ele via. Um para-lama maior aqui. A pintura de um dragão respingada ali. Alguns tinham faróis esquisitos que se estendiam por toda a frente. Alguns não tinham luz alguma, apenas folhas de metal lisas onde elas deviam estar. Alguns eram ligeiramente mais altos; outros, ligeiramente mais longos. Alguns tinham apenas duas portas. Alguns não tinham nenhuma.
Kavinsky foi até o fim da primeira fila desigual e dobrou para a próxima. Havia mais de uma centena deles.
Não era possível.
Ronan fechou as mãos em punhos. Ele disse:
— Acho que não sou o único com sonhos recorrentes.
Porque, é claro, aqueles carros tinham saído da cabeça de Kavinsky. Assim como as carteiras de motorista falsas, as tiras de couro que ele havia dado para Ronan, as substâncias incríveis com as quais seus amigos viajariam durante horas, cada fogo de artifício impossível que ele soltava a cada ano no Quatro de Julho, cada uma das falsificações pelas quais ele era conhecido em Henrietta.
Ele era um Greywaren.
Kavinsky puxou o freio de mão. Eles eram um Mitsubishi branco em um mundo de Mitsubishis brancos. Cada pensamento na cabeça de Ronan era um fragmento de luz, longe dali antes que ele pudesse contemplá-lo.
— Eu te disse, cara — disse Kavinsky. — Solução simples.
Ronan falou em voz baixa:
— Carros. Um carro inteiro.
Ele jamais imaginara que isso fosse possível. Nunca chegara nem a pensar em tentar algo mais do que as chaves do Camaro. Nunca pensara que houvesse qualquer pessoa fora ele mesmo e o pai.
— Não... Mundos — disse Kavinsky. — Um mundo inteiro.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!