26 de junho de 2018

Capítulo 34

O interior do velho Camaro cheirava a asfalto e desejo, gasolina e sonhos. Ronan se sentou atrás do volante, olhos na rua à meia-noite. As luzes cercavam o asfalto, talhando reflexos sobre o capô laranja atômico. De cada lado da estrada, os estacionamentos desertos das revendedoras de carros se esparramavam, sombrios e silenciosos.
Ele estava faminto como a noite.
A cor do painel do carro ficou verde-amarela-vermelha debaixo do semáforo. No espelho rachado do lado do passageiro, Noah parecia ansioso. Ele conferiu sobre o ombro para ver se havia policiais. Ronan conferiu os dentes.
— Que bom te ver, Noah — ele disse. Ele podia sentir cada bombeada do coração, cada pulsação em suas veias. — Fazia tempo.
Eu fiz isso, pensou Ronan. As chaves bateram umas nas outras na ignição. Eu fiz isso acontecer.
Kavinsky estava atrasado, como sempre. O tempo, como ele gostava de dizer, era dinheiro, e embora ele tivesse bastante de ambos, ele gostava de roubar mesmo assim.
— Eu tenho tentado — disse Noah. E acrescentou: — Não quero ver você morrer.
Sem responder, Ronan passou o polegar sobre os números gastos no câmbio. O motor reverberava em seus sapatos através dos pedais. Se alguma coisa havia sido construída no Camaro para dar conforto, esses artigos haviam desaparecido pelo desgaste de quarenta anos de uso. A parte de baixo das suas costas estava grudada contra o assento de vinil rachado. O relógio não funcionava, mas o tacômetro sim. O suspiro relutante de ar através das ventilações era fraco, mas o ronco dos pistões não tinha nada de fraco. O motor era o concerto mais alto no mundo, lentamente se desmanchando, peça por peça, debaixo do capô. O velocímetro ia até 220. Era uma insanidade. O carro parecia perigoso e parecia rápido.
— Vou chamar o Gansey — ameaçou Noah.
— Não acho que você consiga.
— Quanto tempo até o Kavinsky chegar aqui?
— Noah — disse Ronan afetuosamente, colocando a palma sobre o dorso da mão fria do amigo, morta há sete anos —, você está começando a me irritar.
Faróis cortaram de lado a lado o espelho retrovisor. Dezessete minutos depois da hora marcada, Kavinsky chegou.
No espelho retrovisor, Ronan acompanhou um Mitsubishi branco enquanto ele reduzia a velocidade até parar. Sua boca negra se escancarou; a faca resoluta na lateral era idêntica ao carro anterior de Kavinsky.
O Mitsubishi parou ao lado do Camaro. A janela do passageiro baixou. Kavinsky usava seus óculos escuros com aros brancos.
— Lynch, seu canalha — ele disse como saudação. Não tomou conhecimento de Noah; provavelmente não conseguia vê-lo. Ronan girou o punho para mostrar o dedo médio para Kavinsky. Reflexo muscular.
Kavinsky avaliou o Pig.
— Impressionante.
Eu o sonhei, Ronan queria gritar.
Mas, em vez disso, acenou com o queixo na direção do Mitsubishi. Era difícil de acreditar que ele fosse real. Não fazia muito ele vira o último queimando de dentro para fora. Kavinsky deve ter saído correndo e o substituído na manhã seguinte. E os grafismos? Talvez ele mesmo tivesse feito, embora fosse difícil de imaginar Kavinsky realmente se ocupando de qualquer coisa que não tivesse pó envolvido.
Ronan disse:
— Você é quem diz.
— Ah, esse aí tem um pouco mais para mostrar. Você não gosta?
A mão de Ronan tremia um pouco sobre o câmbio. Mais faróis passaram reluzindo nos espelhos — a matilha de Kavinsky. Os rostos eram anônimos por trás das janelas sombreadas e escuras, mas Ronan conhecia os carros: o Supra de Jiang, o RX-7 de Skov, os Golfs de Swan e Prokopenko. Já ganhara de todos eles antes.
— Trouxe a família toda — observou Ronan. Em alguns minutos, eles se dispersariam para não chamar a atenção dos policiais. O primeiro radar que vissem e Kavinsky seria avisado, arrancando dali antes que o asfalto esfriasse.
— Você me conhece — disse Kavinsky afetuosamente. — Eu simplesmente odeio ficar sozinho. Então, você vai foder essa velharia aí, ou só vai andar de mãos dadas com ela?
Ronan ergueu uma sobrancelha.
— Ronan, não. O Gansey vai te matar. Ronan... — disse Noah.
Através da janela aberta, Ronan perguntou calmamente:
— Você vai correr com esses óculos escuros, seu merda de búlgaro mafioso de New Jersey?
Kavinsky anuiu lentamente enquanto ouvia a pergunta como se concordasse, coçando o punho sobre a direção. Ele parecia muito cansado ou muito enfadado quando respondeu:
— O que eu não sei mesmo — a luz do semáforo passou para o vermelho, deixando suas lentes sombreadas em um tom carmesim — é quem fica por cima, você ou o Gansey.
Algo negro fervilhou dentro de Ronan, lenta e ameaçadoramente. Sua voz era cianeto e querosene quando ele disse:
— O que vai acontecer é que eu vou ganhar daquele carro e então vou sair desse carro e quebrar a sua cara.
— Trezentos e vinte cavalos dizem que você está errado, cara. — Kavinsky tocou a nuca. Ele usava uma camiseta regata branca, o ombro exposto frio e belo como um cadáver. — Mas vai sonhando.
Sua janela deslizou até em cima. Mal visível através da película escura como asfalto, Kavinsky jogou os óculos escuros no assento do passageiro.
O mundo inteiro se resumia agora às luzes do semáforo acima dos dois carros.
— Ronan — disse Noah —, estou com um péssimo pressentimento.
— Isso se chama estar morto — respondeu Ronan.
— Esse tipo de piada só é engraçada quando você está vivo.
— Que bom que eu estou.
— Por enquanto.
Espere o verde. Os olhos de Ronan não estavam no semáforo, mas na luz na rua do outro lado. Quando ela ficasse amarela, ele tinha dois segundos para deixar a linha de partida.
Ronan aliviou o pé da embreagem, apertou o acelerador e segurou o carro nos pedais.
O conta-giros tremia um pouco abaixo da linha vermelha. O motor estava vivo, rosnando, chocalhando. O som tomou o lugar do pulso de Ronan. Fumaça dos pneus traseiros subiu por debaixo do carro e para dentro das janelas ainda abertas. Mal dava para ouvir o Mitsubishi de Kavinsky sobre o uivo do Pig.
Por um único segundo, Ronan se permitiu pensar em seu pai e na Barns e em seus sonhos se estendendo diante dele, cheios de coisas impossíveis. Ele se deixou pensar a respeito da parte de si mesmo que era uma bomba, o pavio queimando rápido e destrutivo, quase inteiro.
A luz do outro lado ainda estava um sólido verde. O semáforo estava vermelho como um aviso.
A carência o consumia por dentro.
A luz do semáforo do outro lado ficou amarela. Um segundo. Ele tirou o pé um pouco mais da embreagem. Um segundo. O câmbio suava debaixo da palma da sua mão.
Verde.
Os carros saltaram da linha. Foi um rosnar, rosnar, rosnar, e isto, estranhamente audível: a risada selvagem de Kavinsky.
Troca a marcha.
Imediatamente, o Mitsubishi estava quase um carro à frente. De cada lado da rua, as luzes dos postes tremeluziam e cintilavam, medindo a vida em acessos epiléticos de luz: brilho
asfalto rachado
brilho
adesivo da Aglionby no painel do carro
brilho
os olhos arregalados de Noah
Eles eram corpos elétricos.
O Camaro alcançou o Mitsubishi na segunda metade, como Ronan esperava. O motor vociferou no ápice da segunda marcha, e lá estava ela. Escondida em algum lugar entre a segunda e a terceira marchas, em algum lugar entre quatro mil e cinco mil RPMS, havia uma alegria pura. Gritando com milhares de explosões minúsculas debaixo do capô, havia um lugar onde Ronan não sentia nada, a não ser uma felicidade sem complicações, um lugar morto e vazio em seu coração onde ele não precisava de nada mais.
Ao lado deles, o Mitsubishi perdeu o ritmo. Kavinsky tinha errado a marcha da terceira para a quarta. Como sempre fazia.
Ronan não.
Troca a marcha.
O motor rugiu renovado. O carro era a religião de Gansey, e Ronan o achava um deus digno. O capô esguio se colocou à frente do Mitsubishi. Colocou um carro entre eles. Mais uma metade. O caminho estava aberto para a vitória.
Não havia nada dentro de Ronan. Um nada glorioso e, atrás dele, mais nada.
Mas...
Havia algo errado.
A janela de Kavinsky baixou. Ele esticou a cabeça para encontrar o olhar de Ronan no espelho retrovisor e gritou algo. As palavras ficaram perdidas em meio ao ruído, mas seu significado era visível. Dentes à mostra para um “Vai se...” e então lábios esticados para “... der”. Cuspidas em um palavrão animado.
O Mitsubishi passou pelo Camaro com um estrondo. As luzes da rua serpenteavam sobre as janelas negras, acendendo e apagando ao longo do abismo que se abria.
Não era possível.
Ronan deitou a mão sobre outra marcha — a única que sobrara. O acelerador grudado no chão. Tudo sacudia como se o carro fosse se desintegrar.
O Mitsubishi ainda estava se distanciando. A mão de Kavinsky estendida, dedo médio acenando.
— Impossível! — gritou Noah.
Ronan conhecia os números. Ele andara no Camaro. Ele conhecia o carro de Kavinsky.
Ele ganhara do carro de Kavinsky. A sensação estava voltando a ele como o sangue em um membro dormente, apunhalando com espasmos e sobressaltos.
Branco como uma presa, o Mitsubishi mergulhou na escuridão à frente deles. Era o tipo de rapidez que não pertencia a carros. Era o tipo de rapidez que não era uma velocidade, era uma distância. Como um avião que estava aqui, e então estava ali, em um momento. Um cometa deste lado do céu, e então do outro. O Mitsubishi estava ao lado do Camaro, e então não estava.
Ele estava tão distante em sua vitória que a única nota de motor que restara era a do Camaro. Centelhas choviam das luzes da rua, lágrimas ardentes se dissipando no pavimento.
Apenas um mês atrás, Ronan havia detonado com o Mitsubishi em um carro muito menos potente que o Camaro. Não havia uma realidade que permitisse ao carro de Kavinsky possuir aquele tipo de desempenho.
As luzes da rua piscaram acima deles e se apagaram. O Camaro cheirava a um forno.
As chaves balançavam na ignição, metal tilintando contra metal. Ronan começava a compreender lentamente que havia perdido feio.
Não era assim que as coisas deveriam ter terminado. Ele havia sonhado as chaves, pegara o Camaro, havia feito todas as trocas de marcha, e Kavinsky não.
Eu sonhei isso.
— Agora você joga a toalha, certo? — perguntou Noah. — Agora você para?
Mas o sonho estava se esvaindo. Como eles sempre fazem, ele pensou. Sua alegria estava se dissolvendo, plástico em ácido.
— Pare — repetiu Noah.
Não havia nada mais a fazer a não ser parar.
Mas foi então que um dos horrores noturnos pousou sobre o teto do Camaro.
Ronan pensou primeiro na pintura — o Pig estava um lixo, mas a pintura estava impecável. E então uma das garras socou harmoniosamente o para-brisa.
Se aquilo estava acontecendo em sonho ou na realidade, o horror noturno queria a mesma coisa: matar Ronan.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!