9 de junho de 2018

Capítulo 33

PETER CHEGA CEDINHO na minha casa para me buscar. Todo mundo vai junto, mas Peter queria que fôssemos só nós dois no carro dele. Ele está de bom humor; trouxe donuts para nós, como antigamente. Mas disse que dessa vez são todos para mim. Desde que voltou do fim de semana de treinamento com o time de lacrosse, ele está se dedicando a manter a forma.
Estamos ajeitando as coisas no carro dele para abrir espaço para a minha mala quando Kitty vem correndo dizer oi. Ela vê a embalagem de donuts em cima da minha bolsa e pega um. Com a boca cheia, diz:
— Peter, Lara Jean já contou sobre a Coreia?
— O que sobre a Coreia? — diz ele.
Eu olho para Kitty de cara feia.
— Eu ia contar agora. Peter, não tive oportunidade de contar ontem… Meu pai vai nos mandar para a Coreia como presente de formatura.
— Uau, que legal — diz Peter.
— É, nós vamos ver nossos parentes e fazer uma viagem pelo país.
— Quando?
Eu olho para ele.
— Mês que vem.
— Por quanto tempo? — pergunta ele.
— O mês inteiro.
Peter olha para mim, consternado.
— Um mês? Por que tanto tempo?
— Eu sei.
Já estamos em meados de junho. Só restam mais dois meses de verão agora, e depois ele vai ficar aqui e eu vou para Chapel Hill.
— Um mês… — repete ele.
Antes de Peter, eu nem pensaria duas vezes em passar um mês na Coreia. Teria amado. Agora… eu nunca confessaria para papai, Margot e Kitty, mas não quero ir. Não quero. Quero, mas não quero.
Quando estamos no carro, a caminho, eu digo:
— Vamos nos falar pelo FaceTime todos os dias. São treze horas de diferença, então, se eu ligar para você à noite, vai ser manhã aqui.
Peter parece desanimado.
— A gente ia passar o fim de semana do feriado de Quatro de Julho na casa de Bledell, lembra? O pai dele comprou um barco novo. Eu ia ensinar você a fazer wakeboard.
— Eu sei.
— O que eu vou fazer quando você estiver lá? O verão vai ser horrível. Eu queria levar você no Pony Pasture.
O Pony Pasture é um parque no rio James, em Richmond. Tem pedras enormes onde a gente pode deitar, e dá para flutuar pelo rio em boias. Peter já foi com uns amigos da escola, mas eu nunca fui.
— A gente pode ir quando eu voltar — respondo, e ele assente com desânimo. — E vou trazer muitos presentes. Máscaras faciais. Doces coreanos. Um presente por dia!
— Traga meias de tigre.
— Se fizerem do seu tamanho — digo, só para fazer piada, só para fazê-lo rir.
Esta vai ter que ser a melhor e a mais perfeita semana do mundo, para compensar o fato de que vou passar o verão fora.
O celular de Peter toca, e ele ignora a ligação sem olhar para ver quem é. Um minuto depois, toca de novo, e Peter franze a testa.
— Quem é? — pergunto.
— Meu pai — diz ele secamente.
— Espero que esteja ligando para pedir desculpas e explicar como pôde perder a formatura do próprio filho.
— Eu já sei por quê. Ele disse para minha mãe que Everett teve uma reação alérgica e tiveram que levar ele para o pronto-socorro.
— Ah… Acho que é uma boa desculpa. Everett está bem?
— Está ótimo. Acho que ele nem é tão alérgico. Quando eu como morango, minha língua coça. Grande coisa.
Peter aumenta a música, e não conversamos por um tempo.

* * *

A casa das garotas fica na segunda rua, com vista para a praia. Fica sobre estacas, como todas as casas vizinhas. Tem três pisos, com a cozinha e a sala no térreo e os quartos nos dois andares de cima. Chris e eu estamos dividindo um quarto com duas camas no andar mais alto. Parece que estamos no topo de um farol. As colchas são turquesa com padrão de conchas. Tudo tem cheiro de maresia, mas não é uma casa ruim.
Todas as garotas da casa assumiram papéis diferentes, menos Chris, cujo papel tem sido dormir na praia o dia inteiro com uma garrafa de água cheia de cerveja. No primeiro dia, ela voltou com o peito e o rosto vermelhos como uma lagosta; a única parte que não estava queimada era a que ficou sob os óculos de sol. Isso a deixou sem graça, mas ela brincou dizendo que já está preparando o bronzeado para a Costa Rica. Pammy é a mãe. Ela prometeu aos pais que não beberia, então assumiu a missão de cuidar das outras garotas e levar água e analgésico na cama delas de manhã. Kaila é boa com a chapinha. Ela consegue até usar para fazer cachos, coisa que nunca consegui aprender. Harley é boa em coordenar e fazer planos com as outras casas.
Eu sou a cozinheira. Quando chegamos na casa, nós fomos ao mercado e fizemos uma compra grande, de frios, granola, macarrão e potes de molho, pastinhas e cereal. A única coisa que não compramos foi papel higiênico, que acabou no segundo dia. Toda vez que saímos da casa para almoçar ou jantar fora, uma de nós rouba um rolo de papel higiênico do banheiro do restaurante.
Não sei por que não compramos mais, mas acabou virando um jogo. Chris é a vencedora, porque conseguiu pegar um rolo de tamanho econômico, que escondeu embaixo da blusa.
Os garotos vão na nossa casa todos os dias para aproveitar a comida e também porque a casa deles já está cheia de areia. Foi até apelidada de Castelo de Areia. Sentar no sofá é como fazer esfoliação corporal, e você se levanta com a sensação de que foi toda lixada, de um jeito bem ruim.
Eu me pergunto se seria assim viver na casa de uma irmandade. No começo, é encantador, como aquelas pensões dos anos 1940, pegando esmalte emprestado e ouvindo música enquanto a gente se arruma, comendo sorvete na cama. Mas, na quarta-feira, Kaila e Harley têm uma briga e berram à uma da manhã porque alguém deixou a chapinha ligada e os nossos vizinhos chamaram a polícia. Na mesma noite, Pammy fica bêbada, e eu fico sentada ao lado dela na praia durante horas enquanto ela chora de culpa por não ter cumprido a promessa que fez aos pais. Na noite seguinte, algumas das garotas vão para uma boate e levam para casa três caras de Montana. Um tem um olhar esquisito, e eu tranco a porta do quarto naquela noite. Quando estou lá dentro com Chris, mando uma mensagem para Peter, que já foi para a casa dele. Ele volta imediatamente e acampa no andar de baixo “para ficar de olho neles”.
Peter e eu passamos os dias na praia, onde fico lendo e ele vai correr. Desde que chegamos, ele sai para correr toda hora, porque não pode malhar como faz em casa, na academia. Ele dá uma corrida longa de manhã, antes de ficar quente, uma curta ao meio-dia e outra longa no crepúsculo. Menos no dia que o faço ir comigo ao museu dos Irmãos Wright em Kill Devil Hills. Fui lá com minha família quando era criança, antes de Kitty nascer, mas eu era pequena demais para subir no monumento. Peter e eu vamos até o topo e apreciamos a vista.
Durante toda a semana, Peter continua o garoto encantador e cativante que é, principalmente na frente dos outros, sempre com um sorriso tranquilo no rosto, sempre o primeiro a sugerir uma atividade, um jogo. Mas comigo ele está distante. Apesar de estar bem ao meu lado, parece a quilômetros de distância. Inalcançável. Tentei falar sobre o pai dele de novo, mas ele só ri e foge do assunto. Ele também não falou mais sobre minha viagem para a Coreia.
Todas as noites tem uma festa em uma das casas, menos na nossa. Nós nunca organizamos uma porque Pammy tem medo de perder o depósito de segurança. O bom é que todos os grupos ficam juntos de um jeito que não acontecia na escola. Tem algo de libertador em saber que acabou. Nós não vamos ficar juntos assim de novo, então por que não? Com esse espírito, Chris fica com Patrick Shaw, um cara do clube de anime de Josh.
A festa de hoje é na casa de Peter. Não tenho ideia de como eles vão fazer para receber o depósito de segurança de volta, porque o lugar está coberto de areia. Uma das cadeiras de vime do deque está quebrada, tem latas de cerveja para todo lado e alguém se sentou no sofá bege da sala com uma toalha laranja molhada, e agora tem uma mancha laranja enorme no meio. Estou indo para a cozinha quando vejo John Ambrose McClaren olhando o que tem na geladeira.
Fico paralisada. O humor de Peter está tão instável. Não sei o que vai fazer quando vir John na casa dele.
Estou tentando decidir se devo procurar Peter e contar que John está aqui quando a cabeça de John aparece por trás da porta da geladeira. Ele está mastigando uma cenoura.
— Oi! Achei que poderia encontrar você aqui.
— Oi! — digo com alegria, como se não estivesse pensando em ir embora antes de ele me ver. Eu me aproximo, e ele me abraça com um dos braços, porque ainda está segurando a cenoura. — Você viu o Peter por aí? Esta é a casa onde ele está hospedado.
— Não, nós acabamos de chegar. — John está bronzeado, o cabelo queimado de sol, e ele usa uma camisa xadrez azul e branca e bermuda cáqui. — Onde você está hospedada?
— Bem perto daqui. E você?
— Nós alugamos uma casa em Duck. — Ele sorri e me oferece a cenoura. — Quer uma mordida?
Eu dou uma gargalhada.
— Não, obrigada. Que faculdade você escolheu, afinal?
— William and Mary. — John ergue a mão para dar um tapinha na minha. — Vou ver você lá, não é?
— Na verdade… eu vou para a UNC. Entrei pela lista de espera.
John fica boquiaberto.
— Sério? Que incrível! — Ele me puxa para um abraço. — Isso é maravilhoso. É o lugar perfeito para você, Lara Jean. Você vai amar.
Estou olhando para a porta da cozinha, pensando em como sair graciosamente da conversa, quando Peter entra com uma cerveja na mão. Ele para quando nos vê. Estou me encolhendo por dentro, mas ele só sorri e grita:
— McClaren! E aí?
Eles dão um abraço de garotos, em que um puxa o outro e eles batem o ombro. Quando se afastam, Peter olha para a cenoura na mão de John. Todos os dias, Peter faz um shake de proteína com cenoura e frutas vermelhas, e sei que deve estar aborrecido por John pegar uma. Ele comprou exatamente a quantidade de cenouras que vai precisar até o final da semana.
— Lara Jean estava me contando que entrou na UNC — diz John, apoiando as costas na bancada. — Estou morrendo de inveja.
— É, você sempre quis estudar lá, não é? — Peter ainda está olhando a cenoura.
— Desde que eu era pequeno. Era minha primeira escolha. — John me cutuca de um jeito brincalhão. — Essa garota entrou lá na surdina. Tirou a vaga de mim.
— Foi mal — digo sorrindo.
— Que nada, só estou brincando. — John morde a cenoura. — Mas eu talvez peça transferência. Vamos ver.
Peter passa o braço pela minha cintura e toma um gole de cerveja.
— Você devia fazer isso mesmo. Podíamos ir todos a um jogo do Tar Heels juntos. — Ele fala com amabilidade, mas consigo perceber a tensão em sua voz.
John também nota.
— Claro. — Em seguida, ele acaba com a cenoura e joga o cabo na pia. — Quero que vocês conheçam minha namorada, Dipti. Ela está em algum lugar por aqui.
Ele tira o celular do bolso e manda uma mensagem de texto.
Ainda estamos na cozinha quando ela nos encontra. Ela é mais alta do que eu, com aparência atlética, cabelo preto na altura dos ombros, pele morena, talvez de seja de descendência indígena. Tem dentes brancos e um sorriso bonito com uma covinha. Está usando um macaquinho branco de tecido leve e sandálias. Estou arrependida de ter decidido usar a camiseta da UVA de Peter com um short jeans. Nós nos apresentamos, e ela se senta na bancada e pergunta:
— Como vocês se conhecem?
— McClaren era meu melhor amigo no ensino fundamental — diz Peter. — Chamavam a gente de Butch Cassidy e Sundance Kid. Quem você acha que era o Butch e quem você acha que era o Sundance Kid, Dipti?
Ela ri.
— Não sei. Não vi o filme.
— Butch era o personagem principal. — Peter aponta para si. — E o Sundance Kid ali — ele aponta para John — era o companheiro. — Peter morre de rir, e estou me encolhendo por dentro, mas John só balança a cabeça, bem-humorado. Peter aperta o bíceps de John. — Você anda malhando? — Para Dipti, ele diz: — Esse garoto tinha braços de macarrão e só lia o dia todo, mas olha só para ele agora. Está um garanhão.
— Ei, eu ainda leio — retruca John.
— Quando Peter e eu ficamos juntos, eu achava que ele não sabia ler — digo, e John morre de rir.
Peter também ri, mas não com tanto gosto quanto um segundo antes.

* * *

No fim da festa, Peter diz que eu devia ficar lá em vez de voltar para a minha casa. Eu digo que não porque não estou com minha escova de dentes e outras coisas, mas na verdade estou irritada com ele pela forma como agiu na frente de John.
No caminho até minha casa, Peter diz:
— Dipti parece legal. McClaren tirou a sorte grande. Mas duvido que eles continuem juntos. Provavelmente, vão se visitar uma vez e terminar até o Natal, ou antes.
Eu paro de andar.
— Que coisa horrível de se dizer.
— O quê? Só estou sendo sincero.
Eu me viro para ele, e a brisa salgada da praia sopra meu cabelo no rosto.
— Tudo bem, se você “só está sendo sincero”, acho que eu também devia ser. — Peter ergue uma das sobrancelhas e espera que eu continue. — Você agiu como um cretino hoje. Insegurança não combina com você, Peter.
— Eu? — Peter faz um som de desprezo. — Inseguro? Com o quê? McClaren? Até parece. Você viu como ele abriu minha geladeira e comeu minha cenoura?
Eu começo a andar novamente, mais rápido.
— Não estou nem aí para as suas cenouras!
Ele corre para me alcançar.
— Você sabe que eu estou tentando entrar em forma para o lacrosse!
— Você é ridículo, sabia? — Agora, estamos em frente à casa. Andar com raiva faz você chegar mais rápido aos lugares. — Boa noite, Peter.
Eu me viro e começo a subir a escada, e Peter não tenta me impedir.

8 comentários:

  1. Peter PARA DE GRAÇA!!! n briguem meus nenes

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  2. adoro quando casais brigam, principalmente quando um não vai atrás do outro

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  3. Só gosto de brigas que terminam em sexo

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  4. Está chegando no final. Dá uma tristeza 😐

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  5. Quem esta com raiva sou eu! Achei que teria mais detalhes dessa viagem e quando da detalhes é briga deles! Aaaaaaaaa chateada.

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  6. na moral, acho a Lara Jean chata pra caramba, muito "politicamente correta".

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Boa leitura, E SEM SPOILER!