20 de junho de 2018

Capítulo 35

A cozinha estava bastante cheia. Para começo de conversa, nunca fora uma cozinha grande, e, quando três garotos, quatro mulheres e Blue estavam ali, a sensação era de que ela não fora construída com chão suficiente. Adam era educado e ajudava Persephone a fazer chá para todos, apesar de que tinha de seguir perguntando: “Onde estão as xícaras? E as colheres? E o açúcar?” Ronan, entretanto, mais do que compensava a calma de Adam — ele ocupava espaço suficiente para três pessoas com seu andar agitado de um lado para o outro. Orla desceu, atraída pela fofoca, mas olhava com tamanha admiração para Ronan que Calla mandou que ela saísse para dar mais espaço para todos.
Neeve e Gansey se sentaram à mesa da cozinha. Adam e Ronan pareciam exatamente como antes, quando Blue os vira pela última vez, mas os olhos de Gansey estavam diferentes. Ela passou um longo minuto tentando descobrir o que era — por fim, achou que era uma combinação entre estarem um pouco mais brilhantes e a pele em volta deles estar um pouco mais tensa.
O braço de Gansey se estendeu sobre a mesa, deixando à mostra o polegar imobilizado.
— Alguém poderia tirar essa tala? — ele pediu. Havia algo corajoso e agitado na maneira deliberadamente espontânea como ele havia feito o pedido. — Me sinto um inválido. Por favor.
Passando para ele uma tesoura, Persephone observou:
— Blue, eu disse para você colocar o polegar fora da mão se fosse acertar alguém.
— Você só não me falou para dizer isso a ele — retrucou Blue.
— Tudo bem — disse Maura do vão da porta, coçando a testa. — Tem algumas coisas acontecendo aqui, obviamente. Alguém tentou matar você há pouco. — Aquilo era para Gansey. — Vocês dois estão me dizendo que o amigo de vocês foi morto pelo homem que tentou matá-lo há pouco. — Aquilo era para Ronan e Adam. — Vocês três estão me dizendo que a Neeve falou ao telefone com o homem que matou o amigo deles e acabou de tentar matar o Gansey. — Aquilo era para Blue, Persephone e Calla. — E você está me dizendo que não teve nada a ver com ele desde o telefonema.
Essa última foi para Neeve. Embora Maura tivesse falado com cada um deles, todos seguiam olhando para Neeve.
— E você deixou que elas mexessem nas minhas coisas — respondeu Neeve.
Blue esperava que sua mãe parecesse repreendida, mas, em vez disso, Maura pareceu ficar mais altiva.
— E por uma boa razão, obviamente. Não posso acreditar que você não tenha me contado a verdade. Se você queria brincar pelo caminho dos corpos, por que simplesmente não me pediu? Como você sabe que eu teria dito não? Em vez disso, você fingiu que estava comprometida com...
Ela fez uma pausa e olhou para Blue, que terminou a frase:
— Encontrar o Chuchu.
— Ah, meu Deus — disse Maura. — Calla, isso é culpa sua, não é?
— Não — disse Blue. Ela fez um grande esforço para fingir que os garotos não estavam olhando para ela e continuou: — Acho que também posso estar brava aqui. Por que você simplesmente não me contou que não conhecia realmente o meu pai e me teve sem estar casada? Por que isso é um grande segredo?
— Eu nunca disse que não o conhecia realmente — respondeu Maura, com a voz vazia. Ela tinha uma expressão no rosto que Blue não gostava; era um pouco emocional demais.
Então Blue olhou para Persephone.
— Como você sabe que eu simplesmente não ficaria contente com a verdade? Eu não me importo que meu pai fosse um vagabundo chamado Chuchu. A essa altura, isso não muda nada.
— O nome dele não era Chuchu mesmo, era? — Gansey perguntou a Adam em voz baixa.
A voz de Neeve, suave como sempre, trespassou a cozinha.
— Acho que a questão toda foi simplificada demais. Eu estava procurando pelo pai da Blue, só que isso não era tudo que eu estava procurando.
Calla disse abruptamente:
— Por que então esse segredo todo?
Neeve olhou séria para o polegar imobilizado de Gansey.
— É o tipo de descoberta que pode se tornar perigosa. Certamente todas vocês sentiram necessidade de agir em segredo também, ou teriam compartilhado com a Blue tudo que sabem.
— A Blue não é médium — disse Maura em tom enérgico. — A maior parte do que não passamos adiante são coisas que têm significado apenas quando fazemos uma leitura ou uma adivinhação no caminho dos corpos.
— Você também não me contou — disse Gansey, olhando para o polegar com o cenho franzido. Subitamente, Blue percebeu o que parecia diferente nele: ele estava usando óculos com armação de metal. Eram finos, discretos, aqueles que você normalmente não nota até chamarem sua atenção. Eles o faziam parecer ao mesmo tempo mais velho e mais sério, ou talvez fosse apenas a expressão dele no momento. Embora jamais fosse lhe confessar, ela preferia esse Gansey àquele levado pelo vento, de beleza fácil. Ele seguiu em frente: — Na leitura, quando eu perguntei sobre a linha ley, você não dividiu essa informação comigo.
Agora Maura parecia um pouco arrependida.
— Como eu podia saber o que você ia fazer com isso? Onde está esse homem agora? Barrington? Esse é realmente o nome dele?
— Barrington Whelk — Adam e Ronan responderam em uníssono, trocando um olhar esquisito.
— No hospital, a polícia me disse que estão procurando por ele. A polícia de Henrietta e a polícia do estado — disse Gansey. — Mas disseram que ele não estava em casa e que aparentemente tinha ido embora.
— Acredito que ele tenha dado no pé, como se diz — disse Ronan.
— Você acredita que ele ainda tem algum interesse em você? — perguntou Maura.
Gansey balançou a cabeça.
— Não sei se ele já chegou a se importar comigo. Não acho que ele tivesse um plano. Ele queria o diário. Ele quer Glendower.
— Mas ele não sabe onde está Glendower?
— Ninguém sabe — respondeu Gansey. — Eu tenho um colega — Ronan conteve um riso quando Gansey usou a palavra colega, mas ele seguiu em frente — no Reino Unido que me contou sobre o ritual que o Whelk usou com o Noah. É possível que ele tente de novo em um lugar diferente. Como Cabeswater.
— Acho que devíamos despertá-la — disse Neeve.
Todos a encararam novamente. Ela parecia imperturbável, um mar de calma, com as mãos cruzadas à frente.
— Como? — demandou Calla. — Até onde eu sei, isso envolve uma morte.
Neeve ergueu a cabeça.
— Não necessariamente. Um sacrifício nem sempre significa uma morte.
Gansey pareceu um pouco hesitante.
— Mesmo que isso seja verdade, Cabeswater é um lugar um pouco estranho. Como seria o resto da linha ley se nós a despertássemos?
— Não tenho certeza, mas posso te dizer que ela vai ser despertada — disse Neeve. — Nem preciso de minha tigela de leitura para ver isso. — E se voltou para Persephone. — Você discorda?
Persephone segurou a xícara na frente do rosto, escondendo a boca.
— Não, eu também vejo isso. Alguém vai despertá-la nos próximos dias.
— E eu não creio que você queira que seja o sr. Whelk — continuou Neeve. — Quem quer que venha a despertar o caminho dos mortos vai ser favorecido por ele. Tanto quem fizer o sacrifício quanto quem for sacrificado.
— Favorecido como o Noah? — interrompeu Blue. — Ele não parece muito sortudo.
— Pelo que eu soube aqui, ele estava vivendo uma vida física em um apartamento com esses meninos — observou Neeve. — Isso parece muito melhor do que uma existência espiritual tradicional. Eu contaria isso como uma coisa favorável.
Gansey correu um dedo pensativo sobre o lábio inferior e disse:
— Não estou certo quanto a isso. O favorecimento do Noah também está ligado à linha ley, não é? Quando o corpo dele foi retirado de lá, ele perdeu bastante presença. Se um de nós fizesse o ritual, estaríamos ligados à linha ley da mesma maneira, mesmo se o sacrifício não envolvesse morte? Tem muita coisa que não sabemos. É mais prático impedir Whelk de realizar o ritual de novo. A gente podia simplesmente dar a localização de Cabeswater para a polícia.
— NÃO — Neeve e Maura disseram ao mesmo tempo. Neeve, no entanto, venceu pela impressão geral, ao combinar sua exclamação com um salto da cadeira.
— Achei que vocês tinham ido a Cabeswater — ela disse.
— Nós fomos.
— Vocês não sentiram o lugar? Querem vê-lo destruído? Quantas pessoas vocês querem pisoteando por ali? Parece um lugar que pode viver cheio de turistas? Ele é... sagrado.
— Eu não gostaria — disse Gansey — nem de mandar a polícia a Cabeswater nem de despertar a linha ley. Eu gostaria de descobrir mais sobre Cabeswater e então encontrar Glendower.
— E o Whelk? — perguntou Maura.
— Eu não sei — ele admitiu. — Simplesmente não quero me preocupar com ele.
Vários rostos exasperados se voltaram para Gansey. Maura disse:
— Bom, ele não vai simplesmente desaparecer porque você não quer lidar com ele.
— Eu não disse que seria possível — respondeu Gansey, sem deixar de olhar para sua tala. — Só disse que era o que eu gostaria.
Foi uma resposta ingênua, e Gansey sabia disso.
Então ele continuou:
— Vou voltar a Cabeswater. Ele pegou meu diário, mas não vou deixar que pegue Glendower também. Não vou parar de procurar só porque ele também está procurando. E vou ajudar o Noah. De algum jeito.
Blue olhou para sua mãe, que observava de braços cruzados. E disse:
— Eu vou ajudar você.

2 comentários:

  1. — E por uma boa razão, obviamente. Não posso acreditar que você não tenha me contado a verdade. Se você queria brincar pelo caminho dos corpos, por que simplesmente não me pediu? Como você sabe que eu teria dito não? Em vez disso, você fingiu que estava comprometida com...
    Ela fez uma pausa e olhou para Blue, que terminou a frase:
    — Encontrar o Chuchu.
    — Ah, meu Deus — disse Maura. — Calla, isso é culpa sua, não é?


    gente eu estava almoçando quando chegou nessa parte eu ate engasguei com a comida de tanto rir

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  2. "— Como você sabe que eu simplesmente não ficaria contente com a verdade? Eu não me importo que meu pai fosse um vagabundo chamado Chuchu. A essa altura, isso não muda nada.
    — O nome dele não era Chuchu mesmo, era? — Gansey perguntou a Adam em voz baixa."
    Eu ri tanto nessa parte q meu pai até estranhou e me chamou de doida kkkkkkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!