26 de junho de 2018

Capítulo 35

— Ronan! — gritou Noah.
A estrada se estendia à frente deles, escura e vazia. Ronan pisou no acelerador. O Camaro respondeu com um rosnado tosco e entusiasmado.
Noah esticou o pescoço.
— Não está funcionando!
Uma longa rachadura estava se formando no vidro do para-brisa, com a garra do horror noturno como epicentro. Ronan jogava a direção de um lado para o outro. O Camaro derrapou violentamente, o corpo rolando para os lados.
— Droga — resmungou Ronan, lutando para controlar o carro. Aquele não era o BMW. Controle era uma criatura imaginária.
— Ele ainda está ali! — relatou Noah.
O Camaro estremeceu, a traseira guinando.
Os olhos de Ronan dardejaram para o espelho retrovisor. Uma segunda criatura-pássaro se agarrou ao porta-malas.
Isso era ruim.
— Você podia ajudar! — disparou Ronan.
Noah agitou as mãos, pressionando-as contra a manivela da janela, a parte de trás do banco e finalmente o painel. Ele claramente não queria fazer o que quer que estivesse considerando.
Um guincho rasgou o ar. Era difícil dizer se era um prego sobre o metal ou o som do homem-pássaro gritando. Arrepiou os pelos dos braços de Ronan.
— Noah, cara, vamos lá!
Noah desapareceu.
Ronan esticou o pescoço, procurando.
Com um estrondo enorme, o canto inferior direito do para-brisa despencou no painel.
Uma garra entrou.
Noah gritou:
— Freia!
Ronan enfiou o pé no freio. Ele tinha velocidade demais, freios demais e controle de menos. O Camaro dançou de um lado para o outro enquanto zunia em frente. A direção não tinha efeito algum.
Noah e uma imagem negra rolaram sobre o lado esquerdo do capô, deixando o para-brisa subitamente aberto. O carro deu um tranco quando um dos pneus subiu no canteiro central.
Não deu tempo de ver para onde os dois tinham ido, porque o choque desequilibrou o carro — Noah já está morto, ele está bem, pensou Ronan freneticamente —, e o Camaro estava ficando sem estrada.
O cheiro de borracha e freio tomou conta do carro. Era um acidente sem colisão. A estrada seguia para a esquerda, mas o carro continuava indo reto.
Não.
Em detalhes agonizantes, Ronan viu o poste de telefone bem quando a porta do passageiro fez contato.
Não houve nada de suave no ruído. Não era nem um pouco como os carros colidindo na festa de embalo do Kavinsky. Aquilo era metal se despedaçando. Vidro se estilhaçando. Um soco de cinco dedos metálicos na lateral de Ronan.
Então estava tudo terminado.
O carro ficou absolutamente em silêncio. Ronan não sabia se o motor tinha afogado ou se ele o tinha desligado. A porta do passageiro havia entrado para dentro até o câmbio. O porta-luvas estava escancarado, e o conteúdo, incluindo o autoinjetor de adrenalina de Gansey, estava todo espalhado no banco da frente.
A ficha começou a cair lentamente de que tudo tinha ido para o espaço.
Tck-tck-tck-tck.
O segundo horror noturno olhou para Ronan de cabeça para baixo. Ele estava no teto, encarando-o pelo para-brisa. Próximo o suficiente para Ronan ver cada escama em torno de sua pupila vermelha e sombria. Experimentando um empurrão, a criatura tamborilou as unhas sobre o para-brisa. O que restava do vidro vergou onde ele se prendia ao carro.
Com apenas um pouco mais de peso, ele desabaria inteiro.
— Faça alguma coisa. — Noah era uma voz e nada mais, sua energia gasta.
Mas o impacto havia congelado Ronan. Seus ouvidos zumbiam.
O homem-pássaro sibilou.
Ronan sabia. Ele sabia o que sempre soubera: o horror noturno o queria morto.
Em seus sonhos, isso não importava.
Mas ele não estava sonhando.
A cabeça do horror noturno se levantou bruscamente quando um carro passou ao largo do Camaro. Foi uma passagem sexy, atravessada, com estilo, e o carro que fazia isso era um Mitsubishi branco. O carro deu a volta, de maneira que a lateral do motorista ficasse iluminada pelos faróis do Pig.
O horror noturno desceu do para-brisa. Agachando-se no capô, sibilou para o recém-chegado.
A janela do lado do motorista do Mitsubishi baixou. Atrás dela estava Kavinsky, sua expressão impossível de determinar por trás dos óculos escuros brancos. Ele se inclinou para pegar alguma coisa debaixo do assento e então apontou para o horror noturno.
Ronan levou um instante para perceber o que era. Era uma arma pequena, brilhante como cromo. Parecia irreal.
Ronan se abaixou atrás do painel, curvado como uma bola.
Fora do carro, Kavinsky disparou. No primeiro tiro, o sibilar do homem-pássaro parou abruptamente. No segundo, seu peso desabou ruidosamente contra o capô. Ele não se mexeu depois disso, mas Kavinsky disparou mais quatro vezes, até que algo respingou na parte superior do para-brisa do Camaro.
Não havia barulho algum, a não ser o rugido baixo do motor do Mitsubishi. Ronan lentamente se sentou ereto.
Kavinsky ainda estava inclinado para fora da janela, a arma cromada pendendo casualmente da mão. Ele parecia estar se divertindo, ou pelo menos não parecia incomodado.
Ronan teve de continuar lembrando a si mesmo que estava acordado. Não porque não se sentisse desperto, mas porque tudo que havia acontecido lembrava muito algo que ele sonharia. Ele abriu a porta — não parecia fazer sentido ficar onde estava, uma vez que o Camaro obviamente não iria a lugar algum — e saiu.
Parado no asfalto, ele encarou o horror noturno morto abraçado à parte da frente do Camaro arruinado, e então encarou Kavinsky.
— Tente se animar, Lynch — disse Kavinsky. Ele recuou para dentro do carro, e, por um momento, Ronan ficou preocupado com o fato de que ele estava indo embora.
Kavinsky não era um aliado, mas era um humano, e estava vivo, e acabara de salvar a vida de Ronan, e isso era algo. Mas Kavinsky estava apenas colocando a arma de volta no lugar de onde a havia tirado e dando ré para estacionar o Mitsubishi no meio-fio.
Então ele se juntou a Ronan ao lado do Camaro, os sapatos esmigalhando os cacos de vidro.
— Bem, fodeu — disse Kavinsky de maneira aprovadora.
E tinha mesmo. A linha suave sobre a qual Ronan correra a mão apenas algumas horas antes estava agora retorcida, o metal abraçado em torno do poste telefônico. Uma das rodas tinha se soltado e se encontrava na vala a vários metros de distância. Mesmo o ar cheirava a desastre: produtos químicos derramando e substâncias derretendo.
Ronan passou a mão na nuca. Ele sentia como se seu coração estivesse desabando dentro do peito. Cada parede ruiu individualmente, derrubando a seguinte.
— Ele vai me matar. Merda. Ele vai me matar.
Kavinsky apontou para o horror noturno.
— Não, aquilo ia te matar, cara. O Gansey vai te perdoar, cara. Ele não quer dormir sozinho.
Aquela foi a gota-d’água para Ronan. Ele agarrou as alças da camisa regata de Kavinsky e o empurrou.
— Chega! Isso aqui não é a merda do seu Mitsu. Não posso sair e comprar outro amanhã de manhã.
Com um olhar compreensivo, Kavinsky soltou os dedos de Ronan. Ele observou enquanto Ronan se afastava, andando de um lado para o outro, as mãos atrás da cabeça, os olhos mirando a estrada para ver se outros carros estavam vindo. Mas não havia como consertar aquilo, não importava como Ronan encarasse a questão.
— Escute, Lynch — disse Kavinsky. — É simples. Concentre seu cerebrozinho celta nesse conceito. O que a sua mãe fez quando o seu peixinho dourado morreu?
Ronan parou de andar de um lado para o outro.
— Eu já disse. O Camaro não é o seu carrinho japa. Eu posso conseguir outro, mas não vai ser a mesma coisa. Ele não quer outro. Ele quer esse.
— Vou ser paciente — disse Kavinsky —, porque você bateu a porra da sua cabeça. Você não está ouvindo o que eu estou dizendo.
Ronan lançou uma mão na direção do Pig.
— Isso não é um peixinho dourado.
— Vocês são tão dramáticos. Vou abrir o porta-malas e você vai varrer essa coisa pra dentro dele. E aí vamos fazer uma excursão à terra dos conceitos.
Ronan o encarou, desconfiado.
— Escute, você está tendo uma experiência aqui que vai mudar a sua vida. Entre no carro antes que eu precise ficar chapado de novo.
Ronan não tinha para onde ir. Ele entrou no carro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!