26 de junho de 2018

Capítulo 36

Várias horas tinham se passado na festa, e Gansey e Adam se encontraram no corredor da ala norte, entre a escada dos fundos da cozinha e o velho quarto de Gansey.
A conversa ainda seguia animada e chegava como um burburinho até eles.
Adam não tinha certeza da situação de Gansey, mas tinha consciência de que estava bêbado. Pelo menos, sua boca tinha gosto de champanhe e o mundo parecia embotado e escuro. Ele nunca estivera bêbado antes. Seu pai tinha feito toda essa parte por ele.
Eles ficaram lado a lado sobre um tapete persa roxo exuberante ao lado de uma mesa de apoio estilo Queen Anne coberta de quinquilharias com tema de caça. Versões dourado-escuras de Adam e Gansey apareciam em um absurdo espelho negro pendurado na parede. No reflexo, a linha habitualmente segura da boca de Gansey se torcia em uma expressão preocupada. Ele abriu o nó da gravata em um ângulo lascivo.
— Dá para acreditar numa coisa dessas? — perguntou tragicamente. — Que eu cresci num lugar desses?
Adam não disse a Gansey que ele normalmente não conseguia esquecer isso.
— Eu queria poder ir embora amanhã — disse Gansey. — Queria poder voltar e ver se Cabeswater apareceu.
Quando ele disse a palavra Cabeswater, o pescoço de Adam teve um espasmo, como se um dedo matreiro puxasse um ligamento retesado, ansioso. Outra imagem tentou abrir caminho — um piscar de olhos e ele veria um homem de canto de olho, parado atrás do seu ombro, olhando para ele no espelho. Olhos tristes e um chapéu-coco. Por que não?, pensou Adam iradamente. Por que não, diabos?
— Rex Corvus. Nunca mais vou beber.
— Você não está bêbado — disse Gansey. — Era refrigerante de gengibre. Na maioria das vezes. Olhe para o nosso rosto ali. Nós estamos mais velhos do que éramos.
— Quando?
— Apenas um minuto atrás. Estamos ficando mais velhos o tempo inteiro. Adam... Adam, é isso que você quer? Isso? — Ele fez um gesto elegante e desdenhoso na direção do andar de baixo, empurrando tudo para longe de si.
— Eu quero sair de Henrietta — disse Adam.
Ele sabia que era algo cruel de se dizer, mesmo que fosse verdade. Porque é claro que Gansey diria...
— Eu não quero.
— Eu sei que você não quer. Escute, não é que eu esteja tentando... — Ele ia dizer te deixar para trás, mas isso era demais, mesmo com o champanhe batendo à porta.
Gansey riu terrivelmente.
— Sou um peixe que esqueceu como respirar na água.
Mas Adam estava pensando a respeito da verdade suprimida: os dois estavam percorrendo caminhos perpendiculares, não paralelos, e uma hora ou outra tomariam direções diferentes. Na faculdade, provavelmente. Se não na faculdade, depois. Uma tensão estava crescendo nele, como a tensão que às vezes o assombrava tarde da noite, quando ele queria salvar Gansey, ou ser Gansey.
Gansey se virou para ele; seu hálito era todo folhas de hortelã e champanhe. Ele perguntou:
— Por que você foi a Cabeswater sem mim, Adam?
Ali estava, finalmente.
A verdade era uma coisa complicada. Adam deu de ombros.
— Não — disse Gansey. — Não isso.
— Eu não sei o que te dizer.
— Que tal a verdade?
— Eu não sei qual é a verdade.
— Eu simplesmente não acredito nisso — disse Gansey. Ele estava começando a usar a voz. A voz de Richard Gansey III. — Você não faz algo sem saber por quê.
— Todo esse lance talvez funcione com o Ronan — respondeu Adam. — Mas não comigo.
O Gansey no espelho riu, sem humor.
— O Ronan nunca pegou o meu carro. Ele não mentiu para mim.
— Ah, fala sério. Eu não menti. Algo precisava ser feito, ou o Whelk teria o controle da linha neste instante. — Adam lançou uma mão para a escada, na direção da festa, da canção em latim. — Ele é quem estaria ouvindo aquilo. Eu fiz a coisa certa.
— Não era essa a questão. A questão é aquela noite. Você teve de passar bem ao meu lado para ir. Você faz tanta questão de ser Adam Parrish, exército de um homem só.
Ele era Adam Parrish, exército de um homem só. Gansey, criado por aqueles amáveis cortesãos, jamais conseguiria compreender isso.
A voz de Adam estava ficando acalorada.
— O que você quer que eu diga, Gansey?
— Só me diga por quê. Já faz semanas que defendo você para a Blue e o Ronan.
A ideia de que seu comportamento fosse um tópico de conversa enfurecia Adam.
— Se os outros têm problemas comigo, eles podem tratar disso diretamente comigo.
— Por Deus, Adam. Não é essa a questão, também. O ponto é... Só me diz que isso não vai voltar a acontecer.
— E o que é “isso”? Alguém fazendo algo que você não pediu para fazer? Se você quer alguém que possa controlar, escolheu a pessoa errada.
Houve uma pausa, cheia do tilintar distante de prataria e copos. Alguém riu, uma risada aguda e encantada.
Gansey apenas suspirou.
E aquele suspiro era o que faltava. Porque ele não subentendia pena — estava afogado nela.
— Ah, nem comece — disparou Adam. — Não ouse.
Não houve troca dessa vez. Não houve um salto do normal para o irado. Porque ele já estava irado. Já estava escuro antes, e agora estava negro.
— Olhe para você, Adam. — Gansey ergueu uma mão, demonstrando. Prova A, Adam Parrish, impostor. — Apenas olhe.
Adam se sentiu cansado dos convidados, da sua falsa civilidade, das luzes cintilantes, da falsidade de tudo. Ele lutou para encontrar as palavras.
— Está certo. “Eis o Adam, que desgraça. O que você acha que ele estava tentando dizer quando despertou a linha ley sozinho? Não sei, Ronan. Melhor não perguntar para ele.” Que tal essa, Gansey? A questão não era você. Eu fiz o que precisava ser feito.
— Ah, não minta pra mim. Tinha tantas outras maneiras.
— E você não estava explorando nenhuma delas. Ou você quer encontrar essa coisa, ou não quer. — Havia algo de brutalmente libertador em poder dizer em voz alta tudo o que ele estivera pensando. Ele gritou: — E você não precisa dele. Eu preciso. Não vou ficar parado de braços cruzados e deixar outra pessoa tomar a minha frente.
Os olhos de Gansey dardejaram até o fim do corredor e de volta para Adam. Está certo, Gansey, não acorde o bebê. Ele falou quase num sussurro:
— O Glendower não era seu, Adam. Era uma questão minha primeiro.
— Você pediu a nossa ajuda. Não sei se foi sincero. Você fez isso.
Gansey pressionou um dedo ligeiramente contra o peito de Adam.
— Isso? Acho que não.
Adam agarrou o punho de Gansey com força. O terno era escorregadio como sangue debaixo dos seus dedos.
— Não vou ser seu subordinado, Gansey. Era isso que você queria? Se você quiser que eu o encontre, vai ter que me deixar procurar do meu jeito.
Gansey arrancou o braço do aperto de Adam. Novamente seus olhos dardejaram até o fim do corredor e de volta.
— Você devia se olhar no espelho.
Adam não olhou.
— Se vamos fazer isso, vai ser como iguais — disse.
Gansey olhou de relance sobre o ombro, furtivo. Sua boca fez o formato de shh, mas não o som.
— Ah, que foi agora? — demandou Adam. — Está com medo que alguém ouça? Que saibam que nem tudo é perfeito na terra de Dick Gansey ? Uma dose de realidade poderia ajudar essas pessoas!
Com um giro súbito, Adam varreu todas as estatuetas da mesa estilo Queen Anne. Raposas de calção e terriers capturados em pleno voo. Todos se jogaram ao chão com um baque satisfatório e doentio. Ele ergueu a voz.
— O mundo está acabando, pessoal!
— Adam...
— Eu não preciso da sua sabedoria, Gansey — disse ele. — Não preciso que você seja a minha babá. Eu consegui a Aglionby sem você. Eu consegui a Blue sem você. Eu despertei a linha ley sem você. Não vou aceitar a sua pena.
Agora, finalmente, Gansey foi silenciado. Havia algo de muito remoto em seus olhos, ou na resolução de seus lábios, ou no erguimento de seu queixo.
Ele não disse nada mais. Apenas sacudiu ligeiramente a manga que Adam havia agarrado, alisando as rugas na camisa. Suas sobrancelhas estavam franzidas como se a ação exigisse toda sua atenção. Então ele deixou Adam parado no corredor.
Ao lado de Adam, o espelho exibia o seu reflexo e o da forma bruxuleante de um fantasma que ninguém, a não ser ele, podia ver. Ela estava gritando, mas não havia som.

Um comentário:

  1. "o Ronan nunca pegou meu carro" bERRO KSDKJSKDJDKSJKDJDSK

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Boa leitura, E SEM SPOILER!