3 de junho de 2018

Capítulo 35

Não cometa esse meu erro
Nenhum dos pandai
Pode ter ukulele

AS COISAS APENAS foram de mal a pior.
Nem Meg nem eu conseguimos fazer o telefone da cozinha funcionar; a maldição que afetava o uso das comunicações por semideuses impediu que conseguíssemos sinal.
No desespero, pedi para Clave tentar. Com ele, o telefone funcionou perfeitamente, o que interpretei como uma afronta pessoal.
Mandei que ligasse para o número do atendimento de emergências da região, o 9-1-1, mas Clave não conseguia. Depois de muitas falhas, percebi que ele estava usando as letras do teclado e tentando ligar para I-X-I-I. Ensinei a forma correta e finalmente conseguimos falar com alguém.
— Pode ajudar, sim — respondeu ele, para o atendente. — Tem um humano morto na praia. Ele precisa de ajuda… O endereço?
— Oro del Mar, doze — respondi.
Clave repassou a informação.
— Correto... Quem sou eu!? — Ele desligou na cara do atendente, rosnando.
Pareceu um bom momento para irmos embora.
Claro que a desgraça vem sempre acompanhada: o Chevette de Gleeson Hedge ainda estava estacionado na frente da casa dos McLean. Por falta de opção, fui obrigado a dirigir até Palm Springs. Ainda me sentia péssimo, mas a cola mágica de Medeia em meu peito parecia estar curando o ferimento bem lenta e dolorosamente, como um exército de demônios minúsculos munidos de grampeadores correndo para cima e para baixo na minha caixa torácica.
Meg foi no banco do carona, empesteando o carro com cheiro de suor defumado, roupas molhadas e maçãs queimadas. Clave ficou atrás, dedilhando em meu ukulele de combate, embora eu ainda não tivesse lhe ensinado nenhum acorde. Como eu já imaginava, o instrumento era pequeno demais para suas mãos de oito dedos. Cada vez que Clave tocava uma combinação ruim de notas (ou seja, sempre que tocava qualquer coisa), ele rosnava para o instrumento, como se desse para intimidar o coitado do ukulele até fazê-lo cooperar.
Eu ainda estava atordoado. Quanto mais nos afastávamos de Malibu, mais eu tentava me convencer do mantra que não parava de repetir: Não. Isso não pode ter acontecido. Tudo isso foi um pesadelo. Eu não vi Jason Grace morrer. Não deixei Piper McLean chorando naquela praia. Eu jamais permitiria que uma coisa dessas acontecesse. Eu sou um deus do bem!
Mas não conseguia acreditar em mim mesmo.
Na verdade, eu de fato merecia estar dirigindo um Chevette amarelo no meio da noite, junto com uma garota mal-humorada e maltrapilha e um pandos obcecado por ukuleles.
E eu nem sabia por que estávamos voltando para Palm Springs. De que adiantaria? Sim, Grover e nossos outros amigos nos esperavam lá, mas levávamos apenas notícias trágicas e um par de sandálias velhas. Nosso verdadeiro propósito, a entrada do Labirinto de Fogo, ficava no centro de Los Angeles. Era para lá que deveríamos ir, para libertar a Sibila de sua prisão. Só assim poderíamos garantir que a morte de Jason não tinha sido em vão.
Ah, mas quem eu queria enganar? Eu não estava em condições de fazer nada, e Meg não estava muito melhor. Meu único objetivo era chegar a Palm Springs sem dormir ao volante, para finalmente poder me encolher num cantinho no fundo da Cisterna e chorar até cair no sono.
Meg apoiou os pés no painel. A armação dos óculos de gatinho tinha rachado bem no meio, mas ela continuava usando mesmo assim.
— Ela só precisa de um tempo — comentou. — Agora ela está muito irritada.
Num primeiro momento achei que Meg estivesse falando de si mesma na terceira pessoa. Ah, era tudo de que eu precisava! Então percebi que ela se referia a Piper McLean — do jeito dela, Meg estava tentando me consolar. Ah, aquele dia não parava de trazer surpresas e maravilhas aterradoras.
— Eu sei — respondi.
— Você tentou se matar.
— Eu… eu achei que isso… distrairia Medeia. Foi um erro. Foi tudo culpa minha.
— Que nada. Eu entendo.
Meg McCaffrey sentia compaixão por mim? Tive que me segurar para não cair no choro.
— Jason também fez uma escolha — continuou ela. — Assim como você. Os heróis têm que estar sempre prontos para fazer sacrifícios.
Fiquei meio incomodado, e não só porque Meg tinha conseguido falar tanta coisa de uma vez só. Não gostei da definição dela de heroísmo. Sempre pensei em um herói como alguém que ocupava a posição de destaque do carro alegórico durante um desfile, acenava para a plateia, jogava doces para as crianças e curtia a adulação das pessoas comuns. Mas se sacrificar? Não. Definitivamente não constava como requisito no anúncio de recrutamento de heróis.
Além disso, Meg parecia estar me chamando de herói, me colocando na mesma categoria de Jason Grace. Aquilo não pareceu certo. Eu era muito melhor como deus do que como herói. Aquilo que eu disse a Piper sobre a finalidade da morte era verdade: Jason não voltaria. Se eu morresse aqui na Terra, também não teria uma segunda chance. E eu nunca conseguiria encarar aquilo com a mesma tranquilidade de Jason. Enfiei aquela flecha no peito esperando que Medeia me curasse, só para ela poder me esfolar vivo alguns minutos depois. Eu era mesmo um covarde.
Meg cutucou um calo na palma da mão.
— Você estava certo. Sobre Calígula. E Nero. Sobre meus motivos para estar com tanta raiva.
Ela franzia a testa, concentrada. Meg tinha dito os nomes dos imperadores com um distanciamento estranho, como se examinasse amostras de vírus mortais expostas em um cofre de vidro.
— E como você está se sentindo agora? — perguntei.
Meg deu de ombros.
— Igual. Diferente. Não sei. Sabe quando se corta uma planta pela raiz? É assim que eu me sinto. É difícil.
Aquelas explicações confusas fizeram sentido para mim, o que não era um bom sinal para a minha sanidade. Lembrei-me de Delos, a ilha onde minha irmã e eu nascemos, um pedaço de terra que flutuava no mar, sem raízes, até minha mãe, Leto, ir para lá.
Eu achava difícil imaginar o mundo antes da minha existência, pensar em Delos como um lugar à deriva. Meu lar literalmente criou raízes por causa da minha existência. Eu nunca tive dúvidas de quem eu era, de quem eram meus pais, ou de onde eu tinha vindo. A Delos de Meg nunca fincara raízes, estava sempre à deriva. Como eu podia culpá-la por toda aquela raiva?
— Sua família é bem antiga — comentei. — Você deveria ter muito orgulho da sua herança, de ser uma descendente de Plemneu. Seu pai estava fazendo um trabalho importante em Aeithales. As nascidas do sangue, as esposas de prata… Calígula morre de medo daquelas sementes que você plantou, o que quer que sejam.
O rosto de Meg tinha tantos machucados que era difícil dizer se ela estava ou não franzindo a testa.
— E se eu não conseguir fazer aquelas sementes crescerem?
Não arrisquei uma resposta; não suportava nem pensar em mais algum fracasso naquela noite.
Clave enfiou a cabeça entre os bancos da frente.
— Me mostra agora aquele trítono de dó menor dissonante?

* * *

Nosso retorno a Palm Springs não foi nada feliz.
Só de ver nosso estado, as dríades que estavam de plantão souberam que trazíamos más notícias. Eram duas da madrugada, mas elas reuniram todas as plantas da área na Cisterna, além de Grover, o treinador Hedge, Mellie e o bebê Chuck.
Josué olhou com desprezo para Clave.
— Por que você trouxe essa criatura para o nosso meio?
— O mais importante é saber onde estão Piper e Jason — interveio Grover.
Ele me encarou, e de repente toda aquela compostura desabou como um castelo de cartas.
— Ah, não... Não.
Contamos nossa história — ou melhor, eu contei; Meg só ficou sentada na beira do lago, encarando a água com uma expressão desolada. Clave se enfiou em um dos nichos e enrolou as orelhas em volta do corpo como um cobertor, aninhando meu ukulele com o mesmo cuidado com que Mellie aninhava o bebê Chuck.
Minha voz falhou várias vezes enquanto eu descrevia a batalha final de Jason. Foi ali que a morte dele finalmente se tornou real para mim, e perdi qualquer esperança de acordar daquele pesadelo.
Esperei que o treinador Hedge explodisse, que começasse a bater em tudo e em todos com aquele bastão, mas ele me surpreendeu tanto quanto Tristan McLean, mais cedo. O sátiro ficou imóvel e calmo, a voz tão controlada que me deu raiva.
— Eu era o protetor do garoto — comentou. — Eu devia ter estado lá.
Grover tentou consolá-lo, mas Hedge apenas ergueu a mão para impedi-lo.
— Não. Não faça isso. — Ele olhou para Mellie. — Piper vai precisar da gente.
A ninfa das nuvens secou uma lágrima.
— Sim. Claro.
Aloe Vera apertou as mãos no peito.
— Será que é melhor eu ir junto? Talvez eu possa ajudar de algum jeito. — Ela me olhou com desconfiança. — Vocês tentaram passar aloe vera no garoto?
— Infelizmente, ele morreu de verdade — respondi. — Nem mesmo os poderes da aloe poderiam ajudar.
Ela não pareceu convencida, mas Mellie apertou seu ombro.
— Você é necessária aqui, Aloe. Cure Apolo e Meg. Gleeson, pegue a bolsa de fraldas, eu encontro você no carro.
Ela saiu flutuando da Cisterna, levando o filho nos braços.
Hedge estalou os dedos para mim.
— Cadê as chaves do Chevette?
Joguei o chaveiro para ele.
— Por favor, não faça nada precipitado. Calígula é… Você não pode…
Hesitei diante do olhar frio de Hedge.
— Tenho que cuidar da Piper; essa é minha prioridade — disse ele. — As atitudes precipitadas eu deixo para outras pessoas.
A voz dele saiu com um tom amargo e acusatório. Vindo do treinador Hedge, aquilo me parecia bem injusto, mas não tive coragem de protestar.
Depois que a família Hedge foi embora, Aloe Vera cuidou de Meg e de mim, passando gosma em nossos ferimentos. Ela soltou um muxoxo de reprovação ao ver o plugue vermelho em meu peito e o substituiu por um pedaço verde de seu lindo cabelo.
As outras dríades pareciam não saber o que fazer ou dizer; só ficaram paradas ali pelo lago, pensando e esperando. Por serem plantas, talvez ficassem bem à vontade com longos silêncios.
Grover Underwood se sentou ao lado de Meg e dedilhou a flauta.
— Perder um semideus… — Ele balançou a cabeça. — Essa é a pior coisa que pode acontecer a um protetor. Anos atrás, quando achei que tinha perdido Thalia Grace… — Ele parou de falar e desmoronou com o peso do desespero. — Ah, Thalia. Quando ela souber disso…
Eu achava que não poderia me sentir pior, mas aquilo cravou ainda mais lâminas no meu peito. Thalia Grace tinha salvado minha vida em Indianápolis, e a fúria dela em combate só rivalizava com o carinho que sentia pelo irmão. Senti que eu deveria dar a notícia a ela. Por outro lado, não queria estar na mesma cidade que Thalia quando ela ficasse sabendo o que aconteceu.
Olhei para meus amigos, todos muito desanimados, e me lembrei das palavras da Sibila, em meu sonho: A empreitada talvez não pareça valer a pena. E não tenho certeza de que valha. Mas você tem que vir. Precisa manter todos unidos, mesmo sob a dor do luto. Agora, eu entendia, mesmo preferindo não entender. Como eu podia unir e liderar uma Cisterna inteira de dríades espinhosas quando não tinha forças nem para me obrigar a fazer qualquer coisa?
Mesmo assim, ergui o par de cáligas velhas que tínhamos roubado no iate dos sapatos.
— Pelo menos temos isto. Jason deu a vida para podermos ter a chance de impedir os planos de Calígula. Amanhã, vou calçar estas sandálias e entrar no Labirinto de Fogo. Vou dar um jeito de libertar o oráculo e acabar com os incêndios de Hélio.
Achei que foi um bom discurso motivacional, todo elaborado para recobrar a confiança e tranquilizar meus amigos. Deixei de fora a parte sobre não ter a menor ideia de como fazer nenhuma daquelas coisas.
Figo-da-índia se empertigou, em movimentos intensos e deliberados.
— Você não está em condições de fazer nada disso. Além do mais, Calígula deve saber o que você está planejando, e vai estar esperando. Dessa vez ele vai estar preparado.
— É verdade — interveio Clave, de seu cantinho.
As dríades fizeram cara feia.
— O que esse cara está fazendo aqui? — perguntou Cholla.
— Veio fazer aulas de música — expliquei.
Claro que isso me rendeu vários olhares confusos.
— É uma longa história. Mas Clave arriscou a vida por nós, lá nos iates do imperador. Ele salvou Meg. Podemos confiar nele. — Torci para estar certo. — Clave, você sabe de alguma coisa que possa nos ajudar?
pandos franziu o nariz peludo branco (o que não foi muito fofo nem me deu vontade de fazer carinho nele, ao contrário do que vocês devem estar imaginando).
— Não use a entrada principal do centro da cidade. Vão estar esperando.
— Mas nós conseguimos passar por você — comentou Meg.
As bordas das orelhas gigantescas de Clave enrubesceram, e ele murmurou:
— Aquilo foi diferente. Meu tio me colocou lá de castigo. Era o turno do almoço. Ninguém ataca na hora do almoço. — Ele olhou de cara feia para mim, como se eu devesse saber disso. — Agora eles devem ter deixado mais guerreiros a postos na porta. E mais armadilhas. Até o cavalo pode estar lá. Ele é muito rápido, consegue chegar bem depressa. Basta uma ligação.
Eu me lembrei de como Incitatus chegara rápido lá na Maluquice Militar do Macro e de como ele lutou a bordo do navio. Não estava nem um pouco ansioso para encontrá-lo de novo.
— Tem alguma outra entrada? — perguntei. — Qualquer coisa menos perigosa e mais convenientemente próxima da sala do oráculo?
Clave abraçou seu ukulele — ou melhor, meu ukulele — com mais força.
— Tem uma. Só eu conheço. Os outros não sabem que existe.
Grover inclinou a cabeça, desconfiado.
— Preciso dizer que isso parece um pouco conveniente demais.
pandos fez uma careta amargurada.
— Eu gosto de explorar, o que mais ninguém gosta. O tio Acorde… Ele sempre dizia que eu sou muito distraído. Mas quem explora descobre coisas.
Taí uma verdade incontestável. Sempre que eu explorava, descobria coisas perigosas que queriam me matar. E duvidava muito que o dia seguinte no Labirinto seria diferente.
— E você pode nos levar até essa entrada secreta? — perguntei.
Clave assentiu.
— Aí vocês vão ter uma chance. Assim talvez consigam entrar escondidos e chegar ao oráculo antes de serem descobertos pelos guardas. Daí, depois que você sair, pode me dar aulas de música.
As dríades me encararam, praticamente revirando os olhos. Aquilo não ajudou em nada. Ei, não podemos lhe dizer como morrer, pareciam dizer . A escolha é sua.
Meg decidiu por mim.
— Nós vamos. Grover, quer vir junto?
O sátiro suspirou.
— Claro. Mas primeiro vocês precisam dormir.
— E se curar — acrescentou Aloe.
— E que tal umas enchiladas? — pedi. — Quem sabe no café da manhã?
Isso foi um consenso.
Então, com a promessa de enchiladas pela frente (além de uma ida provavelmente fatal ao Labirinto de Fogo), eu me aninhei no saco de dormir e apaguei.

12 comentários:

  1. Até agora esse foi o livro com mais baixos

    ResponderExcluir
  2. mano se a piper ficou daquele jeito, imagina a thalia? o leo, a reyna? aaaa e o nico mano? jason era tipo o melhor amigo dele. eu to chorando muito

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 21:15

      A segunda parte da morte de um personagem: a reação da família e amigos. É horrível.
      (obviamente, a primeira parte é a morte em si)

      Excluir
  3. Thalita vai explodir, Reyna vai tentar disfarçar mas vai estar despedaçada, Leo vai ficar furioso. Todos os outros 7 vai sentir essa perda. Argh... Não sei se eu superei ainda...

    ResponderExcluir
  4. Cara como os 7, a Thalia, o Nico e Reyna vão ficar! Riordan vc é um filho do Tartáro mesmo!
    ~Luane filha de Poseindon mais furiosa do mundo~

    ResponderExcluir
  5. sempre tive essa dúvida, se o velocino de ouro foi capaz de reviver Thalia (que morreu a muitos anos) pq n pode reviver outros semideuses?(tipo Jason)

    *talvez eu esteja sendo muito burra e esquecendo um fato importante de o mar de monstros*

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vc não foi burra, só esqueceu de uma coisa: Thalia não estava morta, ela foi transformada em árvore pouco antes de morrer, continuou sua vida como um pinheiro. Então o Velocino cura, mas não revive

      Excluir
  6. Só 3 podem sair em missão (lição dos primeiros livros)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso se mostra real de jeitos muito dolorosos

      Excluir
  7. Será q era por isso que a Annabeth aparece em um dos livros do Magnus chorando?

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!