3 de junho de 2018

Capítulo 37

Vamos jogar? É bem fácil
Tente adivinhar
Senão vai morrer queimado

AQUELA PARTE DO labirinto não tinha elevadores, nem servidores públicos, nem placas nos lembrando de buzinar antes de virar na próxima esquina.
Descemos a escada e encontramos um poço vertical. Grover, com suas patas de bode acostumadas a escalar montanhas, não teve dificuldade alguma para chegar lá embaixo. Depois que ele nos assegurou de que não havia monstros ou ursos à nossa espera, Meg fez com que uma glicínia densa crescesse na lateral do poço, o que nos forneceu alguns apoios bem cheirosos.
Nós então nos deparamos com uma pequena câmara quadrada de onde irradiavam quatro túneis, um de cada parede. O ar estava quente e seco, como se os incêndios de Hélio houvessem passado por ali recentemente. Eu estava encharcado de suor. Na minha aljava, os cabos das flechas estalavam, e as penas sibilavam.
Desolado, Grover espiou o pouquinho de luz do sol que passava pela entrada do poço.
— Nós vamos voltar lá para cima — prometi a ele.
— Eu só estava me perguntando se Piper recebeu minha mensagem.
— Que mensagem? — perguntou Meg.
— Eu esbarrei com uma ninfa das nuvens quando fui pegar o Mercedes — disse ele, como se fosse muito normal esbarrar com ninfas das nuvens ao pegar carros emprestados. — Pedi que ela entregasse uma mensagem a Mellie, para contar o que íamos fazer… Supondo, é claro, que a ninfa chegasse lá em segurança.
Não compreendi por que Grover só mencionara isso naquele momento.
— Você queria que a Piper encontrasse a gente aqui?
— Não exatamente… — A expressão dele dizia sim, por favor, deuses, a gente precisa da ajuda dela. — Eu só achei que ela devia saber o que estamos fazendo, para o caso de… — A expressão dele dizia para o caso de entrarmos em combustão e nunca mais ouvirem falar da gente.
Não gostei da expressão de Grover.
— Hora dos sapatos — disse Meg.
Notei que ela olhava para mim.
— Que foi?
— Os sapatos.
Ela apontou para as sandálias penduradas no meu cinto.
— Ah, é. — Eu as peguei. — Será que, hã, algum de vocês quer experimentar essas belezinhas?
— Tô fora — disse Meg.
Grover estremeceu.
— Eu já passei por maus bocados com calçados encantados.
Não me empolgava muito a perspectiva de usar as sandálias de um imperador do mal — temia que me transformassem em um psicopata sedento de poder.
Além do mais, elas não combinavam com minha camuflagem ártica. Mesmo assim, me sentei no chão e amarrei as cáligas, vislumbrando a infinidade de coisas que o Império Romano poderia ter conquistado se tivesse conhecido as tiras de velcro.
Eu me levantei e tentei dar alguns passos. As sandálias machucaram meus tornozelos e beliscaram meus calcanhares, mas pelo menos não me senti mais sociopata do que o habitual. Com sorte eu não tinha sido infectado com Caligulite.
— Certo — falei. — Sapatos, nos levem até a Sibila Eritreia.
Os sapatos não fizeram nada. Mexi um dedão para um lado, depois para outro, porque vai que eles precisavam de uma forcinha? Verifiquei as solas para ver se havia botões ou algum compartimento para pilhas. Nada.
— O que a gente faz agora? — perguntei, para ninguém em particular.
A câmara se iluminou com uma luz dourada leve, como se alguém tivesse acendido um dimmer.
— Pessoal.
Grover apontou para os nossos pés. No piso áspero de cimento, surgiu um quadrado de um metro e meio com contorno dourado. Se fosse um alçapão, nós todos teríamos caído. Quadrados idênticos apareceram em cada um dos corredores, como em um jogo de tabuleiro. Cada caminho era de um tamanho diferente. Um continha apenas três quadrados. Outro, cinco. O terceiro, sete. E o último, seis. Na parede à minha direita, uma inscrição dourada apareceu em grego antigo: Matador de Píton, da lira dourada, armado com flechas de terror.
— O que está acontecendo? — perguntou Meg. — O que tem escrito aí?
— Você não sabe ler grego antigo? — perguntei.
— E você não sabe a diferença entre um morango e um inhame — retrucou ela. — E aí? O que está escrito?
Traduzi a frase.
Grover coçou o cavanhaque.
— Esse não é o Apolo? Quer dizer, você. Quando você era… um deus.
Tentei não levar para o pessoal.
— Claro que é o Apolo. Quer dizer, sou eu.
— Então o Labirinto está… dando boas-vindas a você? — perguntou Meg.
Até que eu tinha gostado. Sempre quis uma assistente virtual ativada por voz no meu palácio no Olimpo, mas Hefesto teve uns probleminhas para desenvolver a tecnologia. Na única vez que tentou, deu à assistente o nome Sirialexastrophona.
Ela só atendia quando seu nome era pronunciado com perfeição, e ainda por cima não acertava um pedido meu. Eu dizia: Sirialexastrophona, envie uma flecha com uma peste para destruir Corinto, por favor. E ela respondia: Acho que você disse: Não tem um homem que preste e você quer um lindo amor.
Eu achava bem improvável que houvessem instalado uma assistente virtual no Labirinto de Fogo, e, se fosse o caso, ela só serviria para me dizer a que temperatura eu gostaria de ser cozido.
— É um enigma de palavras — concluí. — Um acróstico ou uma cruzadinha. A Sibila está tentando nos guiar até ela.
Meg franziu a testa, observando os quatro corredores à nossa frente.
— Se ela está realmente tentando ajudar, por que não facilita as coisas para o nosso lado e nos diz logo a direção certa?
— É assim que Herófila opera — expliquei. — É a única forma que pode nos ajudar. Acredito que temos que, hã, preencher os quadradinhos com a resposta correta.
Grover coçou a cabeça, confuso.
— Alguém tem uma caneta dourada gigante? Bem que Percy podia estar aqui.
— Acho que não vamos precisar dele — falei. — Nós só precisamos andar na direção certa e escrever meu nome. Apolo, cinco letras. Só um desses corredores tem cinco espaços.
— Você está contando o espaço onde estamos? — perguntou Meg.
— Hã, não. Vamos supor que esse seja o início — falei, mas eu já não tinha mais tanta certeza da resposta.
— E se a resposta for Lester? — cogitou ela. — Aí vão ser seis espaços.
A ideia fez minha garganta coçar.
— Você pode parar de fazer perguntas boas? Eu já tinha solucionado tudo!
— Será que a resposta é em grego? — acrescentou Grover. — A pergunta está em grego. Quantos espaços seu nome teria, assim?
Outra observação irritantemente lógica. Meu nome em grego era Απολλων.
— Aí seriam sete espaços — concluí. — Mesmo se for transcrito, é Apollon.
— Que tal perguntar à Flecha de Dodona? — sugeriu Grover.
A cicatriz no meu peito formigou como uma tomada elétrica defeituosa.
— Isso deve ser contra as regras.
Meg fez um ruído debochado.
— Você só não quer falar com a flecha. Não custa nada tentar.
Se eu me recusasse, ela provavelmente ordenaria que eu pegasse a flecha, então fiz logo isso.
AFASTA-TE, PATIFE!, zumbiu ela, furiosa. NUNCA MAIS TU VAIS ME ENFIAR NO TEU DESPREZÍVEL PEITO! NEM NOS OLHOS DOS TEUS INIMIGOS!
— Relaxa, flecha — pedi. — Só preciso de um conselho.
É O QUE DIZES AGORA, PORÉM, AVISO-TE LOGO… A flecha ficou completamente imóvel. ENTRETANTO, DE FATO. O QUE VEJO DIANTE DE MEUS OLHOS É UM ENIGMA COM PALAVRAS CRUZADAS? SOU VERDADEIRAMENTE ENCANTADA POR PALAVRAS CRUZADAS.
— Ah, que alegria. Ah, que felicidade. — Eu me virei para os meus amigos. — A flecha ama palavras cruzadas.
Expliquei o problema para a flecha, que quis porque quis olhar melhor os quadrados no chão e a dica escrita na parede. Olhar melhor… Com que olhos, gente? É um mistério.
A flecha zumbiu, pensativa. AVALIO QUE A RESPOSTA DEVE SER NA LÍNGUA COMUM. SERIA MELHOR TU USARES O NOME COM O QUAL ESTÁS MAIS FAMILIARIZADO NOS DIAS ATUAIS.
— Ela diz… — Eu suspirei. — Ela diz que a resposta vai ser na nossa língua. Espero que esteja se referindo à língua moderna, e não essa versão estranha e shakespeariana que ela fala…
TAL DIALETO NÃO É ESTRANHO!, protestou a flecha.
— Porque não dá para escrever ali Apolônio é a decifração incontestável.
OH, HA-HA. UM GRACEJO TÃO FRACO QUANTO TEUS MÚSCULOS.
— Obrigado por jogar. — Guardei a flecha. — É isso, amigos: o túnel com cinco quadrados. Apolo. Vamos?
— E se a gente escolher errado? — perguntou Grover.
— Bom — falei —, talvez as sandálias mágicas ajudem. Ou talvez elas só nos permitam participar do jogo. Mas, se desviarmos do caminho certo, apesar dos esforços da Sibila para nos ajudar, talvez nos deparemos com a fúria do Labirinto…
— E aí a gente morre queimado — disse Meg.
— Amo jogos — disse Grover. — Vai na frente.
— A resposta é Apolo! — gritei, só para deixar registrado.
Assim que pisei no quadrado seguinte, uma letra grande apareceu embaixo dos meus pés. Interpretei isso como um bom sinal. Dei outro passo, e um apareceu. Meus dois amigos me seguiram. Finalmente, saímos do quinto quadrado em uma câmara idêntica à anterior.
Olhamos para trás e vimos que a palavra APOLO cintilava atrás da gente. À nossa frente, mais três corredores com fileiras douradas de quadrados se abriam: esquerda, direita e adiante.
— Tem outra pista. — Meg apontou para a parede. — Por que essa está na nossa língua?
— Não sei — falei, e li em voz alta as palavras iluminadas. — “Jano, arauto de novas entradas, primeiro do suave ano, e cada lado.”
— Ah, aquele cara. O deus romano das portas. — Grover estremeceu. — Já me encontrei com ele. — O sátiro olhou ao redor com desconfiança. — Espero que não apareça aqui. Ele adoraria este lugar.
Meg passou os dedos pelas linhas douradas.
— Meio fácil, não? O nome dele está bem na pista. Quatro letras, J-A-N-O, então só pode ser por ali. — Ela apontou para o corredor da esquerda, que era o único com quatro espaços.
Olhei para a pista e para os quadrados. Algo mais incômodo que o calor percorria meu corpo, mas eu ainda não sabia o que era.
— Jano não é a resposta — concluí. — Acho que temos que preencher as lacunas, não acham? E cada lado o quê?
— Encara — respondeu Grover. — Cada lado... Dois lados... Duas caras. Jano tinha duas caras, e não quero ver nenhuma delas de novo.
— A resposta correta é encara! — anunciei para o corredor vazio.
Não obtive resposta, mas, quando seguimos pelo corredor da direita, a palavra ENCARA apareceu.
Felizmente, não fomos fritados vivos por fogo titã.
Na câmara seguinte, novos corredores se estendiam novamente em três direções. Daquela vez, a pista iluminada na parede estava novamente em grego antigo.
Senti um calafrio quando li a frase.
— Eu conheço isso! É de um poema de Baquílides — traduzi para meus amigos. — Mas o deus mais alto, poderoso com seu raio, enviou Hipnos e seu gêmeo do nevado Olimpo para o guerreiro destemido Sarpedão.
Meg e Grover me olharam, intrigados. Francamente: então só porque eu estava usando os sapatos de Calígula, eu tinha que fazer tudo?
— Tem alguma coisa diferente nesse verso — falei. — Eu me lembro da cena. Sarpedão morre. Zeus ordena que retirem o corpo dele do campo de batalhas. Mas as palavras…
— Hipnos é o deus do sono — disse Grover. — No chalé dele fazem um leite com biscoitos excelente. Mas quem é o gêmeo dele?
Meu coração deu um salto.
— É isso que está diferente. No verso atual, não diz gêmeo. Diz o nome do gêmeo: Tânatos. Ou seja, Morte.
Observei os três túneis. Nenhum com sete quadradinhos, para Tânatos. Um tinha dez, um tinha quatro e um tinha cinco, o espaço certinho para caber MORTE.
— Ah, não…
Eu me apoiei na parede mais próxima. Parecia que um dos espinhos de Aloe Vera estava escorregando lentamente pelas minhas costas.
— Por que a cara de pânico? — perguntou Meg. — Você está indo superbem.
— Porque, Meg — falei —, nós não estamos apenas resolvendo enigmas aleatórios. Estamos montando uma profecia que é um enigma de palavras. E até agora ela diz APOLO ENCARA MORTE.

5 comentários:

  1. APOLO ENCARA MORTE.
    Já n chega de mortes não Sr. Rick Riordan?

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  2. Achei essas palavras cruzadas muito interessantes x'D e criativas... queria saber como foi para Jason...

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  3. A morte realmente resolveu virar personagem importante desse livro.

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  4. Depois de ler alguns livros as mortes não causavam tanta dor, mas essa do Jason, ó céus dói muito, ainda não superei, pra mim ele está machucado mas vivo.
    Apolo se ferrando de novo.
    BTP

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Boa leitura, E SEM SPOILER!