20 de junho de 2018

Capítulo 32

Quando Blue bateu na porta da Indústria Monmouth após a escola, Ronan foi atender.
— Vocês não estavam esperando na rua — disse ela, sentindo-se um pouco constrangida. Após todo aquele tempo, ela nunca tinha entrado ali, e se sentia um pouco como uma invasora meramente por estar parada na escada decrépita. — Achei que talvez vocês não estivessem aqui.
— O Gansey está festejando com a mãe dele — disse Ronan, cheirando a cerveja. — E o Noah está morto. Mas o Parrish está aqui.
— Ronan, deixe a Blue entrar — disse Adam, aparecendo atrás dele. — Oi, Blue. Você nunca entrou aqui, não é?
— É. Eu não devia...
— Não, entre...
Eles se atrapalharam um pouco, e então Blue entrou. A porta se fechou atrás dela, e os dois garotos ficaram observando sua reação cuidadosamente.
Blue olhou em volta, no segundo andar. Parecia a casa de um inventor maluco, um acadêmico obsessivo ou um explorador muito bagunçado; após se encontrar com Gansey, ela estava começando a suspeitar que ele era todas essas coisas. E disse:
— Como é o andar de baixo?
— Empoeirado — respondeu Adam, chutando discretamente um par de jeans sujos, com as cuecas ainda enfiadas dentro deles, para fora da linha de visão direta de Blue. — Só concreto, e mais pó e sujeira.
— Fora isso, tem ainda mais pó — disse Ronan, caminhando em direção às duas portas na outra extremidade do andar.
Por um momento, Ronan e Adam esticaram o pescoço, olhando em volta para o amplo espaço, como se eles também o estivessem vendo pela primeira vez. O vasto aposento, avermelhado com o sol da tarde que entrava pelas dezenas de vidraças, era bonito e atulhado de coisas. Lembrava a Blue o sentimento que ela tivera quando vira pela primeira vez o diário de Gansey. Então, pela primeira vez em dias, ela pensou sobre a visão dos dedos dele pousando em seu rosto.
Blue, me beije.
Por meia respiração, Blue fechou os olhos para reconfigurar os pensamentos.
— Preciso dar comida para a Motosserra — disse Ronan, uma frase que não fez sentido algum para Blue. Ele desapareceu no escritório minúsculo e fechou a porta atrás de si. Um guincho inumano foi emitido lá dentro, o qual Adam não comentou.
— Estamos de folga hoje, obviamente — disse Adam. — Quer ficar por aqui?
Blue olhou à sua volta em busca de um sofá. Seria mais fácil ficar por ali com um sofá. Havia uma cama desfeita no meio do aposento, uma poltrona de couro de aparência bastante cara (o tipo com parafusos de bronze lustrosos segurando o couro) na frente de uma das janelas que iam do chão ao teto, e uma cadeira de escrivaninha com papéis espalhados sobre ela. Mas nada de sofá.
— E o Noah...?
Adam balançou a cabeça.
Blue suspirou. Talvez, ela pensou, Adam estivesse certo a respeito do corpo de Noah. Talvez o fato de tirá-lo da linha ley houvesse roubado sua energia.
— Ele está aqui? — ela perguntou.
— Parece que sim. Não sei.
Blue disse para o ar vazio:
— Você pode usar minha energia, Noah. Se precisar.
A expressão de Adam era enigmática.
— Isso foi corajoso de sua parte.
Blue achava que não; se ela precisasse ser corajosa em relação a isso, ela tinha certeza de que sua mãe não a levaria junto na vigília da igreja.
— Eu gosto de ser útil. Então, você mora aqui também?
Adam balançou a cabeça, com os olhos na extensão de Henrietta do lado de fora das janelas.
— O Gansey gostaria que eu morasse. Ele gosta de ter todas as coisas dele num lugar só. — Sua voz soava um pouco mais amarga, e, após uma pausa, ele acrescentou: — Eu não devia dizer essas coisas. Ele não é mal-intencionado. E nós estamos... é só que este lugar é do Gansey. Tudo aqui é do Gansey. Eu preciso ser um igual, e não conseguiria morando aqui.
— Onde você mora?
A boca de Adam estava muito tensa.
— Num lugar feito para ser deixado.
— Isso não é realmente uma resposta.
— Não é realmente um lugar.
— E seria terrível morar aqui? — ela perguntou, inclinando a cabeça para trás para olhar para o teto lá no alto. O lugar inteiro tinha um cheiro empoeirado, mas da boa e velha maneira de uma biblioteca ou um museu.
— Sim — respondeu Adam. — Quando eu sair de casa, vai ser para algum lugar que eu mesmo fiz.
— E é por isso que você estuda na Aglionby.
Ele a olhou nos olhos.
— E é por isso que eu estudo na Aglionby.
— Mesmo que você não seja rico.
Ele hesitou.
— Adam, eu não me importo — disse Blue. De forma geral, não foi realmente a frase mais corajosa já dita, mas pareceu corajosa a Blue quando ela a disse. — Eu sei que outras pessoas se importam, mas eu não.
Ele fez uma pequena careta, então inclinou a cabeça, anuindo muito ligeiramente.
— Mesmo que eu não seja rico.
— Uma confissão de verdade — disse Blue. — Eu também não sou rica.
Adam riu alto, e Blue descobriu que estava começando a gostar muito daquela risada que irrompia de dentro dele e parecia surpreendê-lo a cada vez. Ela estava um pouco assustada com a ideia de que estava começando a gostar daquilo.
Ele disse:
— Ei, vem cá. Você vai gostar disso.
Com o piso estalando sob os pés, ele tomou a frente, passando pela escrivaninha até as janelas na outra extremidade. Blue tinha uma sensação de altura vertiginosa ali; aquelas enormes e velhas janelas de fábrica começavam apenas alguns centímetros acima das velhas e largas tábuas, e o primeiro andar era muito mais alto que o primeiro andar da sua casa. Adam se agachou e começou a remexer numa pilha de caixas de papelão encostadas nas janelas.
Finalmente, ele arrastou uma das caixas e gesticulou para que Blue se sentasse ao lado dele. Ela o fez. Adam se endireitou para ficar mais confortável, o osso do seu joelho pressionado contra o de Blue. Ele não estava olhando para ela, mas havia algo na postura dele que traía o reconhecimento de sua presença. Blue engoliu em seco.
— Essas são algumas coisas que o Gansey encontrou — disse Adam. — Coisas que não eram interessantes o suficiente para museus, ou que eles não conseguiam provar a antiguidade, ou que ele não quis passar adiante.
— Nesta caixa? — perguntou Blue.
— Em todas as caixas. Essa é a caixa da Virgínia. — Ele a inclinou de maneira que o conteúdo se esparramou entre eles, com uma quantidade prodigiosa de terra.
— Caixa da Virgínia? Humm... De onde são as outras caixas?
Havia algo de infantil no sorriso dele.
— País de Gales, Peru, Austrália, Montana e outros lugares estranhos.
Blue tirou um galho em forma de garfo da pilha.
— Isso é mais uma varinha de radiestesia?
Embora ela nunca tivesse usado uma, sabia que alguns paranormais a usavam como ferramenta para concentrar sua intuição e os levar na direção de objetos perdidos, cadáveres ou lençóis de água escondidos. Uma versão de tecnologia simples para o frequencímetro bacana de Gansey.
— Acho que sim, mas pode ser apenas um galho. — Adam mostrou a ela uma velha moeda romana. Blue a usou para raspar a poeira secular de um cãozinho esculpido em pedra. Faltava uma perna de trás do cão; a ferida dentada revelava uma pedra mais clara que o resto da superfície encardida.
— Ele parece um pouco faminto — comentou Blue. A estrutura estilizada do cão a fazia lembrar o corvo entalhado na encosta do morro, a cabeça inclinada para trás, o corpo alongado.
Adam pegou uma pedra com um buraco e olhou para ela através dela. A forma da pedra cobria perfeitamente os últimos resquícios do seu machucado.
Blue escolheu uma pedra que casava com aquela e olhou para ele através do buraco similar. Um lado do seu rosto estava vermelho com a luz da tarde.
— Por que elas estão na caixa?
— A água fez esses buracos — disse Adam. — A água do mar. Mas ele encontrou essas pedras nas montanhas. Acho que ele disse que elas casavam com algumas das pedras que ele encontrou no Reino Unido.
Ele ainda estava olhando para Blue através do buraco, a pedra parecendo um estranho monóculo. Ela observou sua garganta se mover, e então Adam estendeu a mão e tocou seu rosto.
— Você é muito bonita — ele disse.
— É a pedra — ela respondeu de imediato. A pele de Blue estava quente, e a ponta do dedo de Adam tocou apenas o canto de sua boca. — Ela tem propriedades embelezadoras.
Adam tirou delicadamente a pedra da mão dela e a colocou nas tábuas do assoalho entre eles. Entre os dedos, ele envolveu um dos cachos rebeldes junto ao rosto dela.
— Minha mãe costumava dizer: “Não desperdice elogios enquanto eles forem de graça”. — O rosto de Adam estava muito sério. — Esse elogio não era para custar nada, Blue.
Ela brincou com a bainha do vestido, mas não desviou o olhar dele.
— Eu não sei o que dizer quando você fala essas coisas.
— Você pode me dizer se quer que eu continue falando.
Ela estava dividida pelo desejo de encorajá-lo e o temor de aonde aquilo iria levar.
— Eu gosto quando você diz essas coisas.
Adam perguntou:
— Mas o quê?
— Eu não disse mas.
— Você ia dizer. Eu ouvi.
Blue olhou para o rosto dele, frágil e estranho por baixo do machucado. Era fácil fazer uma leitura dele como frágil ou problemático, ela pensou, mas ele não era nenhuma das duas coisas. Noah era. Mas Adam era apenas calado. Não que lhe faltassem palavras. Ele era observador.
Mas saber essas coisas sobre ele não a ajudava a responder à pergunta: Ela deveria lhe contar sobre o perigo do beijo? Fora tão mais fácil contar para Gansey, quando parecia que realmente não importava. A última coisa que ela queria fazer era assustar Adam lançando frases como verdadeiro amor logo após tê-lo conhecido. Mas se ela não dissesse nada, havia uma chance de que ele pudesse roubar um beijo e então ambos teriam problemas.
— Eu gosto quando você diz essas coisas, mas... tenho medo de que você me beije — admitiu Blue. Já de saída, parecia um caminho insustentável para se percorrer. Como ele não disse nada na hora, Blue se apressou: — A gente acabou de se conhecer. E eu... eu tenho... eu sou muito nova.
Na metade do caminho, Blue perdeu a coragem de explicar a profecia, mas não tinha certeza de qual parte dela sentia que aquela era uma confissão melhor para deixar escapar. Eu sou muito nova. Ela se contorceu.
— Isso parece... — Adam buscou as palavras — muito sensato.
O adjetivo preciso que Neeve havia encontrado para Blue logo na primeira semana. Então ela era verdadeiramente sensata. Isso era penoso. Ela sentia como se tivesse trabalhado tanto para parecer o mais excêntrica possível, e ainda assim, quando a avaliavam, ela era sensata.
Tanto Adam quanto Blue ergueram o olhar com o som de passos cruzando o piso na direção deles. Era Ronan, segurando algo embaixo do braço. Ele se abaixou cuidadosamente até se sentar de pernas cruzadas ao lado de Adam e então suspirou pesadamente, como se tivesse sido parte da conversa até aquele ponto e isso o tivesse cansado. Blue estava igualmente aliviada e desapontada com sua presença efetivamente encerrando qualquer conversa sobre beijos.
— Quer segurar? — perguntou Ronan.
Foi então que Blue descobriu que a coisa que Ronan estava segurando estava viva. Por um breve momento, ela se sentiu incapaz de fazer qualquer coisa a não ser contemplar a ironia de que um dos garotos corvos possuía de fato um corvo.
Àquela altura, estava claro que Ronan havia decidido que a resposta era não.
— O que você está fazendo? — perguntou Blue, enquanto ele recuava a mão. — Eu quero.
Ela não estava exatamente certa de que queria — o corvo parecia muito frágil —, mas era uma questão de princípios. Blue percebeu, mais uma vez, que estava tentando impressionar Ronan apenas porque era impossível impressioná-lo, mas se consolou com o fato de que pelo menos tudo que estava fazendo em busca de sua aprovação era segurar o filhote de um pássaro. Ronan aninhou o corvo nas mãos dela em concha. O filhote parecia não pesar nada, e sua pele e penas pareciam úmidas onde haviam estado em contato com as mãos de Ronan. O corvo inclinou a cabeça enorme para trás e arregalou os olhos para Blue e então para Adam, com o bico aberto.
— Como é o nome dela? — perguntou Blue. Segurá-lo era aterrorizante e adorável; era uma vidinha tão pequena, tão frágil, o pulso batendo rapidamente contra a pele de Blue.
Adam respondeu de maneira fulminante:
— Motosserra.
O corvo abriu bem o bico, arregalando mais ainda os olhos.
— Ela quer você de novo — disse Blue, pois era claro que queria. Ronan aceitou o pássaro e acariciou as penas na parte de trás da cabeça dela.
— Você parece um supervilão com seu assistente — disse Adam.
O sorriso de Ronan cortou seu rosto, mas ele parecia mais amável do que Blue já o tinha visto um dia na vida, como se o corvo em sua mão fosse seu coração, finalmente exposto abertamente.
Todos eles ouviram uma porta se abrir do outro lado do aposento. Adam e Blue olharam um para o outro. Ronan baixou a cabeça, só um pouco, como se estivesse esperando um golpe.
Ninguém disse nada enquanto Noah se ajeitava no espaço entre Ronan e Blue.
Ele estava como Blue se lembrava dele, os ombros curvados para frente e as mãos se mexendo inquietamente de um lugar para o outro. A onipresente mancha em seu rosto claramente ficava onde ele havia sido atingido. Quanto mais ela o encarava, mais certa ficava de que estava vendo ao mesmo tempo seu corpo morto e seu corpo vivo. Aquela mancha era a maneira que seu cérebro encontrara para reconciliar esses fatos.
Adam foi o primeiro a dizer alguma coisa.
— Noah — ele levantou o punho.
Após uma pausa, Noah o cumprimentou com um toque de mãos. Então esfregou a nuca.
— Estou me sentindo melhor — ele disse, como se estivesse doente em vez de morto. As coisas da caixa ainda estavam espalhadas por todo o chão, e ele começou a remexê-las. Pegou algo que se parecia com um pedaço de osso talhado; devia ter existido ali um desenho maior, mas tudo que sobrara agora era algo que parecia a borda de uma folha de acanto e possivelmente alguns arabescos. Noah o segurou contra a garganta como um amuleto. Seus olhos não miravam nenhum dos outros dois garotos, mas seu joelho tocava o de Blue.
— Eu gostaria que vocês soubessem — disse Noah, pressionando com força o osso entalhado contra o pomo de adão, como se fosse arrancar as palavras dele — que eu era.... mais... quando estava vivo.
Adam mordeu o lábio, procurando por uma resposta. No entanto, Blue achava que sabia o que ele queria dizer. A semelhança de Noah com a foto fingidamente sorridente na carteira de motorista que Gansey havia descoberto era comparável à semelhança de uma fotocópia com uma pintura original. Ela não conseguia imaginar o Noah que ela conhecia dirigindo aquele Mustang envenenado.
— Você é o suficiente agora — disse Blue. — Senti sua falta.
Com um sorriso abatido, Noah estendeu a mão e acariciou o cabelo de Blue, bem como costumava fazer. Ela mal podia sentir seus dedos.
Ronan disse:
— Ei, cara. Todas aquelas vezes que você não me passava a matéria porque dizia que eu devia ir às aulas. Você nunca foi às aulas.
— Mas você ia, não é, Noah? — Blue interrompeu, pensando no emblema da Aglionby que ela havia encontrado com o corpo. — Você era aluno da Aglionby.
— Sou — disse Noah.
— Era — disse Ronan. — Você não vai às aulas.
— Nem você — respondeu Noah.
— E ele está prestes a virar um era também — intercedeu Adam.
— Ok! — gritou Blue, com as mãos no ar. Ela estava começando a sentir uma profunda sensação de frio, à medida que Noah sugava energia dela. A última coisa que ela queria fazer era ficar completamente exaurida, como havia acontecido no adro da igreja. — A polícia disse que você estava desaparecido há sete anos. É isso mesmo?
Noah piscou os olhos para ela, vago e alarmado.
— Eu não... eu não posso...
Blue ofereceu a mão.
— Pegue minha mão — disse ela. — Quando estou nas leituras com a minha mãe e ela precisa se concentrar, ela segura a minha mão. Talvez ajude.
Hesitante, Noah pegou a mão dela. Quando ele pousou a palma da mão contra a dela, Blue ficou chocada com como ela estava gelada. Não era apenas fria, mas de certa maneira vazia também, uma pele sem pulso.
Noah, por favor, não morra de verdade.
Ele soltou um longo suspiro.
— Meu Deus — disse.
E sua voz soou diferente do que antes. Agora ela soava mais próxima do Noah que ela conhecera, o Noah que havia se passado por um deles. Blue sabia que ela não fora a única a perceber isso, pois Adam e Ronan trocaram intensos olhares.
Ela viu o peito dele arfar, sua respiração se tornar mais regular. Blue realmente não havia notado, antes, se ele estava mesmo respirando.
Noah fechou os olhos. Ele ainda segurava frouxamente o osso entalhado na outra mão, pousada com a palma para cima sobre os mocassins.
— Eu consigo lembrar das minhas notas, a data delas... sete anos atrás.
Sete anos. A polícia estava certa. Eles estavam falando com um garoto que tinha morrido havia sete anos.
— O mesmo ano em que o Gansey foi picado por marimbondos — Adam observou. Então ele disse: — Você vai viver por causa de Glendower. Alguém na linha ley está morrendo quando não deveria, e assim você vai viver quando não deveria.
— Coincidência — disse Ronan, porque não era.
Os olhos de Noah ainda estavam fechados.
— Era para ter acontecido alguma coisa com a linha ley. Não lembro o que ele disse que era para ter acontecido.
— Despertar a linha ley — sugeriu Adam.
Noah anuiu, com as pálpebras ainda fechadas. O braço inteiro de Blue estava gelado e insensível.
— É, isso mesmo. Eu não me importava. Era sempre o lance dele, e eu só ia junto porque era algo para fazer. Eu não sabia que ele ia...
— Esse é o ritual de que o Gansey estava falando — disse Adam para Ronan. — Alguém tentou. Com um sacrifício como a maneira simbólica de tocar a linha ley. Você era o sacrifício, não era, Noah? Alguém te matou para isso.
— Meu rosto — disse Noah suavemente e virou o rosto para o lado, pressionando a bochecha arruinada contra o ombro. — Não lembro quando deixei de ser vivo.
Blue estremeceu. A luz do fim da tarde banhando os garotos e o chão lembrava a primavera, mas parecia inverno em seus ossos.
— Mas não funcionou — disse Ronan.
— Eu quase despertei Cabeswater — sussurrou Noah. — Nós estávamos muito perto de fazer isso. Não foi por nada. Mas fico contente que ele nunca o encontrou. Ele não sabe. Ele não sabe onde Cabeswater está.
Blue se arrepiou por dentro, resultado tanto da mão fria de Noah quanto do horror da história. Ela se perguntou se era assim para sua mãe, suas tias e as amigas de sua mãe, quando elas estavam fazendo uma sessão espírita ou uma leitura. Será que elas seguram as mãos de pessoas mortas?
Ela havia pensado que morto era algo mais permanente, ou pelo menos algo mais claramente não vivo. Mas Noah parecia incapaz de ser ambas as coisas.
Ronan disse:
— Tudo bem, é hora de parar com a brincadeira. Quem fez isso, Noah?
No aperto de Blue, a mão de Noah tremeu.
— Sério, cara. Pode falar. Não estou perguntando sobre notas. Estou perguntando quem arrebentou a sua cabeça.
Quando Ronan disse isso, soou como algo irado e sincero, mas era uma ira que também incluía Noah e que, de certa maneira, o tornava culpado.
Havia humilhação em sua voz quando Noah respondeu:
— Nós éramos amigos.
De maneira um tanto mais feroz do que um momento antes, Adam disse:
— Um amigo não mataria você.
— Você não compreende — sussurrou Noah. Blue temia que ele desaparecesse. Ela compreendia que aquilo era um segredo, carregado dentro dele por sete anos, e que ele ainda não queria confessá-lo. — Ele estava transtornado. Tinha perdido tudo. Se ele estivesse pensando direito, não acho que teria... Ele não queria... Nós éramos amigos como... Vocês têm medo do Gansey?
Os garotos não responderam; não precisavam. O que quer que Gansey fosse para eles, era algo à prova de balas. Novamente, no entanto, Blue viu a vergonha passar rapidamente pela expressão de Adam. O que quer que tenha acontecido entre os dois na visão dele, ainda o preocupava.
— Vamos lá, Noah. Um nome. — Era Ronan, a cabeça aprumada, intenso como seu corvo.
Noah ergueu a cabeça e abriu os olhos. Tirou a mão da de Blue e a colocou no colo. O ar estava frígido em volta deles. O corvo estava encolhido bem no fundo do colo de Ronan, e ele segurava uma mão protetora sobre o pássaro.
Noah disse:
— Mas vocês já sabem.

5 comentários:

  1. Okay, eu cometi um ligeiro erro de interpretação, Noah definitivamente não é pai de ninguém, mas de toda forma, isso tudo tá muito legal

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  2. nossa que erro em
    da onde foi que vc tirou que ele era pai de alguem?
    ASSJanielliArmyBTS

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  3. "— Preciso dar comida para a Motosserra — disse Ronan, uma frase que não fez sentido algum para Blue. Ele desapareceu no escritório minúsculo e fechou a porta atrás de si. Um guincho inumano foi emitido lá dentro, o qual Adam não comentou."

    O livro já vale a pena só com esse parágrafo

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  4. "Blue percebeu, mais uma vez, que estava tentando impressionar Ronan apenas porque era impossível impressioná-lo, mas se consolou com o fato de que pelo menos tudo que estava fazendo em busca de sua aprovação era segurar o filhote de um pássaro."

    Melhor. Amizade. E mais estranha tb

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  5. Essa pessoa é Barrington Whelk, sera?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!