20 de junho de 2018

Capítulo 33

Estava escuro quando Gansey deixou a casa dos pais. Ele estava cheio da energia angustiada e insatisfeita que ultimamente sempre parecia se instalar em seu coração depois de visitar a casa dos pais. Tinha algo a ver com o conhecimento de que a casa deles não era mais verdadeiramente sua — se é que fora um dia — e com a percepção de que eles não haviam mudado, mas Gansey havia.
Ele baixou a janela e colocou a mão para fora enquanto dirigia. O rádio tinha parado de funcionar novamente, e a única música que se ouvia era a do motor; o Camaro era mais barulhento depois de escurecer.
A conversa com Pinter corroía Gansey por dentro. Suborno. Então era a esse ponto que a coisa havia chegado. Ele desconfiou que o sentimento que possuía dentro de si era vergonha. Não importava quanto se esforçasse, ele sempre voltava a ser um Gansey.
Mas de que outra maneira conseguiria manter Ronan em Aglionby e em Monmouth? Ele repassou os pontos principais de sua futura conversa com Ronan, e todos eles soaram com coisas a que Ronan não daria atenção. Era tão difícil assim para ele ir às aulas? Quão difícil poderia ser passar só mais um ano na escola?
Gansey ainda tinha meia hora de estrada até chegar a Henrietta. Em uma cidadezinha que consistia apenas de um posto de gasolina artificialmente luminoso, Gansey parou no semáforo que ficou vermelho para o cruzamento de um tráfego invisível.
Tudo que Ronan tinha de fazer era ir às aulas, fazer as tarefas, conseguir as notas. E então ele estaria livre e receberia seu dinheiro de Declan e poderia fazer o que bem entendesse.
Gansey conferiu o telefone. Nenhum sinal. Ele queria falar com Adam.
A brisa que entrava pela janela enchia o interior do carro com aromas de folhas e de água, coisas em crescimento e coisas secretas. Mais do que qualquer coisa, Gansey queria passar mais tempo em Cabeswater, mas as aulas tomariam tempo demais na semana seguinte — não poderia haver mais tolerância para nenhum dos dois após a conversa com Pinter — e, depois da escola, ele tinha de arrastar Ronan para o dever de casa. O mundo estava se abrindo na frente de Gansey, Noah precisava dele e Glendower parecia uma possibilidade novamente. E, em vez de sair à caça e aproveitar a oportunidade, Gansey tinha de dar uma de babysitter.
Maldito Ronan.
A luz ficou verde. Gansey pisou tão forte no acelerador que os pneus guincharam e fizeram fumaça. O Pig partiu como um foguete. Maldito Ronan.
Gansey foi passando as marchas, muito rápido. O motor afogando a batida do seu coração. Maldito Ronan. O ponteiro subiu no velocímetro e tocou a área de advertência vermelha.
Gansey havia atingido o limite de velocidade. O carro tinha muito mais para dar. O motor se saía bem naquele ar frio, era rápido e descomplicado, e Gansey queria realmente ver o que aconteceria se corresse mais.
Ele se recompôs, soltando um suspiro áspero.
Se tivesse sido Ronan, ele teria seguido em frente. A questão quanto a Ronan era que ele não tinha limites, temores, fronteiras. Se Gansey tivesse sido Ronan, ele teria afundado o pé no acelerador até que a estrada, um policial ou uma árvore o tivessem parado. Ele faltaria à aula no dia seguinte para ver a floresta. Ele diria a Ronan, caso este se desse o trabalho de ouvi-lo, que ser expulso era problema dele.
Gansey não sabia ser essa pessoa.
Abaixo dele, o Camaro estremeceu abruptamente. Gansey aliviou o acelerador e conferiu todos os medidores mal iluminados, mas nada chamou sua atenção.
Logo em seguida, o carro estremeceu de novo e Gansey sabia que estava com problemas.
Ele só teve tempo de encontrar um local ligeiramente plano para parar o carro quando o motor morreu, como havia feito no Dia de São Marcos. Enquanto margeava a estrada abandonada, ele tentou a chave, mas não havia nada.
Gansey se permitiu o prazer escasso de um palavrão suspirado, o pior que ele conhecia, e então saiu do carro e abriu o capô. Adam havia lhe ensinado o básico: mudar as velas de ignição, drenar o óleo. Se houvesse uma correia solta ou a extremidade de uma mangueira recentemente rasgada saindo para fora das entranhas do carro, ele talvez fosse capaz de consertar. Do jeito que estava, o motor era um mistério.
Ele tirou o telefone do bolso de trás e descobriu que só tinha um fiapo de sinal. O suficiente para provocá-lo, mas não para fazer uma ligação. Gansey caminhou ao redor do carro como a Estátua da Liberdade. Nada.
Amargamente, ele se lembrou da sugestão do pai de que pegasse o Suburban para voltar.
Ele não estava certo sobre a distância que havia percorrido desde o posto de gasolina, mas parecia estar próximo do limite de Henrietta. Se começasse a caminhar na direção da cidade, ele poderia conseguir um sinal antes de chegar ao próximo posto. Talvez ele devesse apenas ficar onde estava. Às vezes, quando o Pig parava, começava a funcionar de novo após o motor ter esfriado um pouco. Mas ele estava agitado demais para ficar parado.
Ele mal tinha terminado de trancar o carro quando luzes de faróis pararam atrás do Camaro, cegando-o. Gansey desviou o rosto e ouviu a porta de um carro bater e passos rangendo sobre o cascalho solto ao lado da estrada.
Por um piscar de olhos, a figura à sua frente não lhe pareceu familiar, um homúnculo em vez de um homem. Então Gansey o reconheceu. Ele disse:
— Sr. Whelk?
Barrington Whelk usava uma jaqueta escura e tênis de corrida, e havia algo estranho e intenso nos traços exagerados de seu rosto. Era como se ele precisasse fazer uma pergunta, mas não conseguisse achar as palavras. Ele não disse “Problemas com o carro?” ou “Sr. Gansey?” ou qualquer uma das coisas que Gansey achou que ele poderia dizer.
Em vez disso, lambeu os lábios e soltou:
— Eu quero aquele seu livro. E é melhor me passar o celular também.
Gansey achou que só podia ter ouvido mal, então perguntou:
— Como?
Whelk tirou uma arma pequena, impossivelmente real, do bolso da jaqueta escura.
— Aquele livro que você leva para a aula. E o celular também. Vamos.
De certa maneira, era difícil processar a arma. Era difícil passar da ideia de que Barrington Whelk era um sujeito horripilante de uma maneira a respeito da qual era divertido brincar com Ronan e Adam para a ideia de que Barrington Whelk tinha uma arma e a estava apontando para Gansey.
— Bom — Gansey piscou. — Tudo bem.
Não parecia haver nada mais a dizer. Ele preferia sua vida a quase todos os seus bens, com a possível exceção do Camaro, e Whelk não havia pedido o carro. Gansey passou o celular para Whelk.
— O diário está no carro — explicou.
— Vá pegar — ordenou Whelk, apontando a pistola para o rosto de Gansey.
Gansey destrancou o Camaro.
Na última vez em que o tinha visto, Whelk estava entregando um teste sobre a quarta declinação dos substantivos em latim.
— Nem pense em tentar fugir nessa coisa — disse Whelk.
Não havia ocorrido a Gansey que, se o Camaro estivesse funcionando, fugir seria uma opção.
— Também quero saber por onde você andou esta semana — disse Whelk.
— Perdão? — perguntou Gansey educadamente. Ele estivera remexendo o banco de trás em busca do diário, e os papéis amarfanhados haviam abafado a voz de Whelk.
— Não teste a minha paciência — disparou Whelk. — A polícia ligou para a escola. Não posso acreditar. Depois de sete anos. Agora eles vão fazer um milhão de perguntas e só vão precisar de dois segundos para responder a um monte delas com o meu nome. Isso é tudo culpa sua. Sete anos e eu achei que estava... Estou ferrado. Você me ferrou.
Quando Gansey saiu do Camaro com o diário nas mãos, ele se deu conta do que Whelk estava dizendo: Noah. Aquele homem à sua frente havia matado Noah.
Gansey começara a sentir algo em algum ponto de suas entranhas. Ainda não parecia medo. Era algo tenso como uma ponte de cordas. Era a suspeita de que nada mais na vida de Gansey havia sido real, exceto aquele momento.
— Sr. Whelk...
— Me diz onde você esteve.
— Nas montanhas, perto de Nethers — disse Gansey, com a voz remota. Era verdade, e, de qualquer maneira, não importava se ele tinha mentido ou não; ele havia incluído as coordenadas do GPS no diário que estava prestes a passar adiante.
— O que você encontrou? Encontrou Glendower?
Gansey se encolheu, e o gesto o surpreendeu. Ele havia se convencido, de alguma forma, de que aquilo estava relacionado a alguma outra coisa, mais lógica. Por isso, ao ouvir o nome de Glendower, ele ficou chocado.
— Não — respondeu Gansey. — Nós encontramos um desenho entalhado no chão.
Whelk estendeu a mão para o diário. Gansey engoliu em seco.
Então perguntou:
— Whelk... senhor... tem certeza que essa é a única maneira?
Ouviu-se um inconfundível e suave clique. Era um som que ele conhecia de tanto assistir a filmes de ação e videogames. Apesar de Gansey nunca o ter ouvido pessoalmente antes, sabia exatamente que som uma pistola fazia quando a trava de segurança era removida.
Whelk colocou o cano da arma na testa de Gansey.
— Não — disse Whelk. — Esta é a outra maneira.
Gansey teve o mesmo sentimento de distanciamento que tivera na Indústria Monmouth olhando para a vespa. Ele viu a realidade imediatamente: uma arma pressionada contra sua pele, acima das sobrancelhas, tão fria a ponto de parecer afiada — e também a possibilidade: o dedo de Whelk puxando para trás, uma bala entrando em seu crânio, a morte em vez do caminho de volta para Henrietta.
O diário pesava em suas mãos. Ele não precisava dele. Gansey sabia tudo que havia ali.
Mas o diário era ele. Gansey estava abrindo mão de tudo que havia trabalhado para conquistar.
Vou conseguir um novo.
— Se você tivesse perguntado — disse Gansey —, eu teria contado a você tudo que tem nele. Teria sido um prazer. Não era um segredo.
A arma tremeu contra a testa de Gansey. Whelk disse:
— Não acredito que você está argumentando quando eu tenho uma arma apontada para a sua cabeça. Não acredito que você tenha se dado o trabalho de dizer isso.
— É assim — respondeu Gansey — que você sabe que é verdade. — Ele deixou Whelk tomar o diário.
— Tenho nojo de você — disse Whelk, segurando o livro contra o peito. — Você se acha invencível. Sabe de uma coisa? Eu também achava.
Quando ele disse isso, Gansey soube que Whelk iria matá-lo. Pois não havia como alguém ter tanta raiva e rancor na voz segurando uma arma e não puxar o gatilho.
O rosto de Whelk ficou tenso.
Por um instante, não houve tempo: apenas o espaço entre uma respiração que escapava e outra que acorria.
Sete meses antes, Ronan havia ensinado a Gansey como aplicar um gancho.
Bata com o corpo, não apenas com o punho.
Olhe onde você está socando.
Cotovelo a noventa graus.
Não pense em quanto isso vai doer.
Gansey, repito: não pense em quanto isso vai doer.
E ele golpeou.
Gansey se esqueceu de quase tudo que Ronan havia lhe dito, mas se lembrou de olhar, e foi apenas isso — e um pouco de sorte — que derrubou a arma no cascalho ao lado da estrada.
Whelk deu um grito sem palavras.
Ambos se lançaram sobre a arma. Gansey, caindo sobre um joelho, chutou cegamente na direção dela. Ele ouviu o pé fazer contato com algo. O braço de Whelk primeiro, então algo mais sólido. A arma voou no chão, indo para perto das rodas traseiras do carro, e Gansey chegou tateando até o outro lado do Camaro. A luz dos faróis do carro de Whelk não alcançava aquele lado. Seu único pensamento era encontrar cobertura e ficar imóvel na escuridão.
Havia silêncio do outro lado do carro. Lutando para manter a respiração ofegante sob controle, Gansey encostou o rosto contra o metal quente do Pig. O polegar da mão latejava onde ele havia atingido a arma.
Não respire.
Ao lado da estrada, Whelk praguejava de novo, e de novo, e de novo. O cascalho rangeu quando ele se agachou ao lado do carro. Ele não conseguia encontrar a arma e praguejou de novo.
Longe dali, um motor zuniu. Outro carro, possivelmente vindo naquela direção. Alguém para salvá-lo, ou pelo menos uma testemunha.
Por um momento, Whelk ficou completamente em silêncio, e então, abruptamente, saiu correndo, seus passos desaparecendo na distância à medida que voltava para o próprio carro.
Gansey abaixou a cabeça e espiou embaixo da carroceria do Pig, que dava estalidos enquanto esfriava. Ele viu a silhueta delgada da arma entre os pneus traseiros, iluminada por trás pelos faróis do carro de Whelk.
Gansey não tinha certeza se Whelk estava batendo em retirada ou indo buscar uma lanterna. Recuou mais ainda na escuridão. Então esperou ali, com o coração palpitando nos ouvidos e a grama arranhando seu rosto.
O carro de Whelk acelerou na estrada, rugindo na direção de Henrietta.
O outro carro passou logo depois, sem notar nada.
Gansey ficou deitado na grama por um longo tempo, ouvindo o zunido dos insetos nas árvores à sua volta e os sons da respiração que o Pig emitia enquanto o motor esfriava. O polegar estava começando a doer bastante onde ele havia acertado a arma. Realmente, Gansey havia escapado com pouco mais que isso. Mas mesmo assim doía.
E o diário. Gansey se sentia ferido: a crônica de seus desejos mais intensos havia sido arrancada dele à força.
Como o carro de Whelk não voltou, Gansey se pôs de pé e foi até o outro lado do Camaro. Ele se ajoelhou e rastejou até onde pôde por baixo do carro, pescando a ponta da arma com o polegar bom. Devagar, acionou a trava de segurança.
Gansey podia ouvir a voz de Blue quando eles encontraram o corpo de Noah: impressões digitais!
Movimentando-se como em um sonho, Gansey abriu a porta do carro e largou a arma no banco do passageiro. Parecia que em outra noite, em outro carro, outra pessoa havia deixado a casa dos pais.
Ele fechou os olhos e virou a chave.
O Pig tossiu, tossiu, e então o motor pegou.
Ele abriu os olhos, e nada naquela noite parecia ser como antes.
Ligou os faróis e dirigiu de volta para a estrada. Pressionou o pedal do acelerador e testou o motor. Ele se manteve, sem nenhum soluço.
Então ele acelerou fundo e correu na direção de Henrietta. Whelk havia matado Noah, e ele sabia que seu segredo havia sido descoberto. Para onde quer que ele estivesse indo em seguida, não tinha mais nada a perder.

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