9 de junho de 2018

Capítulo 36

NA DESPEDIDA DE solteira, Kristen decidiu que o tema da noite devia ser anos 1990, porque não tem nada de que Trina goste mais do que os anos 1990, então todo mundo tem que usar roupas da época. Sinceramente, acho que o motivo por trás do tema é porque Kristen quer usar uma blusa cropped. Ela chega em casa com uma camiseta azul que diz SKATER GURL e calça baggy, e o cabelo está partido no meio. Ela está usando batom marrom-escuro matte.
A primeira coisa que ela faz é botar uma estação de rádio dos anos 1990 tocando por toda a casa. As mulheres todas vão se reunir aqui, e os homens (e Kitty) vão se encontrar no restaurante. Fico feliz, porque ainda não sei o que vou dizer para Peter.
Ainda estamos nos arrumando. Vou com um vestidinho curto florido que encontrei na Etsy, meias creme até os joelhos e sapatos boneca pretos com plataforma. Estou prendendo o cabelo em marias-chiquinhas quando Kristen sobe para fazer a inspeção segurando uma taça de martíni na qual está escrito Madrinha em cursiva cor-de-rosa.
— Ah, você está fofa, Lara Jean — diz ela, tomando um gole da bebida.
Eu aperto as marias-chiquinhas.
— Obrigada, Kristen.
Fico feliz por minha roupa estar satisfatória. Tenho muita coisa em mente e detestaria estragar a noite de Trina.
Kitty e Margot estão no chão. Kitty está pintando as unhas de Margot de preto. Margot escolheu o caminho grunge: uma camisa comprida de flanela, calça jeans e botas Doc Martens que peguei emprestadas de Chris.
— O que você está bebendo? — pergunta Kitty para Kristen.
— Cosmopolitan. Tem mais lá embaixo em uma garrafa de Sprite. Mas não para você.
Kitty revira os olhos quando ouve isso.
— Cadê a Tri?
— Está no banho — respondo para ela.
Kristen inclina a cabeça e estreita os olhos enquanto me observa.
— Está faltando alguma coisa. — Ela coloca o copo de lado, revira a bolsa e pega um batom. — Coloque isto.
— Ah… é a cor que você está usando? — pergunto.
— É! Chama-se Toast of New York. Era a maior moda naquela época!
— Hum…
Parece que Kristen esfregou Hershey’s kisses nos lábios e o chocolate secou.
— Confie em mim — diz ela.
— Eu estava pensando em usar esse. — Eu solto a escova e mostro um brilho labial rosa brilhante. — As Spice Girls não usavam brilho labial assim? Elas não eram dos anos 1990?
Kristen franze a testa.
— Mais para o final e para o começo dos anos 2000, mas, sim. Acho que está bom. — Ela aponta o batom pra Margot. — Mas você precisa disto. Sua roupa não está anos 1990 o bastante. — Ela observa Kitty dar os toques finais nas unhas de Margot. — Eu usava caneta permanente — conta Kristen. — Vocês não sabem como têm sorte de ter tantas opções. Nós tínhamos que improvisar. Caneta permanente para pintar de preto, liquid paper para pintar de branco.
— O que é liquid paper? — pergunta Kitty.
— Ah, meu Deus. Vocês crianças nem sabem o que é liquid paper?
Assim que Kristen vira as costas para pegar o copo, Kitty mostra os dentes para ela.
— Eu vi você pelo espelho — diz Kristen.
— Eu queria mesmo que visse — responde Kitty.
Kristen olha para ela.
— Termine logo as unhas da sua irmã para poder pintar as minhas.
— Estou quase acabando — diz Kitty.
Um minuto depois, a campainha toca, e as três descem. Ouço Kristen gritar:
— Atenda a porta. Eu vou pegar as bebidas!

* * *

Monique, colega de irmandade de Trina, está usando um vestidinho com girassóis enormes e uma camiseta branca por baixo, além de sapatos boneca pretos de plataforma que parecem calçados de astronauta. Kendra, a amiga do SoulCycle, chegou com um macacão e uma regata ribana rosa e completou com um frufru rosa da mesma cor no cabelo. Muitas das coisas que as pessoas estão usando hoje também são comuns na minha escola. A moda é mesmo cíclica.
O tema anos 1990 foi a pedida certa, porque Trina fica encantada com tudo.
— Amei seu vestido! — diz Kendra para mim.
— Obrigada! — digo. — É vintage.
Ela se encolhe, horrorizada de verdade.
— Ah, meu Deus. Os anos 1990 são considerados vintage agora?
— Sim, amiga — diz Trina. — Os anos 1990 são os nossos 1970.
Ela estremece.
— Que horror. Nós estamos velhas?
— Estamos geriátricas — diz Trina, mas com alegria.
No carro a caminho do karaokê, eu recebo uma mensagem de Peter. É uma foto dele e do meu pai de terno, com sorrisos largos. Meu coração dá um pulo quando vejo. Como vou dispensar um garoto assim?

* * *

Reservamos um salão particular no karaokê. Quando a garçonete chega, Margot pede uma margarita de romã, e Trina repara, mas não diz nada. O que ela poderia falar? Margot está na faculdade. Vai fazer vinte anos em um mês.
— Isso é bom? — pergunto.
— É bem doce — diz ela. — Quer um gole?
Eu adoraria um gole. Peter mandou duas mensagens de texto do restaurante perguntando como está a noite, e sinto meu estômago dar nós. Furtivamente, olho para Trina, que está fazendo um dueto com Kristen. Ela pode não ter dito nada para Margot, mas tenho a sensação de que vai dizer alguma coisa para mim.
— Na Escócia, a idade para beber é dezoito anos — diz Margot.
Eu tomo um gole rápido, e é gostoso, ácido e gelado.
Enquanto isso, todo mundo está olhando as músicas para decidir quais cantar. A regra da noite é só músicas dos anos 1990. Demora um tempo para as pessoas se aquecerem, mas as bebidas passam a ser servidas sem parar, e todo mundo começa a gritar números de música para botar na fila.
Michelle, amiga de Trina, é a próxima. Ela canta:
— “There was a time, when I was so broken-hearted…”
— Gostei dessa música — digo. — Quem canta?
Kristen dá um tapinha indulgente na minha cabeça.
— Aerosmith, garotinha. Aerosmith.
Todas se levantam e cantam Spice Girls.
Margot e eu cantamos “Wonderwall”, do Oasis. Quando me sento, estou sem ar. Kendra, a amiga de Trina do SoulCycle, está se balançando no ritmo da música que Trina e Kristen estão cantando juntas, o copo de martíni gelado no ar. É verde-ácido.
— O que você está tomando, Kendra? — pergunto.
— Martíni de maçã.
— Parece bom. Posso experimentar?
— Pode, tome um gole! É tão frutado que nem dá para sentir o álcool.
Dou um golinho de beija-flor. É doce. Tem gosto de balinha Jolly Rancher.
Quando Trina e Kristen terminam de cantar, elas caem no sofá ao meu lado, e Kendra pula para cantar uma música da Britney Spears.
Kristen está falando arrastado:
— Eu só quero que a gente continue próxima, tá? Não seja chata. Não vire mãe de repente. Eu sei que você tem que ser mãe, mas não seja uma mãe chata.
— Eu não vou ser uma mãe chata — diz Trina com a voz tranquilizadora. — Eu nunca poderia ser uma mãe chata.
— Você tem que me prometer que ainda vai às quartas de vinho.
— Eu prometo.
Kristen solta um soluço.
— Eu te amo muito, amiga.
Trina está com lágrimas nos olhos.
— Eu também te amo.
O martíni de Kendra está na mesa, abandonado. Tomo outro gole quando não tem ninguém olhando, porque o gosto é bom mesmo. E outro. Já terminei o copo quando Trina me vê. Ela ergue as sobrancelhas.
— Acho que você talvez tenha se divertido demais na Semana na Praia.
— Eu não bebi quase nada na Semana na Praia, Trina! — protesto. E franzo a testa. — É bebi ou tomei?
Trina parece alarmada.
— Margot, sua irmã está bêbada?
Eu levanto as mãos.
— Pessoal, eu nem tomei!
Margot se senta ao meu lado e examina meus olhos.
— Ela está bêbada.
Eu nunca fiquei bêbada na vida. Estou bêbada agora? Eu me sinto mesmo relaxada. Ficar bêbada é assim, quando os braços e as pernas ficam bambos, meio leves?
— Seu pai vai me matar — diz Trina com um gemido. — Eles acabaram de deixar Kitty em casa. Vão chegar a qualquer momento. Lara Jean, beba muita água. Beba esse copo inteiro. Vou pedir outra jarra.
Quando ela volta alguns minutos depois, o pessoal da despedida de solteiro do meu pai chega junto. O olhar de Trina me transmite um aviso. Não aja como bêbada, diz ela com movimentos labiais. Eu faço sinal de positivo. Dou um pulo e jogo os braços em volta de Peter.
— Peter! — grito acima da música. Ele está tão lindo de camisa de botão e gravata. Tão lindo que me dá vontade de chorar. Eu escondo o rosto no pescoço dele como um esquilo. — Senti tanto a sua falta.
Peter me olha.
— Você está bêbada?
— Não, só tomei uns dois goles. Duas bebidas.
— Trina deixou você beber?
— Não. — Eu dou risadinhas. — Eu roubei uns golinhos.
— É melhor a gente sair daqui antes que seu pai veja você — diz Peter, olhando ao redor.
Papai está vendo o catálogo de músicas com Margot, que está me olhando com cara de Controle-se.
— Se ele não souber não vai fazer mal a ninguém.
— Vamos para o estacionamento, pra você tomar um pouco de ar — diz ele, passando um dos braços ao meu redor e me levando pela porta e pelo restaurante.
Nós saímos, e eu oscilo um pouco. Peter está tentando não sorrir.
— Você está bêbada.
— Acho que estou mais velhinha!
— Levinha. — Ele belisca minhas bochechas.
— Isso. Velhinha. Quer dizer, levinha. — Por que isso é tão engraçado? Não consigo parar de rir. Mas vejo como ele está me olhando, com tanto carinho, e paro. Não estou mais com vontade de rir. Estou com vontade de chorar. Veja como ele fez a despedida de solteiro do meu pai ser tão especial. Veja todas as formas como ele me ama tanto. Eu o amo igualzinho. Eu não sabia que ia fazer isso até esse momento, mas agora eu sei. — Tem uma coisa que quero dizer pra você. — Eu me empertigo e dou uma pancada acidental no pescoço de Peter, que o faz tossir. — Desculpa. O que eu quero dizer é o seguinte. Quero que você faça o que tem que fazer e quero fazer o que eu tenho que fazer.
Ele está com um meio-sorriso no rosto.
— Do que você está falando? — pergunta, balançando a cabeça.
— Estou falando que acho que não devíamos ficar em um relacionamento… um relacionamento a distância.
O sorriso dele está sumindo.
— O quê?
— Acho que você precisa fazer todas as coisas que precisa fazer na UVA, como jogar lacrosse e estudar, e eu preciso fazer o que preciso fazer na UNC, e se nós ficarmos juntos, tudo vai desmoronar. Por isso, a gente não pode. A gente simplesmente não pode.
Ele pisca, e seu rosto fica imóvel.
— Você quer terminar?
Eu balanço a cabeça, e a dor no rosto dele me deixa sóbria.
— Quero que você faça o que deve fazer. Não quero que você faça por minha causa. Você se dedicou à UVA, Peter. É lá que tem que ficar. Não na UNC.
Ele fica pálido.
— Você falou com a minha mãe?
— Falei. Quer dizer, não…
O músculo no maxilar dele pula.
— Entendi. Não precisa dizer mais nada.
— Espere, me escute, Peter…
— Não, não mesmo. Só para deixar registrado, eu mencionei a UNC para a minha mãe como possibilidade. Não era nada definitivo. Só uma coisa que soltei no ar. Mas tudo bem se você não quiser que eu vá.
Ele começa a se afastar de mim, e eu seguro o braço dele para fazê-lo parar.
— Peter, não é isso que estou dizendo! Estou dizendo que, se você fosse, se você abrisse mão de tudo a que se dedicou para entrar na UVA, você vai acabar se ressentindo de mim.
— Pare, Lara Jean — responde ele, secamente. — Eu já previa isso há um tempão. Desde que você decidiu ir para a UNC, você está se despedindo de mim.
Eu solto o braço dele.
— O que isso quer dizer?
— Primeiro, o scrapbook. Você disse que era para eu me lembrar de nós. Por que eu precisaria de uma lembrança nossa, Lara Jean?
— Não foi isso! Eu passei meses trabalhando naquele scrapbook. Você está jogando tudo nas minhas costas, mas é você que está se afastando de mim. Desde a Semana na Praia.
— Tudo bem, vamos falar sobre o que aconteceu naquela noite na Semana na Praia. — Sinto meu rosto ficar vermelho quando ele me olha com desafio. — Aquela noite em que você quis transar pareceu que você estava tentando colocar um laço de fita nisso tudo. Como se estivesse me guardando na sua… na sua caixa de chapéu. Como se eu tivesse terminado meu papel na sua primeira história de amor e agora você pode ir para o capítulo seguinte.
Sinto-me meio tonta, perdida. Peter, que eu achava que entendia tão bem.
— Sinto muito por você ter entendido assim, mas não foi o que eu quis dizer. Não mesmo.
— Obviamente, foi o que você quis dizer, porque você está fazendo isso agora. Não está?
Será que tem um fundo de verdade no que ele está dizendo, ainda que pequeno? É verdade que eu não ia querer que minha primeira vez fosse com outra pessoa. É verdade que pareceu certo ser com Peter, porque ele é o primeiro garoto que amo. Eu não ia querer que fosse com um garoto que vou conhecer na faculdade. Esse garoto vai ser um estranho para mim. Eu conheço Peter desde que éramos crianças. Eu estava só tentando fechar um capítulo?
Não. Eu fiz porque queria que fosse ele. Mas se é assim que ele vê, talvez seja mais fácil.
Eu engulo em seco.
— Talvez você esteja certo. Eu queria que a minha primeira vez fosse com você para poder fechar o capítulo do ensino médio. Com a gente.
Ele fica paralisado. Vejo a dor nos olhos dele, e seu rosto se fecha como uma casa vazia com cortinas. Ele começa a se afastar. Desta vez, não tento impedi-lo. Por cima do ombro, ele diz:
— Estamos quites, Covey. Não se preocupe.
Assim que ele vai embora, eu viro para o lado e vomito tudo que bebi e comi naquela noite. Estou inclinada tendo ânsia de vômito quando Trina, papai e Margot saem do karaokê. Papai corre até mim.
— Lara Jean, o que houve? Você está bem?
— Eu estou bem, eu estou bem — murmuro, secando os olhos e limpando a boca.
Ele arregala os olhos, alarmado.
— Você bebeu? — Ele olha com acusação para Trina, que massageia minhas costas. — Trina, você deixou Lara Jean beber?
— Ela tomou alguns goles de um martíni de romã. Vai ficar bem.
— Ela não parece bem!
Trina se empertiga, a mão ainda nas minhas costas.
— Dan, Lara Jean é uma mulher agora. Você não consegue enxergar porque ainda a vê como uma garotinha, mas ela já amadureceu tanto desde que a conheci. Ela sabe se cuidar.
Margot entra na conversa.
— Papai, eu deixei ela tomar uns goles da minha bebida, só isso. Ela não tem tolerância. Sinceramente, é algo que devia treinar antes de ir para a faculdade. Não ponha a culpa em Trina.
Papai olha de Margot para Trina e depois de novo para Margot. Ela está ao lado de Trina, e naquele momento as duas estão unidas. Ele olha para mim.
— Vocês estão certas. A culpa é da Lara Jean. Entre no carro.
A caminho de casa, temos que parar uma vez para eu vomitar de novo. Não é o martíni de romã que está me fazendo querer morrer. É o jeito como Peter me olhou. O jeito como o brilho nos olhos dele se apagou. A dor; se eu fechar os olhos, ainda consigo ver. A única outra vez que o vi assim foi quando o pai dele não apareceu na formatura. Agora, ele está sofrendo por minha causa.
Eu começo a chorar no carro. São soluços grandes que fazem meus ombros tremerem.
— Não chore — diz meu pai com um suspiro. — Você está encrencada, mas não tanto assim.
— Não é isso. Eu terminei com Peter. — Mal consigo dizer as palavras. — Papai, se você pudesse ver o jeito como ele me olhou. Foi… terrível.
— Por que você terminou com ele? — pergunta papai, confuso. — Peter é um rapaz tão bom.
— Não sei. — Eu choro. — Agora, eu não sei.
Ele tira uma das mãos do volante e aperta meu ombro.
— Está tudo bem. Calma.
— Mas… não está.
— Vai ficar — diz ele, acariciando meu cabelo.
Eu fiz a escolha certa hoje. Eu fiz, eu sei. Terminar com ele foi a coisa certa.
Eu consigo ver o futuro, Peter. E nele só há sofrimento. Não vou fazer isso. É melhor nos separarmos enquanto ainda temos lembranças boas.

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