26 de junho de 2018

Capítulo 32

— Entre — disse Ronan.
— Aonde vamos? — perguntou Matthew. Mas ele já estava entrando, jogando a sacola no banco de trás. Ele fechou a porta. O interior do carro passou instantaneamente a cheirar a uma amostra de água de colônia.
Ronan pôs o BMW em movimento. A Aglionby foi sumindo no espelho retrovisor.
— Para casa.
— Para casa! — exclamou Matthew. Agarrando-se à maçaneta da porta, ele olhou sobre o ombro como se os transeuntes adivinhassem o seu destino. — Ronan, a gente não pode. O Declan disse...
Ronan pisou com tudo nos freios. Os pneus guincharam obsequiosamente e o carro parou bruscamente junto à calçada. O carro atrás deles buzinou e desviou do BMW.
— Você pode sair e caminhar de volta, se quiser. Mas eu estou indo. Você quer ou não?
Os olhos arredondados de seu irmão ficaram mais arredondados ainda.
— O Declan...
— Não diga o nome dele.
Covinhas apareceram no queixo de Matthew, do tipo que queriam dizer, quando ele tinha três ou quatro anos, que ele ia chorar. Mas ele não chorou. Ronan desejou por meio segundo não odiar Declan, pelo bem de Matthew.
— Tudo bem — disse Matthew. — Você tem certeza que não vai ter problema?
— Não — Ronan respondeu, porque ele sempre dizia a verdade.
Matthew colocou o cinto de segurança.
Ronan remexeu o aparelho de MP3 até encontrar uma playlist de músicas de bouzouki. Matthew não tocava desde que Niall Lynch morrera, mas fora bastante competente nesse instrumento antes disso. Parecia um gesto indulgente. Ronan racionava a música do passado deles, como se consumisse um pouco das memórias de seu pai toda vez que a tocasse. Certamente essa ocasião a justificava, no entanto.
À medida que a canção tangia dos alto-falantes, seu irmão mais novo deixava todo o ar escapar dos pulmões. E Ronan dirigiu para casa pela segunda vez.
Dessa vez parecia diferente. Trazer Matthew junto deveria ter feito o retorno à Barns parecer mais familiar do que antes, mas, em vez disso, serviu apenas para lembrar Ronan quão proibido isso era. A luz do sol tornou a viagem uma experiência mais ansiosa ainda, como se a luz brilhante os deixasse mais expostos enquanto eles avançavam pelo acesso da casa.
Ronan seguiu lentamente até verificar que o carro da enfermeira não estava ali, então deu a volta por trás da casa, onde ficava um galpão de equipamentos cercado de grama alta e tomado de mofo esverdeado.
— Abra aquela porta — ele ordenou a Matthew. — Vamos, rápido.
Matthew deixou o carro apressadamente, arrancou parte da trepadeira que cobria o galpão e lutou para levantar a porta de metal. Ele tirou um cortador de grama pequeno e enferrujado do caminho, e Ronan entrou com o BMW de ré. Ele o desligou, puxou a porta para baixo de novo e conferiu para ter certeza de que os pneus não haviam deixado marcas.
— James Bond — observou Matthew inexplicavelmente. Ele estava incrivelmente animado. — O que é isso?
Ronan segurava a caixa quebra-cabeça debaixo do braço.
— Uma caixa de sapatos.
Matthew inclinou a cabeça, trabalhando a questão. Ele procurou assimilar os fatos: a caixa perfeitamente quadrada era de madeira, coberta com marcas estranhas e vários centímetros mais curta que os pés de seu irmão.
Matthew piscou, então disse:
— Tudo bem!
Trotando à frente na direção da porta dos fundos, ele encontrou a chave escondida junto ao tirador de botas.
— Espere — avisou Ronan. — Fique atento. Se alguém vir pelo acesso, entre no porão. E desligue o telefone, pelo amor de Deus.
— Certo! Boa! Inteligente!
Ele entrou aos trancos na casa, na frente de Ronan, que olhou sobre o ombro antes de trancar a porta dos fundos atrás deles. Ronan ouviu os passos hesitantes de Matthew avançando na direção da sala de estar, e então subiu ruidosamente a escada até seu quarto. O afeto de Matthew se revelava de maneira sentimental, expansiva, e ele parecia não saber o que fazer de sua mãe imóvel agora.
Ronan seguiu o corredor até a sala de estar mais lentamente, atento aos ruídos de um carro que se aproximava entre cada passo. A sala de estar estava mais escura e silenciosa do que o corredor, sem janelas para deixar entrar a tarde quente ou os pássaros cantantes. A porta para o porão ficava na parede mais distante, de maneira que ele poderia interceptar Matthew se outra pessoa aparecesse.
Ronan foi diretamente até a escrivaninha contra a parede, sem olhar para sua mãe.
Seu pai costumava chamar a escrivaninha de “escritório”, como se o seu trabalho exigisse uma forma legítima de burocracia. Ronan se perguntou se sua mãe fazia ideia de como Niall Lynch ganhava a vida. Certamente ela devia saber. Ela tinha de saber que era uma criatura de sonho.
Subitamente, por um momento brevíssimo, o pânico forçou passagem.
Eu sou uma criatura de sonho? Eu saberia se fosse?
Então ele deixou que a razão abafasse o pensamento. Todos os meninos tinham álbuns de bebês, com fotos e registros do hospital. Ele tinha um tipo sanguíneo. E, se seu pai o tivesse sonhado, ele estaria imóvel como sua mãe. Ele havia nascido, não sido invocado. Ele era real.
O que é real?
Será que algo se torna real ao ser retirado de um sonho? E, se for assim, já era real no momento em que foi pensado?
Ele olhou de relance sobre o ombro para sua mãe. Ela não parecia particularmente lógica agora, sentada, imóvel e sem cuidados, por meses e meses. Mas ele nunca duvidara dela antes da morte de seu pai, mesmo quando apenas ela estava presente por meses seguidos.
Ela não é nada sem o papai.
Declan estava errado. Ela existia à parte de Niall Lynch, mesmo que ele fosse seu único criador.
Ronan voltou para a escrivaninha. Deixou a caixa quebra-cabeça ali e abriu a gaveta principal. Uma cópia do testamento de seu pai estava bem em cima dos papéis, como ele lembrava.
Sem se dar ao trabalho de reler as cláusulas iniciais do documento — elas apenas o deixariam bravo —, ele pulou diretamente para a última página. Ali, um pouco antes da assinatura do seu pai.

Niall Lynch encontra-se, no momento da celebração deste testamento, com a mente sã e sem nenhum problema de memória ou compreensão. Age de livre e espontânea vontade e goza de plena capacidade para realizá-lo. Este testamento é válido até que outro documento mais recente seja criado.
Firmo o presente: T’Libre vero-e ber nivo libre n’acrea.

Ronan semicerrou os olhos ao ler a frase final. Pegou a caixa quebra-cabeça e a virou até que o lado com a língua desconhecida ficasse de frente para ele. Era um trabalho cansativo inserir cada palavra. Embora não conseguisse compreender o funcionamento da caixa, ela mantinha as palavras previamente inseridas em seus mecanismos, a fim de traduzir a gramática também. Fora assim que ela funcionara no sonho, afinal.
Se ela funcionava no sonho, funcionava na vida real.
Ele franziu o cenho diante da tradução que a caixa forneceu.

Este testamento é válido até que outro documento mais recente seja criado.

Pressionando o dedo sobre o papel para mantê-lo no lugar, ele o comparou. Com certeza, a frase traduzida era idêntica à frase final em inglês. Mas por que seu pai escrevera a mesma coisa em duas línguas diferentes?
A esperança — ele não se dera conta do que era o sentimento até tê-lo abandonado — lentamente o deixou. Ele estivera certo a respeito da língua, mas errado quanto à existência de uma mensagem secreta. Ou, se havia uma mensagem secreta, ele não era inteligente o suficiente para decodificá-la.
Ronan deu um empurrão na gaveta, que se fechou, e dobrou o testamento no bolso de trás para levá-lo consigo. Bem quando se virou com a caixa quebra-cabeça, Matthew apareceu no vão da porta. Ele chegou tão rápido que seu ombro bateu no batente.
— Muito bem — disse Ronan, lacônico.
Matthew acenou com a mão e falou sem fôlego, com a voz baixa:
— Acho que tem alguém aí.
Os dois olharam para trás, na direção da porta do porão.
— Que tipo de carro? — perguntou Ronan.
Matthew balançou a cabeça agitadamente.
— Na casa.
Era impossível, mas Ronan sentiu os pelos no pescoço se arrepiarem.
E então ele ouviu o barulho, ao longe, vindo de algum outro lugar na casa: Tck-tck-tck-tck.
O horror noturno. Ronan não pensou. Ele atravessou a sala rapidamente e arrastou Matthew para dentro.
Um ruído de arranhar lento vinha da cozinha.
— Porão? — engoliu Matthew, chocado.
Ronan não respondeu. Fechou com um empurrão a porta da sala de estar e olhou nervosamente ao redor.
— Cadeira! — sussurrou para o irmão mais novo. — Rápido!
Matthew procurou aqui e ali antes de trazer uma cadeira frágil, sem braço. Ronan tentou obstruir a porta, mas a velha maçaneta curva resistiu a seus esforços. Mesmo se fosse uma maçaneta comum, a cadeira não era alta o suficiente para proporcionar o menor apoio.
Tck-tck-tck-tck.
— Ronan? — sussurrou Matthew.
Ronan saltou sobre três jarros antigos de farinha para onde um baú de cedro estava pressionado contra a parede. Ele testou o peso e então começou a empurrá-lo.
— Vamos, me ajude — grunhiu.
Matthew deslizou até ele e jogou o ombro contra o baú.
As garras arranhavam as tábuas do assoalho. Arrastando-se.
O baú de cedro rangeu até parar na frente da porta. Lá na Monmouth, a prateleira havia sido pesada o suficiente para prender o horror noturno em seu quarto. Ronan só podia torcer para que o baú fosse tão eficiente quanto.
Matthew ergueu o olhar para Ronan, desnorteado, enquanto o irmão mais velho subia em cima do baú de cedro. Ronan estendeu um braço e abraçou a cabeça crespa do irmão, uma vez, forte. Ele o afastou com um empurrão.
— Senta perto da mamãe — sussurrou. — Ele não quer você. Quer a mim.
— Ro...
— Mas, se ele passar por mim, não espere. Apenas lute.
Matthew recuou para onde Aurora Lynch estava sentada na cadeira, no meio da sala, tranquila e imóvel. Ronan o viu agachado ali no espaço obscurecido, segurando a mão de sua mãe.
Ele jamais devia tê-lo trazido junto.
A porta deu um tranco.
Surpreso, Matthew deu um salto. Aurora, não.
Ronan segurou a maçaneta enquanto ela era forçada. Havia um ruído lento, como de água escorrendo da torneira.
A porta sacudiu novamente.
Mais uma vez, Matthew se sobressaltou. Mas o baú de cedro não cedeu. Ele era pesado, e o horror noturno não era. Sua força estava naquelas garras e naquele bico.
Três vezes mais a porta balançou nas dobradiças. Então houve uma longa pausa...
Era possível que ele tivesse desistido.
Mas Ronan não havia considerado qual seria o seu próximo passo. Eles não podiam arriscar abrir a porta se o horror noturno estivesse do outro lado. Talvez ele devesse sair sozinho — os homens-pássaros nunca queriam saber de mais ninguém. Era apenas Ronan que eles desprezavam. Ele relutava com todas as forças em deixar seu irmão e sua mãe para trás, mas ambos estariam mais seguros sem ele.
Longos minutos se passaram em silêncio. E então, em algum lugar na casa, uma porta bateu.
Matthew e Ronan se encararam. O ruído tinha algo de cuidadoso e humano — nem um pouco o que Ronan teria esperado do horror noturno.
Passos comuns começaram a ranger enquanto avançavam pelo corredor. Possibilidades se abriram na mente de Ronan, nenhuma delas boa. Não havia tempo de tirar o baú de cedro sem chamar atenção. Não fazia sentido avisar o recém-chegado a respeito do pesadelo, também — a presença de Ronan apenas o deixaria mais perigoso.
— Se esconda — ordenou Ronan a Matthew. Seu irmão mais novo estava congelado, então ele o pegou pela manga e o puxou para longe de sua mãe.
Havia espaço apenas para eles se enfiarem atrás dos tapetes enrolados no canto da sala. O esconderijo não resistiria a um exame cuidadoso, mas, na obscuridade, não havia razão para eles serem descobertos.
Vários minutos mais tarde, após muitos rangidos nas tábuas dos assoalhos por outras partes da casa, alguém experimentou a porta com um empurrão. Dessa vez, ficou bastante claro que era alguém, e não algo. Houve um suspiro audível, com uma sonoridade humana, do outro lado, e o arrastar de pés sobre as tábuas do assoalho era claramente produzido por sapatos.
Ronan levou um dedo aos lábios.
Houve apenas um empurrão a mais, e então a porta se abriu um centímetro. Mais um resmungo, outro empurrão, e a porta se abriu o suficiente para admitir uma pessoa.
Ronan não tinha certeza de quem ele esperava que aparecesse. A enfermeira da casa, provavelmente. Talvez até Declan, visitando ilegalmente.
Mas aquele era um homem bonito, vigoroso, todo vestido de cinza; Ronan nunca o vira antes. A maneira como ele movia rapidamente o olhar ao redor da sala era tão intensa que Ronan temia que ele os visse atrás dos tapetes. Mas o interesse do homem foi capturado por Aurora Lynch em sua cadeira, no meio do aposento.
Ronan ficou tenso.
Não seria preciso muito para fazê-lo saltar de seu esconderijo. Bastava que ele tocasse nela...
Mas o Homem Cinzento não tocou Aurora. Em vez disso, ele se inclinou para observar o rosto dela. Era um estudo curioso, penetrante, e que terminou em poucos segundos.
Ele cutucou com a ponta dos pés os tubos e cabos que saíam das máquinas para lugar nenhum. Esfregou o queixo e refletiu.
Por fim, o Homem Cinzento perguntou:
— Por que você está enfiada aqui?
Aurora Lynch não respondeu.
O Homem Cinzento se virou para ir embora, mas fez uma pausa. A caixa de línguas, ainda parada sobre a escrivaninha, havia chamado sua atenção. Ele a pegou, virou de um lado para o outro nas mãos, girou experimentalmente uma das rodas e observou o efeito que isso tinha sobre os outros lados.
Então, ele a levou consigo.
Ronan colocou um punho na testa. Ele queria segui-lo e recuperar a caixa, mas não podia arriscar ser descoberto. Onde ele conseguiria outra caixa quebra-cabeça?
Ele não tinha como saber se um dia sonharia com uma de novo. Ronan ficou tenso, pensou em sair de onde estava, pensou em se esconder, pensou em sair de onde estava. Matthew colocou a mão em seu braço.
Eles esperaram por um longo tempo. Finalmente, um carro ligou o motor na frente da casa antes de se retirar pelo acesso.
Eles saíram do esconderijo. Matthew ficou colado ao lado de Ronan, o que o fez lembrar de Motosserra, quando ela ficava assustada. Geralmente Ronan teria protestado, mas dessa vez deixou.
— O que foi aquilo? — sussurrou Matthew.
— Tem coisas ruins no mundo. Vamos embora daqui — respondeu Ronan.
Matthew beijou o rosto da mãe. Ronan verificou que ainda tinha o testamento no bolso de trás da calça. A perda da caixa quebra-cabeça ainda doía, mas pelo menos ele levava consigo aquele enigma de seu pai. Duas frases, duas línguas. O que você estava tentando dizer, pai?
— Tchau, mãe — ele disse a Aurora. E tateou o bolso em busca das chaves. Havia dois molhos: o do BMW e as chaves falsas do Camaro. — Até mais.

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