26 de junho de 2018

Capítulo 33

Precisamente naquele momento, Richard Campbell Gansey III estava a cento e quarenta e oito quilômetros de seu amado carro. Ele estava parado no acesso ensolarado da mansão de Washington dos Gansey, usando uma gravata furiosamente vermelha e um terno listrado de bom gosto e fina elegância. Ao lado dele estava Adam, o rosto estranho e belo parecendo pálido acima do tom ligeiramente escuro do próprio terno. Feito sob medida pelo mesmo italiano talentoso que fazia as camisas de Gansey, o terno era a armadura sedosa de Adam para a noite que eles tinham pela frente. Era a coisa mais cara que ele já tivera, o salário de um mês traduzido em lã penteada. O ar recendia a molho teriyaki, cabernet sauvignon e gasolina premium. Em algum lugar, um violino tocava com terrível triunfo. Estava impossivelmente quente.
Eles estavam a cento e cinquenta e seis quilômetros e vários milhões de dólares de distância da casa em que Adam fora criado.
O largo acesso circular era um quebra-cabeça de veículos: sedãs negros como smokings, caminhonetes em tons marrons de violoncelo, carros esportivos prateados de dois assentos e que poderiam caber na palma da sua mão, cupês brancos reluzentes com placas diplomáticas. Dois manobristas, tendo exaurido todas as soluções de estacionamento, fumavam e soltavam anéis de fumaça sobre os para-lamas de uma Mercedes encostada no meio-fio ao lado deles.
Gansey serpenteou por entre os carros.
— Sorte nossa que não precisamos nos preocupar em encontrar uma vaga.
A carona de helicóptero ainda não caíra bem no estômago de Adam. Ele não gostava de voar nem de ser visto chegando em um helicóptero. Ele havia passado trinta minutos esfregando a graxa da ponta dos dedos antes de eles partirem. Isso era o sonho, ou sua vida lá em Henrietta o era?
— Sorte nossa — ele ecoou.
Dois homens e uma mulher saíram pela porta da frente da casa. Mãos cortavam o ar; trechos da conversa ressoaram das sarjetas. “Já foi aprovada... legislação... maldito idiota... a esposa dele também é uma vaca.” O murmúrio dos convidados passou pela porta aberta atrás deles como se o trio tivesse trazido o som para fora. A visão através do vão era uma colagem de terninhos femininos e colares de pérolas, Vuitton e damasco.
Eram muitos. Muitos mesmo.
— Meu Deus — disse Gansey tragicamente, seus olhos sobre a reunião. — Bem, fazer o quê... — Ele deu um piparote em um fio invisível no ombro do terno de Adam e colocou uma folha de hortelã na língua. — Vai ser bom para eles conhecerem você.
Eles. Em algum lugar lá dentro estava a mãe de Gansey, estendendo as mãos para a turma faminta da capital com seus ternos comprados em lojas de departamentos, oferecendo-lhes um tesouro no céu em troca de votos. E Gansey fazia parte do pacote de vendas; não havia nada mais congressional que a família Gansey inteira debaixo do mesmo teto. Porque aqueles colares e aquelas gravatas vermelhas formavam a comitiva cativa que financiaria a campanha da sra. Richard Gansey II. E aqueles reluzentes sapatos masculinos e saltos de veludo eram os nobres cuja fidalguia Adam desejava.
Vai ser bom para eles conhecerem você.
Um riso, alto e confiante, cortou o ar. A conversa aumentou o volume para assimilá-lo.
Quem são essas pessoas, pensou Adam, para acreditar que sabem alguma coisa a respeito do resto do mundo?
Ele não podia deixar que isso transparecesse em seus olhos. Se ele lembrasse a si mesmo que precisava delas, daquelas pessoas, se lembrasse a si mesmo que aquilo era apenas um meio para atingir um fim, ficava um pouco mais fácil.
Além disso, Adam era bom em esconder coisas.
Gansey cumprimentou os convidados parados do lado de fora da porta. Apesar da reclamação anterior, ele estava completamente à vontade, um leão no Serengeti.
— Lá vamos nós — ele disse solenemente. E assim, de uma hora para outra, o Gansey de quem Adam havia ficado amigo, o Gansey por quem ele faria qualquer coisa, desapareceu, e em seu lugar estava o herdeiro nascido com um cordão umbilical de seda enrolado no pescoço de sangue azul.
A mansão Gansey se estendia diante deles. Havia Helen, agora afetada de propósito e decididamente fora de seu alcance, em um vestido preto justo, as pernas mais longas que o acesso da casa. “A que devemos brindar? A mim, é claro. Ah, sim, à minha mãe também.” Havia a ex-deputada Bullock e o presidente do Comitê Vann-Shoaling e havia o sr. e a sra. John Benderham, os maiores financiadores individuais da campanha do Partido Republicano no oitavo distrito. Por toda parte havia rostos que Adam vira nos jornais e na televisão.
Tudo cheirava a folhados e a ambição.
Dezessete anos antes, Adam havia nascido em um trailer. Eles podiam ver isso nele.
Ele sabia disso.
— O que esses dois belos sacanas estão aprontando?
Gansey riu: Hahaha. Adam se virou, mas a pessoa que havia falado já tinha passado.
Alguém pegou a mão de Gansey.
— Dick! Que bom ver você.
O violino invisível lamentou. A acústica do lugar dava a impressão de que o instrumento estava aprisionado no sofá de espaldar alto junto à porta. Um homem de camisa branca colocou cálices de champanhe em suas mãos. Era refrigerante de gengibre, doce e fraudulento.
Uma mão bateu na nuca de Adam; ele se encolheu, assustado. Na sua cabeça, ele rolava escada abaixo na casa de seu pai, os dedos se agarrando à terra. Ele jamais parecia conseguir deixar Henrietta para trás. Podia sentir uma imagem, uma aparição, pairando atrás de seus olhos, mas a empurrou para longe. Não aqui, não agora.
— Nós sempre precisamos de sangue novo! — retumbou o homem. Adam estava suando, alternando-se entre a memória de ver estrelas girando em torno da cabeça e o fato da agressão presente. Gansey tirou a mão do homem da nuca de Adam e o cumprimentou. Adam sabia que estava sendo resgatado, mas a sala estava barulhenta e apertada demais para que ele expressasse gratidão.
— É o que temos no momento — disse Gansey.
— Vocês são realmente jovens — disse o homem.
— Este é Adam Parrish — disse Gansey. — Cumprimente-o. Adam é mais inteligente do que eu. Um dia vamos organizar um desses bailes para ele.
De alguma maneira, Adam conseguiu passar um cartão de visita para a mão do homem; outra pessoa o serviu de refrigerante de gengibre. Não, dessa vez era champanhe. Adam não bebia álcool. Gansey delicadamente tirou o cálice da mão dele e o colocou sobre uma mesa antiga com marfim embutido. Com um dedo, limpou uma única gota de vinho tinto que manchava a superfície. Vozes lutavam umas com as outras; a voz mais grave venceu. “Oito meses atrás nós estávamos neste mesmo ponto da campanha”, um homem com um enorme alfinete de gravata disse para outro com a testa enormemente reluzente. “Às vezes você simplesmente arruma fundos e torce para que dê certo.” Gansey apertava mãos e ombros. Ele conseguia fazer com que as mulheres confessassem seus nomes e então as fazia acreditar que já as conhecia. Ele sempre chamava Adam de Adam Parrish. Todo mundo sempre o chamava de Dick. Adam juntou um buquê de cartões de visita. Seu quadril bateu em um móvel com pés em forma de patas de leão; cristais irlandeses tilintaram na luminária sobre ele. Um espírito tocou seu cotovelo. Não aqui, não agora.
— Se divertindo? — perguntou Gansey. Ele não parecia estar se divertindo muito, mas seu sorriso era à prova de balas. Seus olhos varreram a sala enquanto ele bebia seu refrigerante de gengibre ou seu champanhe. Ele aceitou outro cálice de uma bandeja sem rosto.
Eles avançaram para a próxima pessoa, e a próxima. Dez, quinze, vinte pessoas depois e Gansey era uma tapeçaria bordada de um rapaz, a juventude sonhada dos Estados Unidos, o filho principezinho educado da sra. Richard Gansey II. A sala o adorava.
Adam se perguntou se havia um sorriso de verdade naquela manada de animais ricos.
— Dick, finalmente, você está com as chaves do Fiat? — Helen se aproximou deles olhando Gansey nos olhos, em um par de sapatos de salto pretos que pareciam sensatos em todas as outras mulheres no ambiente e extraordinariamente sexy nela. Ela era, pensou Adam, o tipo de mulher que Declan estava sempre tentando conquistar, sem perceber que ela não era do tipo conquistável. Você podia adorar a beleza eficiente e lustrosa de um trem-bala novo em folha, mas apenas um tolo poderia imaginar que ele corresponderia ao seu amor.
— Por que eu estaria? — perguntou Gansey.
— Ah, sei lá. Todos os carros estão bloqueados, menos aquele. Aqueles manobristas idiotas. — Ela inclinou a cabeça para trás e olhou para o teto com uma árvore pintada. — A mamãe quer que eu vá comprar mais bebida. Se você for comigo, posso usar a faixa para veículos com dois ocupantes ou mais e não passar o resto da vida indo buscar vinho. — Ela notou Adam. — Ah, Parrish. Você fica bem elegante assim.
Ela não quis dizer nada além disso, nada mesmo, mas Adam sentiu como se um perfurador de gelo picasse seu coração.
— Helen — disse Gansey. — Cala a boca.
— É um elogio — disse Helen. Um garçom substituiu os drinques vazios por cheios.
Lembre-se por que você está aqui. Entre, pegue o que precisa e saia. Você não é um deles.
— Está tudo bem — disse Adam tranquilamente, abrandando o sotaque.
— Eu quis dizer que vocês estão sempre com o uniforme da escola — disse Helen. — Não, tipo...
— Cala a boca, Helen.
— Não venha com chilique para cima de mim — ela respondeu —, só porque você gostaria de estar na sua amada Henrietta.
Uma expressão passageira cruzou o rosto de Gansey; ela adivinhara certo. A presença dele ali o estava matando.
— Por que, mais uma vez, você não trouxe o outro? — perguntou Helen. Mas, antes que Gansey pudesse responder, outra pessoa chamou a atenção dela e Helen se deixou ir tão rapidamente quanto aparecera.
— Que pensamento assustador — observou Gansey subitamente. — O Ronan no meio dessa gente.
Por um momento fugaz, Adam pôde imaginar a cena: as cortinas de brocados se decompondo em chamas, os consortes gritando debaixo do cravo, Ronan parado em meio a tudo aquilo dizendo “Foda-se Washington”.
— Pronto para a próxima rodada? — perguntou Gansey.
A noite jamais terminaria.
Mas Adam continuou observando.
Ele engoliu seu refrigerante de gengibre. Agora ele não tinha certeza se não havia sido champanhe desde o começo, na realidade. A festa havia se tornado um festim diabólico: fogos-fátuos capturados em lanternas de bronze, carnes de um brilho impossível servidas em bandejas com filigranas sinuosas, homens de preto, mulheres usando joias verdes e vermelhas. As árvores pintadas no teto se curvavam baixas sobre a cabeça deles. Adam estava tenso e exausto, ali e em outro lugar. Nada era real, fora ele e Gansey.
Diante deles, estava uma mulher que havia falado com a mãe de Gansey poucos instantes atrás. Todas as pessoas que se aproximavam de Gansey haviam falado ou cumprimentado ou visto de relance a mãe dele poucos instantes atrás, movendo-se em meio aos convidados com roupas escuras. Era um jogo político elaborado, em que sua mãe fazia o papel de uma aparição querida, mas rara; embora todos se lembrassem de tê-la visto, ninguém conseguia realmente localizá-la no momento da recordação.
— Você cresceu tanto desde a última vez que o vi. Você deve estar com quase... — disse a mulher para Gansey e, no momento de adivinhar a idade dele, ela hesitou. Adam sabia que ela havia sentido aquela estranheza em seu amigo: aquela sensação de Gansey ser ao mesmo tempo jovem e velho, como se acabasse de chegar ou sempre tivesse existido.
Então foi salva por um olhar de relance para Adam. Rapidamente avaliando a idade dele, ela concluiu:
— Dezessete? Dezoito?
— Dezessete, senhora — disse Gansey, afetuosamente. E ele tinha, tão logo dissera isso. É claro que ele tinha dezessete anos e nada mais. Algo parecido com alívio passou pelo rosto da mulher.
Adam sentiu a pressão dos galhos da árvore cristalizada acima; à direita, captou uma meia-imagem de si em um espelho com moldura dourada e levou um susto. Por um momento, seu reflexo parecera errado.
Estava acontecendo. Não, não, não está acontecendo. Não aqui, não agora.
Um segundo olhar de relance revelou uma imagem mais clara. Nada estranho.
Ainda.
— Creio ter lido no jornal que você ainda está procurando aquelas joias da coroa — a mulher disse a Gansey.
— Ah, estou procurando um rei de verdade — ele respondeu, falando alto para ser ouvido sobre o violino (havia três deles, na realidade; o último homem o havia informado de que se tratava de estudantes da Peabody ). As cordas oscilavam como se o som viesse de debaixo d’água. — Um rei galês do século XV.
A mulher riu com prazer. Ela havia interpretado Gansey erroneamente e achou que ele fizera uma piada. Gansey riu também, como se tivesse feito uma piada, e qualquer constrangimento que pudesse ter surgido foi rapidamente afastado. Adam tomou nota disso.
E agora, finalmente, lá estava a sra. Gansey, pairando no canto de sua visão como um sonho materializado. Como o próprio Gansey, ela era intrinsecamente bela de uma maneira que somente alguém que sempre tivera dinheiro poderia ser. Parecia certo que uma festa inteira fosse realizada em sua honra. Ela era uma rainha merecedora da noite.
— Gloria — disse a sra. Gansey para a mulher. — Adorei esse colar. É claro que você se lembra do meu filho Dick, não é?
— É claro que sim — disse Gloria. — Ele está tão alto. Você vai entrar para a faculdade logo, estou certa?
As duas mulheres se viraram para ouvir a resposta. Os violinos atingiram notas agudas na escala.
— Bem, é... — E então, de uma hora para outra, Gansey vacilou. Não foi bem uma parada completa. Apenas uma falha em deslizar suavemente de um momento para o outro. Houve apenas tempo suficiente para Adam perceber o hiato, e então Gansey disse: — Desculpe, achei que tinha visto alguém.
Adam o encarou. Havia uma pergunta tácita em seu olhar. O olhar devolvido por Gansey era complicado; não, ele não estava bem, mas não, não havia nada que Adam pudesse fazer a respeito. Adam sentiu uma alegria breve e cruel de que aquelas pessoas também conseguissem atingir Gansey. Como ele as odiava.
— Ah, estou vendo uma pessoa. Com licença — disse Gansey, impecavelmente educado. — Desculpe, mas vou deixá-las com... Sra. Elgin, este é meu amigo Adam Parrish. Ele tem ideias interessantes a respeito dos direitos dos viajantes. A senhora tem pensado a respeito dos direitos dos viajantes ultimamente?
Adam tentou lembrar quando fora a última vez que ele e Gansey haviam conversado a respeito dos direitos dos viajantes. Ele tinha bastante certeza de que toda a discussão ocorrera enquanto eles comiam uma pizza sem graça, e que tinha algo a ver com os scanners corporais funcionando como verdadeiros fornos de micro-ondas nas células do cérebro de viajantes habituais. Mas, agora que ele tinha visto Gansey em ação, sabia que o amigo desdobraria a coisa toda em uma epidemia política solucionável por sua mãe.
— Não tenho — respondeu Gloria Elgin, deslumbrada com o jeito Gansey de ser. — Normalmente nós usamos o Cessna de Ben. Mas eu gostaria de ouvir a respeito.
Quando ela se virou para Adam, Gansey desapareceu em meio às pessoas.
Por um momento, Adam não disse nada. Ele não era Gansey, não deslumbrava, era um impostor com uma taça de champanhe falso na mão esguia feita de pó.
Ele olhou para a sra. Elgin. Ela olhou de volta para ele através dos cílios.
Com um choque, Adam percebeu que a intimidava. Parado ali, em seu terno impenetrável e sua gravata vermelha, jovem, de ombros retos e asseado, ele havia conseguido realizar qualquer que fosse a estranha alquimia que Gansey fazia. Talvez pela primeira vez na vida, alguém o olhava e via poder.
Adam tentou evocar a magia que vira Gansey fazer aquela noite. Sua mente derivou com o ruído daquela companhia cintilante, o bruxulear no fundo de seu copo de champanhe, o conhecimento de que aquele era o futuro, se ele o fisgasse.
ele estava em uma floresta, sussurros o perseguiam
Não aqui.
Então ele disse:
— Posso servir a senhora de mais champanhe primeiro?
O rosto da sra. Elgin se derreteu com prazer enquanto ela oferecia o copo.
Você não sabe?, perguntou-se Adam. Ele, pelo menos, ainda conseguia sentir o cheiro de diesel nas mãos. Você não sabe quem eu sou?
Mas aquele bando de pavões estava ocupado demais com bobagens para notar que estavam sendo enganados.
Adam não conseguia se lembrar do motivo pelo qual estava ali. Ele estava se dissolvendo em uma alucinação de convidados fantasmagóricos, ao lado dos convidados de verdade.
Porque isso é a Aglionby, ele pensou, tentando desesperadamente se controlar. É isso que acontece à Aglionby no mundo real. É assim que você usa aquela educação pela qual trabalhou tão duro. É assim que você vai conseguir sair.
Subitamente, um chiado elétrico percorreu a sala. As luzes baixaram e deram estalidos. O tilintar de copos parou, enquanto as lâmpadas se intensificaram mais uma vez.
E então as luzes se apagaram completamente.
Aquilo era real?
Não agora.
O sol tinha se posto, e o interior da casa parecia fechado e marrom-escuro ao redor dos convidados. As janelas eram quadrados desfocados de luz cinzenta da rua. Os cheiros pareciam estranhamente pronunciados: lilás e limpador de tapetes, canela e mofo. A sala foi tomada pelo arrastar de pés mudo de um curral.
E naquela breve pausa na conversa, naquele silêncio chocado preenchido nem com o burburinho das vozes, tampouco com ruídos eletrônicos, uma canção aguda flutuou através da escuridão. Uma melodia precisa, arcaica, cantada por um coro de vozes femininas. Pura e fina, expandindo-se de um fio para um rio de som. Adam precisou apenas de um momento para perceber que as palavras não eram em inglês.
Rex Corvus, parate Regis Corvi.
Adam se sentiu carregado dos pés até a ponta dos dedos.
Em algum lugar na escuridão, Gansey estava ouvindo aquilo também. Adam podia senti-lo ouvindo. Aquelas vozes eram verdadeiras de uma maneira que nada mais havia sido aquele dia. Adam lembrou imediatamente como era sentir, ser real, ser Adam, em vez de meu amigo Adam Parrish, passe para ele o seu cartão. Ele não pôde acreditar na diferença enorme que havia entre essas duas coisas.
As luzes voltaram com tudo. As conversas retomaram o ambiente.
Alguma parte de Adam ainda se aninhava lá na escuridão.
— Aquilo era espanhol? — perguntou Gloria Elgin, a mão pressionando a garganta.
Adam podia ver a linha de sua maquiagem no queixo.
— Latim — ele respondeu, tentando encontrar o rosto de Gansey em meio às pessoas. Seu pulso ainda galopava. — Era latim.
O rei Corvo, abram caminho para o rei Corvo.
— Que coisa engraçada — disse Gloria Elgin.
Owen Glendower era o rei Corvo. Havia tantas histórias a respeito de Glendower saber a língua dos pássaros. Tantas histórias de corvos sussurrando segredos para ele.
— Provavelmente foi uma sobrecarga — respondeu Adam. Os cartões de visita em seu bolso pareciam irrelevantes. Ele ainda estava procurando pelo único par de olhos na sala que importava. Onde estava Gansey? — O ar-condicionado de todo mundo ligado ao mesmo tempo.
— Provavelmente — disse Gloria Elgin, confortada.
A conversa em tomo deles sussurrava: “Esses garotos da Peabody têm um senso de humor dos diabos! Vou querer mais um daqueles camarões. O que você estava dizendo? O que você fez quando o mármore rachou?”
Lá, do outro lado da sala, estava Gansey. Seu olhar se fixou em Adam e ali ficou.
Embora as luzes tivessem voltado, as vozes há tempo se dissipado, Adam ainda podia sentir o poder da linha ley recentemente desperta rugindo debaixo dele, pelo caminho todo até Henrietta. Aquela anfitriã cintilante já tinha seguido em frente, mas não Adam.
Não Gansey. Eles eram as duas únicas coisas vivas naquela sala.
Está vendo?, Adam teve vontade de gritar. Foi por isso que eu fiz o sacrifício.
Era assim que ele encontraria Glendower.

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