20 de junho de 2018

Capítulo 34


Blue nunca havia sido uma grande fã do sótão, mesmo antes de Neeve ter se mudado para lá. Numerosas vigas inclinadas do telhado proporcionavam dezenas de oportunidades para bater a cabeça no teto em declive. No piso, tábuas carcomidas e áreas remendadas com compensados cheios de farpas eram inimigas de pés descalços. O verão transformava o sótão em um inferno. Além disso, geralmente não havia nada lá a não ser poeira e vespas. Maura era uma não acumuladora convicta e, assim, qualquer coisa que não fosse usada era doada para os vizinhos ou para uma instituição de caridade. Realmente, não havia nenhuma razão para visitar o sótão.
Até aquele momento.
Como estava ficando tarde, Blue havia deixado Ronan, Adam e Noah para trás para discutir se era possível implicar o professor de latim dos garotos na morte de Noah e se a polícia já não tinha estabelecido um elo. Adam havia ligado apenas cinco minutos após ela ter chegado em casa para lhe contar que Noah havia desaparecido no instante em que ela partira.
Então era verdade. Ela realmente era a mesa no Starbucks que todos queriam.
— Acho que temos uma hora — disse Calla enquanto Blue abria a porta do sótão. — Elas devem voltar lá pelas onze. Eu vou primeiro. Caso...
Blue ergueu uma sobrancelha.
— O que você acha que ela tem lá em cima?
— Eu não sei.
— Furões?
— Não seja ridícula.
— Magos?
Calla se esgueirou para passar por Blue e começou a subir os degraus. A única lâmpada que iluminava o sótão não ia longe escada abaixo.
— Isso é mais provável. Nossa, que cheiro.
— São os furões.
Do alto da escada, Calla lançou um olhar para Blue que ela suspeitou ser mais perigoso que qualquer coisa que elas encontrariam no sótão. No entanto, Calla estava certa. O ar que se movia lentamente à volta delas era um tanto fétido; Blue não conseguia dizer ao certo qual era o cheiro, embora ele lembrasse coisas familiares, como pés e cebolas podres.
— Cheira a enxofre — disse Blue. — Ou a um defunto.
Pensando na voz terrível vinda da boca de Neeve antes, ela não se surpreenderia com nenhum dos dois.
— Cheira a assa-fétida — corrigiu Calla gravemente.
— O que é isso?
— Algo que fica delicioso no curry, e algo que é muito útil na bruxaria.
Blue tentou respirar pela boca. Era difícil imaginar alguma coisa que cheirava a pé de defunto sendo delicioso em qualquer coisa.
— Qual dos dois você acha que é?
Calla havia chegado ao topo da escada.
— Não é o curry — disse ela.
Agora que Blue estava no alto da escada, pôde ver que Neeve havia transformado o sótão em algo bem diferente do que ela lembrava. Um colchão coberto com tapetinhos estava no chão. Em torno do aposento, velas apagadas de diferentes alturas, tigelas escuras e copos de água estavam reunidos em grupos. Uma fita adesiva colorida desenhava padrões no chão entre alguns dos objetos. Ao lado dos pés de Blue, o talo de uma planta meio queimada repousava sobre um prato coberto de cinzas. Em uma das trapeiras estreitas, dois espelhos de corpo inteiro estavam colocados frente a frente, refletindo imagens espelhadas de um para o outro, in perpetuum.
Também estava frio. O sótão não deveria estar frio após o calor do dia.
— Não toque em nada — Calla disse a Blue. O que Blue achou irônico, considerando o motivo pelo qual elas tinham vindo.
Blue não tocou em nada, mas avançou aposento adentro, examinando uma estátua pequena de uma mulher com olhos na barriga. O sótão inteiro estava lhe deixando com uma sensação de formigamento.
— Ela deve estar fazendo um monte de curry.
Atrás delas, os degraus rangeram, e tanto Calla quanto Blue deram um salto.
— Posso subir? — perguntou Persephone. Era uma pergunta irrelevante, pois ela já tinha subido. Usando uma túnica de renda que Blue havia feito para ela, Persephone parou no alto da escada. Seu cabelo estava amarrado firmemente, o que sinalizava que ela não estava com medo de sujar as mãos.
— Persephone — bradou Calla, superando o susto, mas com raiva por ter ficado chocada. — Você devia fazer algum barulho quando entrasse num quarto.
— Eu deixei a escada ranger — salientou Persephone. — A Maura disse que vai voltar à meia-noite, então estejam prontas até lá.
— Ela sabe? — perguntaram Blue e Calla em uníssono.
Persephone se agachou para examinar uma máscara de couro preta com um longo bico pontudo.
— Vocês não acharam que ela tinha acreditado na história do filme dos anões, acharam?
Calla e Blue trocaram um olhar. Blue refletiu sobre o que aquilo queria dizer: que Maura queria saber mais sobre Neeve, tanto quanto elas.
Blue perguntou:
— Antes de começarmos, você vai explicar o que a Neeve disse que estava fazendo aqui em Henrietta?
Calla caminhou pelo aposento esfregando as mãos, como se estivesse se aquecendo ou planejando o que pegar primeiro.
— Isso é fácil. A sua mãe chamou a Neeve aqui para encontrar o seu pai.
— Bem — corrigiu Persephone —, isso não é totalmente verdade. A Maura me disse que a Neeve a procurou primeiro. A Neeve disse que talvez fosse capaz de encontrá-lo.
— Do nada? — Calla perguntou, pegando uma vela. — Parece estranho.
Blue cruzou os braços.
— Ainda faltam muitos detalhes.
Calla passou a vela da mão esquerda para a direita.
— Basicamente, o seu pai apareceu dezoito anos atrás, roubou o coração da Maura, a tornou uma amiga absolutamente inútil por um ano, a engravidou e então desapareceu depois que você nasceu. Ele era bonito e cheio de segredos, então presumi que fosse um pobretão que morava em um trailer e tinha ficha na polícia.
— Calla! — Persephone a advertiu.
— Isso não me incomoda — respondeu Blue. Como ela poderia se incomodar com o passado de um estranho? — Eu só quero saber os fatos.
Persephone balançou a cabeça.
— Você precisa ser tão sensata?
Blue deu de ombros e perguntou a Calla:
— O que a vela está lhe dizendo?
Com a vela distante do corpo, Calla semicerrou os olhos.
— Apenas que ela foi usada para uma leitura. Para localizar objetos, que é o que eu esperaria.
Enquanto Calla remexia em mais coisas, Blue pensou no que ela havia acabado de saber sobre seu pai e se deu conta de que mantinha o mesmo carinho infundado por ele. Ela também gostou de saber que ele era bonito. E disse:
— Eu ouvi minha mãe dizer para a Neeve procurar meu pai como uma busca online.
— Acho que sim — disse Calla. — Era apenas uma curiosidade. Ela não estava querendo encontrá-lo de verdade.
— Ah — murmurou Persephone —, não tenho tanta certeza.
Isso fez os ouvidos de Blue formigarem com interesse.
— Espere, você acha que a minha mãe ainda está apaixonada por... ele tem um nome?
— Filhote — respondeu Calla, e Persephone deu uma risadinha, claramente se lembrando de Maura cega de paixão.
— Eu me recuso a acreditar que minha mãe um dia chamou um homem de filhote — disse Blue.
— Ah, mas ela chamou. E também de amor. — Calla pegou uma tigela vazia. Havia uma crosta no fundo, como se ela tivesse contido um dia um líquido relativamente espesso. Como pudim. Ou sangue. — E chuchu.
— Você está inventando isso. — Blue estava envergonhada por sua mãe.
Persephone, um pouco vermelha por tentar não rir, balançou a cabeça. Grandes madeixas de cabelo escaparam do nó, fazendo-a parecer que havia escapado de um tornado.
— Temo que não.
— Por que alguém chamaria uma pessoa...
Virando-se para Blue com as sobrancelhas extremamente desalinhadas, Calla disse:
— Use sua imaginação — e Persephone não se conteve e explodiu em um acesso de riso.
Blue cruzou os braços.
— Ah, é mesmo?
Sua seriedade só serviu para dissipar qualquer autocontrole que as duas mulheres ainda tivessem. Rindo sem parar, elas começaram a trocar outros nomes carinhosos que Maura aparentemente havia cunhado dezoito anos atrás.
— Senhoras — disse Blue num tom sério. — Temos apenas quarenta e cinco minutos. Calla, toque naquilo — e apontou para os espelhos. De todas as coisas esquisitas no aposento, Blue achou os espelhos as mais horripilantes, e essa parecia uma razão tão boa quanto qualquer outra para tentá-los.
Engolindo uma risada, Calla se dirigiu até os espelhos. Havia algo angustiante a respeito da absoluta impraticabilidade de duas superfícies refletoras apontadas apenas uma para a outra.
— Não fique entre eles — avisou Persephone.
— Não sou idiota — rebateu Calla.
Blue perguntou:
— Por quê?
— Vai saber o que ela faz com eles. Não quero que a minha alma seja colocada em uma garrafa em outra dimensão ou algo assim. — Calla segurou a borda do espelho mais próximo, tomando cuidado para ficar fora do campo de visão do outro. Franzindo o cenho, estendeu sem jeito uma mão na direção de Blue, que prestativamente deu um passo à frente para permitir que Calla pressionasse os dedos em seu ombro.
Um momento se passou em silêncio, exceto pelo barulho dos insetos do lado de fora da janela.
— Nossa pequena Neeve é ambiciosa — resmungou Calla finalmente, aumentando a intensidade do aperto dos dedos em Blue e no espelho. — Pelo visto sua fama não é o bastante para ela. Programas de TV são para joões-ninguém.
— Não seja sarcástica, Calla — disse Persephone. — Nos conte o que você está vendo.
— Eu a vejo usando aquela máscara negra ali, parada entre estes espelhos. Eu a vejo de costas em qualquer direção, pois ela tem quatro espelhos. Dois outros espelhos grandes atrás de cada um desses. Posso vê-la em cada um dos quatro espelhos, e ela está usando a máscara em todos eles, mas parece diferente em cada um. Está mais magra em um deles, e vestida de preto em outro. A pele dela parece esquisita em mais um. Não sei direito o que são... Podem ser possibilidades. — Calla parou, e Blue sentiu um ligeiro arrepio com a ideia de quatro Neeves. — Me traga a máscara. Não, você não, Blue, fique aqui. Persephone...?
Persephone buscou a máscara animadamente. Mais uma vez, houve uma pausa enquanto Calla lia o objeto, os nós dos dedos brancos com a pressão.
— Ela estava decepcionada quando comprou isso — disse Calla. — Tinha recebido uma crítica ruim, eu acho, de um de seus livros? Ou de um de seus programas? Não. Ela tinha visto os números de um ou do outro, e eles foram decepcionantes. Eu definitivamente vejo os números, e é isso que ela estava pensando quando comprou a máscara. Ela estava se comparando com Leila Polotsky.
— Quem é ela? — perguntou Blue.
— Uma médium mais famosa que a Neeve — disse Calla.
— Eu não sabia que isso era possível — respondeu Blue. Um programa de televisão e quatro livros pareciam o ápice a que qualquer médium poderia almejar em um mundo descrente.
— Ah, é muito possível — disse Calla. — Pergunte a Persephone.
— Não sei não — disse Persephone. Blue não tinha certeza se ela estava falando sobre ser famosa ou sobre perguntar a ela.
Calla seguiu em frente:
— Seja como for, nossa querida Neeve gostaria de viajar o mundo e conquistar algum respeito. E essa máscara a ajuda a visualizar isso.
— O que isso tem a ver com ela estar aqui? — perguntou Blue.
— Ainda não sei. Preciso de um objeto melhor. — Calla soltou o espelho e retornou a máscara ao gancho na parede.
Elas bisbilhotaram o quarto. Blue encontrou um chicote feito de três varas amarradas com uma fita vermelha e uma máscara da mesma cor fazendo par com a preta. Próximo da janela, encontrou a fonte do cheiro horroroso: um saquinho de pano com algo costurado.
Ela passou o saco para Calla, que o segurou por apenas um momento antes de dizer desdenhosamente:
— É a assa-fétida. É apenas um amuleto de proteção. Ela ficou assustada com um sonho e fez isso.
Persephone se agachou e pairou as mãos sobre uma das tigelas. O modo como ela mantinha as palmas abertas e os dedos mal se movendo fez Blue se lembrar de Gansey com a mão sobre o lago raso de água em Cabeswater. Persephone disse:
— Tem muita incerteza em tudo isso, não tem? É isso que eu sinto. Talvez a questão seja simples assim: ela veio para ajudar a Maura, mas está se deixando levar um pouco por Henrietta.
— Por causa do caminho dos mortos? — perguntou Blue. — Eu peguei a Neeve fazendo uma leitura no meio da noite e ela me disse que o caminho dos mortos tornava fácil ser médium aqui.
Calla sorriu com pouco caso antes de começar a remexer nas coisas ao lado da cama.
— Mais fácil e mais difícil — disse Persephone. — A cidade tem bastante energia, então é como ter você no quarto o tempo inteiro. Mas também é como os seus garotos. Bastante ruidoso.
Meus garotos!, pensou Blue, primeiro ofendida, depois lisonjeada, então ofendida de novo.
Persephone perguntou:
— Calla, o que você está descobrindo?
Calla estava de costas para elas quando respondeu.
— Onze meses atrás, um homem telefonou para Neeve para perguntar se podia trazê-la a Henrietta com todas as despesas pagas. Enquanto ela estivesse aqui, deveria usar qualquer meio à sua disposição para apontar com precisão uma linha ley e um “lugar de poder” que ele sabia estar próximo, mas não conseguia encontrar. Ela disse a ele que não estava interessada, mas depois decidiu que poderia investigar essa possibilidade sozinha. A Neeve achou que a Maura a deixaria ficar na cidade se ela oferecesse ajuda para encontrar seu antigo namorado.
Persephone e Blue tinham a mesma expressão de espanto.
— Isso é incrível! — disse Blue.
Calla se virou. Estava segurando um pequeno caderno de notas, que acenou para elas.
— Esta é a agenda da Neeve.
— Que tecnologia — suspirou Persephone. — Acho que ouvi um carro. Já volto.
Enquanto ela descia com cuidado os degraus, tão silenciosamente quanto havia subido, Blue se aproximou discretamente de Calla, erguendo o queixo sobre o ombro dela, para poder ver por si mesma a agenda.
— Onde diz tudo isso?
Calla folheou as páginas com a caligrafia de Neeve e mostrou a Blue as páginas de anotações rotineiras sobre horas de consultas, datas finais de publicações e datas de almoços. Então chegou às anotações relativas ao telefonema do homem de Henrietta. Era tudo como Calla havia dito, com uma exceção notável. Neeve também tinha anotado o nome e o número de telefone do homem.
Todos os músculos de Blue se afrouxaram.
Porque o nome do homem que havia ligado para Neeve meses atrás era bastante peculiar, e Blue, àquela altura, o conhecia muito bem: Barrington Whelk.
Atrás delas, o único degrau rangeu de novo. Persephone disse algo parecido com um ãhã.
— Isso foi um pouco sinistro — disse Calla, se virando.
As mãos de Persephone estavam unidas diante dela.
— Tenho duas notícias ruins — e se virou para Blue. — Em primeiro lugar, seus garotos corvos estão aqui, e um deles parece ter quebrado o polegar em uma arma.
Atrás de Persephone, houve outro rangido quando uma segunda pessoa subiu a escada. Blue e Calla se contraíram ligeiramente enquanto Neeve aparecia ao lado de Persephone, com o olhar eterno e inabalável.
— Em segundo lugar — acrescentou Persephone —, Neeve e Maura chegaram mais cedo.

2 comentários:

  1. "— Ah, é muito possível — disse Calla. — Pergunte a Persephone.
    — Não sei não — disse Persephone. Blue não tinha certeza se ela estava falando sobre ser famosa ou sobre perguntar a ela.""

    Mano... e se a Persephone for essa médium ou sla, amiga ou parente

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  2. A Persephone poderia ter dado a segunda noticia primeiro neh hahahahahahaa

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Boa leitura, E SEM SPOILER!