20 de junho de 2018

Capítulo 37

Whelk sentia falta da comida boa que vinha com o fato de ser rico.
Quando ele voltava para casa de Aglionby, nem sua mãe nem seu pai cozinhavam. Eles haviam contratado uma chef para vir a cada duas noites fazer o jantar. Carrie era uma mulher efusiva, mas intimidante, que adorava picar coisas com facas. Nossa, ele sentia falta do guacamole dela.
Naquele momento, Whelk estava sentado no meio-fio de um posto de atendimento fechado, comendo um hambúrguer seco que havia comprado em uma lanchonete a vários quilômetros dali; era o primeiro lanche de fast-food que ele comia em sete anos. Sem saber quanto os policiais estariam procurando seu carro, ele o estacionou fora do alcance da luz da rua e voltou ao meio-fio para comer.
Enquanto mastigava, um plano tomava forma, e envolvia dormir no banco de trás do carro e elaborar outro plano de manhã. Não era algo que inspirasse confiança, e seu ânimo estava baixo. Ele devia ter raptado Gansey, agora que considerava a questão, mas um rapto exigia muito mais planejamento que um roubo, e, ao sair de casa, ele não tinha se preparado para colocar alguém no porta-malas.
Ele devia ter aproveitado a oportunidade quando o carro de Gansey quebrara. Se ele tivesse realmente considerado a questão, teria raptado Gansey para o ritual mais tarde, após chegar ao coração da linha ley.
Só que Gansey jamais seria um bom alvo; a caçada humana por seu assassino seria monumental. Realmente, Parrish teria sido uma aposta melhor. Ninguém sentiria falta de um garoto nascido em um trailer. Contudo, ele sempre entregava o dever de casa pontualmente.
Whelk deu outra mordida raivosa no hambúrguer empoeirado, o que não ajudou em nada para melhorar seu humor.
Ao lado dele, o telefone público começou a tocar. Até então, Whelk nem tomara conhecimento de que o telefone estava ali; ele achava que os celulares haviam varrido do mercado os telefones públicos. Olhou para o único outro carro parado no estacionamento para ver se alguém estava esperando uma chamada. No entanto, o outro veículo estava vazio, e o pneu direito esvaziado indicava que ele estava estacionado ali há mais tempo que alguns minutos.
Ele esperou ansiosamente enquanto o telefone tocou doze vezes, mas ninguém apareceu para atender. Whelk se sentiu aliviado quando ele parou, mas não o suficiente para continuar onde estava. Embrulhou a outra metade do hambúrguer e se pôs de pé.
Mas então o telefone começou a tocar de novo.
E tocou o tempo inteiro enquanto ele caminhava até a lata de lixo do outro lado da porta do posto de atendimento (SEJA BEM-VINDO, ESTAMOS ABERTOS!, mentia o letreiro reversível pendurado na porta). E não parou de tocar enquanto ele voltava para o meio-fio para recuperar uma das batatas fritas que havia deixado. E ainda tocou enquanto ele caminhava de volta para onde estacionara o carro.
Whelk não era dado à filantropia, mas lhe ocorreu que quem quer que estivesse do outro lado do telefone público estava realmente tentando entrar em contato com alguém. Ele voltou para o telefone, que ainda estava tocando — um toque tão antiquado, pensou, telefones não soavam mais assim —, e tirou o fone do gancho.
— Alô?
— Sr. Whelk — disse Neeve suavemente. — Espero que esteja tendo uma noite agradável.
Whelk se agarrou ao telefone.
— Como você sabia onde me encontrar?
— Números são algo muito simples para mim, sr. Whelk, e o senhor não é difícil de ser encontrado. Eu também tenho um pouco do seu cabelo. — A voz de Neeve era suave e esquisita. Nenhuma pessoa viva, pensou Whelk, deveria soar tanto como o menu de uma secretária eletrônica computadorizada.
— Por que você está me ligando?
— Que bom que perguntou — observou Neeve. — Estou ligando a respeito da ideia que o senhor propôs da última vez que conversamos.
— Da última vez que conversamos, você disse que não estava interessada em me ajudar — respondeu Whelk. Ele ainda estava pensando sobre o fato de que aquela mulher havia coletado um fio de cabelo dele. A imagem dela se mexendo lenta e suavemente pelo seu apartamento escuro e abandonado não era agradável. Ele virou as costas para o posto de atendimento e olhou para dentro da noite. Possivelmente ela estava lá, em algum lugar; talvez o tivesse seguido e fora assim que ela soubera para onde ligar. Mas Whelk sabia que aquilo não era verdade. A única razão para que ele a tivesse contatado em primeiro lugar era porque ele sabia que Neeve era real.
— Então, sobre ajudar você — disse Neeve. — Eu mudei de ideia.

5 comentários:

  1. Mas olha que bicha trambiqueira, rapaz!
    Eu achava que ela era confiável.

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  2. Neeve, a vira-casaca mais vira-casaca que você vai ter o azar de encontrar

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  3. Com certeza Neeve está fazendo isso para ajudar Blue e os outros.

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  4. Olha que falsaaa .. barraqueira

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  5. Eu acho que ela está fazendo isso como um plano pra pegar ele 😞

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Boa leitura, E SEM SPOILER!