3 de junho de 2018

Capítulo 36

Fá suspenso: um acorde
Tocado antes
De um ataque repentino…

ACORDEI COBERTO DE gosma e com espinhos de aloe (isso nunca ia acabar) nas narinas. Pelo menos minhas costelas não pareciam mais depósitos de lava. A ferida em meu peito havia sarado, restando apenas uma cicatriz para contar a história.
Nunca em minha longa vida eu tive uma cicatriz. Queria considerá-la uma espécie de medalha de honra, mas temia que, sempre que olhasse para ela, eu me lembrasse da pior noite da minha vida.
Eu tinha dormido profundamente, sem sonhar. Aquela aloe vera era das boas.
O sol ardia no céu. A Cisterna estava vazia, exceto por mim e Clave, que estava roncando em seu nicho, aninhando o ukulele como se fosse um ursinho de pelúcia. Alguém, provavelmente horas atrás, tinha deixado um prato de enchiladas e um copo de refrigerante ao lado do meu saco de dormir. A comida estava morna; o gelo na bebida tinha derretido, mas eu não estava nem aí: comi e bebi com avidez. Fiquei agradecido pela existência de molho picante, que afastou do meu nariz a lembrança do cheiro de iates em chamas.
Depois que tirei a gosma do corpo e me lavei no laguinho, coloquei roupas limpas adquiridas na Macro, uniformes camuflados na cor branco-ártico, porque obviamente havia demanda para esse tipo de coisa no Deserto de Mojave.
Pendurei a aljava e o arco no ombro. Amarrei os sapatos de Calígula no cinto. Pensei em pegar o ukulele de Clave, mas decidi que ele seria o responsável pelo instrumento a partir daquele momento, porque eu não queria levar uma mordida na mão.
Finalmente, subi a rampa da Cisterna, assolado pelo calor opressivo de Palm Springs.
De acordo com o ângulo do sol, era em torno de três da tarde. Eu me perguntei por que Meg me deixou dormir tanto. Olhei para a encosta e não vi ninguém. Cheguei a imaginar (com uma pontada de culpa) que Meg e Grover não conseguiram me acordar e decidiram ir sozinhos até o Labirinto.
Droga!, eu diria quando eles voltassem. Foi mal, pessoal! Eu queria tanto ter ido com vocês!
Mas não. As sandálias de Calígula estavam comigo. Eles não teriam partido sem elas. Nem sem Clave, porque ele era o único que conhecia a entrada supersecreta do labirinto.
Captei um vislumbre de movimento: duas sombras se movendo atrás da estufa mais próxima. Cheguei mais perto e ouvi vozes: Meg e Josué.
Eu não sabia se era melhor deixá-los a sós ou ir até lá e gritar: Meg, agora não é hora de flertar com o namoradinho planta!
Mas então percebi que eles conversavam sobre clima e épocas de cultivo.
Nossa, muito interessante mesmo. Eu os encontrei observando uma fileira de sete plantinhas que tinham surgido no solo pedregoso… no exato lugar onde, no dia anterior, Meg tinha plantado suas sementes.
Josué me viu na mesma hora, um sinal claro de que minha camuflagem ártica estava funcionando.
— É. Ele está vivo — anunciou, não muito empolgado com a constatação. — Estávamos aqui examinando os recém-chegados.
Cada mudinha tinha uns noventa centímetros, com galhos brancos e folhas verdes bem clarinhas que pareciam delicadas demais para o calor do deserto.
— São freixos — falei, atordoado.
Freixos eram velhos conhecidos meus… Bom, mais do que a maioria das árvores, pelo menos. Muito tempo antes, eu já fora chamado de Apollo Meliai, Apolo dos Freixos, por causa de um bosque sagrado que eu tinha em… Ih, onde era mesmo? Na época eu tinha tantas propriedades que nunca conseguia me lembrar de todas.
Minha mente começou a rodopiar. A palavra meliai me lembrava alguma outra coisa além de freixo. Tinha um significado especial. Apesar de terem sido plantadas em condições hostis, aquelas jovens plantas irradiavam uma força e uma energia que até eu conseguia sentir. Elas germinaram durante a noite e cresceram, cheias de saúde. Eu me perguntei como estariam no dia seguinte.
Meliai… Eu busquei a palavra em minhas recordações. Lembrei-me das palavras de Calígula: Nascidas do sangue. Esposas de prata.
Meg franziu a testa. Sua aparência estava bem melhor — usava suas boas e velhas roupas coloridas de sinal de trânsito, que foram milagrosamente costuradas e lavadas. (Provavelmente obra das dríades, que eram ótimas com tecidos.) Os óculos de gatinho tinham sido remendados com fita isolante azul. As cicatrizes nos braços e no rosto tinham se tornado marcas brancas claras, como rastros de meteoro pelo céu.
— Não estou entendendo nada — disse ela. — Freixos não crescem no deserto. Por que meu pai estava fazendo experimentos com eles?
— As Melíades — falei.
Os olhos de Josué cintilaram.
— Pensei o mesmo.
— Quem? — perguntou Meg.
— Acho que seu pai estava fazendo mais do que apenas pesquisar uma variação nova e mais resistente de planta — expliquei. — Ele estava tentando recriar… ou melhor, reencarnar uma antiga espécie de dríade.
Eu estava imaginando coisas, ou as plantinhas tremeram quando falei aquilo?
Minha vontade era me virar e sair correndo, mas me contive. Eram só mudas, eu lembrei a mim mesmo, lindas e inofensivas plantas bebês que não tinham intenção nenhuma de me assassinar.
Josué se ajoelhou. Com aquela roupa cáqui e o cabelo verde-acinzentado desgrenhado, ele parecia um especialista em vida selvagem prestes a mostrar uma espécie mortal de escorpião em um programa na televisão, mas ele só tocou nos galhos da muda mais próxima e afastou a mão na mesma hora.
— Será? — refletiu ele. — Elas ainda não estão conscientes, mas o poder que sinto…
Meg cruzou os braços e fez beicinho.
— Bom, eu não teria plantado essas sementes aqui se soubesse que eram freixos importantes, blá-blá-blá. Ninguém me contou.
Josué abriu um sorrisinho seco para ela.
— Meg McCaffrey, se elas forem as Melíades, vão sobreviver mesmo neste clima de deserto. Elas foram as primeiras dríades, sete irmãs nascidas quando Urano foi assassinado e seu sangue caiu no solo de Gaia. Surgiram junto com as Fúrias, a partir da mesma força gigantesca.
Estremeci. Eu não gostava das Fúrias. Elas eram feias, mal-humoradas e tinham um péssimo gosto musical.
— As nascidas do sangue — falei. — Foi assim que Calígula as chamou. De esposas de prata, também.
— Humm. — Josué assentiu. — De acordo com a lenda, as Melíades se casaram com humanos que viveram durante a Idade da Prata e geraram os homens da Idade do Bronze. Mas todos cometemos erros.
Observei as mudas. Elas não pareciam ser as mães da humanidade da Idade do Bronze. Também não se pareciam com as Fúrias.
— Reencarnar seres tão poderosos seria possível? — refleti. — Mesmo para um botânico talentoso como o dr. McCaffrey, com a benção de Deméter?
Josué deu de ombros, pensativo.
— E quem vai dizer que não? Parece que a família de Plemneu passou milênios trabalhando para isso. Ninguém seria mais adequado. O dr. McCaffrey aperfeiçoou as sementes. A filha dele as plantou.
Meg ficou vermelha.
— Não sei. Sei lá. Parece estranho.
Josué observou os jovens freixos.
— Vamos ter que esperar para ver. Mas imaginem sete dríades primordiais, seres de grande poder, dedicados à preservação da natureza e à destruição de qualquer um que a ameace. — A expressão dele ganhou ares inesperadamente belicosos para uma planta que gerava flores. — Para Calígula, isso certamente representaria um grande perigo.
Perigo grande o suficiente para que ele botasse fogo na casa de um botânico e o mandasse junto com a filha direto para os braços de Nero? Provavelmente.
Josué se levantou.
— Bem, eu preciso dormir. Mesmo para mim, as horas do dia são puxadas. Vamos ficar de olho nas nossas novas amigas. Boa sorte na sua missão! — disse ele, e então se transformou em uma nuvem de fibras vegetais.
Meg parecia desnorteada, talvez porque eu tivesse interrompido sua conversa/flerte com Josué sobre zonas climáticas.
— Freixos — resmungou ela. — E eu os plantei no deserto.
— Você os plantou onde eles precisavam estar — falei. — Se forem mesmo as Melíades — balancei a cabeça, ainda perplexo com aquela possibilidade —, elas vão responder a você, Meg. Você trouxe de volta uma força vital que está ausente há milênios. Isso é impressionante.
— Está debochando de mim? — perguntou ela.
— Não — garanti. — Você é filha da sua mãe, Meg McCaffrey. É uma menina impressionante.
— Humpf.
Eu entendia o ceticismo dela. Deméter raramente era descrita como impressionante. Na maioria das vezes, ela era ridicularizada por não ser uma deusa muito interessante ou poderosa.
Como as plantas, Deméter trabalhava lenta e silenciosamente. Suas ações se desenvolviam ao longo dos séculos e, quando davam frutos (péssimo trocadilho, me perdoem), eram extraordinárias. Como Meg McCaffrey.
— Vai lá acordar o Clave — ordenou ela. — Encontro você na estrada. Grover vai arrumar um carro para a gente.

* * *

O sátiro era quase tão bom quanto Piper McLean para obter veículos de luxo.
Ele apareceu com um Mercedes XLS vermelho. Em outras circunstâncias, eu não teria reclamado, mas o carro era igual ao que Meg e eu usamos para ir de Indianápolis até a Caverna de Trofônio. Eu adoraria dizer que não acreditava em maus presságios, mas, como eu era o deus dos presságios…
Pelo menos Grover aceitou dirigir. A direção dos ventos tinha mudado, agora eles rumavam ao sul, assolando o vale Morongo com fumaça de incêndios e com congestionamentos ainda mais intensos do que o habitual. No céu vespertino acima, o sol parecia mais um olho macabro.
Eu temia que o astro-rei mantivesse essa hostilidade pelo restante da eternidade se Calígula se tornasse o novo deus solar… mas não, aquela não era hora de pensar nisso. Eu não gostava nem de pensar no tanto de modificações horríveis que ele faria na carruagem do Sol se passasse a conduzi-la: alto-falantes enormes, iluminação inferior de néon, película fosca, uma buzina que tocava o refrão de “Apettite for Destruction”. Havia limite para tudo.
Eu me sentei no banco de trás com Clave e tentei ensinar a ele os acordes básicos do ukulele. Ele aprendia rápido, apesar do tamanho das mãos, mas ficou sem paciência para os acordes básicos e quis treinar combinações mais exóticas.
— Me mostre o fá suspenso de novo — disse ele. — Gostei dele.
É claro que ele ia gostar dos acordes mais imprevisíveis.
— Temos que comprar um violão maior para você — insisti mais uma vez. — Ou até um alaúde.
— Você toca ukulele — insistiu ele. — Eu vou tocar ukulele também.
Por que eu sempre atraía companhias teimosas? Era minha personalidade cativante e relaxada? Vai saber.
Quando Clave se concentrava para tocar o ukulele, por algum motivo sua expressão me lembrava a de Meg: um rosto tão jovem, mas tão atento e sério, como se o destino da humanidade dependesse daquele acorde específico sendo tocado com perfeição, daquele pacote de sementes específico sendo cultivado, daquele saco de frutas podres específico sendo jogado na cara de um trombadinha específico. Eu não sabia bem por que essa semelhança me fazia gostar de Clave, mas fiquei pensando em tudo que ele tinha perdido desde o dia anterior — o trabalho, o tio, por pouco a vida — e em tudo que ele arriscara ao vir conosco.
— Acho que não cheguei a me desculpar... pelo que aconteceu com seu tio Acorde — falei.
Clave cheirou as cordas do ukulele.
— Se desculpar pelo quê?
— Hã… É só que, você sabe, a gente diz isso quando… mata os parentes de alguém.
— Eu nunca gostei dele, na verdade — confessou Clave. — Minha mãe que me mandou procurá-lo, disse que ele me tornaria um verdadeiro guerreiro pandos. — Ele dedilhou as cordas e tirou uma sétima diminuta sem querer. Pareceu satisfeito. — Só que eu não quero ser um guerreiro. O que você faz da vida?
— Eu... hã... sou o deus da música.
— Então é isso que eu vou ser. Um deus da música.
Meg olhou para trás e abriu um sorrisinho.
Dei um tapinha encorajador no ombro de Clave, torcendo para que ele não decidisse me esfolar vivo e consumir minha essência. Já tinha bastante gente na fila para fazer isso.
— Bom, vamos dominar esses acordes primeiro, que tal?
Nós seguimos para o norte, passando por San Bernardino e Pasadena.
Observei a colina onde ficava a escola de Jason e me perguntei o que o corpo docente faria quando descobrisse que um de seus alunos tinha desaparecido e que a van da escola fora furtada e abandonada na costa de Santa Bárbara. Pensei na maquete da Colina dos Templos de Jason, nos desenhos em seu caderno. Achava muito improvável que eu sobrevivesse para cumprir minha promessa de levar os desenhos dos novos templos aos acampamentos. A ideia de fracassar mais uma vez machucou meu coração ainda mais do que a tentativa de Clave de tocar um sol bemol maior.
A certa altura, Clave indicou que deveríamos rumar ao sul pela Rodovia 5. Pegamos a estrada Crystal Springs e entramos no parque Griffith, com suas ruas sinuosas, campos de golfe e bosques de eucalipto.
— Mais à frente — disse Clave. — Segunda à direita. Subindo aquela colina.
Ele nos guiou até uma ruazinha de cascalho que não tinha sido feita para um Mercedes XLS.
— Fica lá em cima. — Clave apontou para o bosque. — Temos que ir andando.
Grover parou ao lado de um arbusto de yucca, que até onde eu sabia era amiga dele. Havia uma plaquinha em que se lia ANTIGO ZOOLÓGICO DE LOS ANGELES.
— Eu conheço este lugar. — O cavanhaque de Grover tremeu. — Eu odeio este lugar. Por que você nos trouxe até aqui?
— Já falei, ué — disse Clave. — Entrada do Labirinto.
— Mas… — Grover engoliu em seco, tentando conciliar sua aversão natural a lugares que enjaulavam animais e seu desejo de destruir o Labirinto de Fogo. — Ok. Vamos lá.
Meg parecia mais tranquila, na medida do possível. Ela inspirou o ar fresco (para os padrões de Los Angeles) e até deu algumas estrelas hesitantes enquanto subíamos pela trilha.
Chegamos ao topo da encosta e observamos as ruínas do zoológico que se estendiam abaixo de nós: caminhos cobertos de mato, muros de cimento caindo aos pedaços, jaulas enferrujadas e cavernas artificiais cheias de destroços.
Grover se encolheu, tremendo apesar do calor.
— Os humanos abandonaram este lugar décadas atrás, quando construíram o zoológico novo. Ainda dá para sentir a dor e a tristeza dos animais que ficavam presos aqui. É horrível.
— Aqui embaixo!
Clave abriu as orelhas e desceu pairando até as ruínas, pousando em uma gruta profunda. Como não tínhamos orelhas que serviam de asas, tivemos que descer pelo caminho irregular. Alguns minutos depois, nos juntamos a Clave no fundo de um pequeno vale sujo de cimento e coberto de folhas secas e lixo.
— Uma jaula de urso? — Grover ficou pálido. — Ai. Que dó dos ursos.
Clave encostou as mãos de oito dedos na parede dos fundos da jaula. Ele fez uma careta.
— Isso não está certo. Devia estar aqui.
Meu ânimo foi parar no fundo do poço.
— Você está dizendo que sua entrada secreta sumiu?
Clave rosnou de frustração.
— Eu não devia ter falado deste lugar para o Pentagrama. Acorde deve ter ouvido nossa conversa e fechou a entrada.
Fiquei tentado a observar que nunca era boa ideia compartilhar seus segredos com alguém chamado Pentagrama, mas não queria deixar Clave mais irritado do que ele já estava.
— E agora? — perguntou Meg. — Usamos a entrada do centro?
— É muito perigoso — disse Clave. — Tem que haver um jeito de abrir isso!
Grover estava tão inquieto que me perguntei se um esquilo tinha entrado na calça dele. O sátiro parecia louco para sair daquele lugar o mais rápido possível, mas só suspirou e perguntou:
— O que a profecia dizia sobre seu guia com patas?
— Que só você sabia o caminho — respondi. — Mas você já nos levou até Palm Springs, então sua contribuição pode ter acabado por aí.
Com relutância, Grover pegou a flauta.
— Acho que ainda posso contribuir mais.
— Uma música de abertura? — perguntei. — Como Hedge fez na loja de Macro?
Grover assentiu.
— Eu não faço isso há um tempo. Na última vez, abri uma passagem do Central Park para o Mundo Inferior.
— Só nos leve para o Labirinto — pedi. — Nada de Mundo Inferior, por favor.
Ele pegou a flauta e tocou “Tom Sawyer”, do Rush. Clave pareceu hipnotizado. Meg cobriu os ouvidos.
A parede de cimento tremeu, rachando ao meio e revelando uma escadaria rudimentar e íngreme em direção à escuridão.
— Perfeito — resmungou Grover. — Zoológicos e passagens subterrâneas: meus lugares preferidos no mundo.
Meg conjurou as espadas e entrou. Depois de respirar fundo, Grover foi atrás.
Eu me virei para Clave.
— Você vem com a gente?
Ele fez que não.
— Já falei. Não sou guerreiro. Vou vigiar a saída e treinar alguns acordes.
— Mas eu posso precisar do uku…
— Vou treinar alguns acordes — insistiu ele, e começou a dedilhar um fá suspenso.
Segui meus amigos, a melodia do ukulele ainda soando atrás de mim — era exatamente o tipo de música de fundo que precedia um confronto dramático e arrepiante.
Às vezes eu odeio fás suspensos.

6 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!