3 de junho de 2018

Capítulo 34

Um acidente de surfe
Apenas metáfora
Para “pior noite do ano”

PASSEI AS HORAS seguintes abandonado por minha própria mente.
Não me lembro de Tempestade ter nos deixado na praia, mas ele deve ter feito isso. Só tenho memórias de alguns momentos: Piper gritando comigo; Piper sentada perto da água, tremendo de tanto chorar; Piper agarrando nacos de areia molhada e os arremessando nas ondas. Ela chegou até a jogar longe a ambrosia e o néctar que tentei fazê-la comer.
Eu me lembro de andar bem devagar pela estreita faixa de areia, os pés descalços, a camisa gelada, molhada da água do mar. Aquele tampão de gosma cicatrizante latejava em meu peito, de vez em quando deixando vazar um pouco de sangue.
Não estávamos mais em Santa Bárbara. Não vi nenhum porto nem fila de superiates, só o mar escuro do Pacífico de um lado e, do outro, um penhasco sombreado. Uma escada de madeira subia em ziguezague, levando até uma casa iluminada lá no topo.
Meg McCaffrey se sentou ao lado de Piper. Espera — quando ela chegou?
Meg estava encharcada e com as roupas rasgadas, o rosto e os braços parecendo uma zona de guerra, cheios de cortes e hematomas. Ela dividiu um pouco de ambrosia com a filha de Afrodite — parece que a minha ambrosia não era boa o suficiente. Clave estava parado ao longe, encolhido na base do penhasco, olhando para mim, ansioso, como se quisesse logo a primeira aula de música. O pandos devia ter feito o que pedi: deu um jeito de encontrar Meg, tirou a menina do mar e voou até onde estávamos… onde quer que fosse.
Minha memória mais clara é de Piper dizendo: Ele não está morto.
Ela começou a repetir isso sem parar assim que conseguiu reunir forças para falar, depois que o néctar e a ambrosia amenizaram o inchaço em sua boca. Mas ela ainda estava com cara péssima: o lábio superior precisava de pontos, e o machucado deixaria uma cicatriz; o maxilar, o queixo e o lábio inferior eram um único hematoma gigante cor de beringela. Tive a impressão de que a conta do dentista seria bem alta.
Mas, mesmo assim, se forçou a falar, determinada:
— Ele não está morto.
Meg a segurou pelos ombros.
— Pode ser. Vamos descobrir. Você precisa descansar e melhorar.
Encarei minha jovem mestra, incrédulo.
— Pode ser? Meg, você não viu o que aconteceu! Ele… Jason… a lança…
Meg me olhou de cara feia. Ela não chegou a soltar um cala a boca, mas compreendi a ordem muito bem. Os anéis dourados cintilavam em suas mãos, e eu me perguntei como ela conseguira recuperá-los. Talvez, como tantas armas mágicas, as espadas voltassem sozinhas para o dono, depois de perdidas. Era a cara de Nero dar esses presentes grudentos para a enteada.
— Tempestade vai encontrar Jason — insistiu Meg. — A gente só precisa esperar.
Tempestade… certo. Depois que Piper e eu chegamos naquela praia, eu me lembro vagamente de ver a semideusa ameaçando o espírito, usando palavras emboladas e gestos confusos para mandá-lo de volta aos iates, em busca de Jason.
Tempestade saiu em disparada pelo mar, parecendo uma tromba d’água eletrificada. Observando o horizonte, eu tentava decidir se valia a pena nutrir esperanças.
As memórias do navio estavam voltando, as peças se unindo em um afresco ainda mais horrível do que qualquer coisa pintada nas paredes de Calígula.
O imperador tinha me avisado: ele não estava brincando. Era verdade, ele realmente não era como Cômodo. Por mais que amasse o teatro, Calígula nunca estragaria uma execução acrescentando efeitos especiais brilhantes, avestruzes, bolas de basquete, carros de corrida e música. Calígula não fingia matar; ele matava.
— Ele não está morto — repetiu Piper, concentrada naquele mantra, como se quisesse usar o charme em si mesma e em nós. — Ele já passou por tanta coisa; não vai morrer assim.
Eu queria acreditar.
Mas, para meu azar, já tinha testemunhado dezenas de milhares de mortes mortais. Poucas tinham significado. A maioria vinha em algum momento inapropriado, inesperado, sem dignidade nem sentido e pelo menos com um pouco de constrangimento. Os humanos que mereciam morrer viviam uma eternidade; e os que mereciam viver sempre iam cedo demais.
Um combate contra um imperador maligno para salvar os amigos: parecia uma morte bem plausível para um herói como Jason Grace. Ele tinha me contado o que ouvira da Sibila Eritreia. Se eu não tivesse pedido que ele fosse conosco…
Não fique se culpando por isso, interveio o Apolo Egoísta. Foi escolha dele.
Mas a missão era minha!, retrucou o Apolo Culpado. Se não fosse por mim, Jason estaria seguro em seu quarto no alojamento, desenhando novos santuários para deidades obscuras! E Piper McLean estaria ilesa, passando tempo com o pai, se preparando para uma nova vida em Oklahoma.
O Apolo Egoísta não teve nada a dizer depois disso — ou, se teve, foi egoísta o bastante para guardar só para si.
Só me restava olhar o mar e esperar, torcendo para ver Jason Grace voltar cavalgando pela escuridão, vivo e bem.
Depois de um tempo, o cheiro de ozônio tomou o ar, e relâmpagos estalaram na superfície da água. Tempestade correu até a areia, trazendo no lombo uma forma escura sem vida que lembrava um alforje. O cavalo do vento se ajoelhou e, com toda a delicadeza, depositou Jason na areia. Piper deu um berro e correu até ele, com Meg atrás. A pior parte foi a expressão momentânea de alívio no rosto delas, poucos segundos antes de toda e qualquer esperança ser destruída.
Jason estava com a pele cor de pergaminho pontilhada de gosma, areia e espuma. O mar tinha lavado o sangue, mas a camisa social do uniforme da escola ostentava uma mancha escura, angulosa como uma faixa presidencial. Flechas estavam fincadas nos braços e nas pernas, e a mão direita estava rígida, estendida, como se ele ainda estivesse nos mandando fugir. A expressão em seu rosto não parecia torturada nem assustada: ele parecia em paz, como se tivesse acabado de cair no sono depois de um dia difícil. Eu não queria acordá-lo.
Piper o sacudiu, aos prantos. Sua voz ecoou nos penhascos:
— JASON!
Meg fez uma careta. Então se sentou de volta na areia e olhou para mim.
— Conserta ele.
A força da ordem me fez avançar até Jason e me ajoelhar ao lado dele. Toquei sua testa fria, confirmando o óbvio.
— Meg, eu não tenho como consertar a morte. Queria ter esse poder.
— Sempre tem um jeito — retrucou Piper. — A cura do médico! Leo tomou!
Balancei a cabeça e tentei explicar, com toda a delicadeza possível:
— Leo estava com a cura pronta quando morreu. Ele passou por muitas dificuldades para conseguir os ingredientes, e mesmo assim precisou de Esculápio para fazer a poção. Não funcionaria nesse caso. Lamento muito, Piper. É tarde demais.
— Não. Não, os Cherokee sempre ensinaram… — Ela soltou um suspiro, trêmula, como se estivesse lutando para falar todas aquelas palavras. — Uma das histórias mais importantes... Logo que o homem começou a destruir a natureza, os animais decidiram que ele era uma ameaça. Todos prometeram lutar para acabar com aquilo, e cada animal escolheu um jeito diferente de matar os humanos. Mas as plantas… as plantas eram gentis e compreensivas, e elas prometeram o oposto. Prometeram que cada uma encontraria um jeito de proteger as pessoas. Então existe pelo menos uma planta para cada cura, seja qual for a doença, o veneno ou o ferimento. Alguma planta tem a cura para o Jason. Você só precisa saber qual!
— Piper, essa é mesmo uma história muito sábia — falei. — Mas, mesmo se eu ainda fosse um deus, não poderia oferecer um remédio que trouxesse os mortos de volta à vida. Se isso existisse, Hades nunca permitiria que fosse usado.
— Então vamos para as Portas da Morte! Foi assim que Medeia voltou! Por que Jason não pode fazer o mesmo? Sempre tem um jeito de enganar o sistema, Apolo. Me ajude!
O charme dela me atingiu como uma onda, me afetando com a mesma intensidade de uma ordem de Meg, mas eu apenas continuei onde estava, admirando a expressão tranquila de Jason.
— Piper, você e Jason lutaram para fechar as Portas da Morte. Sabiam que não era certo deixar os mortos voltarem para o mundo dos vivos. Jason Grace era muitas coisas, mas não era trapaceiro. Acha mesmo que ele ia querer que você revirasse o céu, a terra e o Mundo Inferior para trazê-lo de volta?
Os olhos dela arderam de raiva.
— Você não liga porque é um deus. Vai voltar para o Olimpo assim que libertar seus Oráculos, não é? Então por que se importaria? Você está só usando a gente para conseguir o que quer, como todos os outros deuses.
— Ei — interveio Meg, com a voz ao mesmo tempo firme e gentil. — Isso não vai ajudar.
Piper pressionou a mão no peito de Jason.
— Por que ele morreu, Apolo? Por um par de sapatos?
Uma pontada de pânico quase fez o plugue de cera curativa que tapava a ferida em meu peito explodir. Eu tinha me esquecido completamente dos sapatos.
Peguei a aljava nas costas e a virei de cabeça para baixo, espalhando todas as flechas na areia.
As sandálias de Calígula caíram no chão.
— Estão aqui. — Eu as peguei, as mãos trêmulas. — Pelo menos… pelo menos estamos com elas.
Piper soltou um soluço desesperado e acariciou o cabelo de Jason.
— Ah, que ótimo! Pode ir ver seu oráculo agora. O oráculo que fez Jason MORRER!
De algum ponto mais atrás, os gritos de um homem ecoam:
— Piper?!
Tempestade fugiu, se desfazendo em vento e chuva.
Tristan McLean desceu a escada e se aproximou, usando uma calça de flanela quadriculada e uma camiseta branca.
Claro. Tempestade tinha nos levado para a casa dos McLean, em Malibu. De alguma forma, ele sabia para onde ir. Tristan deve ter ouvido os gritos da filha e foi ver o que estava acontecendo.
Ele correu até nós, os chinelos quase saindo dos pés, a calça espalhando areia a cada passada, a camisa balançando ao vento. O cabelo escuro e desgrenhado caía nos olhos, mas não escondia a expressão alarmada.
— Piper, o que aconteceu? Eu estava no terraço e…
Ele congelou, vendo primeiro o rosto ferido da filha, depois o garoto caído na areia.
— Ah, não, não... — Ele correu até Piper. — O que… Como…? Quem…?
Depois de ter certeza de que Piper não corria perigo, ele se ajoelhou ao lado de Jason e tentou sentir alguma pulsação no pescoço. Então levou o ouvido à boca de Jason, para ouvir a respiração. Claro que não encontrou nada.
Ele nos encarou, consternado. Teve que olhar uma segunda vez para Clave, agachado ali perto, as enormes orelhas brancas espalhadas na areia.
Quase senti a Névoa girando em volta de Tristan, que tentava decifrar o que estava vendo, organizar tudo num contexto que seu cérebro mortal conseguisse entender.
— Foi um acidente de surfe? — arriscou. — Ah, Piper, você sabe como essas rochas são perigosas! Por que você não veio falar comigo…? Como…? Não importa, não importa.
Com as mãos trêmulas, ele tirou o celular do bolso do pijama e ligou para a emergência.
O celular chiou e apitou.
— Meu celular não está… Eu… eu não estou entendendo...
Piper caiu no choro, apertando o rosto no peito do pai.
Naquele momento, Tristan McLean poderia ter desmoronado de vez. Sua carreira tinha sido destruída; ele tinha perdido tudo pelo que trabalhara em toda a vida. E ainda encontrara a filha ferida junto do ex-namorado morto na praia de sua propriedade. Com certeza aquilo era suficiente para fazer evaporar a sanidade de uma pessoa. Calígula teria mais um motivo para celebrar a boa noite de sadismo.
No entanto, mais uma vez, a resiliência humana me surpreendeu. Tristan McLean pareceu determinado, totalmente concentrado no presente. Devia ter percebido que a filha precisava dele, que não era hora de desabar e de se desesperar. Ele tinha um último papel importante para interpretar: o papel de pai.
— Vai ficar tudo bem, meu amor — disse Tristan, aninhando a cabeça da filha. — Vai ficar tudo bem. A gente… a gente vai dar um jeito. A gente vai sobreviver a mais essa.
Ele se virou e apontou para Clave, ainda agachado perto do penhasco.
— Você.
pandos sibilou para ele, como um gato.
O sr. McLean piscou, a mente apagando tudo aquilo na marra.
Então ele apontou para mim.
— Você. Leve os outros lá para casa. Eu vou ficar aqui com Piper. Use o telefone fixo na cozinha e ligue para a emergência. Diga… — Ele olhou para o corpo de Jason. — Diga para virem imediatamente.
Piper ergueu o rosto para me encarar, os olhos inchados e vermelhos.
— Apolo, não volte mais. Não volte, ouviu bem? Só… só vá embora.
— Piper... — argumentou o pai. — Não é…
— NÃO VOLTE NUNCA MAIS! — gritou ela.
Subimos a escada bamba, e eu não sabia o que me afetava mais: o corpo exausto ou a pancada de dor e culpa se espalhando por meu peito. O choro de Piper, ecoando nos penhascos escuros, me acompanhou por todo o caminho até a casa.

24 comentários:

  1. Riordan é tão ruim quanto a Cassandra Clare!
    Qual o problema dos escritores de hoje? Pq eles gostam tanto de matar os personagens cruel e friamente? Estão até matando, ou planejando matar, personagens principais!!

    Ninguém mais gosta do velho e clássico "felizes para sempre"?

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    1. Mas aí quando o autor ñ mata ninguém todo mundo reclama também. ..

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    2. Todos os personagens terminarem felizes não representa nem um pouquinho a realidade (ok,que é uma ficção)...sempre achei que o Rick pegava leve com os protagonistas...bem,parece que isso mudará

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    3. O GRANDE POSEIDON29 de junho de 2018 11:00

      igual quem é você alasca e boa parte dos animes por ai

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    4. As cronicas de gelo e fogo , tem um peso sobre os escritores de hoje ( game of trones, Robem Stark...faz sucesso)

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  2. Eu entendo que Piper está sofrendo, mas no momento eu só quero matar ela.

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    1. Que idiota.
      Se fosse Annie e Percy, todo mundo ia ficar "mimimimi coitadinha".
      Mas quando é Jason e Piper fica com essas bobagens.

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  3. Nada a declarar. A não ser o fato de q eu completei um jarro de 2 litros com as lágrimas q caiam do meu rosto.

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  4. Eu fiquei com pena da Piper. Fiquei mesmo. Mas eu não consigo ama-la. Ela melhorou muito nesse livro, espero que isso não mate a parte legal dela.
    Ela sabia que algo assim ia acontecer. Ninguém desmente um oráculo. Que eu tô falando...
    AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHUHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHGHHHHHHHHH
    PQ O JASON? EU SEI QUE ALGUÉM TINHA QUE MORRER. Não quero falar melhor ele do que algum outro. Não quero nem pensar em outras possibilidades. Vou ser resiliente e aceitar...

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  5. É um saco um personagem querido morrer, parece até que os escritos querem fazer a gente chorar rios, mas... a realidade às vezes é melhor que um conto de fadas, eu acho. Felizes para sempre... não existe de verdade :/

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  6. Jasooooonnnnnn 😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭Rick Riordan não era pra seguir o exemplo da Cassandra Clare

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  7. Entendam em 2005 geral era criança,os livros acompanharam o crescimento dos leitores. Não esperem serem massageados,eu já tava achando que o jason morria a uma pá. Eis a vida dos herois. Eles costumam morrer cedo

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    1. Certas pessoas lêem livros como uma escapadinha da realidade
      Mas Ta difícil agora

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  8. piper a filha de afrodite sem a sua alma gemea bbbbbuuuuuuuaaaaaaa

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  9. Motherfucking Princess13 de junho de 2018 19:16

    Os humanos que mereciam morrer viviam uma eternidade; e os que mereciam viver sempre iam cedo demais.

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  10. Motherfucking Princess13 de junho de 2018 19:17

    😢😒😳😞😟😦😧😯😫😖😭

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  11. manoo, ele morreu com a espada na mão, vai que uma valquiria aparece e ele vai pro hotel valhala

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    1. tava pensando nisso ele ir pra valhala e depois dar um jeito de voltar e isso desencadear um acontecimento catastrófico

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  12. Filho de Júpiter16 de junho de 2018 16:14

    Ñ acredito que Jason morre mds 😭😭😭

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  13. RICK RIODAN EU DESEJO DO FUNDO DA MINHA ALMA QUE HADES O JOQUE COMO OFERENDA AO CAOS! E isso é o minimo que vc merece pelo que FEZ!

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  14. Acho que a Apolo aprendeu muito com os dois(Jason e Piper)
    Até mais que com Leo e Calipso

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    1. Verdade. Mesmo assim os haters só sabem ficar "hateando" o Jason e a Piper.

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  15. Day filha de Atena20 de julho de 2018 09:46

    Eu entendo que a Piper tá sofrendo ,mais ela fica chingando o Apolo , e ele quase se matou por ela e os outros .Ela devia valorizar isso

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  16. Eu não acreditooooo, Meu pq matar o Jason? Ficções não devia imitar a vida real, se quisesse ler sobre vida real não leria livros de aventura e ficção, ODIEI vc Rick.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!